{"id":22770,"date":"2018-08-08T22:07:20","date_gmt":"2018-08-09T03:07:20","guid":{"rendered":"https:\/\/latamjournalismreview.org\/?p=22770"},"modified":"2021-07-23T22:09:35","modified_gmt":"2021-07-24T03:09:35","slug":"como-produzir-noticias-para-jovens-leitores-licoes-em-jornalismo-feito-por-e-para-criancas-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latamjournalismreview.org\/pt-br\/articles\/como-produzir-noticias-para-jovens-leitores-licoes-em-jornalismo-feito-por-e-para-criancas-no-brasil\/","title":{"rendered":"Como produzir not\u00edcias para jovens leitores? Li\u00e7\u00f5es em jornalismo feito por e para crian\u00e7as no Brasil"},"content":{"rendered":"<p>Voc\u00ea se lembra de seu primeiro contato com o jornalismo? A primeira vez que abriu um jornal impresso, assistiu um telejornal, foi impactado por uma not\u00edcia? Para a maioria das pessoas, essa mem\u00f3ria remonta \u00e0 inf\u00e2ncia \u2013 um ind\u00edcio de que as crian\u00e7as tamb\u00e9m s\u00e3o parte da audi\u00eancia do jornalismo, embora os adultos que o produzem raramente levem isso em considera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-22767\" src=\"https:\/\/latamjournalismreview.org\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/kids-journalism-300x300.png\" alt=\"kid at computer\" width=\"400\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/latamjournalismreview.org\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/kids-journalism-300x300.png 300w, https:\/\/latamjournalismreview.org\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/kids-journalism-150x150.png 150w, https:\/\/latamjournalismreview.org\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/kids-journalism.png 500w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/>\u201cCrian\u00e7as e adolescentes t\u00eam contato com o jornalismo assim como a gente tem, n\u00f3s \u00e9 que n\u00e3o percebemos\u201d, disse ao <strong>Centro Knight<\/strong> a pesquisadora Juliana Doretto, uma adulta especialista em m\u00eddia, jornalismo e inf\u00e2ncia. \u201cElas tamb\u00e9m assistem \u00e0s not\u00edcias na televis\u00e3o, ouvem as not\u00edcias no r\u00e1dio. O consumo delas do notici\u00e1rio \u00e9 muito parecido com o nosso, n\u00f3s \u00e9 que n\u00e3o conversamos com elas sobre isso.\u201d<\/p>\n<p dir=\"ltr\">No Brasil, os suplementos infantis em grandes jornais foram durante muito tempo a porta de entrada das crian\u00e7as ao jornalismo impresso e o principal espa\u00e7o de desenvolvimento do jornalismo infantojuvenil no pa\u00eds, segundo Doretto.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Estes cadernos, por\u00e9m, s\u00e3o cada vez mais raros. Este \u00e9 tanto um sintoma da crise dos impressos quanto da pouca import\u00e2ncia dada ao p\u00fablico infantil pelo jornalismo profissional, avalia a pesquisadora, que tamb\u00e9m \u00e9 professora de jornalismo na faculdade Fiam-Faam, em S\u00e3o Paulo. Ela, que trabalhou na Folhinha, suplemento infantil da Folha de S. Paulo <a href=\"https:\/\/ojornalzinho.wordpress.com\/2016\/04\/16\/apos-52-anos-folhinha-deixa-de-circular\/\">que deixou de ser impresso em 2016 ap\u00f3s 52 anos em circula\u00e7\u00e3o<\/a>, afirma que \u00e9 frequente que jornalistas considerem o jornalismo para crian\u00e7as algo menor.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">\u201cO jornalismo infantil segue todo o c\u00e2none sobre o qual se funda o jornalismo como o entendemos hoje. Faz-se apura\u00e7\u00e3o, seguem-se t\u00e9cnicas jornal\u00edsticas, h\u00e1 um m\u00e9todo de investiga\u00e7\u00e3o como em outras esferas do jornalismo.\u201d A diferen\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o ao jornalismo feito para adultos \u00e9 apenas o p\u00fablico-alvo.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">\u201cPara falar para esse p\u00fablico leitor \u00e9 preciso pensar em tem\u00e1ticas que fa\u00e7am sentido para eles. Desse modo, devemos abordar assuntos e problem\u00e1ticas que se encontram no cotidiano das crian\u00e7as e dos adolescentes\u201d, explica a pesquisadora.<\/p>\n<h4 dir=\"ltr\"><strong>Trump, Kim e as crian\u00e7as<\/strong><\/h4>\n<p dir=\"ltr\">A Folha disse ao <strong>Centro Knight <\/strong>que a Folhinha foi descontinuada \u201cpor conten\u00e7\u00e3o de custos e falta de anunciantes\u201d e sustentou que continua publicando \u201cjornalismo voltado para crian\u00e7as e adolescentes \u2013 e seus pais\u201d em blogs sobre maternidade, rela\u00e7\u00e3o entre pais e filhos, literatura infantojuvenil e no suplemento de sa\u00fade.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Enquanto grandes jornais brasileiros encerraram seus suplementos impressos para este p\u00fablico, desde 2011 um jornal impresso se dedica exclusivamente a levar not\u00edcias do Brasil e do mundo a crian\u00e7as e adolescentes. O <a href=\"https:\/\/jornaljoca.com.br\/portal\/\">jornal Joca<\/a>\u00a0chega a cada 15 dias a seus assinantes, al\u00e9m de publicar artigos noticiosos diariamente em seu site.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">O encontro entre o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o presidente da Coreia do Norte, Kim Jong-Un; a pris\u00e3o do ex-presidente brasileiro Luiz In\u00e1cio Lula da Silva; e at\u00e9 o esc\u00e2ndalo do uso de dados de usu\u00e1rios do Facebook pela empresa Cambridge Analytica nas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es presidenciais dos EUA foram capa de edi\u00e7\u00f5es do Joca.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">\u201cLemos jornais do mundo inteiro para trazer conhecimento do mundo inteiro\u201d, disse ao <strong>Centro Knight<\/strong> a empres\u00e1ria St\u00e9phanie Habrich. Ela \u00e9 criadora e diretora do Joca, cuja reda\u00e7\u00e3o fica em S\u00e3o Paulo, onde trabalha a equipe de 15 pessoas da editora Magia de Ler. \u201cTrazemos muitas pautas que eles [crian\u00e7as e adolescentes] gostam, mas tamb\u00e9m pautas que eles precisam entender e pelas quais se interessam.\u201d<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Ela cita a reportagem de capa da edi\u00e7\u00e3o do come\u00e7o de junho, sobre a greve de caminhoneiros que paralisou o Brasil por quase uma semana. \u201cEles se perguntam \u2018por que meu pai n\u00e3o foi trabalhar hoje? Por que eu n\u00e3o vou para a escola? O que est\u00e1 acontecendo nos postos de combust\u00edvel?' E n\u00f3s trazemos tudo contextualizado.\u201d Segundo ela, o car\u00e1ter explicativo do Joca atrai tamb\u00e9m adultos. \u201cAdultos gostam de ler o Joca, porque traz contextualiza\u00e7\u00e3o. Por que come\u00e7ou a greve? Ou por que come\u00e7ou a guerra na S\u00edria? Quem s\u00e3o os players, e por qu\u00ea? Quando voc\u00ea l\u00ea um jornal para adultos, \u00e9 dif\u00edcil acompanhar se voc\u00ea n\u00e3o l\u00ea todo dia. Voc\u00ea perde o fio da meada.\u201d<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Franco-alem\u00e3, Habrich chegou ao Brasil aos oito anos de idade e cresceu lendo os jornais infantis de seus pa\u00edses de origem. A paix\u00e3o pelo jornalismo e por educa\u00e7\u00e3o e a lembran\u00e7a do papel que estas publica\u00e7\u00f5es tiveram em sua forma\u00e7\u00e3o a levaram a fundar em 2007 duas revistas impressas para crian\u00e7as de diferentes faixas et\u00e1rias.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">\u201cFali rapidamente\u201d, contou Habrich, bem-humorada. Ela afirma ter apostado no modelo europeu, em que os pais assinam as publica\u00e7\u00f5es para as crian\u00e7as. Esse modelo n\u00e3o correspondeu \u00e0 realidade socioecon\u00f4mica brasileira, que apresenta menor poder aquisitivo e menor penetra\u00e7\u00e3o do h\u00e1bito da leitura em rela\u00e7\u00e3o a Fran\u00e7a e Alemanha, por exemplo.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">O Joca nasceu, ent\u00e3o, com outro modelo de neg\u00f3cio. Em vez de buscar assinantes entre os pais, Habrich apresentou o jornal a escolas privadas para os filhos das elites. Muitas delas inclu\u00edram o Joca na lista de materiais did\u00e1ticos obrigat\u00f3rios, garantindo a base de assinantes necess\u00e1ria para a sustentabilidade da iniciativa, cuja receita prov\u00e9m integralmente das assinaturas. Da tiragem atual de 18 mil exemplares, 90% v\u00e3o para as escolas e 10% para fam\u00edlias que assinam o Joca, presente em 23 dos 26 Estados brasileiros e no Distrito Federal.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">O jornal chega hoje a cerca de 200 escolas, e um quarto destas s\u00e3o p\u00fablicas, diz Habrich. \u201cA maioria das escolas p\u00fablicas recebe o Joca por doa\u00e7\u00e3o nossa ou de investidores, mas tamb\u00e9m temos hist\u00f3rias incr\u00edveis de vaquinhas entre a comunidade escolar para poder assinar o Joca.\u201d<\/p>\n<p dir=\"ltr\">A cada edi\u00e7\u00e3o impressa do Joca, s\u00e3o disponibilizados na plataforma online 70 exerc\u00edcios multidisciplinares referentes ao conte\u00fado da publica\u00e7\u00e3o. As tarefas s\u00e3o usadas por professores que trabalham com o jornal em sala de aula. O impresso tamb\u00e9m traz um encarte, produzido em parceria com uma escola de ingl\u00eas, com vers\u00f5es neste idioma de algumas not\u00edcias publicadas no jornal, acompanhadas de exerc\u00edcios de compreens\u00e3o do texto.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">O Joca tamb\u00e9m est\u00e1 come\u00e7ando uma colabora\u00e7\u00e3o com a\u00a0Folha de S. Paulo, que\u00a0ir\u00e1 colocar em sua homepage links para conte\u00fados publicados no site do jornal para crian\u00e7as.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Apesar de o Joca ter um papel educativo, Habrich rejeita o adjetivo \u201cdid\u00e1tico\u201d para descrever o jornal. \u201cEu nunca quis deixar o Joca com cara de escola. Tudo que tem cara de escola \u00e9 chato. S\u00f3 entrei na escola porque era um jeito mais f\u00e1cil aqui no Brasil\u201d, afirma. \u201cEu diria que o Joca \u00e9 muito mais uma ferramenta de forma\u00e7\u00e3o do que um material did\u00e1tico.\u201d<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Essa forma\u00e7\u00e3o \u00e9 um dos objetivos do Joca. \u201cEles [os leitores] t\u00eam hoje 10, 12 anos, mas muito rapidamente ser\u00e3o l\u00edderes, as pessoas respons\u00e1veis pelo Brasil. Se queremos um Brasil mais justo, temos que form\u00e1-los desde agora\u201d, disse a diretora do jornal.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">A informa\u00e7\u00e3o fomenta o protagonismo e a cidadania das crian\u00e7as, afirma Habrich. \u201cA gente escreveu sobre a crise dos refugiados em v\u00e1rios Jocas. Um dia recebemos uma carta de uma escola em Mogi das Cruzes [munic\u00edpio de S\u00e3o Paulo] falando que, por iniciativa das crian\u00e7as, elas haviam feito um brech\u00f3 com roupas doadas e os R$ 300 que levantaram foram doados a refugiados s\u00edrios em S\u00e3o Paulo. Crian\u00e7as que souberam que existia um pa\u00eds chamado S\u00edria, que estava em guerra, e que crian\u00e7as da idade delas estavam sofrendo, e tomaram uma a\u00e7\u00e3o. Por isso eu falo em protagonismo dos l\u00edderes do s\u00e9culo 21.\u201d<\/p>\n<h4 dir=\"ltr\"><strong>As vozes das crian\u00e7as<\/strong><\/h4>\n<p dir=\"ltr\">A pesquisadora Doretto salienta a import\u00e2ncia da participa\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as na produ\u00e7\u00e3o do jornalismo voltado para elas. \u201cParece meio bizarro, mas \u00e0s vezes se faz jornalismo infantojuvenil sem trazer entrevistas com crian\u00e7as. Fala-se com pais, com especialistas, mas n\u00e3o com as crian\u00e7as, e isso acontece porque assim a crian\u00e7a \u00e9 retratada no jornalismo de forma geral\u201d, observa.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Para al\u00e9m da relev\u00e2ncia de saber delas sobre o que lhes interessa e ouvir as perspectivas delas sobre os temas tratados no jornalismo, \u201cas crian\u00e7as t\u00eam interesse em ouvir outras crian\u00e7as\u201d, diz Doretto.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">A equipe que faz o Joca integra as crian\u00e7as na produ\u00e7\u00e3o do jornal nas figuras de rep\u00f3rteres e editores-mirins, leitoras e leitores da publica\u00e7\u00e3o que s\u00e3o convidados ou mandam voluntariamente ideias de pautas ou at\u00e9 textos j\u00e1 prontos. Entre estas colabora\u00e7\u00f5es est\u00e3o <a href=\"https:\/\/jornaljoca.com.br\/portal\/a-antartica-e-um-local-destinado-a-ciencia-e-paz\/\">uma entrevista que quatro leitores de nove anos de idade fizeram com uma pesquisadora brasileira sobre a Ant\u00e1rtica<\/a> e uma reportagem feita por um leitor de 13 anos de idade sobre o acampamento montado por apoiadores do ex-presidente Lula diante da sede da Pol\u00edcia Federal em Curitiba, no Estado do Paran\u00e1, onde ele se encontra preso.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">J\u00e1 em seu segundo ano como leitora do Joca, Giulia Martins Rebelli, de oito anos, acabou de ter sua experi\u00eancia como editora-mirim. \u201cAlgumas pessoas acham que s\u00f3 adulto pode ler jornal, que as not\u00edcias s\u00e3o s\u00f3 para adultos. Foi uma ideia muito boa fazer um jornal para crian\u00e7as, da\u00ed a gente fica sabendo das not\u00edcias\u201d, disse ela ao <strong>Centro Knight<\/strong>. \u201cQuando eu n\u00e3o tinha o Joca, eu n\u00e3o sabia de quase nada. N\u00e3o sabia nem que existia a Coreia do Norte, s\u00f3 que existia a Coreia do Sul. Agora eu estou sabendo muito mais.\u201d<\/p>\n<p dir=\"ltr\">A m\u00e3e de Giulia, Fernanda Martins Rebelli, contou ao <strong>Centro Knight<\/strong> que a filha soube pelo Joca sobre a morte de Stephen Hawking e prop\u00f4s \u00e0 professora dar uma aula sobre o cientista brit\u00e2nico. Tamb\u00e9m leu sobre o centen\u00e1rio de Nelson Mandela e se interessou em saber mais sobre a hist\u00f3ria do l\u00edder sul-africano.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">\u201cAcho incr\u00edvel como [a abordagem do Joca] faz as crian\u00e7as se interessarem sobre assuntos dos mais diversos e gera uma conscientiza\u00e7\u00e3o na crian\u00e7a, como a quest\u00e3o de combate ao preconceito, por exemplo. Giulia tem isso muito claro na cabe\u00e7a dela\u201d, disse Rebelli, que cresceu lendo o Estadinho, antigo suplemento infantil do jornal O Estado de S. Paulo que parou de circular em papel em 2013.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">\u201cTem muita gente pequena que pensa grande, como eu\u201d, disse Giulia, torcendo o nariz ao saber que jornais tradicionais brasileiros davam nomes terminados em \u201cinho\u201d a seus cadernos infantis \u2013 al\u00e9m de Estadinho, do Estado, e Folhinha, da Folha, houve o Globinho, d\u2019O Globo, tamb\u00e9m descontinuado no papel em 2013. \u201cPodiam fazer jornal para crian\u00e7a, mas not\u00edcias legais, que interessam, e n\u00e3o aquelas not\u00edcias pequenininhas. Eu quero aprender, n\u00e3o quero ficar s\u00f3 no meu computador.\u201d<\/p>\n<h4 dir=\"ltr\"><strong>Crian\u00e7as no notici\u00e1rio<\/strong><\/h4>\n<p dir=\"ltr\">Segundo a pesquisadora Juliana Doretto, as crian\u00e7as tendem a ser bastante impactadas por not\u00edcias que dizem respeito a outras crian\u00e7as, ainda que se trate de uma cobertura jornal\u00edstica feita para adultos. \u201cA crian\u00e7a v\u00ea o telejornal, n\u00e3o entende o que est\u00e1 acontecendo e sente medo. Por exemplo, o que est\u00e1 acontecendo nos Estados Unidos: ela assiste um telejornal com a fam\u00edlia e v\u00ea crian\u00e7as enjauladas. Ela sente pena, tristeza, medo, e a gente n\u00e3o conversa sobre essas not\u00edcias com as crian\u00e7as\u201d, diz a pesquisadora.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Nesse sentido, o jornalismo feito para elas pode ajud\u00e1-las a compreender estes acontecimentos e a situ\u00e1-los em sua realidade. \u201cO jornalismo infantojuvenil seria um espa\u00e7o para tratar disso, independemente se isso \u00e9 importante para a forma\u00e7\u00e3o escolar dela ou n\u00e3o. \u00c9 importante para a forma\u00e7\u00e3o dela como cidad\u00e3, como sujeito vivendo em sociedade. O jornalismo est\u00e1 a\u00ed para isso. Somos parceiros do nosso p\u00fablico na tentativa de compreender o mundo, somos um dos canais que d\u00e3o sentido ao mundo para nosso leitor.\u201d<\/p>\n<p dir=\"ltr\">A rede <a href=\"http:\/\/www.wadadanewsforkids.org\/\">Wadada - News for Kids<\/a> busca ser um destes canais para crian\u00e7as de 20 pa\u00edses, nove deles na Am\u00e9rica Latina. Criada em 2004 pela organiza\u00e7\u00e3o holandesa de m\u00eddia <a href=\"https:\/\/www.freepressunlimited.org\/en\">Free Press Unlimited<\/a>, a rede se baseia na bem sucedida experi\u00eancia de um telejornal di\u00e1rio para crian\u00e7as na TV p\u00fablica da Holanda, no ar desde os anos 1980.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">No momento na regi\u00e3o, h\u00e1 programas da rede Wadada sendo produzidos e transmitidos em canais de TV em Suriname, Peru, Nicar\u00e1gua, M\u00e9xico, Equador, Col\u00f4mbia, Argentina, Bol\u00edvia e Brasil - neste \u00faltimo, com o programa <a href=\"http:\/\/tvcultura.com.br\/programas\/rateenbum\/\">Rep\u00f3rter R\u00e1 Teen Bum<\/a>, transmitido pelo canal fechado R\u00e1 Tim Bum e pela TV Cultura e <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=BymED1fJsn0&amp;list=PLm3PvMODa4kH8LWc-UTfV8yoBkDrJiL37\">dispon\u00edvel no YouTube<\/a>. Chile deve se juntar ao grupo em setembro, disse Jan-Willem Bult, editor-chefe de Wadada, ao <strong>Centro Knight<\/strong>.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">\u201cAs pessoas que produzem os programas s\u00e3o independentes\u201d, afirmou. \u201cAinda que fa\u00e7am parte de uma rede e tenham que respeitar alguns padr\u00f5es de qualidade, elas t\u00eam espa\u00e7o para inventar. Alguns programas s\u00e3o mais hard news, outros s\u00e3o mais uma mistura entre not\u00edcias e revista. Alguns colocam temas pol\u00edticos na agenda e \u00e0s vezes s\u00e3o criticados por seus governos, outros evitam isso e est\u00e3o mais focados em cuidar para que os jovens possam contar suas hist\u00f3rias e dar suas opini\u00f5es.\u201d<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Questionado sobre por que fazer jornalismo para crian\u00e7as, Bult disse que ouve com frequ\u00eancia essa pergunta e que sua resposta \u00e9 sempre a mesma: \u201cPor que n\u00e3o?\u201d Seu argumento \u00e9 similar ao que exp\u00f4s Doretto sobre o impacto da cobertura jornal\u00edstica sobre as crian\u00e7as e a import\u00e2ncia de apresentar as not\u00edcias por uma perspectiva mais apropriada \u00e0 percep\u00e7\u00e3o infantil.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">\u201cCostumo dizer que Wadada tamb\u00e9m busca reparar o dano que o jornalismo tradicional causa nas crian\u00e7as\u201d, brinca. \u201cSe voc\u00ea mostra a uma crian\u00e7a de oito anos de idade imagens de um bombardeio em uma rua na S\u00edria, ela pode achar que amanh\u00e3 isso vai acontecer na rua dela. Ent\u00e3o voc\u00ea tem que colocar as coisas em perspectiva, ajud\u00e1-la a entender a situa\u00e7\u00e3o na S\u00edria e a situa\u00e7\u00e3o em seu pr\u00f3prio pa\u00eds.\u201d<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Bult tamb\u00e9m ressalta o pertencimento das crian\u00e7as ao mundo comandado pelos adultos e o direito delas de serem informadas para desempenhar um papel no espa\u00e7o p\u00fablico e de decis\u00e3o pol\u00edtica. \u201cPor que h\u00e1 apenas adultos decidindo, se se trata do futuro delas?\u201d, questiona.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Os temas abordados nos programas da rede Wadada pelo mundo buscam corresponder a esses objetivos, diz Bult, para quem as pautas relacionadas a direitos e meio ambiente s\u00e3o sempre boas apostas. Mas independentemente do tema, \u201csempre trazemos o fator da alegria, um elemento de esperan\u00e7a, algo positivo.\u201d<\/p>\n<h4 dir=\"ltr\"><strong>Literacia midi\u00e1tica desde a inf\u00e2ncia<\/strong><\/h4>\n<p dir=\"ltr\">O combate \u00e0s not\u00edcias fraudulentas, as chamadas \u201cfake news\u201d, \u00e9 o tema do momento no jornalismo feito para adultos. Considerando que o uso do YouTube e das redes sociais se d\u00e1 cada vez mais cedo entre crian\u00e7as cujas fam\u00edlias t\u00eam acesso \u00e0 internet, fomentar a literacia midi\u00e1tica de crian\u00e7as e adolescentes \u00e9 crucial, e o jornalismo infantojuvenil \u00e9 um bom lugar para este aprendizado.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Assim pensa a professora Juliana Doretto, que est\u00e1 desenvolvendo uma pesquisa com adolescentes na faixa dos 13 anos sobre o que esses jovens entendem por not\u00edcia. Ela afirma que a ideia dos adolescentes sobre o que seria conte\u00fado noticioso \u00e9 bem diferente do entendimento de um jornalista adulto hoje. Para estes jovens, not\u00edcia seria tudo o que \u00e9 novo e interessante: o Twitter de um amigo, um v\u00eddeo no YouTube.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Doretto aponta a diferen\u00e7a geracional que marca a percep\u00e7\u00e3o sobre o que \u00e9 jornalismo entre quem \u00e9 adulto, adolescente e crian\u00e7a neste fim dos anos 2010. \u201cNossa gera\u00e7\u00e3o e as anteriores cresceram em um ambiente midi\u00e1tico em que not\u00edcia era um lugar muito bem demarcado. Era aquilo que estava em um jornal, uma revista, um telejornal, um jornal radiof\u00f4nico.\u201d Entre os jovens que est\u00e3o crescendo com acesso a internet e redes sociais e tamb\u00e9m entre os adultos que fazem uso intenso desses meios, as fontes de informa\u00e7\u00e3o s\u00e3o cada vez mais difusas e diversas do jornalismo industrial, diz a pesquisadora.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Ela acredita que o jornalismo infantojuvenil pode ajudar justamente ao demonstrar o que \u00e9, de fato, jornalismo \u2013 os m\u00e9todos, as t\u00e9cnicas e os processos de constru\u00e7\u00e3o da not\u00edcia e do conte\u00fado jornal\u00edstico.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">N\u00e3o basta, por\u00e9m, dizer que s\u00f3 o jornalismo profissional tem valor, ressalta Doretto. \u201cTemos que falar sobre o m\u00e9todo e tamb\u00e9m sobre os interesses das empresas, para que elas [as crian\u00e7as] entendam o que \u00e9 jornalismo profissional e que ele segue determinadas t\u00e9cnicas, mas tem seus interesses. E que elas devem fazer isso com qualquer fonte de informa\u00e7\u00e3o que venham a consultar, mesmo que n\u00e3o seja uma fonte jornal\u00edstica tradicional. \u2018Quem \u00e9 esse youtuber, o que ele quer, qual \u00e9 a ideia dele, de onde ele vem?\u2019 Isso \u00e9 literacia midi\u00e1tica\u201d, diz a pesquisadora.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Ela lembra que, no caso do Brasil, o direito das crian\u00e7as \u00e0 informa\u00e7\u00e3o adequada a sua faixa et\u00e1ria est\u00e1 previsto no Estatuto da Crian\u00e7a e do Adolescente. Portanto, o Estado pode e deve exigir que emissoras de TV e r\u00e1dio, que s\u00e3o concess\u00f5es p\u00fablicas, produzam conte\u00fado informativo de qualidade para crian\u00e7as. \u201cIsso n\u00e3o \u00e9 um favor para a crian\u00e7a, \u00e9 um direito dela, que o Estado conseguiria regulamentar\u201d, afirma.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Doretto tamb\u00e9m aponta a parcela de responsabilidade do jornalismo tradicional no atual ambiente de desinforma\u00e7\u00e3o nas redes tamb\u00e9m pelo descaso com o p\u00fablico infantojuvenil. \u201cEu comecei a gostar de jornalismo lendo Folhinha e Estadinho. As crian\u00e7as de hoje n\u00e3o t\u00eam acesso a isso. Elas gostam dos YouTubers, porque \u00e9 onde elas veem crian\u00e7as e adolescentes\u201d, afirma. \u201cN\u00e3o quer dizer que um adulto que n\u00e3o leu jornal quando crian\u00e7a n\u00e3o vai se interessar por ler jornal depois, mas em geral os leitores mais frequentes t\u00eam acesso a jornais e a produtos noticiosos desde a inf\u00e2ncia. O jornalismo privado perde essa oportunidade de conquistar leitores e atra\u00ed-los para o jornalismo. E depois reclamam de \u2018fake news\u2019.\u201d<\/p>\n<p>O <strong>Centro Knight <\/strong>entrou em contato com\u00a0O Estado de S. Paulo e O Globo e tentou saber sobre o fim de seus suplementos infantis e seus projetos para as crian\u00e7as leitoras, mas os jornais n\u00e3o\u00a0responderam\u00a0a tempo da publica\u00e7\u00e3o desta reportagem.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No Brasil, os suplementos infantis em grandes jornais foram durante muito tempo a porta de entrada das crian\u00e7as ao jornalismo impresso e o principal espa\u00e7o de desenvolvimento do jornalismo infantojuvenil no pa\u00eds, segundo Juliana Doretto.<\/p>\n","protected":false},"author":16,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"inline_featured_image":false,"footnotes":""},"categories":[17],"tags":[],"coauthors":[],"class_list":["post-22770","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-nao-categorizado"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO Premium plugin v22.6 (Yoast SEO v27.4) - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-premium-wordpress\/ -->\n<title>Como produzir not\u00edcias para jovens leitores? 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