{"id":4210,"date":"2019-10-16T12:44:23","date_gmt":"2019-10-16T17:44:23","guid":{"rendered":"https:\/\/live-lajr.pantheonsite.io\/?p=4210"},"modified":"2020-06-03T13:23:14","modified_gmt":"2020-06-03T18:23:14","slug":"jornalista-venezuelano-boris-munoz-ganha-premio-cabot-e-diz-que-jornalismo-latino-americano-vive-seu-melhor-momento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latamjournalismreview.org\/pt-br\/articles\/jornalista-venezuelano-boris-munoz-ganha-premio-cabot-e-diz-que-jornalismo-latino-americano-vive-seu-melhor-momento\/","title":{"rendered":"Jornalista venezuelano Boris Mu\u00f1oz ganha pr\u00eamio Cabot e diz que jornalismo latino-americano vive seu melhor momento"},"content":{"rendered":"<p>At\u00e9 hoje, depois de mais de 30 anos de uma carreira de sucesso, o jornalista venezuelano Boris Mu\u00f1oz se pergunta se n\u00e3o deveria ter seguido os passos de sua m\u00e3e e estudado medicina. Inspirado pelo pai poeta, que publicava textos na imprensa venezuelana, estudou comunica\u00e7\u00e3o social. Uma decis\u00e3o mais do que acertada e reconhecida este ano pelo Pr\u00eamio Maria Moors Cabot, anunciado em julho.<\/p>\n<div style=\"width: 300px; font-size: 80%; text-align: left; float: right; padding-left: 10px; padding-right: 10px;\"><a target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img decoding=\"async\" style=\"width: 300px;\" src=\"https:\/\/live.staticflickr.com\/65535\/48909812921_5784f446c3_o.jpg\" \/><\/a> Boris Mu\u00f1oz: \u201cO encerramento de nossas opera\u00e7\u00f5es aut\u00f4nomas [do The New York Times em espanhol] ter\u00e1 um impacto negativo na forma\u00e7\u00e3o incipiente de um debate em escala latino-americana.\u201d (Foto: Earl Wilson\/The New York Times)<\/div>\n<p>Antes de ser editor de opini\u00e3o no The New York Times em Espanhol, Mu\u00f1oz trabalhou como jornalista investigativo, cronista e colunista. Foi correspondente em Nova York do El Nacional, da Venezuela, editor-chefe da revista Nueva Sociedad e diretor editorial da revista de jornalismo investigativo Exceso.<\/p>\n<p>Em 2010, foi agraciado com uma bolsa da Funda\u00e7\u00e3o Nieman. Ao longo de sua carreira, o jornalista escreveu os livros \u201cLa Ley de la Calle\u201d [\u201cA Lei da Rua\u201d] e \u201cDespachos del Imperio\u201d [Escrit\u00f3rios do Imp\u00e9rio], entre outros.<\/p>\n<p>\u201c<a href=\"https:\/\/journalism.columbia.edu\/2019-maria-moors-cabot-winners\">Como editor de opini\u00e3o do The New York Times em Espanhol, Boris Mu\u00f1oz trouxe vozes novas, vibrantes e diversas para as suas p\u00e1ginas<\/a>. Os esfor\u00e7os inovadores de Mu\u00f1oz tamb\u00e9m resultaram na prolifera\u00e7\u00e3o de pontos de vista latino-americanos no jornal de l\u00edngua inglesa,\u201d disse o comunicado da Escola de Jornalismo da Universidade de Columbia, que oferece o pr\u00eamio.<\/p>\n<p>Dois meses depois, no entanto, Mu\u00f1oz foi pego de surpresa com a decis\u00e3o do jornal de encerrar a edi\u00e7\u00e3o em espanhol.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 novas publica\u00e7\u00f5es seguindo o caminho que abrimos no The New York Times em Espanhol. Espero que eles, quero dizer, as grandes m\u00eddias com for\u00e7a econ\u00f4mica e ambi\u00e7\u00e3o regional e global, possam continuar com a tarefa desafiadora de criar uma esfera p\u00fablica realmente latino-americana,\u201d avaliou Mu\u00f1oz.<\/p>\n<p>O <strong>Centro Knight<\/strong> conversou com Mu\u00f1oz sobre a sua carreira e sobre o momento atual do jornalismo na Am\u00e9rica Latina. Apesar da crise de modelo econ\u00f4mico que tem fechado v\u00e1rios meios, o jornalista \u00e9 otimista: \u201cO jornalismo latino-americano est\u00e1 em um de seus melhores momentos. Apesar da crise econ\u00f4mica dos grandes meios como resultado da irrup\u00e7\u00e3o da internet, poucas vezes antes houve um jornalismo t\u00e3o diversificado e de alto n\u00edvel em toda a regi\u00e3o\u201d, disse Mu\u00f1oz.<\/p>\n<p>A entrevista completa, feita em espanhol e traduzida para o portugu\u00eas, segue abaixo.<\/p>\n<p><strong>Centro Knight: Quando e por que voc\u00ea decidiu entrar no jornalismo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Boris Mu\u00f1oz: <\/strong>Vou contar a vers\u00e3o curta de uma longa hist\u00f3ria. Aos 16 anos, perambulava pelos corredores da Universidade Central da Venezuela (UCV), onde minha m\u00e3e era professora de histologia na Faculdade de Medicina. Sou um universit\u00e1rio de nascimento, porque fiz todos os meus estudos, do pr\u00e9-jardim de inf\u00e2ncia (ou maternal) ao curso de jornalismo em escolas que faziam parte da UCV. Nunca tive d\u00favidas de que faria minha gradua\u00e7\u00e3o na UCV. A ideia de frequentar uma universidade particular nunca passou pela minha cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Mas aos 16 anos, quando naquele tempo os estudantes venezuelanos precisavam decidir qual carreira seguir\u00e3o, me deparei com o dilema de escolher a carreira de medicina seguindo o exemplo de minha m\u00e3e ou de meu pai tentar letras, seguindo o de meu pai, um poeta alucinado. Minha m\u00e3e, desiludida, me avisou que se eu estudasse letras \"eu comeria pap\u00e9is\" e seria um intelectual em um pa\u00eds anti-intelectual, que via seus escritores e artistas como diletantes ou bo\u00eamios perdidos por nada. Mas meu pai escrevia para a imprensa e tinha amigos que tamb\u00e9m escreviam e foram eles que de alguma forma moldaram o debate p\u00fablico na Venezuela dos anos 70 e 80, onde eu cresci. Ent\u00e3o, para acalmar as preocupa\u00e7\u00f5es de minha m\u00e3e sobre minha capacidade de sobreviver no futuro e ficar bem com a mem\u00f3ria de meu pai, que j\u00e1 havia morrido, optei pelo que acabaria sendo um caminho para mim. O formul\u00e1rio de inscri\u00e7\u00e3o para a universidade oferecia tr\u00eas op\u00e7\u00f5es em ordem de import\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Selecionei primeiro medicina, segundo comunica\u00e7\u00e3o social e terceiro letras. Era como jogar na loteria. Eu sabia que minha m\u00e9dia de notas n\u00e3o era forte o suficiente para ingressar na faculdade de medicina, embora os filhos de funcion\u00e1rios e professores tivessem o direito a uma cota nos cursos mais competitivas gra\u00e7as a um acordo interno da UCV. Essa \u00e9 a hist\u00f3ria da minha decis\u00e3o.<\/p>\n<p>No terceiro ano de jornalismo, me deparei com um t\u00e9dio transcendental. Parecia um absurdo ser jornalista. Suponho agora que foi uma pequena crise vocacional que resolvi tendo aulas como ouvinte na Escola de Letras. Foi s\u00f3 l\u00e1, quando o lado humanista da literatura se juntou com o utilit\u00e1rio do jornalismo, que escrever e ser jornalista come\u00e7ou a fazer sentido para mim. A interse\u00e7\u00e3o entre jornalismo e literatura me levou \u00e0 cr\u00f4nica, minha forma liter\u00e1rio-jornal\u00edstica favorita. Conclu\u00ed ent\u00e3o o treinamento intelectual e jornal\u00edstico orientado por Susana Rotker e Tom\u00e1s Eloy Mart\u00ednez, duas figuras essenciais na minha vida. No entanto, at\u00e9 o dia hoje, me pergunto se n\u00e3o teria sido melhor estudar medicina seguindo os ditames de minha m\u00e3e. De fato, durante muito tempo e at\u00e9 que percebi que era tarde demais, tive a fantasia de deixar o jornalismo para ser m\u00e9dico.<\/p>\n<p><strong>CK: Quando voc\u00ea pensa em todas as pessoas que entrevistou e em todas as hist\u00f3rias que cobriu, quais foram as mais interessantes ou com quais voc\u00ea aprendeu mais?<\/strong><\/p>\n<p><strong>BM: <\/strong>\u00c9 uma pergunta que abrange quase 30 anos de carreira e milhares de p\u00e1ginas de entrevistas, cr\u00f4nicas e reportagens. Entrevistei personalidades fascinantes que marcaram minha adolesc\u00eancia e me influenciaram intelectual e literariamente como Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez, Umberto Eco e o poeta Octavio Paz. Minha primeira entrevista como aluno foi com o grande poeta venezuelano Vicente Gerbasi. E guardo boas lembran\u00e7as de minhas entrevistas com muitos escritores e pensadores.<\/p>\n<p>Mas as hist\u00f3rias que mais me interessaram foram as dos jovens marginalizados e violentos que entrevistei para \u201cLa ley de la calle\u201d, meu primeiro livro. Nenhum atingira a maioridade e j\u00e1 colecionavam v\u00e1rios assassinatos na sua ficha criminal. N\u00e3o esque\u00e7o um garoto de 11 ou 12 anos que havia cometido quatro assassinatos. Saber o que estava por tr\u00e1s da vida violenta desses jovens marcou minha carreira. Eu tinha 25 anos quando entendi que o jornalismo tamb\u00e9m poderia fornecer muitos elementos para entender uma realidade opaca, como a das experi\u00eancias traum\u00e1ticas daqueles meninos cujas biografias compartilhavam denominadores comuns: pobreza, viol\u00eancia intrafamiliar e social, falta de aten\u00e7\u00e3o, educa\u00e7\u00e3o e amor em lares desfeitos. N\u00e3o haviam passado dois anos das entrevistas e muitos deles j\u00e1 haviam morrido por causa de seu estilo de vida sempre \u00e0 beira da lei e da morte, em um ambiente muito marginal que antecipava a atual Venezuela apocal\u00edptica.<\/p>\n<p>Nos anos em que cobri o chavismo na Venezuela, fiz muitas entrevistas com os seguidores de Ch\u00e1vez, muito interessantes pela fascina\u00e7\u00e3o quase religiosa que mostravam por Ch\u00e1vez e que em quase todos os casos dependiam de algum tipo de favor ou promessa que os ligava ao l\u00edder. Me dei conta de que a for\u00e7a do populismo se enra\u00edza em um pacto simb\u00f3lico entre um l\u00edder que promete um sonho ut\u00f3pico e uma popula\u00e7\u00e3o que entrega a sua vontade e autonomia individual seduzida por essa fantasia.<\/p>\n<p>No funeral de Ch\u00e1vez, conheci uma mulher muito pobre que confessou ser amante de Ch\u00e1vez. Ela teria se casado com ele em segredo e teria tido um relacionamento secreto por anos. Ch\u00e1vez, disse ela, havia lhe dado um enorme cora\u00e7\u00e3o de rosas em seu casamento. Ela at\u00e9 contou supostas aventuras er\u00f3ticas; eles passaram a lua de mel no lago Maracaibo. Eu nunca pude comprovar esta hist\u00f3ria, mas a mulher parecia estar em uma esp\u00e9cie de \u00eaxtase ou transe divino. Ao chegar ao caix\u00e3o, ela caiu no vidro que protegia o corpo de Ch\u00e1vez e prometeu a ele amor eterno. \u00c9, claro, um pacto fant\u00e1stico, porque no final o progresso material das pessoas no populismo \u00e9 geralmente limitado e o pre\u00e7o pago \u00e9 a destrui\u00e7\u00e3o total da civilidade e do bem comum. Pelo menos isso aconteceu na Venezuela. Nesse sentido, reportar sobre o chavismo tem sido uma \u00f3tima escola para entender um mundo que parece ter ca\u00eddo sob o feiti\u00e7o populista.<\/p>\n<p><strong>CK: Qual \u00e9 a hist\u00f3ria mais interessante que voc\u00ea editou ou escreveu ultimamente?<\/strong><\/p>\n<p><strong>BM: <\/strong>Trabalhar com os autores para moldar suas hist\u00f3rias (em muitos casos s\u00e3o opini\u00f5es, mas tamb\u00e9m narra\u00e7\u00f5es) me deu uma enorme satisfa\u00e7\u00e3o e n\u00e3o posso destacar uma sem me sentir terrivelmente injusto. N\u00e3o s\u00e3o minhas hist\u00f3rias, mas dos autores, muitos deles velhos ou recentes amigos com quem tive o grande prazer de trocar ideias e, \u00e0s vezes, trabalhar lado a lado. No entanto, ouso dizer que, em maior ou menor grau, em alguns ou muitos desses artigos, existem alguns dos meus pr\u00f3prios interesses e paix\u00f5es. Entre centenas, escolho apenas um punhado:<\/p>\n<ul>\n<li><a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/es\/2017\/06\/04\/por-que-en-america-latina-se-mata-mas\/\">\u00bfPor qu\u00e9 en Am\u00e9rica Latina se mata m\u00e1s?<\/a> [Por se mata mais na Am\u00e9rica Latina?], por Alejandra S\u00e1nchez Inzunza e Jos\u00e9 Luis Pardo Veiras<\/li>\n<li><a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/2017\/07\/15\/opinion\/sunday\/latin-america-murder-homicide.html\">Life Where the Murder Rate Is Sky-High<\/a> [Vida onde a taxa de homic\u00eddios \u00e9 estratosf\u00e9rica], por Alejandra S\u00e1nchez Inzunza e Jos\u00e9 Luis Pardo Veiras<\/li>\n<li><a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/es\/2018\/12\/14\/opinion-roma-cuaron-krauze\/\">\u2018Roma\u2019: una historia de amor y servidumbre<\/a> [\u2018Roma: uma hist\u00f3ria de amor e servid\u00e3o], por Enrique Krauze<\/li>\n<li><a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/es\/2018\/06\/11\/martin-caparros-mundial-1\/\">El mundo Mundial 1: La f\u00e1brica de ficciones<\/a> [O mundo Mundial 1: A f\u00e1brica de ficc\u00e7\u00f5es], por Mart\u00edn Caparr\u00f3s<\/li>\n<\/ul>\n<p>Quanto a mim, tenho escrito pouco ultimamente, mas voltarei em breve.<\/p>\n<p><strong>CK: Qual \u00e9 a hist\u00f3ria mais importante das Am\u00e9ricas hoje?<\/strong><\/p>\n<p><strong>BM: <\/strong>O apocalipse venezuelano. Devido \u00e0 sua profundidade, extens\u00e3o e efeito radioativo. Segundo, mesmo que seja um problema de m\u00faltiplas e enormes consequ\u00eancias, a loucura pol\u00edtica em pa\u00edses como Estados Unidos e Brasil, onde uma direita moralmente corrupta tomou o poder e parece n\u00e3o querer sair sem alterar a ordem institucional de se perpetuar e continuar destruindo a democracia. Depois disso, h\u00e1 muitas outras hist\u00f3rias fascinantes que precisam ser contadas: as migra\u00e7\u00f5es do tri\u00e2ngulo norte, a paz prec\u00e1ria da Col\u00f4mbia, o futuro da Amaz\u00f4nia, a influ\u00eancia devastadora da corrup\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, econ\u00f4mica e do crime organizado. E as hist\u00f3rias de pessoas comuns, de beleza e engenhosidade latino-americana. E \u00e9 por causa de todas essas hist\u00f3rias que est\u00e3o esperando para serem contadas que o jornalismo deve estar sempre acordado.<\/p>\n<p><strong>CK: Qual foi o pior erro que voc\u00ea cometeu em sua carreira e que li\u00e7\u00e3o voc\u00ea aprendeu com isso?<\/strong><\/p>\n<p><strong>BM: <\/strong>Seria bobo e mentiroso dizer que n\u00e3o cometi erros. Mas a pior coisa que um jornalista pode fazer \u00e9 acreditar que ele sabe alguma coisa definitivamente. N\u00e3o escrevo os erros que cometi em um caderno, mas aprendi muito com o primeiro erro que cometi. Meu primeiro trabalho, profissionalmente falando, foi como redator do suplemento Letra G do jornal El Globo, em Caracas, no in\u00edcio dos anos 90. Uma vez, fui fazer uma cr\u00f4nica trivial sobre um grupo de pol\u00edticos de diferentes tend\u00eancias que se encontravam todos os s\u00e1bados para jogar <em>bolas criollas <\/em>(semelhante \u00e0 bocha). Eu nunca soube se fui v\u00edtima de manipula\u00e7\u00e3o ou simplesmente cometi um erro, mas anotei no meu bloco que um ex-ministro que fazia parte do grupo tinha d\u00edvidas com a justi\u00e7a. No dia seguinte \u00e0 publica\u00e7\u00e3o do artigo, o homem apareceu na reda\u00e7\u00e3o exigindo corre\u00e7\u00e3o imediata desse erro. Felizmente, n\u00e3o me custou o cargo. Ewald Scharfenberg, meu ent\u00e3o chefe e vencedor de uma men\u00e7\u00e3o [honrosa] no Cabot em 2019 [pelo site Armando.info], pediu desculpas pelo meu erro e postou uma breve corre\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O incidente n\u00e3o foi al\u00e9m, mas me fez entender que a verifica\u00e7\u00e3o dos dados, juntamente com uma boa pesquisa e uma apresenta\u00e7\u00e3o atraente e bem pensada das informa\u00e7\u00f5es, s\u00e3o a espinha dorsal do jornalismo. O jornalismo \u00e9 uma atividade perigosa e cercada a todo momento por erros de todos os tipos. N\u00e3o existe moral definitiva para essa hist\u00f3ria, mas h\u00e1 uma li\u00e7\u00e3o: a precis\u00e3o deve ser cultivada com um compromisso obsessivo. Como Ryzsard Kapucinski disse: \"os c\u00ednicos n\u00e3o servem para esse trabalho\". E eu acrescentaria: apenas os paranoicos sobrevivem.<\/p>\n<p><strong>CK: Nos \u00faltimos anos, o estado da m\u00eddia na Venezuela tornou-se cada vez mais desafiador. Qual \u00e9 a sua vis\u00e3o para o futuro pr\u00f3ximo do jornalismo no seu pa\u00eds?<\/strong><\/p>\n<div style=\"width: 400px; font-size: 80%; text-align: left; float: left; padding-left: 10px; padding-right: 10px;\"><a target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img decoding=\"async\" style=\"width: 400px;\" src=\"https:\/\/live.staticflickr.com\/65535\/48910025027_465a7f96f8_o.jpg\" \/><\/a> \u201cO jornalismo sem medo e sem muitos v\u00ednculos com o poder ser\u00e1 essencial na reconstru\u00e7\u00e3o da Venezuela\u201d, disse o vencedor do Pr\u00eamio Cabot 2019. (Foto: Bruno Mu\u00f1oz)<\/div>\n<p><strong>BM: <\/strong>\u00c9 dif\u00edcil ser otimista quando se fala em Venezuela. Mas o jornalismo \u00e9 um dos campos que me parecem mais promissores. O equil\u00edbrio da guerra da m\u00eddia durante os primeiros 15 anos do chavismo foi a destrui\u00e7\u00e3o quase total do ecossistema da m\u00eddia criada no s\u00e9culo 20, incluindo os principais jornais, os principais canais de televis\u00e3o e as redes de r\u00e1dio com maior penetra\u00e7\u00e3o (embora alguns ainda existam, eles n\u00e3o s\u00e3o a sombra do que eram). Mas, na \u00faltima d\u00e9cada, surgiu uma nova gera\u00e7\u00e3o de ve\u00edculos, muta\u00e7\u00f5es resultantes das possibilidades digitais em conex\u00e3o com a din\u00e2mica de todos os tipos criados pelo chavismo. O mais interessante \u00e9 visto em portais como <a href=\"https:\/\/armando.info\/\">Armando.info<\/a>, <a href=\"https:\/\/efectococuyo.com\/\">Efecto Cocuyo<\/a>, <a href=\"https:\/\/prodavinci.com\/\">Prodavinci<\/a>, <a href=\"https:\/\/runrun.es\/\">Runrunes<\/a>, <a href=\"https:\/\/www.lavidadenos.com\/\">La Vida de Nos<\/a>, que exploram uma diversidade de g\u00eaneros e recursos t\u00e9cnicos do jornalismo atual, que v\u00e3o do jornalismo investigativo e de dados \u00e0 cr\u00f4nica e microblogs nas redes sociais.<\/p>\n<p>Nesse sentido, tenho grandes esperan\u00e7as no futuro do jornalismo venezuelano. Aqueles que o apresentar\u00e3o v\u00eam de gera\u00e7\u00f5es que lutaram contra os obst\u00e1culos mais brutais, incluindo a destrui\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o p\u00fablico, a censura e a autocensura oficiais, a desinforma\u00e7\u00e3o, as not\u00edcias falsas, o desastre econ\u00f4mico e a persegui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Podemos ent\u00e3o falar sobre um novo jornalismo venezuelano. Que o jornalismo sem medo e sem muitos v\u00ednculos com o poder ser\u00e1 essencial na reconstru\u00e7\u00e3o da Venezuela.<\/p>\n<p><strong>CK: Seu trabalho no The New York Times em espanhol foi destacado pelo j\u00fari do pr\u00eamio Cabot. O que voc\u00ea acha da decis\u00e3o de encerrar a publica\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong>BM: <\/strong>Obviamente, foi um golpe surpreendente e muito dif\u00edcil para n\u00f3s que fizemos o The New York Times em espanhol. O encerramento de nossas opera\u00e7\u00f5es aut\u00f4nomas ter\u00e1 um impacto negativo na forma\u00e7\u00e3o incipiente de um debate em escala latino-americana de problemas nacionais e regionais. Tivemos tr\u00eas anos em um esfor\u00e7o sustentado para elevar o n\u00edvel de conversa\u00e7\u00e3o com cobertura e perspectivas exigentes que ajudariam a reduzir o ru\u00eddo de nossos pa\u00edses problem\u00e1ticos. Agora esse esfor\u00e7o foi truncado. No entanto, h\u00e1 novas publica\u00e7\u00f5es seguindo o caminho que abrimos no The New York Times em espanhol.<\/p>\n<p>Espero que eles, quero dizer, os grandes meios com for\u00e7a econ\u00f4mica e ambi\u00e7\u00e3o regional e global, possam continuar com a tarefa desafiadora de criar uma esfera p\u00fablica verdadeiramente latino-americana. Para isso, devem primeiro ter plena consci\u00eancia de que o jornalismo latino-americano est\u00e1 em um de seus melhores momentos. Apesar da crise econ\u00f4mica da grande m\u00eddia como resultado da irrup\u00e7\u00e3o da internet, poucas vezes antes houve um jornalismo t\u00e3o diversificado e de alto n\u00edvel em toda a regi\u00e3o. Essa diversidade \u00e9 uma fonte da qual a m\u00eddia com abrang\u00eancia regional deve ser alimentada para expandir o impacto e a resson\u00e2ncia de sua cobertura. Ofere\u00e7o um produto essencial da experi\u00eancia: combinar o conhecimento e os altos padr\u00f5es do jornalismo de qualidade internacional com o grande talento dos jornalistas de l\u00edngua espanhola.<\/p>\n<p><strong>CK: O que o recebimento deste pr\u00eamio significa para voc\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p><strong>BM: <\/strong>Cito Nicanor Parra, o poeta s\u00e1bio:<\/p>\n<p>\u201cLos premios son<\/p>\n<p>Como las Dulicineas del Toboso<\/p>\n<p>Mientras +pensamos en ellas<\/p>\n<p>+lejanas<\/p>\n<p>+sordas<\/p>\n<p>+enigm\u00e1ticas<\/p>\n<p>Los premios son para los esp\u00edritus libres<\/p>\n<p>Y los amigos del jurado\u201d.<\/p>\n<p>Todavia caiu em mim o pr\u00eamio Maria Moors Cabot e eu o recebo com humildade em nome da equipe que durante tr\u00eas anos e sete meses produziu o The New York Times en Espa\u00f1ol.\u00a0 O Cabot alimenta a tradi\u00e7\u00e3o de premiar jornalistas de primeira linha, que definiram amplamente o tom, a altura e o alcance dos debates em que participaram e participam de seus respectivos pa\u00edses e al\u00e9m das fronteiras nacionais. \u00c9 um pr\u00eamio que reconhece o esfor\u00e7o de defender a liberdade de imprensa, a democracia e o entendimento interamericano. Para mim, \u00e9 obviamente uma grande honra fazer parte da linhagem que os venezuelanos admiravam muito como Teodoro Petkoff, Monsenhor Jes\u00fas Mar\u00eda Pell\u00edn e Ram\u00f3n J. Vel\u00e1squez. Ou intelectuais e jornalistas da altura de Mario Vargas Llosa, Carmen Aristegui, Gustavo Gorriti, Ginger Thompson, Jorge Ramos, e amigos \u00edntimos meus como Mart\u00edn Caparr\u00f3s, Carlos Dada e Jon Lee Anderson, tr\u00eas mestres do jornalismo atual. Voc\u00ea pode aspirar a uma companhia melhor?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Seria bobo e mentiroso dizer que n\u00e3o cometi erros. 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