{"id":13052,"date":"2020-10-28T17:36:52","date_gmt":"2020-10-28T22:36:52","guid":{"rendered":"https:\/\/latamjournalismreview.org\/?p=13052"},"modified":"2020-10-28T19:49:45","modified_gmt":"2020-10-29T00:49:45","slug":"linhas-de-ajuda-atendem-mulheres-jornalistas-que-sofrem-ataques-online-na-america-latina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latamjournalismreview.org\/pt-br\/articles\/linhas-de-ajuda-atendem-mulheres-jornalistas-que-sofrem-ataques-online-na-america-latina\/","title":{"rendered":"Linhas de ajuda atendem mulheres jornalistas que sofrem ataques online na Am\u00e9rica Latina"},"content":{"rendered":"<p>O aumento do ass\u00e9dio online contra mulheres jornalistas \u00e9 uma <a href=\"https:\/\/latamjournalismreview.org\/pt-br\/articles\/maior-acesso-a-internet-e-inseguranca-para-jornalistas-entre-tendencias-de-midia-na-america-latina-de-acordo-com-unesco\/\" data-cke-saved-href=\"https:\/\/latamjournalismreview.org\/pt-br\/articles\/maior-acesso-a-internet-e-inseguranca-para-jornalistas-entre-tendencias-de-midia-na-america-latina-de-acordo-com-unesco\/\">tend\u00eancia na Am\u00e9rica Latina<\/a> e tem impactos reais na vida dessas profissionais e na liberdade de imprensa. De acordo com <a href=\"https:\/\/www.iwmf.org\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/Attacks-and-Harassment.pdf\" data-cke-saved-href=\"https:\/\/www.iwmf.org\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/Attacks-and-Harassment.pdf\">uma pesquisa de 2018<\/a>, da International Women\u2019s Media Foundation (IWMF) e Troll-Busters.com, cerca de 30% das jornalistas j\u00e1 pensaram em deixar a profiss\u00e3o e quase 40% passaram a evitar certas reportagens ap\u00f3s ataques online.<\/p>\n<p>Diante deste cen\u00e1rio, organiza\u00e7\u00f5es t\u00eam lan\u00e7ado cursos, treinamentos ou guias sobre o tema e, mais recentemente, passaram a dar atendimento personalizado e gratuito para mulheres jornalistas que sofrem ass\u00e9dio online. \u00c9 o caso da IWMF que, nos \u00faltimos meses e impulsionada pela pandemia, iniciou um servi\u00e7o online de consultoria individualizada em seguran\u00e7a digital para jornalistas, em ingl\u00eas e espanhol.<\/p>\n<p>Outra organiza\u00e7\u00e3o, a <a href=\"https:\/\/vita-activa.org\/\" data-cke-saved-href=\"https:\/\/vita-activa.org\/\">Vita-Activa.Org<\/a>, oferece desde 2019 uma linha de ajuda voltada, principalmente, para mulheres jornalistas, ativistas, defensoras dos direitos humanos e pessoas LGBT que enfrentam ass\u00e9dio online. A linha de apoio proporciona primeiros socorros psicolo\u0301gicos, gest\u00e3o integral da crise e de seguran\u00e7a digital e tomada estrat\u00e9gica de decis\u00f5es.<\/p>\n<div id=\"attachment_13012\" style=\"width: 316px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-13012\" class=\"wp-image-13012\" src=\"https:\/\/latamjournalismreview.org\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Hoffman-headshot-200x300.jpg\" alt=\"Vice-diretora da IWMF, Nadine Hoffman, respons\u00e1vel pela \u00e1rea de ass\u00e9dio e ataques online\" width=\"306\" height=\"460\" srcset=\"https:\/\/latamjournalismreview.org\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Hoffman-headshot-200x300.jpg 200w, https:\/\/latamjournalismreview.org\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Hoffman-headshot-683x1024.jpg 683w, https:\/\/latamjournalismreview.org\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Hoffman-headshot-768x1152.jpg 768w, https:\/\/latamjournalismreview.org\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Hoffman-headshot-1024x1536.jpg 1024w, https:\/\/latamjournalismreview.org\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Hoffman-headshot-1366x2048.jpg 1366w, https:\/\/latamjournalismreview.org\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Hoffman-headshot-scaled.jpg 1707w\" sizes=\"auto, (max-width: 306px) 100vw, 306px\" \/><p id=\"caption-attachment-13012\" class=\"wp-caption-text\">Nadine Hoffman (Courtesy)<\/p><\/div>\n<p>Segundo a vice-diretora da IWMF, Nadine Hoffman, respons\u00e1vel pelos projetos da funda\u00e7\u00e3o sobre ass\u00e9dio online, \u00e9 preciso investir em resili\u00eancia, porque esse \u00e9 um problema que veio para ficar.<\/p>\n<p>\"A realidade \u00e9 que isso vai continuar a acontecer, n\u00e3o vai desaparecer t\u00e3o cedo e vai continuar a afetar principalmente mulheres e jornalistas de cor. Ent\u00e3o, quais s\u00e3o os sistemas de apoio que podemos implementar para ajud\u00e1-las a permanecer no jornalismo e continuar nas suas reportagens, para que n\u00e3o tenham suas vozes silenciadas?\", afirmou Hoffman, em entrevista \u00e0 <strong>LatAm Journalism Review<\/strong> (LJR).<\/p>\n<p>Hoffman explica que os ataques online de fato s\u00e3o eficientes em cercear a liberdade de imprensa, h\u00e1 um \"chilling effect\" [efeito inibidor]. \"Os trolls conseguiram o que queriam, porque as jornalistas decidiram n\u00e3o cobrir um tema espec\u00edfico ou uma reportagem espec\u00edfica, porque n\u00e3o queriam lidar com essa retalia\u00e7\u00e3o online\", disse ela, sobre a pesquisa de 2018.<\/p>\n<p>N\u00e3o apenas esse \u00e9 um problema que n\u00e3o vai se resolver rapidamente, mas algo que tem se agravado nos \u00faltimos anos. \"Eu diria que, globalmente, a situa\u00e7\u00e3o est\u00e1 piorando, porque \u00e9 como se os governos estivessem olhando para os manuais uns dos outros, ent\u00e3o eles v\u00eaem o que o [Rodrigo] Duterte est\u00e1 fazendo nas Filipinas [e copiam]\".<\/p>\n<p>A pandemia tamb\u00e9m serviu para i<a href=\"https:\/\/latamjournalismreview.org\/news\/journalists-around-the-world-face-censorship-and-repression-during-pandemic-un-high-commissioner\/\" data-cke-saved-href=\"https:\/\/latamjournalismreview.org\/news\/journalists-around-the-world-face-censorship-and-repression-during-pandemic-un-high-commissioner\/\">mpulsionar os ataques online contra jornalistas no mundo<\/a> e <a href=\"https:\/\/articulo19.org\/informe-especial-c-o-v-i-d-libertad-de-expresion-e-informacion-durante-pandemia-de-covid-19-en-mexico-y-ca\/\" data-cke-saved-href=\"https:\/\/articulo19.org\/informe-especial-c-o-v-i-d-libertad-de-expresion-e-informacion-durante-pandemia-de-covid-19-en-mexico-y-ca\/\">na Am\u00e9rica Latina<\/a>, principalmente contra aqueles que investigam corrup\u00e7\u00e3o ou cobrem, de forma cr\u00edtica, as respostas dos governos \u00e0 COVID-19, afirma Hoffman.<\/p>\n<p>\"Os governos t\u00eam usado a pandemia do coronav\u00edrus para uma repress\u00e3o mais ampla \u00e0 liberdade de imprensa. Especificamente na Am\u00e9rica Latina, estamos observando um aumento nos ataques digitais patrocinados pelo Estado, bots e todos os tipos de ass\u00e9dio online. Tem governos como o de [Jair] Bolsonaro no Brasil, do AMLO [Andr\u00e9s Manuel L\u00f3pez Obrador] no M\u00e9xico, ou de [Nayib] Bukele em El Salvador, que realmente criaram ex\u00e9rcitos de trolls e geraram um ambiente t\u00e3o hostil online que isso tamb\u00e9m tem repercuss\u00f5es no mundo real para jornalistas\", explica ela.<\/p>\n<p>A pandemia, no entanto, tamb\u00e9m serviu para que a IWMF passasse a oferecer um novo servi\u00e7o, uma consultoria virtual e individualizada em seguran\u00e7a digital para jornalistas v\u00edtimas de ass\u00e9dio online. Para solicitar o atendimento, basta <a href=\"https:\/\/iwmf.submittable.com\/submit\/6df9dbf3-e068-4fa1-ba8a-67be4e4a3486\/one-on-one-digital-security-consultation\" data-cke-saved-href=\"https:\/\/iwmf.submittable.com\/submit\/6df9dbf3-e068-4fa1-ba8a-67be4e4a3486\/one-on-one-digital-security-consultation\">preencher um formul\u00e1rio no site da IWMF<\/a>. Esse tipo de consultoria personalizada j\u00e1 vinha sendo prestada desde meados de 2019 pela organiza\u00e7\u00e3o, mas de forma presencial, em eventos jornal\u00edsticos. Desde ent\u00e3o, 21 jornalistas foram atendidas, sendo cinco da Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<div id=\"attachment_13018\" style=\"width: 301px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-13018\" class=\"wp-image-13018\" src=\"https:\/\/latamjournalismreview.org\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Ela-Stapley-1-200x300-1.jpg\" alt=\"Ela Stapley \" width=\"291\" height=\"437\" \/><p id=\"caption-attachment-13018\" class=\"wp-caption-text\">Ela Stapley (Courtesy)<\/p><\/div>\n<p>Desde que o formul\u00e1rio foi colocado no ar, a demanda por esse tipo de suporte aumentou. Ela Stapley, que \u00e9 consultora em seguran\u00e7a digital da IWMF e respons\u00e1vel pelos atendimentos em espanhol e ingl\u00eas, diz que as conversas s\u00e3o feitas por servi\u00e7os de mensagem encriptados, como WhatsApp e Signal, e duram entre 45 minutos e uma hora e meia.<\/p>\n<p>\"Normalmente n\u00f3s recebemos casos quando h\u00e1 alguma mudan\u00e7a, como uma mudan\u00e7a de governo. Estamos vendo isso com El Salvador, estou tendo um pico, um aumento da [procura de] pessoas de El Salvador\", contou Stapley \u00e0 <strong>LJR<\/strong>. Em geral, os casos que recebe, globalmente, envolvem trolls online e vigil\u00e2ncia, que pode ser estatal ou n\u00e3o, invas\u00e3o de contas, roubo de fotos e dados pessoais para chantagem, entre outros. Ela tamb\u00e9m atende mulheres que foram detidas e tiveram seus equipamentos manipulados por autoridades, por exemplo.<\/p>\n<p>Nas situa\u00e7\u00f5es de ataques online, Stapley sugere alguns passos para aumentar a seguran\u00e7a. A primeira recomenda\u00e7\u00e3o \u00e9 verificar quais informa\u00e7\u00f5es sobre a pessoa est\u00e3o dispon\u00edveis publicamente na Internet e tomar medidas para remover ou controlar esses dados. Uma outra orienta\u00e7\u00e3o \u00e9 tornar as contas mais seguras, para evitar invas\u00f5es. Assim, Stapley ensina a criar senhas fortes e ativar a verifica\u00e7\u00e3o em duas etapas, por exemplo. Ela tamb\u00e9m orienta a jornalista a falar com amigos e familiares, seus contatos mais pr\u00f3ximos, sobre os riscos que eles correm e como podem se proteger.<\/p>\n<p>\"Frequentemente, se eles n\u00e3o puderem te atacar, eles v\u00e3o atr\u00e1s de sua fam\u00edlia. [Ent\u00e3o \u00e9 importante] n\u00e3o apenas contar para eles [sobre como aumentar a privacidade das suas contas em redes sociais], muitas vezes voc\u00ea tem que sentar e fazer isso por eles, porque as gera\u00e7\u00f5es mais velhas n\u00e3o entendem o que \u00e9 informa\u00e7\u00e3o p\u00fablica online\", explica Stapley.<\/p>\n<p>Ela afirma que as jornalistas buscam o servi\u00e7o de forma emergencial, ap\u00f3s ou durante um ataque. E, por isso, Stapley acaba prestando tamb\u00e9m uma esp\u00e9cie de apoio emocional, o que, segundo ela, toma a maior parte do tempo da consultoria.<\/p>\n<p>\"\u00c9 inevit\u00e1vel. Quando as pessoas ligam para falar sobre o caso, elas n\u00e3o v\u00e3o falar apenas sobre o aspecto da seguran\u00e7a digital. Mesmo que eu diga a elas, por favor, voc\u00ea n\u00e3o precisa reviver o trauma, se concentre apenas nos elementos de seguran\u00e7a digital, \u00e9 quase imposs\u00edvel para elas fazerem isso. Muitas vezes elas precisam me contar a hist\u00f3ria completa\", diz.<\/p>\n<p>Isso porque muitas mulheres que procuram Stapley acabaram de ser presas, ter suas contas invadidas ou receber amea\u00e7as de morte ou estupro, ent\u00e3o \u00e9 natural que elas estejam abaladas emocionalmente.\u00a0 \"Por isso eu tento dar conselhos f\u00e1ceis de seguir, que sejam o mais simples poss\u00edveis, porque quando voc\u00ea est\u00e1 nesse estado de esp\u00edrito \u00e9 muito dif\u00edcil praticar a seguran\u00e7a digital\", afirma.<\/p>\n<p>Stapley acredita que essa \u00e9 uma caracter\u00edstica comum aos atendimentos personalizados, a necessidade de ouvir a hist\u00f3ria das jornalistas com calma e prover algum conforto emocional. Se por um lado isso faz com que esse tipo de servi\u00e7o tome mais tempo, por outro, isso o torna mais eficiente em situa\u00e7\u00f5es de emerg\u00eancia, diz Hoffman.<\/p>\n<p>\"Eu acho que \u00e9 importante ter esse suporte individual, porque embora haja muito treinamento digital, recursos e guias dispon\u00edveis [na Internet] relacionados ao ass\u00e9dio online, se voc\u00ea est\u00e1 no meio de um ataque espec\u00edfico, \u00e9 meio dif\u00edcil saber por onde come\u00e7ar e isso pode fazer voc\u00ea se sentir muito sobrecarregada\", diz ela.<\/p>\n<p>Para pensar em outras formas de lidar com o ass\u00e9dio online e em a\u00e7\u00f5es de preven\u00e7\u00e3o, a IWMF organizou uma coaliz\u00e3o, que foi formalmente lan\u00e7ada em meados deste ano, para unir esfor\u00e7os, mapear os recursos j\u00e1 dispon\u00edveis e descobrir as lacunas, para fortalecer o sistema de suporte \u00e0s mulheres jornalistas. No escopo da preven\u00e7\u00e3o, a IWMF tem investido em treinamentos, como o curso online gratuito em ingl\u00eas do Centro Knight, <a href=\"https:\/\/journalismcourses.org\/course\/course-title-online-harassment-strategies-for-journalists-defense\/\" data-cke-saved-href=\"https:\/\/journalismcourses.org\/course\/course-title-online-harassment-strategies-for-journalists-defense\/\">\"Ass\u00e9dio Online: Estrat\u00e9gias para a Defesa dos Jornalistas\"<\/a>, que come\u00e7a em 16 de novembro e est\u00e1 com as inscri\u00e7\u00f5es abertas.<\/p>\n<div id=\"attachment_13015\" style=\"width: 435px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-13015\" class=\"wp-image-13015\" src=\"https:\/\/latamjournalismreview.org\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/LuFotoNueva-300x200.jpg\" alt=\"A mexicana Luisa Ortiz P\u00e9rez, criadora do Vita Activa\" width=\"425\" height=\"283\" srcset=\"https:\/\/latamjournalismreview.org\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/LuFotoNueva-300x200.jpg 300w, https:\/\/latamjournalismreview.org\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/LuFotoNueva-768x512.jpg 768w, https:\/\/latamjournalismreview.org\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/LuFotoNueva-350x234.jpg 350w, https:\/\/latamjournalismreview.org\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/LuFotoNueva.jpg 788w\" sizes=\"auto, (max-width: 425px) 100vw, 425px\" \/><p id=\"caption-attachment-13015\" class=\"wp-caption-text\">Mexican journalist Luisa Ortiz Peerez, co-founder of Vita-Activa.org<\/p><\/div>\n<p><strong>Primeiros socorros psicol\u00f3gicos<\/strong><\/p>\n<p>Foi justamente por notar que, durante um ataque online, h\u00e1 um componente emocional importante, que a mexicana Luisa Ortiz P\u00e9rez decidiu criar uma linha de ajuda, que oferecesse primeiros socorros psicol\u00f3gicos.<\/p>\n<p>Ortiz, que \u00e9 diretora executiva e co-fundadora de Vita-Activa.Org\u2029, percebeu que mulheres jornalistas tinham dificuldade de assimilar e compreender as orienta\u00e7\u00f5es de especialistas de seguran\u00e7a digital, enquanto viviam epis\u00f3dios de ass\u00e9dio online.<\/p>\n<p>\"Se uma jornalista fosse alvo de doxxing, se seus dados particulares fossem divulgados, se fizessem pornografia com o seu rosto, se ela recebesse ass\u00e9dio sexual de seus chefes ou no Twitter, a resposta era sempre falar com o t\u00e9cnico. Que geralmente \u00e9 um jovem que diz: 'O problema \u00e9 esse, \u00e9 a sua senha, tem que fazer isso, e assim se resolve'. Perguntando \u00e0s mulheres, elas diziam: 'Sim, claro, os da tecnologia v\u00eam, eles nos fazem perguntas e n\u00f3s n\u00e3o os ouvimos'\", disse Ortiz \u00e0 <strong>LJR<\/strong>.<\/p>\n<p>Depois de muita pesquisa, ela concluiu que a dificuldade de comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o significava que as mulheres n\u00e3o se importavam com o tema, mas estava relacionada a uma quest\u00e3o emocional. Ortiz se dedicou a estudar enfermagem e primeiros socorros psicol\u00f3gicos e descobriu que pessoas v\u00edtimas de desastres naturais passam pelas mesmas situa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\"Depois do Katrina em Nova Orleans, por exemplo, as pessoas n\u00e3o conseguiam preencher um cheque nos bancos, porque estavam em um n\u00edvel de estresse p\u00f3s-traum\u00e1tico que n\u00e3o era poss\u00edvel entender certos processos que parecem racionais. Ent\u00e3o, a quest\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 que eles n\u00e3o entendam, \u00e9 que eles n\u00e3o est\u00e3o psicologicamente em condi\u00e7\u00f5es de entender ou de tomar uma decis\u00e3o. Se voc\u00ea acabou de ver uma imagem sua e do seu namorado fazendo sexo no Facebook, voc\u00ea acha que vai se lembrar da sua senha? Quem vai estar pensando em uma maldita senha [nesse momento]?\", explica.<\/p>\n<div id=\"attachment_13021\" style=\"width: 386px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-13021\" class=\"wp-image-13021\" src=\"https:\/\/latamjournalismreview.org\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/VitaCircularAmarilloPrint-300x292.png\" alt=\"Vita Activa, que atende mulheres v\u00edtimas de ataques online\" width=\"376\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/latamjournalismreview.org\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/VitaCircularAmarilloPrint-300x292.png 300w, https:\/\/latamjournalismreview.org\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/VitaCircularAmarilloPrint-1024x995.png 1024w, https:\/\/latamjournalismreview.org\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/VitaCircularAmarilloPrint-768x747.png 768w, https:\/\/latamjournalismreview.org\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/VitaCircularAmarilloPrint-1536x1493.png 1536w, https:\/\/latamjournalismreview.org\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/VitaCircularAmarilloPrint.png 2007w\" sizes=\"auto, (max-width: 376px) 100vw, 376px\" \/><p id=\"caption-attachment-13021\" class=\"wp-caption-text\">Vita Activa Logo (Courtesy)<\/p><\/div>\n<p>Por isso, a linha de ajuda da Vita-Activa.Org tem uma abordagem diferente para esses casos. Em primeiro lugar, as acompanhantes, que fazem o atendimento na organiza\u00e7\u00e3o, perguntam para quem busca o servi\u00e7o: \"Como voc\u00ea est\u00e1? Como est\u00e1 se sentindo?\". E, antes de oferecer solu\u00e7\u00f5es, perguntam para a jornalista como ela quer resolver aquele problema.<\/p>\n<p>\"\u00c9 revolucion\u00e1rio. [...] Sentamos para ouvir, acompanhamos a pessoa e, uma vez que ela entendeu o que est\u00e1 acontecendo, apresentamos op\u00e7\u00f5es para ela decidir. Voc\u00ea percebe que \u00e9 uma linguagem muito diferente? Ouvir, entender, decidir, solucionar. [Perguntamos para a jornalista]: Voc\u00ea quer ir \u00e0 pol\u00edcia? Ok, vamos ver o que voc\u00ea precisa. Voc\u00ea quer ir ao m\u00e9dico? \u00c0 igreja?\", conta Ortiz.<\/p>\n<p>O atendimento, dispon\u00edvel em ingl\u00eas, espanhol e portugu\u00eas, \u00e9 sempre gratuito, confidencial e an\u00f4nimo. Nem as acompanhantes e nem as pessoas atendidas se identificam, para seguran\u00e7a de ambas as partes. As conversas de \u00e1udio ou por mensagem s\u00e3o feitas pelo WhatsApp, Telegram ou Signal, no n\u00famero +52 155-8171-1117.<\/p>\n<p>A linha foi lan\u00e7ada em abril de 2019 e, no primeiro ano de funcionamento, atendeu 46 pessoas, sendo que a maioria delas, quase 70%, era de mulheres \u2013 a Vita-Activa.Org n\u00e3o nega atendimento a ningu\u00e9m, por isso homens tamb\u00e9m s\u00e3o acolhidos, ainda que o foco da linha seja mulheres e LGBTIQ+. Jornalistas representam mais da metade dos casos atendidos, 52%. E o p\u00fablico \u00e9 majoritariamente de pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, principalmente M\u00e9xico, El Salvador, Guatemala e Equador.<\/p>\n<p>Mais recentemente, com a pandemia, o n\u00famero de atendimentos explodiu, passando de uma m\u00e9dia de dois por semana para dois ou tr\u00eas por dia, conta Ortiz. De agosto a outubro, a Vita-Activa.Org abriu C\u00edrculos de Apoio Comunit\u00e1rio em cinco pa\u00edses da Am\u00e9rica do Sul e Central \u2013 os c\u00edrculos s\u00e3o grupos fechados e privados no WhatsApp, em que pessoas de um mesmo pa\u00eds recebem acompanhamento grupal.<\/p>\n<p>Atualmente, Vita-Activa.Org conta com cerca de 15 acompanhantes, a maioria mulheres e pessoas n\u00e3o-bin\u00e1rias, oriundas de diversos pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina e dos Estados Unidos. A organiza\u00e7\u00e3o se sustenta com um modelo de financiamento misto, que inclui oficinas, capacita\u00e7\u00f5es e coopera\u00e7\u00e3o internacional.<\/p>\n<p>As acompanhantes ganham uma compensa\u00e7\u00e3o pelo atendimento e n\u00e3o trabalham mais do que tr\u00eas vezes por semana, para evitar o desgaste emocional. \"Vita promove a cultura do autocuidado. O mart\u00edrio, as hero\u00ednas\u2026 essa n\u00e3o \u00e9 a nossa ideia [de como fazer as coisas]\". A organiza\u00e7\u00e3o quer crescer e, neste m\u00eas, est\u00e3o buscando volunt\u00e1rios para um esfor\u00e7o emergencial <a href=\"https:\/\/vita-activa.org\/us-elections-mental-health-taskforce\/\" data-cke-saved-href=\"https:\/\/vita-activa.org\/us-elections-mental-health-taskforce\/\">de sa\u00fade mental para jornalistas durante as elei\u00e7\u00f5es nos Estados Unidos<\/a>.<\/p>\n<p>As acompanhantes recebem um treinamento de primeiros socorros psicol\u00f3gicos, mas n\u00e3o s\u00e3o terapeutas ou psic\u00f3logas. O servi\u00e7o \u00e9 baseado em um modelo \"peer to peer\", de trocas entre pares, explica Ortiz.<\/p>\n<div id=\"attachment_13024\" style=\"width: 494px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-13024\" class=\"wp-image-13024\" src=\"https:\/\/latamjournalismreview.org\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/98341031_1122598434775006_5534069999460679680_o-300x114.png\" alt=\"Relat\u00f3rio de um ano da Vita Activa, que atende mulheres v\u00edtimas de ataques online\" width=\"484\" height=\"184\" srcset=\"https:\/\/latamjournalismreview.org\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/98341031_1122598434775006_5534069999460679680_o-300x114.png 300w, https:\/\/latamjournalismreview.org\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/98341031_1122598434775006_5534069999460679680_o-1024x390.png 1024w, https:\/\/latamjournalismreview.org\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/98341031_1122598434775006_5534069999460679680_o-768x292.png 768w, https:\/\/latamjournalismreview.org\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/98341031_1122598434775006_5534069999460679680_o-1536x585.png 1536w, https:\/\/latamjournalismreview.org\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/98341031_1122598434775006_5534069999460679680_o.png 1708w\" sizes=\"auto, (max-width: 484px) 100vw, 484px\" \/><p id=\"caption-attachment-13024\" class=\"wp-caption-text\">Annual report from Vita Activa (Courtesy)<\/p><\/div>\n<p>\"O requisito \u00e9 que sejam jornalistas ou tenham trabalhado na imprensa, porque assim elas t\u00eam um passado em comum [com quem busca o servi\u00e7o], que n\u00e3o temos que explicar [o contexto de trabalho]. Ter seus colegas e aliados na conversa reduz a curva de confian\u00e7a, que \u00e9 o maior problema em situa\u00e7\u00f5es de trauma. Isso se chama cutting red tape [redu\u00e7\u00e3o de obst\u00e1culos]\".<\/p>\n<p>A linha tamb\u00e9m incentiva o autocuidado, algo que ainda \u00e9 pouco comum no meio jornal\u00edstico. Ortiz ressalta que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel separar o corpo digital do f\u00edsico e, muitas vezes, jornalistas que vivem diversos tipos de viol\u00eancia, inclusive online, apresentam sintomas e doen\u00e7as reais. Por isso, segundo ela, \u00e9 preciso ter uma mudan\u00e7a cultural, que repense o estresse laboral, a sa\u00fade mental e o estilo de vida dos jornalistas, o que tamb\u00e9m significa levar mais a s\u00e9rio os ataques online.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma mentalidade nas reda\u00e7\u00f5es que dificulta que as mulheres denunciem esse tipo de viol\u00eancia, alerta Ortiz. \"A velha escola de jornalismo \u00e9 totalmente culpada pelo que est\u00e1 acontecendo conosco. A objetividade, a casca dura, o jornalista que bebe para dormir \u00e0 noite e acorda perfeito, os sal\u00e1rios ruins, o ass\u00e9dio sexual na reda\u00e7\u00e3o, todas essas coisas, no estilo <em>Mad Men<\/em>, s\u00e3o de uma gera\u00e7\u00e3o que quebrou o jornalismo. As falhas sist\u00eamicas do jornalismo promovem um estilo de vida t\u00f3xico\", diz.<\/p>\n<p>Com isso, muitas jornalistas toleram por anos os ataques online em sil\u00eancio e, quando os casos chegam \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o, j\u00e1 s\u00e3o muito mais graves, conta Ortiz. \"As jornalistas t\u00eam um n\u00edvel de toler\u00e2ncia t\u00e3o alto que muitas delas s\u00f3 se preocupam quando j\u00e1 est\u00e3o com a corda no pesco\u00e7o. Eu pergunto: 'Mas quantos anos tem isso?' E eles me dizem: 'Bem, alguns anos. N\u00e3o presto aten\u00e7\u00e3o nisso, continuo com meu trabalho. Mas n\u00e3o durmo, ou me divorciei, tenho diabetes...' Se eu pudesse ter uma manchete no mundo, diria: 'A causa n\u00famero um de morte das jornalistas \u00e9 o estresse\".<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Organiza\u00e7\u00f5es t\u00eam lan\u00e7ado cursos, treinamentos ou guias sobre o tema e, mais recentemente, passaram a dar atendimento personalizado e gratuito para mulheres jornalistas que sofrem ass\u00e9dio online.<\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":13041,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"inline_featured_image":false,"footnotes":""},"categories":[1221],"tags":[1579,1609],"coauthors":[],"class_list":["post-13052","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-violencia-contra-jornalistas-pt-br","tag-assedio-pt-br","tag-seguranca-e-protecao-pt-br"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO Premium plugin v22.6 (Yoast SEO v27.4) - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-premium-wordpress\/ -->\n<title>Linhas de ajuda atendem mulheres jornalistas que sofrem ataques online na Am\u00e9rica Latina - LatAm Journalism Review by the Knight Center<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Linhas de ajuda atendem mulheres jornalistas que sofrem ataques online na Am\u00e9rica Latina Viol\u00eancia Contra Jornalistas. 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Tambi\u00e9n trabaj\u00f3 como reportera de Radio de las Naciones Unidas en Nueva York y en el diario espa\u00f1ol La Voz de Galicia. Marina tiene una maestr\u00eda en edici\u00f3n period\u00edstica de la Universidad de Coru\u00f1a (Espa\u00f1a) y se gradu\u00f3 en periodismo en la Universidad Federal de R\u00edo de Janeiro. Marina Estarque \u00e9 uma jornalista brasileira que vive em S\u00e3o Paulo. Ela trabalhou para ve\u00edculos como Folha de S.Paulo, O Estado de S. Paulo, O Dia e a ag\u00eancia de fact-checking Lupa. Marina foi correspondente no Brasil para a emissora internacional da Alemanha, a Deutsche Welle, e rep\u00f3rter de r\u00e1dio para a DW \u00c1frica na Alemanha. Ela tamb\u00e9m foi rep\u00f3rter da R\u00e1dio das Na\u00e7\u00f5es Unidas em Nova York e do jornal espanhol La Voz de Galicia. 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Tambi\u00e9n trabaj\u00f3 como reportera de Radio de las Naciones Unidas en Nueva York y en el diario espa\u00f1ol La Voz de Galicia. Marina tiene una maestr\u00eda en edici\u00f3n period\u00edstica de la Universidad de Coru\u00f1a (Espa\u00f1a) y se gradu\u00f3 en periodismo en la Universidad Federal de R\u00edo de Janeiro. Marina Estarque \u00e9 uma jornalista brasileira que vive em S\u00e3o Paulo. Ela trabalhou para ve\u00edculos como Folha de S.Paulo, O Estado de S. Paulo, O Dia e a ag\u00eancia de fact-checking Lupa. Marina foi correspondente no Brasil para a emissora internacional da Alemanha, a Deutsche Welle, e rep\u00f3rter de r\u00e1dio para a DW \u00c1frica na Alemanha. Ela tamb\u00e9m foi rep\u00f3rter da R\u00e1dio das Na\u00e7\u00f5es Unidas em Nova York e do jornal espanhol La Voz de Galicia. 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