{"id":17175,"date":"2021-03-03T20:04:50","date_gmt":"2021-03-04T01:04:50","guid":{"rendered":"https:\/\/latamjournalismreview.org\/?p=17175"},"modified":"2021-03-03T21:41:11","modified_gmt":"2021-03-04T02:41:11","slug":"em-livro-sobre-abundancia-da-informacao-pesquisador-argentino-debate-desvalorizacao-das-noticias-e-revalorizacao-do-entretenimento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latamjournalismreview.org\/pt-br\/articles\/em-livro-sobre-abundancia-da-informacao-pesquisador-argentino-debate-desvalorizacao-das-noticias-e-revalorizacao-do-entretenimento\/","title":{"rendered":"Em livro sobre abund\u00e2ncia da informa\u00e7\u00e3o, pesquisador argentino debate 'desvaloriza\u00e7\u00e3o das not\u00edcias e revaloriza\u00e7\u00e3o do entretenimento'"},"content":{"rendered":"<p>O pesquisador argentino Pablo J. Boczkowski dedicou os \u00faltimos anos a entender o que significa, para o indiv\u00edduo e para as sociedades, viver num per\u00edodo de \"salto qualitativo na quantidade de informa\u00e7\u00f5es\". Ele n\u00e3o usa express\u00f5es como \"excesso de informa\u00e7\u00e3o\", que j\u00e1 carregam um significado negativo, mas sim o termo \"abund\u00e2ncia\" para descrever o momento atual.<\/p>\n<p>O resultado de anos de estudo e de um levantamento realizado na Argentina, em 2016 e 2017, que inclui 158 entrevistas em profundidade e uma pesquisa presencial com 700 pessoas, \u00e9 apresentado no livro \"Abundance: On the Experience of Living in a World of Information Plenty\", editado pela Oxford University Press. O livro ser\u00e1 lan\u00e7ado em 1 de maio, mas j\u00e1 <a href=\"https:\/\/global.oup.com\/academic\/product\/abundance-9780197565742?cc=ar&amp;lang=en&amp;#\" data-cke-saved-href=\"https:\/\/global.oup.com\/academic\/product\/abundance-9780197565742?cc=ar&amp;lang=en&amp;#\">pode ser encomendado no site da editora<\/a>, em formato digital ou impresso.<\/p>\n<p>Em entrevista \u00e0 <strong>LatAm Journalism Review (LJR)<\/strong>, Boczkowski, que \u00e9 professor do departamento de estudos da comunica\u00e7\u00e3o da Universidade de Northwestern, recha\u00e7a supostos efeitos dist\u00f3picos do aumento da oferta de informa\u00e7\u00e3o e faz uma an\u00e1lise hist\u00f3rica para mostrar que a sociedade se preocupa com isso desde \"a Gr\u00e9cia e a Roma Antiga\". Ele diz ainda que vivemos um per\u00edodo de \"desvaloriza\u00e7\u00e3o das not\u00edcias e revaloriza\u00e7\u00e3o do entretenimento\" ou \"de pobreza de fatos e uma riqueza de fic\u00e7\u00f5es\".<\/p>\n<p>Al\u00e9m de ter o t\u00edtulo Hamad Bin Khalifa Al-Thani na Northwestern, Boczkowski \u00e9 doutor em psicologia, fundador do <a href=\"https:\/\/ldm.soc.northwestern.edu\/\" data-cke-saved-href=\"https:\/\/ldm.soc.northwestern.edu\/\">Center for Latinx Digital Media<\/a> e cofundador do <a href=\"http:\/\/meso.com.ar\/es\/inicio\/\" data-cke-saved-href=\"http:\/\/meso.com.ar\/es\/inicio\/\">Centro de Estudios sobre Medios y Sociedad na Argentina<\/a>. Veja a entrevista da <strong>LJR<\/strong> com Boczkowski, editada por motivos de tamanho e clareza, abaixo.<\/p>\n<div id=\"attachment_17177\" style=\"width: 481px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-17177\" class=\" wp-image-17177\" src=\"https:\/\/latamjournalismreview.org\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Pablo-Boczkowski-300x240.jpeg\" alt=\"Pablo J. Boczkowski\" width=\"471\" height=\"376\" srcset=\"https:\/\/latamjournalismreview.org\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Pablo-Boczkowski-300x240.jpeg 300w, https:\/\/latamjournalismreview.org\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Pablo-Boczkowski-1024x819.jpeg 1024w, https:\/\/latamjournalismreview.org\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Pablo-Boczkowski-768x614.jpeg 768w, https:\/\/latamjournalismreview.org\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Pablo-Boczkowski.jpeg 1251w\" sizes=\"auto, (max-width: 471px) 100vw, 471px\" \/><p id=\"caption-attachment-17177\" class=\"wp-caption-text\">O pesquisador argentino Pablo J. Boczkowski<\/p><\/div>\n<p><strong>LatAm Journalism Review: Qual \u00e9 o objetivo do livro e as suas principais descobertas?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Pablo Boczkowski:<\/strong> \u00a0O livro \u00e9 um estudo sobre como \u00e9 a experi\u00eancia de viver em uma sociedade que, neste momento hist\u00f3rico, passa por um crescimento muito importante na quantidade de informa\u00e7\u00e3o dispon\u00edvel. [...] A forma como eu abordei o projeto \u00e9: h\u00e1 muito mais informa\u00e7\u00e3o do que antes, mas isso n\u00e3o significa que vai ter necessariamente certas consequ\u00eancias. Em vez disso, entre a grande quantidade de informa\u00e7\u00f5es e a experi\u00eancia das pessoas, existem fatores intermedi\u00e1rios. Esses fatores s\u00e3o de dois tipos: eles t\u00eam a ver com a estrutura socioecon\u00f4mica da sociedade e sociodemogr\u00e1fica, idade, sexo, classe social, n\u00edvel de escolaridade. E por outro lado, t\u00eam a ver com a cultura da sociedade, quais s\u00e3o os valores, os sistemas de interpreta\u00e7\u00f5es etc. Foi assim que abordei o tema, para sair da vis\u00e3o mais tecnologicamente determinista que diz que, porque h\u00e1 muita informa\u00e7\u00e3o, vai acontecer uma determinada coisa. Porque isso depende da cultura e da estrutura da sociedade.<\/p>\n<p>Uma das descobertas mais importantes do livro \u00e9 que, na estrutura de acesso e uso da informa\u00e7\u00e3o, hoje a idade tem um papel muito mais importante do que a classe social ou o g\u00eanero. Quase se trata das telas que usamos, como o laptop, celular, redes sociais e o entretenimento, a idade tem maior influ\u00eancia, tanto quem a usa, quanto com qual frequ\u00eancia. Agora, quando se trata das not\u00edcias, a classe social continua a desempenhar um papel mais importante do que a idade. Mas, se pensarmos que abund\u00e2ncia de informa\u00e7\u00e3o \u00e9 algo que engloba n\u00e3o apenas not\u00edcias, mas entretenimento, e tamb\u00e9m o uso da tecnologia, somando todos os efeitos, a idade tem um papel mais forte na organiza\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia informativa do que a posi\u00e7\u00e3o socioecon\u00f4mica.<br \/>\n<strong><br \/>\n<\/strong>E esse \u00e9 um achado muito importante, porque a idade \u00e9 algo que dota a sociedade de um estado de transforma\u00e7\u00e3o permanente. Todos os dias todos n\u00f3s envelhecemos. No entanto, a classe social \u00e9 algo que para a maioria das pessoas n\u00e3o muda ao longo da vida. Portanto, se pensamos que a idade \u00e9 o grande organizador estrutural da experi\u00eancia da abund\u00e2ncia informativa, quer dizer que \u00e9 uma experi\u00eancia marcada pelo movimento e pela mudan\u00e7a, que \u00e9 o que gera certa sensa\u00e7\u00e3o de vertigem, na qual se tem a sensa\u00e7\u00e3o de que h\u00e1, de alguma forma, uma desestabiliza\u00e7\u00e3o da vida cotidiana.<\/p>\n<p><strong>LJR: E por que a classe social \u00e9 mais determinante para o consumo de not\u00edcias do que a idade? Isso \u00e9 porque precisamos\u00a0pagar para acessar certas not\u00edcias?<\/strong><\/p>\n<p><strong>PB:<\/strong> N\u00e3o, porque est\u00e1 relacionado com o n\u00edvel de escolaridade, que \u00e9 um dos grandes fatores na disposi\u00e7\u00e3o para se informar. Ningu\u00e9m paga por not\u00edcias, esquece isso. Atualmente, em um pa\u00eds como a Argentina ou nos Estados Unidos, o meio dominante \u00e9 de longe a televis\u00e3o. Nas entrevistas isso fica muito claro. Primeiro a televis\u00e3o, depois o r\u00e1dio e depois os ve\u00edculos digitais e as redes digitais. Mas a televis\u00e3o e o r\u00e1dio n\u00e3o v\u00e3o crescer, por outro lado, \u00e9 de se esperar, principalmente entre os jovens, que cres\u00e7a o uso das redes para informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>LJR: Voc\u00ea estava falando sobre as outras descobertas do livro...<\/strong><\/p>\n<p><strong>PB:<\/strong> Uma segunda constata\u00e7\u00e3o \u00e9 que uma das coisas que mudou muito [com a abund\u00e2ncia de informa\u00e7\u00e3o] \u00e9 a sociabilidade, a forma como nos relacionamos com os outros e o que esperamos das rela\u00e7\u00f5es sociais. O que h\u00e1 realmente \u00e9 uma reconstitui\u00e7\u00e3o do v\u00ednculo social, uma certa ideia de que sempre temos que estar dispon\u00edveis para o olhar do outro, por meio das redes, e esperamos que nossas rela\u00e7\u00f5es sociais tamb\u00e9m estejam sempre dispon\u00edveis.<\/p>\n<p><strong>LJR:\u00a0O que significa essa reconstitui\u00e7\u00e3o do v\u00ednculo social?<\/strong><\/p>\n<p><strong>PB:\u00a0<\/strong>Que esperamos das pessoas com quem nos relacionamos coisas bem diferentes do que esper\u00e1vamos antes. Que estejam sempre atentos e que a sua vida esteja sempre dispon\u00edvel para n\u00f3s. E n\u00e3o \u00e9 que estejamos mais sozinhos, como dizem alguns colegas. Na verdade, o grande desafio hoje \u00e9 como administrar a sociabilidade, n\u00e3o a solid\u00e3o. Isso tem a ver com o aumento da sociabilidade em grupos j\u00e1 constitu\u00eddos, como \u00e9 o caso dos grupos de WhatsApp. N\u00e3o \u00e9 que as pessoas estejam sozinhas, talvez estejam acompanhadas demais. Em ingl\u00eas, h\u00e1 um termo <em>solitude<\/em>, que n\u00e3o \u00e9 o mesmo que solid\u00e3o. <em>Solitude<\/em> \u00e9 poder estar consigo mesmo de alguma forma, em que a pessoa n\u00e3o se sinta solit\u00e1ria, mas esteja sem a interven\u00e7\u00e3o e a presen\u00e7a dos outros. Esse \u00e9 o grande desafio contempor\u00e2neo.<\/p>\n<p><strong>LJR:\u00a0E a terceira descoberta?<\/strong><\/p>\n<p><strong>PB:\u00a0<\/strong>A terceira descoberta importante \u00e9 que h\u00e1 uma enorme diferen\u00e7a na experi\u00eancia da informa\u00e7\u00e3o no que diz respeito ao tipo de conte\u00fado midi\u00e1tico. A forma como a abund\u00e2ncia de informa\u00e7\u00f5es entra na vida cotidiana \u00e9 diferente para os fatos e para a fic\u00e7\u00e3o, para as not\u00edcias e para o entretenimento. No caso das not\u00edcias, est\u00e1 associada a uma grande desvaloriza\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia. Em outras palavras, as pessoas d\u00e3o muito pouco valor para as not\u00edcias em suas pr\u00e1ticas informativas di\u00e1rias, mas, ao mesmo tempo, revalorizaram fortemente o conte\u00fado ficcional. Elas disp\u00f5em de muito tempo para consumir fic\u00e7\u00e3o e se importam muito com isso, principalmente a fic\u00e7\u00e3o serializada em servi\u00e7o de streaming. Por exemplo: uma visita m\u00e9dia a um dos 50 principais sites de not\u00edcias di\u00e1rias dos EUA dura menos de 150 segundos, isso a visita em sua totalidade. Na semana em que um thriller popular estreia na Netflix, o usu\u00e1rio m\u00e9dio dedica 150 minutos por dia a isso.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o existe, por um lado, uma sociedade que estrutura sua experi\u00eancia informativa principalmente ao redor da idade e, portanto, est\u00e1 em permanente movimento e mudan\u00e7a, digo que \u00e9 uma <em>unsettling society,<\/em> que n\u00e3o est\u00e1 assentada. Por outro lado, h\u00e1 uma reconstitui\u00e7\u00e3o da sociabilidade e um efeito oposto entre as not\u00edcias e o entretenimento. H\u00e1 uma desvaloriza\u00e7\u00e3o das not\u00edcias e uma revaloriza\u00e7\u00e3o do entretenimento. Como digo no livro, fazendo uma brincadeira com Adam Smith, h\u00e1 uma pobreza dos fatos e uma riqueza das fic\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<div id=\"attachment_17180\" style=\"width: 416px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-17180\" class=\" wp-image-17180\" src=\"https:\/\/latamjournalismreview.org\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Featured-Image-Pablo-Boczkowski-300x201.png\" alt=\"Pablo J. Boczkowski\" width=\"406\" height=\"272\" srcset=\"https:\/\/latamjournalismreview.org\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Featured-Image-Pablo-Boczkowski-300x201.png 300w, https:\/\/latamjournalismreview.org\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Featured-Image-Pablo-Boczkowski.png 507w, https:\/\/latamjournalismreview.org\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Featured-Image-Pablo-Boczkowski-350x234.png 350w\" sizes=\"auto, (max-width: 406px) 100vw, 406px\" \/><p id=\"caption-attachment-17180\" class=\"wp-caption-text\">Pablo J. Boczkowski \u00e9 professor do departamento de estudos da comunica\u00e7\u00e3o da Universidade de Northwestern<\/p><\/div>\n<p><strong>LJR: Nesse contexto de desvaloriza\u00e7\u00e3o dos fatos e abund\u00e2ncia de informa\u00e7\u00f5es, em que os indiv\u00edduos j\u00e1 est\u00e3o distra\u00eddos e exaustos, o que o jornalismo profissional deve fazer?<\/strong><\/p>\n<p><strong>PB:\u00a0<\/strong>A forma como as pessoas consomem as not\u00edcias mudou muito. H\u00e1 um quarto de s\u00e9culo, quando o mundo online come\u00e7ou, a pessoa se sentava para ler o jornal ou para assistir ao notici\u00e1rio na televis\u00e3o e n\u00e3o fazia mais nada. A maioria das formas de se informar era prim\u00e1ria. Era a atividade principal do foco de aten\u00e7\u00e3o da pessoa. Hoje em dia, e isso surge muito com a abund\u00e2ncia de informa\u00e7\u00e3o, as pessoas se informam de maneira secund\u00e1ria ou derivada, ou seja, cada vez menos se sentam para ler o jornal e, quando est\u00e3o se informando pela televis\u00e3o, o fazem enquanto preparam a comida ou olham as redes sociais com o outro olho. Os m\u00e9todos de recep\u00e7\u00e3o s\u00e3o diferentes e \u00e9 isso que desvaloriza a not\u00edcia. N\u00e3o \u00e9 que as pessoas digam 'as not\u00edcias n\u00e3o me importam', \u00e9 que a maneira como elas as consomem mostra que n\u00e3o importam. Elas ficam sabendo das not\u00edcias pelas redes, mas n\u00e3o entram nas redes para ler as not\u00edcias. Al\u00e9m disso, como a credibilidade [dos meios de comunica\u00e7\u00e3o] \u00e9 muito baixa, as pessoas tamb\u00e9m dizem: 'n\u00e3o me importo com as not\u00edcias'.<\/p>\n<p>A primeira coisa que os ve\u00edculos t\u00eam que fazer, acho, \u00e9 se adaptar \u00e0s pr\u00e1ticas de consumo. N\u00e3o oferecer coisas para as pessoas que se baseiam em uma imagem do leitor que n\u00e3o tem nada a ver com a realidade. Estudos mostram que, para os jovens, a dura\u00e7\u00e3o m\u00e9dia de [tempo que passam em] uma tela de computador \u00e9 de 12 segundos. Quanta informa\u00e7\u00e3o pode ser transmitida em 12 segundos? Ent\u00e3o, o quanto vale a pena escrever longas hist\u00f3rias que ningu\u00e9m vai ler? As pessoas que entrevistamos para esta pesquisa raramente terminam de ler uma mat\u00e9ria. Se leem, elas olham o primeiro par\u00e1grafo, ou s\u00f3 o t\u00edtulo e a linha fina.<\/p>\n<p><strong>LJR: Nesse sentido, a abund\u00e2ncia de informa\u00e7\u00f5es significa que as pessoas est\u00e3o mais bem informadas ou n\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong>PB:\u00a0<\/strong>Elas est\u00e3o informadas de uma forma diferente. Acho que atualmente as pessoas sabem menos sobre mais coisas. Antes sabiam mais sobre menos coisas. Porque agora voc\u00ea n\u00e3o precisa mais procurar informa\u00e7\u00f5es, as informa\u00e7\u00f5es est\u00e3o no ambiente que nos rodeia. Tem um pouco no WhatsApp, no Facebook... claro, voc\u00ea n\u00e3o sabe muito sobre cada coisa, mas tem uma ideia sobre mais coisas.<\/p>\n<p><strong>LJR: Como doutor em psicologia, como voc\u00ea v\u00ea o impacto da abund\u00e2ncia de informa\u00e7\u00f5es para os indiv\u00edduos, em termos de forma\u00e7\u00e3o, capacidade cognitiva e efeitos emocionais?<\/strong><\/p>\n<p><strong>PB:\u00a0<\/strong>Para entender um pouco o contexto atual, \u00e9 preciso primeiro ter um olhar hist\u00f3rico. Esta n\u00e3o \u00e9 a primeira vez na hist\u00f3ria da humanidade em que h\u00e1 uma preocupa\u00e7\u00e3o sobre quais s\u00e3o os impactos do aumento da informa\u00e7\u00e3o dispon\u00edvel nos indiv\u00edduos e na sociedade. H\u00e1 registros de que j\u00e1 na Gr\u00e9cia e na Roma Antiga...<\/p>\n<p><strong>LJR: [Risos] Que interessante...<\/strong><\/p>\n<p><strong>PB:\u00a0<\/strong>Sim, sim, eu come\u00e7o o livro com S\u00eaneca. Ele tem uma frase que diz que a abund\u00e2ncia de livros \u00e9 uma distra\u00e7\u00e3o. H\u00e1 um debate muito forte na Roma Antiga entre S\u00eaneca e Pl\u00ednio, que dizia o contr\u00e1rio: que h\u00e1 sempre algo de bom que se pode tirar de cada livro. E para S\u00eaneca era: 'n\u00e3o, livros demais'. \u00c9 um debate que se repete em diversos momentos, mas que n\u00e3o \u00e9 cont\u00ednuo, porque tem a ver com momentos em que h\u00e1 mudan\u00e7as tecnol\u00f3gicas e sociais, que fazem com que haja muito mais informa\u00e7\u00e3o dispon\u00edvel. O mesmo aconteceu na Idade M\u00e9dia e especialmente a partir do Iluminismo. E sempre acontece o mesmo, com fil\u00f3sofos renomados.<\/p>\n<p>A pesquisa hist\u00f3rica mostra que as sociedades geram uma s\u00e9rie de pr\u00e1ticas, rotinas e mecanismos para lidar com o aumento significativo de informa\u00e7\u00f5es. H\u00e1 uma historiadora em Harvard, Ann M. Blair, que tem um livro maravilhoso sobre como a sociedade na Idade M\u00e9dia lidava com o grande n\u00famero de manuscritos. E depois o que acontece quando a prensa vem e isso se multiplica enormemente. Porque antes da prensa, muito poucas pessoas tinham acesso aos textos, elas eram uma grande elite. Agora parece maravilhoso para n\u00f3s que todos tenham acesso aos livros, mas quando os textos come\u00e7aram a ser impressos, muita gente naquela \u00e9poca dizia 'n\u00e3o, isso vai tornar a sociedade horr\u00edvel'.<\/p>\n<p>O que Ann M. Blair mostra \u00e9 que a maioria dos sistemas de gest\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o que existem at\u00e9 hoje surgiram nas suas \u00e9pocas como uma resposta social diante de um grande aumento da informa\u00e7\u00e3o. A universidade como a conhecemos hoje, com a ideia de disciplinas, foi uma resposta do sistema educacional alem\u00e3o para lidar com o grande aumento da informa\u00e7\u00e3o. E podemos dizer que os grandes avan\u00e7os cient\u00edficos de que desfrutamos hoje est\u00e3o ligados ao papel das disciplinas acad\u00eamicas, a biologia, a qu\u00edmica, a f\u00edsica... que embora existissem antes, n\u00e3o eram t\u00e3o desenvolvidas como hoje.<\/p>\n<p><strong>LJR: \u00c9 um discurso que j\u00e1 existe h\u00e1 muitos anos ent\u00e3o...<\/strong><\/p>\n<p><strong>PB:\u00a0<\/strong>H\u00e1 mais de dois mil anos que, em diferentes momentos da hist\u00f3ria, a sociedade se preocupa com essa quest\u00e3o. \u00c9 muito comum que aconte\u00e7a quando estamos passando por uma ruptura, um salto qualitativo na quantidade de informa\u00e7\u00e3o, porque isso desestabiliza muito e leva a uma sensa\u00e7\u00e3o de vertigem, ent\u00e3o a resposta original \u00e9 dizer: isso \u00e9 ruim, tem que diminuir isso. \u00c9 o que chamo de <em>default discourse of deficit<\/em>. O que proponho \u00e9 uma alternativa, uma avalia\u00e7\u00e3o emergente. Onde n\u00e3o necessariamente a abund\u00e2ncia de informa\u00e7\u00e3o significa que \u00e9 tudo bom, mas que ser bom ou ruim vai depender das caracter\u00edsticas de uma pessoa ou grupo social.<\/p>\n<p>Por exemplo, \u00e9 muito interessante ver que se associa o uso do celular, do WhatsApp, aos mais jovens. Mas os idosos que moram sozinhos dizem, em entrevistas, que ficam o tempo todo com o celular do lado, at\u00e9 mesmo quando v\u00e3o ao banheiro. E fazem isso para se sentirem mais seguros, porque sabem que, se algo acontecer com eles, eles apertam um bot\u00e3o. [...] A mesma coisa acontece com a imprensa. S\u00e3o muitos os assuntos que, historicamente, a m\u00eddia n\u00e3o tem coberto. Por exemplo, a viol\u00eancia de g\u00eanero, que na Am\u00e9rica Latina \u00e9 uma epidemia. Os meios de comunica\u00e7\u00e3o de maior prest\u00edgio em geral n\u00e3o cobrem estas quest\u00f5es e, quando cobrem, o fazem de forma epis\u00f3dica, como se fosse um incidente, sem o contexto sist\u00eamico ou estrutural da misoginia do cotidiano. Se olharmos para movimentos sociais como <em>'Ni una menos'<\/em> na Argentina, grande parte das ativistas se organiza e comunica por meio das redes, da abund\u00e2ncia de informa\u00e7\u00f5es, porque n\u00e3o conseguem transmitir a sua mensagem pela grande imprensa. Ent\u00e3o voc\u00ea me pergunta: isso \u00e9 muito ruim? Talvez seja muito bom.<\/p>\n<p><strong>LJR: E o que \u00e9 diferente no momento atual de abund\u00e2ncia de informa\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p><strong>PB:\u00a0<\/strong>A abund\u00e2ncia de informa\u00e7\u00e3o atualmente, ao contr\u00e1rio de s\u00e9culos anteriores, reduziu as barreiras de acesso n\u00e3o apenas ao consumo de informa\u00e7\u00e3o, mas \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o. Hoje os meios de comunica\u00e7\u00e3o est\u00e3o nas m\u00e3os de poucos, mas essa abund\u00e2ncia que temos agora, em que todos temos redes sociais e telefones celulares, \u00e9 que torna mais poss\u00edvel para n\u00f3s sermos emissores de mensagens, n\u00e3o apenas receptores. E isso muda muito o jogo.<\/p>\n<p>Agora, claro, \u00e9 muito dif\u00edcil desconectar do telefone, \u00e9 verdade. H\u00e1 muito <em>doomscrolling<\/em>, muito <em>binge watching <\/em>[maratonar s\u00e9ries], e as pessoas nas entrevistas dizem que t\u00eam dificuldade de parar e isso \u00e9 ruim para elas. Ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 que tudo seja bom e emancipat\u00f3rio.<\/p>\n<p>O que notamos \u00e9 que muitas pessoas t\u00eam estrat\u00e9gias para se desconectarem, quando v\u00e3o ao psic\u00f3logo, \u00e0 missa, quando se encontram com o companheiro \u00e0 noite depois de todo o dia de trabalho. Isso n\u00e3o significa que as empresas de redes sociais e de dispositivos m\u00f3veis n\u00e3o dediquem muitos recursos para tornar seus produtos muito dif\u00edceis de largar, mas isso acontece com todos os produtos. O mesmo vale para um texto do Garc\u00eda M\u00e1rquez, e n\u00e3o me parece ruim que ele seja um grande escritor. Alguns romances s\u00e3o muito dif\u00edceis de parar de ler e ningu\u00e9m reclama que eles s\u00e3o viciantes. O que eu fa\u00e7o no livro \u00e9 questionar isso e n\u00e3o ter um discurso dist\u00f3pico, mas tampouco \u00e9 um discurso de que tudo \u00e9 maravilhoso.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pablo J. Boczkowski dedicou os \u00faltimos anos a entender o que significa, para o indiv\u00edduo e para as sociedades, viver num per\u00edodo de \"salto qualitativo na quantidade de informa\u00e7\u00f5es\". 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