{"id":159697,"date":"2026-01-26T14:14:21","date_gmt":"2026-01-26T20:14:21","guid":{"rendered":"https:\/\/latamjournalismreview.org\/?p=159697"},"modified":"2026-01-26T14:15:06","modified_gmt":"2026-01-26T20:15:06","slug":"alma-guillermoprieto-sobre-como-transforma-o-caos-em-narrativas-duradouras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latamjournalismreview.org\/pt-br\/articles\/alma-guillermoprieto-sobre-como-transforma-o-caos-em-narrativas-duradouras\/","title":{"rendered":"Alma Guillermoprieto sobre como transforma o caos em narrativas duradouras"},"content":{"rendered":"<p dir=\"ltr\">Alma Guillermoprieto passou a maior parte de sua vida profissional prestando aten\u00e7\u00e3o a coisas das quais a maioria das pessoas prefere se afastar.<\/p>\n<div id=\"attachment_159693\" style=\"width: 410px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-159693\" class=\"wp-image-159693\" src=\"https:\/\/latamjournalismreview.org\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Years-of-Blood-200x300.png\" alt=\"Book cover that says &quot;The Years of Blood&quot;\" width=\"400\" height=\"600\" srcset=\"https:\/\/latamjournalismreview.org\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Years-of-Blood-200x300.png 200w, https:\/\/latamjournalismreview.org\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Years-of-Blood.png 600w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><p id=\"caption-attachment-159693\" class=\"wp-caption-text\">Alma Guillermoprieto published \"The Years of Blood\" with Duke University Press in April 2025.<\/p><\/div>\n<p dir=\"ltr\">Desde o in\u00edcio dos anos 1980, Guillermoprieto cobre cultura, poder e viol\u00eancia em toda a Am\u00e9rica Latina, principalmente para The New Yorker, The New York Review of Books e National Geographic. Seus livros \u2014 incluindo \u201cSamba\u201d, \u201cThe Heart That Bleeds\u201d e \u201cLooking for History\u201d \u2014 re\u00fanem parte de seus trabalhos mais duradouros.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Em sua mais recente colet\u00e2nea, \u201c<a href=\"https:\/\/www.dukeupress.edu\/the-years-of-blood\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><u>The Years of Blood<\/u><\/a>\u201d, publicada no ano passado pela Duke University Press, suas hist\u00f3rias profundamente investigadas tra\u00e7am as origens de algumas das transforma\u00e7\u00f5es pol\u00edticas mais significativas deste s\u00e9culo: a ditadura de Daniel Ortega e Rosario Murillo na Nicar\u00e1gua; a nascente ditadura de Nayib Bukele em El Salvador; e o agora aparentemente deposto regime de Nicol\u00e1s Maduro na Venezuela.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Suas reportagens oferecem o al\u00edvio da compreens\u00e3o: ela transforma eventos que pareciam manchetes desconexas em personagens e narrativas intelig\u00edveis, como um parente que, ao caminhar por uma casa escura, acende as luzes uma por uma.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Nesta entrevista \u00e0\u00a0<strong>LatAm Journalism Review (LJR)<\/strong>, a mexicana Guillermoprieto, 76 anos, reflete sobre seu processo de reportagem e escrita, os riscos imposs\u00edveis enfrentados por jornalistas em toda a regi\u00e3o, e a experi\u00eancia de reportar por tempo suficiente para ver governos ca\u00edrem, erguerem-se e ca\u00edrem novamente. A entrevista foi editada para fins de concis\u00e3o e clareza.<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>LJR: Voc\u00ea escreve no pr\u00f3logo que esta colet\u00e2nea mais recente trata, em grande parte, de desilus\u00e3o e futuros quebrados. Por que voc\u00ea diz isso?<\/strong><\/p>\n<p dir=\"ltr\">Alma Guillermoprieto: Porque a desilus\u00e3o com a democracia \u00e9 algo que vemos todos os dias. O caso mais not\u00e1vel talvez seja Nayib Bukele, em El Salvador. As promessas que a transi\u00e7\u00e3o para a democracia eleitoral deveria oferecer n\u00e3o corresponderam \u00e0s expectativas das pessoas, ent\u00e3o o sonho quebrado sobre a democracia \u00e9 tanto da popula\u00e7\u00e3o quanto meu.<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>LJR: E voc\u00ea, pessoalmente, j\u00e1 experimentou desilus\u00e3o? Estou pensando em como voc\u00ea cobriu a Revolu\u00e7\u00e3o Sandinista na Nicar\u00e1gua no final dos anos 1970, e agora voc\u00ea a reporta h\u00e1 tempo suficiente para ver que as pr\u00f3prias pessoas daquela revolu\u00e7\u00e3o se tornaram, mais ou menos, os mesmos perpetradores que derrubaram.<\/strong><\/p>\n<p dir=\"ltr\">AG: Claro. Acho que as hist\u00f3rias mais significativas de escrever foram sobre o bin\u00f4mio Ortega-Murillo porque, para mim, a Nicar\u00e1gua representava a possibilidade de uma boa realiza\u00e7\u00e3o para nossa pol\u00edtica, e isso se mostrou um objetivo dif\u00edcil de alcan\u00e7ar. E na Nicar\u00e1gua, particularmente, claro que sinto isso porque estive l\u00e1 desde o in\u00edcio, mas tamb\u00e9m \u00e9 um material muito rico para reflex\u00e3o. Por que as maiores esperan\u00e7as da esquerda se desfazem de maneiras t\u00e3o dram\u00e1ticas? Estamos vendo isso agora com o Chile, uma administra\u00e7\u00e3o de esquerda que \u00e9 eleita e leva imediatamente a uma rea\u00e7\u00e3o da direita. Qual \u00e9 o problema de institucionalizar mudan\u00e7as radicais para beneficiar a maioria da popula\u00e7\u00e3o? Para mim, essa \u00e9 a grande quest\u00e3o.<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>LJR: Ao ler\u00a0<\/strong><a href=\"https:\/\/www.newyorker.com\/magazine\/2024\/03\/11\/what-really-happened-to-the-forty-three\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><strong><u>a \u00faltima hist\u00f3ria<\/u><\/strong><\/a><strong> da colet\u00e2nea, sobre o sequestro de 43 estudantes da escola Ayotzinapa, em Iguala, M\u00e9xico, fiquei pessoalmente com duas grandes conclus\u00f5es. A primeira foi que o M\u00e9xico talvez nunca saiba o que aconteceu com esses estudantes, e a segunda \u00e9 que o caso permanecer impune pode ser t\u00e3o tr\u00e1gico quanto o pr\u00f3prio sequestro. O que me impressionou foi como voc\u00ea conectou os pontos de uma forma que ningu\u00e9m mais havia feito. Como voc\u00ea decidiu quanto contexto pol\u00edtico e hist\u00f3rico fornecer a um leitor que talvez nunca pise no M\u00e9xico?<\/strong><\/p>\n<p dir=\"ltr\">AG: Deixe-me dizer primeiro que houve muitas reportagens corajosas e impressionantes sobre essa hist\u00f3ria feitas por jornalistas mexicanos que trabalham em pequenos meios no M\u00e9xico e tamb\u00e9m para o El Pa\u00eds, na Espanha. Os jornalistas mexicanos est\u00e3o nesse caso desde o in\u00edcio, mas n\u00e3o t\u00eam espa\u00e7o para contar a hist\u00f3ria do come\u00e7o ao fim. E eu estava muito consciente de que teria o espa\u00e7o para apresentar a hist\u00f3ria de forma mais narrativa, e isso era algo que eu poderia contribuir.<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>LJR: E ao apresentar essa narrativa, como voc\u00ea decidiu quanto hist\u00f3rico incluir sem sobrecarregar um leitor que est\u00e1 completamente fora do contexto?<\/strong><\/p>\n<p dir=\"ltr\">AG: N\u00e3o sei se os leitores conseguiriam acompanhar. Fiz o meu melhor. Achei que o contexto era indispens\u00e1vel. Caso contr\u00e1rio, estar\u00edamos apenas contando a mesma trag\u00e9dia est\u00fapida repetidamente. Tamb\u00e9m tentei fazer duas coisas: concentrar-me em tr\u00eas dos pais, para que a hist\u00f3ria se tornasse pessoal, e, como a hist\u00f3ria foi t\u00e3o manipulada, revisitada e examinada, procurei basear meus fatos nos documentos oficiais das investiga\u00e7\u00f5es nos quais os pais confiavam. Voc\u00ea ver\u00e1 que, no que diz respeito aos fatos do caso, a grande maioria das informa\u00e7\u00f5es vem dessas investiga\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>LJR: Voc\u00ea poderia dar aos nossos leitores um pouco dos bastidores do seu processo, se existe um passo a passo de como voc\u00ea traduz a Am\u00e9rica Latina para leitores nos Estados Unidos e no mundo de l\u00edngua inglesa?<\/strong><\/p>\n<p dir=\"ltr\">AG: A primeira coisa a dizer sobre isso \u00e9 que sou latino-americana e a maior parte do que as pessoas nos EUA leem, na verdade, \u00e9 escrita por n\u00e3o latino-americanos. Por isso, tendo a usar fontes latino-americanas talvez mais do que rep\u00f3rteres dos EUA poderiam, porque \u00e9 com isso que me sinto mais confort\u00e1vel e o que sinto que posso confiar por ser mais historicamente informado. Tamb\u00e9m estou ciente de que estou escrevendo para um p\u00fablico dos EUA, e isso me ajuda porque me permite contar a hist\u00f3ria assumindo total inoc\u00eancia por parte do leitor. \u00c9 muito mais exigente, mas quando ministro oficinas, sempre digo que voc\u00ea quer fazer seus leitores se sentirem como uma crian\u00e7a de cinco anos que est\u00e1 sendo levada ao zool\u00f3gico.<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>LJR: Interessante. Por que voc\u00ea escolheu essa analogia?<\/strong><\/p>\n<p dir=\"ltr\">AG: Porque voc\u00ea quer contar \u00e0 crian\u00e7a o que vai acontecer e para onde estamos indo, para que o leitor se sinta seguro. Depois, voc\u00ea quer destacar as diferentes coisas que s\u00e3o importantes, os diferentes protagonistas que s\u00e3o importantes e o que \u00e9 importante sobre eles. E ent\u00e3o voc\u00ea tamb\u00e9m quer dizer: agora vamos embora, para que sua crian\u00e7a de cinco anos, com o picol\u00e9 em m\u00e3os, n\u00e3o diga de repente: \u201cO qu\u00ea? Eu n\u00e3o quero ir ainda!\u201d Voc\u00ea quer concluir essa hist\u00f3ria para aquela pessoa que est\u00e1 lendo voc\u00ea a partir de uma posi\u00e7\u00e3o de inoc\u00eancia. O interessante nisso \u00e9 que, se voc\u00ea fizer isso de forma completa, cinco, 10 ou 20 anos depois, a hist\u00f3ria ser\u00e1 t\u00e3o interessante para, digamos, mexicanos ou nicaraguenses quanto, espero, foi para os leitores nos EUA, porque o passado \u00e9 outro pa\u00eds.<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>LJR: O que voc\u00ea quer dizer com isso?<\/strong><\/p>\n<p dir=\"ltr\">AG: A cita\u00e7\u00e3o completa \u00e9: \u201cO passado \u00e9 outro pa\u00eds, eles fazem as coisas de maneira diferente l\u00e1.\u201d Com o passar do tempo, os nicaraguenses n\u00e3o sabem o que aconteceu.<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>LJR: Voc\u00ea tamb\u00e9m disse que v\u00ea seu trabalho como traduzir a Am\u00e9rica Latina para a Am\u00e9rica Latina.<\/strong><\/p>\n<p dir=\"ltr\">AG: \u00c9 isso que quero dizer.<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>LJR: Ent\u00e3o isso faz parte do mesmo processo que voc\u00ea est\u00e1 nos explicando ou \u00e9 um exerc\u00edcio diferente?<\/strong><\/p>\n<p dir=\"ltr\">AG: N\u00e3o. Se a visita ao zool\u00f3gico, ao museu ou ao parque natural for bem-sucedida, ent\u00e3o todo mundo ser\u00e1 capaz de ler e ter alguma no\u00e7\u00e3o do lugar, ou come\u00e7ar a fazer perguntas que venham de um lugar mais informado. N\u00e3o \u00e9 minha responsabilidade responder perguntas. Acho que \u00e9 minha responsabilidade gerar perguntas. Se eu estivesse respondendo perguntas, uma hist\u00f3ria estaria desatualizada em seis meses.<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>LJR: Houve uma pergunta que eu n\u00e3o ia fazer, mas voc\u00ea a trouxe. Eu me pergunto como ser mexicana e ser americana lhe permitiu fazer seu trabalho.<\/strong><\/p>\n<p dir=\"ltr\">AG: Bem, obviamente, porque sou bil\u00edngue. Isso tem sido uma enorme vantagem profissional, mas tamb\u00e9m pessoal, em termos de conseguir me distanciar e ver a hist\u00f3ria de fora, mas tamb\u00e9m estar completamente dentro da minha reportagem. E outra coisa \u00e9 que fui treinada por dois anos pelo Washington Post, muito dentro das tradi\u00e7\u00f5es do jornalismo dos EUA. Esses dois anos que passei no Post foram indispens\u00e1veis para o tipo de trabalho que fa\u00e7o. Eu sigo esses padr\u00f5es. E existem padr\u00f5es diferentes em todo o mundo. Eu escrevia para o Guardian antes, e o Guardian tem menos respeito pela rela\u00e7\u00e3o processual com o governo dos EUA. Eles s\u00e3o menos reverentes sobre a sacralidade das declara\u00e7\u00f5es oficiais. E, como mexicana, tamb\u00e9m sou totalmente incapaz de acreditar em qualquer coisa que uma autoridade me diga. Isso \u00e9 muito diferente dos rep\u00f3rteres dos EUA.<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>LJR: Voc\u00ea est\u00e1 dizendo que os rep\u00f3rteres dos EUA t\u00eam mais tend\u00eancia a aceitar o que o governo diz pelo valor nominal?<\/strong><\/p>\n<p dir=\"ltr\">AG: De boa f\u00e9, sim. As pessoas nos EUA s\u00e3o educadas, embora isso possa estar mudando, a confiar em seu governo.<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>LJR: Na reportagem \u201c<\/strong><a href=\"https:\/\/www.nybooks.com\/articles\/2011\/11\/10\/new-gangland-el-salvador\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><strong><u>In the New Gangland of El Salvador<\/u><\/strong><\/a><strong>\u201d, voc\u00ea d\u00e1 aos leitores uma vis\u00e3o clara de como a vida era desafiadora no pa\u00eds em 2011 devido \u00e0 forma como as gangues prosperavam. E ent\u00e3o, em um posf\u00e1cio, voc\u00ea atualiza o leitor sobre como essa situa\u00e7\u00e3o foi completamente transformada sob Bukele. Voc\u00ea trabalhou com jornalistas locais para conseguir reportar a hist\u00f3ria? H\u00e1 uma hist\u00f3ria por tr\u00e1s da hist\u00f3ria sobre como jornalistas locais em El Salvador ajudaram voc\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p dir=\"ltr\">AG: Sim, absolutamente. N\u00e3o acho que poderia ter feito nenhuma das reportagens que escrevi sem a ajuda de jornalistas locais. N\u00e3o acho que qualquer um de n\u00f3s que faz jornalismo internacional poderia faz\u00ea-lo sem a ajuda de jornalistas locais, porque, realisticamente, eu vou a El Salvador e fico l\u00e1, se tiver sorte, por um m\u00eas. Como eu poderia, de forma alguma, entender por onde come\u00e7ar a procurar o que \u00e9 importante sem a ajuda de meus colegas? No caso de El Salvador, foram concretamente os jornalistas do El Faro, que \u00e9 uma publica\u00e7\u00e3o online atualmente\u00a0<a href=\"https:\/\/latamjournalismreview.org\/pt-br\/articles\/saimos-de-el-salvador-para-poder-seguir-em-el-salvador-como-o-el-faro-decidiu-mudar-sua-gestao-para-a-costa-rica\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><u>no ex\u00edlio<\/u><\/a> porque o governo de Bukele n\u00e3o pode tolerar sua presen\u00e7a. S\u00e3o alguns dos melhores rep\u00f3rteres do mundo fazendo algumas das melhores reportagens do mundo. Ent\u00e3o, quando eu queria saber por onde come\u00e7ar a investigar esse fen\u00f4meno da viol\u00eancia das maras, obviamente fui ao El Faro. Para onde mais eu iria? Que informa\u00e7\u00e3o outra pessoa teria que fosse metade t\u00e3o competente, corajosa e imaginativa quanto o trabalho que eles estavam fazendo? Ent\u00e3o sim, foi indispens\u00e1vel. E por que meus colegas est\u00e3o dispostos a ser t\u00e3o generosos com sua ajuda \u00e9 um mist\u00e9rio para mim.<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>LJR: Como essa colabora\u00e7\u00e3o normalmente funciona?<\/strong><\/p>\n<p dir=\"ltr\">AG: Existem v\u00e1rias maneiras. Uma delas \u00e9 contratar um jornalista local com um pagamento aproximado \u00e0s taxas dos EUA, que s\u00e3o muito maiores do que o que um jornalista local poderia ganhar, para ser o chamado fixer. E o fixer, em troca, marca compromissos, cuida da log\u00edstica e conversa com voc\u00ea. \u00c9 uma rela\u00e7\u00e3o explorat\u00f3ria, a menos que ele pense que, ao falar com voc\u00ea, est\u00e1 aprendendo algo tamb\u00e9m. E tamb\u00e9m h\u00e1 a solidariedade entre colegas. E, em muitos casos, e isso foi certamente verdade nos tempos iniciais na Am\u00e9rica Central, os jornalistas locais simplesmente n\u00e3o podiam dizer o que sabiam. Ent\u00e3o, para que isso fosse dito, eles dependiam de jornalistas estrangeiros para escrever essas hist\u00f3rias.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Como estou nessa \u00e1rea h\u00e1 tanto tempo, conhe\u00e7o muitos desses jornalistas, e conhecia muitos deles mesmo quando estavam come\u00e7ando ou participando de uma oficina que eu ministrava. Ent\u00e3o tenho uma rede de jornalistas que gostam de mim ou confiam em mim. E isso \u00e9 sempre incrivelmente \u00fatil. Permanecer nesse meio traz enormes recompensas. Se eu fosse uma correspondente internacional tradicional, teria sido destacada na Am\u00e9rica Central e depois transferida para a Alemanha, e assim por diante. O que eu tenho \u00e9 40 anos de experi\u00eancia acumulada.<\/p>\n<div id=\"attachment_159690\" style=\"width: 760px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-159690\" class=\"wp-image-159690\" src=\"https:\/\/latamjournalismreview.org\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Javier-Valdez-Culiacan-2-300x225.png\" alt=\"Mural painted in red, black and white of man in hat and glasses\" width=\"750\" height=\"563\" srcset=\"https:\/\/latamjournalismreview.org\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Javier-Valdez-Culiacan-2-300x225.png 300w, https:\/\/latamjournalismreview.org\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Javier-Valdez-Culiacan-2-768x576.png 768w, https:\/\/latamjournalismreview.org\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Javier-Valdez-Culiacan-2.png 1000w\" sizes=\"auto, (max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><p id=\"caption-attachment-159690\" class=\"wp-caption-text\">A mural of murdered Mexican journalist Javier Valdez is painted on a wall in downtown Culiac\u00e1n, Sinaloa. (Foto: Jorge Valencia)<\/p><\/div>\n<p dir=\"ltr\"><strong>LJR: Voc\u00ea escreve sobre\u00a0<\/strong><a href=\"https:\/\/www.nybooks.com\/online\/2017\/05\/18\/mexico-a-voice-against-the-darkness-javier-valdez\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><strong><u>o assassinato de Javier Valdez<\/u><\/strong><\/a><strong>, um jornalista local muito conhecido, em Sinaloa, em 2017. Em uma regi\u00e3o onde vemos tanta viol\u00eancia contra jornalistas quase diariamente, o que voc\u00ea acha que fez o caso de Javier se destacar?<\/strong><\/p>\n<p dir=\"ltr\">AG: A hist\u00f3ria sobre Javier Valdez \u00e9, de certa forma, a segunda parte de uma hist\u00f3ria inicial sobre jornalistas locais trabalhando na Am\u00e9rica Latina. \u201c<a href=\"https:\/\/www.nybooks.com\/articles\/2012\/11\/22\/mexico-risking-life-truth\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><u>Risking life for truth<\/u><\/a>\u201d \u00e9 uma hist\u00f3ria que escrevi em 2012 com a ajuda de meus colegas no M\u00e9xico. Na \u00e9poca, o Committee to Protect Journalists tinha um crit\u00e9rio muito rigoroso de que, se jornalistas tivessem qualquer liga\u00e7\u00e3o com o tr\u00e1fico de drogas, n\u00e3o poderiam ser considerados v\u00edtimas. E eu estava tentando explicar o contexto em que um jornalista mexicano trabalha. Para mim, descobrir esse contexto foi realmente esclarecedor, entender que esses jornalistas estavam literalmente condenados se colaborassem ou se n\u00e3o colaborassem. Jornalistas nas prov\u00edncias do M\u00e9xico negociam constantemente o que podem dizer e fazer. E eles negociam, conscientes ou em um acordo impl\u00edcito, com o tr\u00e1fico local, que \u00e9 o que diplomatas fazem, ali\u00e1s, e o que muitos pol\u00edticos no mundo fazem: uma negocia\u00e7\u00e3o constante entre certas for\u00e7as do mal e eles mesmos para tornar a coexist\u00eancia e sua pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia poss\u00edvel. Ent\u00e3o essa era a ideia da primeira hist\u00f3ria. E quando Javier foi assassinado, pareceu \u00f3bvio para mim que eu j\u00e1 estava esperando por essa not\u00edcia o tempo todo\u2026<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>LJR: S\u00e9rio?<\/strong><\/p>\n<p dir=\"ltr\">AG: \u2026porque ficou claro, em retrospecto, que ele simplesmente n\u00e3o poderia sobreviver. Ele fazia suas pr\u00f3prias negocia\u00e7\u00f5es e acordos. E, de alguma forma, cruzou essa linha ao falar sobre El Licenciado, e foi morto muito rapidamente depois disso. Mas, novamente, era algu\u00e9m que, sem nenhuma raz\u00e3o aparente, era incrivelmente generoso com todos n\u00f3s, correspondentes estrangeiros ou correspondentes da Cidade do M\u00e9xico, que aparec\u00edamos.<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>LJR: Como assim?<\/strong><\/p>\n<p dir=\"ltr\">AG: Ele n\u00e3o contava tudo o que sabia. Ele te apontava na dire\u00e7\u00e3o certa. Ele fazia apresenta\u00e7\u00f5es a pessoas que poderiam ser \u00fateis. Por exemplo, na \u00e9poca eu estava fazendo muita reportagem sobre drogas, e uma das maneiras eficientes de fazer isso era entrar em pris\u00f5es. Eu j\u00e1 havia estado na pris\u00e3o de Ju\u00e1rez, o que foi um golpe de sorte e generosidade por parte das pessoas que me ajudaram. Depois, eu queria entrar em uma pris\u00e3o em Sinaloa, e Javier fez as apresenta\u00e7\u00f5es aos funcion\u00e1rios que poderiam abrir aquelas portas, e foi assim que escrevi outra hist\u00f3ria em 2010, chamada \u201c<a href=\"https:\/\/www.nationalgeographic.com\/magazine\/article\/mexican-saints\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><u>Troubled Spirits<\/u><\/a>\u201d. Isso n\u00e3o teria acontecido sem a ajuda de Javier.<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>LJR: Para quem n\u00e3o conhece Javier, quem ele era e por que se tornou t\u00e3o emblem\u00e1tico? Voc\u00ea vai a Culiac\u00e1n e v\u00ea murais dele.<\/strong><\/p>\n<p dir=\"ltr\">AG: \u00c9 estranho como algu\u00e9m toca a vida das pessoas. H\u00e1 murais em toda Bogot\u00e1 do\u00a0<a href=\"https:\/\/latamjournalismreview.org\/pt-br\/articles\/colombia-relembra-jornalista-e-humorista-jaime-garzon-20-anos-depois-da-sua-morte-que-pemanece-impune\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><u>comediante Jaime Garz\u00f3n<\/u><\/a>, que foi assassinado em 1999. E Javier tamb\u00e9m tocou o cora\u00e7\u00e3o das pessoas. Javier era um excelente rep\u00f3rter investigativo e um dos cofundadores de uma publica\u00e7\u00e3o online chamada R\u00edodoce. Eles faziam reportagens muito bem fundamentadas e ousadas, sempre caminhando na linha t\u00eanue do que podiam dizer sem se colocar em perigo. E havia duas coisas sobre Javier que se destacavam. Ele tinha uma personalidade enorme. Tinha uma tremenda joie de vivre. Amava sua vida, sua fam\u00edlia, sair para beber com os amigos, e conversar. E era um escritor excepcional. Tudo isso o tornou bem conhecido em Culiac\u00e1n e prazeroso de se conviver, e ele tamb\u00e9m era incrivelmente corajoso, algo que todos n\u00f3s admir\u00e1vamos. Ent\u00e3o, quando ele foi assassinado, foi um evento para o mundo do jornalismo. E foi uma grande perda para a reportagem em Culiac\u00e1n, embora o R\u00edodoce continue seu trabalho muito corajoso.<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>LJR: Como voc\u00ea v\u00ea a mudan\u00e7a do interesse da m\u00eddia dos EUA pela Am\u00e9rica Latina nos \u00faltimos 10 anos, especialmente com o renovado interesse do governo americano na regi\u00e3o durante as duas administra\u00e7\u00f5es de Trump?<\/strong><\/p>\n<p dir=\"ltr\">AG: A cobertura de not\u00edcias mudou em 11 de setembro de 2001. Naquele momento, todos n\u00f3s sab\u00edamos que poder\u00edamos simplesmente fechar nossos cadernos e guardar nossos laptops, e n\u00e3o conseguir\u00edamos uma mat\u00e9ria em nenhuma publica\u00e7\u00e3o t\u00e3o cedo. A aten\u00e7\u00e3o mundial se voltou para o Oriente M\u00e9dio, e nunca se recuperou completamente. Esse foi o grande hiato.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">\u00c9 incr\u00edvel que os Estados Unidos compartilhem um continente com cerca de 600 milh\u00f5es de pessoas e n\u00e3o sejamos uma fonte de interesse para cobertura jornal\u00edstica. Isso mudou durante a administra\u00e7\u00e3o Trump porque, embora ele tenha prometido fazer exatamente o contr\u00e1rio, acabou se mostrando meio belicista. O que ele est\u00e1 fazendo na Venezuela, as amea\u00e7as que fez na Col\u00f4mbia e no M\u00e9xico, os acordos que firmou com Bukele e o apoio dado a Javier Milei na Argentina \u2013 tudo isso renovou o interesse nas pol\u00edticas de Trump para a Am\u00e9rica Latina, eu diria, mais do que na Am\u00e9rica Latina em si.<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>LJR: Por que voc\u00ea acha t\u00e3o importante fazer essa distin\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p dir=\"ltr\">AG: Porque \u00e9 a diferen\u00e7a entre se interessar pelo pr\u00f3prio pa\u00eds e se interessar por outros pa\u00edses com outras l\u00ednguas, outros problemas, outras culturas que s\u00e3o diretamente influenciadas pelo seu pr\u00f3prio pa\u00eds. Quanto tempo esse interesse vai durar? N\u00e3o sei.<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>LJR: Seria justo parafrasear isso dizendo que o p\u00fablico dos EUA, no momento, n\u00e3o est\u00e1 necessariamente t\u00e3o interessado na Am\u00e9rica Latina, mas continua interessado em si mesmo e em seu pr\u00f3prio pa\u00eds?<\/strong><\/p>\n<p dir=\"ltr\">AG: Sim, seria justo. E eu diria que sempre foi assim desde que sou jornalista. A Am\u00e9rica Central era importante porque fazia parte da pol\u00edtica externa de Reagan. E minha tarefa, como eu a vejo, sempre foi contar hist\u00f3rias que sejam suficientemente envolventes para que os leitores as leiam pelo valor da pr\u00f3pria hist\u00f3ria.<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>LJR: Algu\u00e9m disse que o seu trabalho \u00e9 contar as hist\u00f3rias da Am\u00e9rica Latina por si mesma, n\u00e3o como uma fun\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos.<\/strong><\/p>\n<p dir=\"ltr\">AG: Sim, exatamente. \u00c0s vezes me perguntam o que eu penso sobre esta pessoa ou aquela administra\u00e7\u00e3o ou aquela pol\u00edtica. Eu n\u00e3o penso nisso. Eu penso neste mundo como um mundo pr\u00f3prio e como o meu mundo. E \u00e9 sobre isso que tento contar hist\u00f3rias.<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>LJR: E como voc\u00ea responde \u00e0quela pergunta perene que editores em Nova York ou Los Angeles, ou onde quer que seja, fazem sobre por que isso importa para o p\u00fablico dos EUA? Por que eu deveria me importar?<\/strong><\/p>\n<p dir=\"ltr\">AG: N\u00e3o \u00e9 uma pergunta est\u00fapida. Realmente n\u00e3o \u00e9. Apenas n\u00e3o \u00e9 a minha pergunta. Minha resposta \u00e9 contar a hist\u00f3ria de forma que ela seja envolvente, para que o leitor n\u00e3o diga: \u201cAh, o que eu quero saber sobre Honduras?\u201d Em vez disso, para que o leitor diga: \u201cUau! Olha essa coisa louca que est\u00e1 acontecendo em Honduras!\u201d Tive muita, muita sorte em ter Bob Gottlieb e John Bennett como meus editores na The New Yorker, tudo o que eles queriam era uma hist\u00f3ria. E tudo o que Bob Silvers, da The New York Review of Books, sempre quis foram escritores capazes de dizer coisas que provocassem perguntas.<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>LJR: Como voc\u00ea espera que o interesse do notici\u00e1rio dos EUA sobre a Am\u00e9rica Latina possa mudar agora, depois da opera\u00e7\u00e3o dos EUA para remover Nicol\u00e1s Maduro de Caracas?<\/strong><\/p>\n<p dir=\"ltr\">AG: Minha resposta seria que, pouco mais de tr\u00eas semanas ap\u00f3s o evento, a Venezuela j\u00e1 saiu das manchetes da maioria dos sites de not\u00edcias, sendo ofuscada pela amea\u00e7a sobre a Groenl\u00e2ndia e pela revolta em Minneapolis. Coisas que acontecem na Am\u00e9rica Latina, por mais importantes ou devastadoras que sejam, ocorrem longe dos centros de poder estabelecidos, e por isso continuamos tanto esquecidos quanto \u201cex\u00f3ticos\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A rep\u00f3rter Alma Guillermoprieto passou quatro d\u00e9cadas registrando poder e viol\u00eancia. 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He's based in Bogot\u00e1 and previously covered Latin America from Mexico City for public radio stations in the United States. A 2023 fellow with the Nieman Foundation for Journalism at Harvard University, he has also reported from Arizona, North Carolina and Virginia. He grew up in downtown Bogot\u00e1, Colombia, and the suburbs of Washington D.C. _______ Jorge Valencia es el subdirector de LatAm Journalism Review. Est\u00e1 radicado en Bogot\u00e1 y anteriormente report\u00f3 sobre Am\u00e9rica Latina desde la Ciudad de M\u00e9xico para emisoras de la radio p\u00fablica de los Estados Unidos. Becario de la Fundaci\u00f3n Nieman para el Periodismo en la Universidad de Harvard en 2023, tambi\u00e9n ha reportado desde Arizona, Carolina del Norte y Virginia. Creci\u00f3 en el centro de Bogot\u00e1 y a las afueras de Washington D.C. _______ Jorge Valencia \u00e9 editor-assistente da LatAm Journalism Review. 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