{"id":4241,"date":"2019-10-09T19:00:16","date_gmt":"2019-10-10T00:00:16","guid":{"rendered":"https:\/\/live-lajr.pantheonsite.io\/?p=4241"},"modified":"2020-06-04T09:51:30","modified_gmt":"2020-06-04T14:51:30","slug":"somos-un-gremio-que-ha-tenido-que-organizarse-para-resistir-marcela-turati-periodista-mexicana-ganadora-del-premio-cabot","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latamjournalismreview.org\/pt-br\/articles\/somos-un-gremio-que-ha-tenido-que-organizarse-para-resistir-marcela-turati-periodista-mexicana-ganadora-del-premio-cabot\/","title":{"rendered":"\u201cSomos uma categoria que teve que se organizar para resistir\u201d: Marcela Turati, jornalista mexicana ganhadora do Pr\u00eamio Cabot"},"content":{"rendered":"<p dir=\"ltr\">\u201c<a href=\"https:\/\/journalism.columbia.edu\/maria-moors-cabot-2019\">Articuladora e l\u00edder de projetos colaborativos<\/a>, em um desses projetos investigou a execu\u00e7\u00e3o em 2010 de 72 imigrantes e o desaparecimento de outras centenas de pessoas, em sua maioria centro-americanos, por parte de narcotraficantes e policiais no mortal Estado mexicano de Tamaulipas. Sua reportagem revelou a trama oculta do massivo desaparecimento de pessoas e o grande n\u00famero de valas clandestinas existentes no M\u00e9xico\u201d, disse a Universidade de Columbia, em Nova York, nos Estados Unidos, sobre Marcela Turati.<\/p>\n<div style=\"width: 325px; font-size: 80%; text-align: left; float: left; padding-left: 10px; padding-right: 10px;\"><a target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img decoding=\"async\" style=\"width: 325px;\" src=\"https:\/\/live.staticflickr.com\/8355\/8272551357_1745437cbe_o.jpg\" \/><\/a>Marcela Turati (Twitter)<\/div>\n<p dir=\"ltr\">A premiada jornalista e autora mexicana Marcela Turati foi reconhecida desta vez com o Pr\u00eamio Maria Moors Cabot 2019 por sua excel\u00eancia profissional e por fomentar com suas reportagens um melhor entendimento interamericano.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">A Escola de Jornalismo da Universidade de Columbia concede os prestigiosos pr\u00eamios Cabot desde 1938, reconhecendo jornalistas do continente americano que se destacam na profiss\u00e3o.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Turati, natural do estado de Chihuahua, no norte do M\u00e9xico, tem coberto h\u00e1 v\u00e1rios anos a guerra contra o narcotr\u00e1fico no pa\u00eds, concentrando-se mais nas v\u00edtimas da viol\u00eancia, nas pessoas desaparecidas, em seus sobreviventes e em suas fam\u00edlias. Nos \u00faltimos anos, al\u00e9m disso, ela e seus colegas fundaram a rede <a href=\"https:\/\/www.periodistasdeapie.org.mx\/\">Periodistas de a Pie<\/a> e o portal investigativo <a href=\"https:\/\/quintoelab.org\/\">Quinto Elemento Lab<\/a>. Os dois coletivos buscam defender a liberdade de express\u00e3o, apoiar o exerc\u00edcio jornal\u00edstico e obter prote\u00e7\u00e3o para jornalistas mexicanos que recorrem a eles. Principalmente, apoiam jornalistas que trabalham nas regi\u00f5es mais perigosas e pobres do pa\u00eds.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Da mesma forma, com o Quinto Elemento Lab, Turati e seus colegas treinam jornalistas em t\u00e9cnicas e \u00e2ngulos inovadores de investiga\u00e7\u00e3o e d\u00e3o apoio emocional e psicol\u00f3gico aos jornalistas que h\u00e1 anos cobrem a viol\u00eancia do pa\u00eds.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">\u201cTantos anos de viol\u00eancia queimam, tantos anos de viol\u00eancia podem fazer com que se dilua a alegria de viver de uma pessoa, provocam trauma, estresse, nos fazem mudar como pessoas e o que queremos \u00e9 manter o cora\u00e7\u00e3o aberto e limpo, e poder seguir adiante sem nos acostumar com essa viol\u00eancia, mas tamb\u00e9m estar preparados para essa viol\u00eancia\u201d, disse Turati em uma comovente entrevista ao <strong>Centro Knight<\/strong>, a prop\u00f3sito do Pr\u00eamio Cabot.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">A seguir, a entrevista completa. As respostas foram traduzidas do espanhol e editadas para maior clareza e por sua extens\u00e3o.<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>Centro Knight: Quando ou como voc\u00ea decidiu se tornar jornalista?<\/strong><\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>Marcela Turati:<\/strong> Bem, na universidade. No come\u00e7o, eu queria estudar r\u00e1dio, e quando nos semestres finais, participei do curso subsistema, que s\u00e3o como aulas especializadas, por alguma raz\u00e3o escolhi o jornalismo, e nas aulas me apaixonei, me encantei. Me pareceu, n\u00e3o sei, que eu tinha facilidade para escrever, eu gostava.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Eu tamb\u00e9m tive que escrever sobre a Serra Tarhumara - eu sou de Chihuahua - e que havia fome e uma campanha foi feita para ajudar as pessoas, ent\u00e3o vi que havia uma pot\u00eancia a\u00ed para ajudar a mudar as coisas, n\u00e3o? E tamb\u00e9m tive professores muito bons que haviam sido, um deles, correspondente de guerra, e eu gostava muito de ouvir as hist\u00f3rias deles. E, ent\u00e3o, na universidade foi esse momento em que me entrou o bichinho do jornalismo. T\u00ednhamos um jornal escolar muito bom chamado La Guardilla, e l\u00e1 dei meus primeiros passos.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Depois, ainda na universidade, eu tinha algumas d\u00favidas, e queria estar em uma organiza\u00e7\u00e3o de direitos humanos ou ser jornalista. Passei meu \u00faltimo semestre em uma comunidade ind\u00edgena, em um projeto, ajudando a formar comunicadores populares ind\u00edgenas, mas l\u00e1 descobri que sou muito desesperada e que gostava das mudan\u00e7as que acontecem rapidamente, que a outra coisa era um processo de muitos anos e que eu gostava de investigar um assunto, tocar em um assunto e, \u00e9 claro, falar sobre isso e ver, e tratar de que hajam mudan\u00e7as no momento, e foi a\u00ed que decidi, bem, que a minha praia era o jornalismo. E imediatamente, ent\u00e3o, me contrataram quando me formei, me contrataram no jornal Reforma, e isso definiu meu caminho.<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>CK: Quando voc\u00ea pensa em todas as pessoas que j\u00e1 entrevistou e em todas as hist\u00f3rias que j\u00e1 cobriu, quais voc\u00ea diria que foram as mais interessantes ou com as quais aprendeu mais?<\/strong><\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>MT: <\/strong>Algo que me marcou, e que tem sido o que tem me marcado nos \u00faltimos anos, s\u00e3o as v\u00edtimas de viol\u00eancia, os sobreviventes, os familiares das v\u00edtimas, as pessoas que sobreviveram \u00e0 viol\u00eancia. Ent\u00e3o, para mim, talvez as pessoas que mais me comoveram, de quem eu mais aprendi, s\u00e3o as m\u00e3es, as irm\u00e3s, as filhas de pessoas desaparecidas, porque eu as vejo lutando todos os dias, procurando seus familiares, tentando de diferentes formas, mudando leis, fazendo mobiliza\u00e7\u00f5es, preparando-se em quest\u00f5es legais, tornando-se investigadoras quase particulares, aprendendo estrat\u00e9gias\u2026<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Me sinto privilegiada por poder acompanh\u00e1-las e sinto que elas tamb\u00e9m me humanizam, n\u00e3o? Quando vejo que tudo isso fazem por amor, e se realizam por amor, e como amam seus filhos, seus familiares que desapareceram. E sei que elas marcaram muito nos \u00faltimos anos. Com elas \u00e9 com quem aprendi muitas coisas e, bem, sou muito grata a elas porque sempre digo que elas me humanizaram.<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>CK: O que significa para voc\u00ea ser jornalista no M\u00e9xico e que tipo de jornalismo voc\u00ea faz agora?<\/strong><\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>MT:<\/strong> Bem, ser jornalista no M\u00e9xico \u00e9 um desafio constante. \u00c9 viver em um pa\u00eds onde, como digo h\u00e1 muito tempo, e v\u00e1rios dizemos, nos tornamos correspondentes de guerra sem sair de nossa terra. Onde v\u00e1rios decidimos cobrir a viol\u00eancia a partir de uma abordagem mais de direitos humanos, onde estamos em constante contato com a trag\u00e9dia, com as v\u00edtimas e tamb\u00e9m que nos desafia o tempo todo em como contar essas hist\u00f3rias para n\u00e3o normaliz\u00e1-las. Como continuar contando?<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Por exemplo, no meu caso, desde 2008, comecei a cobrir sistematicamente v\u00edtimas de viol\u00eancia, a acompanhar, a ver seus processos, a conversar com pessoas que foram deslocadas ou pessoas que t\u00eam um familiar desaparecido, ou sobreviventes ou testemunhas de massacres, ou familiares de pessoas massacradas, e existem milhares de milhares de v\u00edtimas... e para os jornalistas que cobrimos essas quest\u00f5es t\u00eam sido um desafio constante. Implicou nos tornar\u00a0 jornalistas e muitas outras coisas: jornalistas que tivemos que criar redes para nos proteger, nos capacitar em seguran\u00e7a f\u00edsica, seguran\u00e7a digital e seguran\u00e7a emocional\u2026<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Ou seja, dar import\u00e2ncia a estar em comunidade, a faz\u00ea-lo coletivamente, nos tornar comunidade e nos fortalecer, e cuidar de n\u00f3s mesmos entre muitos. Isso t\u00eam sido para mim estes anos de cobertura no M\u00e9xico, meu trabalho como jornalista, mas tamb\u00e9m meu trabalho como articuladora de redes ou coletivos, promotora, para que os diferentes coletivos se organizem e, juntos, vejamos como cuidamos de n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Tem sido toda uma \u00e9poca dif\u00edcil, porque mataram v\u00e1rios colegas queridos, conhecidos, matam muitos jornalistas, ent\u00e3o por isso ter essa consci\u00eancia de que, al\u00e9m de jornalistas, precisamos de alguma forma sair \u00e0s ruas ou fazer projetos jornal\u00edsticos para investigar esses assassinatos, para exigir justi\u00e7a e pedir o fim da impunidade. Ent\u00e3o, essa tem sido uma quest\u00e3o muito importante, que o jornalismo no M\u00e9xico, al\u00e9m de tudo, foi v\u00edtima da viol\u00eancia, e somos uma categoria que teve que se organizar para resistir, para cuidarnos uns dos outros e exigir justi\u00e7a. Ser jornalista no M\u00e9xico \u00e9 uma responsabilidade.<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>CK: Que sentimentos te movem quando voc\u00ea se lembra dos seus amigos jornalistas que perderam a vida por fazer seu trabalho no M\u00e9xico?<\/strong><\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>MT: <\/strong>Bem, isso tamb\u00e9m mudou, ou seja, determinou quem eu sou e as decis\u00f5es que tomei. O primeiro jornalista que conheci que foi assassinado foi 'Choco', Armando Rodr\u00edguez, jornalista de Ciudad Juarez, que era o que tomava o pulso de como estava a cidade. Foi muito dif\u00edcil esse assassinato. Quando eu j\u00e1 havia fundado com outros colegas Periodistas de a Pie, era uma organiza\u00e7\u00e3o que criamos primeiro para nos organizar e cobrir melhor os programas sociais, os temas sociais que, depois, devido \u00e0 viol\u00eancia, fomos mudando para dar oficinas, treinamentos e acompanhar de alguma forma os jornalistas. Chegavam jornalistas dos Estados mais perigosos e onde come\u00e7amos a ter contato e consci\u00eancia sobre o qu\u00e3o perigoso era ser jornalista no M\u00e9xico e em algumas regi\u00f5es. Isso determinou muito meu trabalho como jornalista, por um lado, cobrindo v\u00edtimas, mas era como ter um papel duplo, porque era tamb\u00e9m como capacitadora e acompanhante de jornalistas em risco ao mesmo tempo.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Ent\u00e3o, come\u00e7amos, e foi a partir do caso de Armando, quando nos demos conta de que todos t\u00ednhamos que sair para protestar porque os jornalistas nos Estados estavam sozinhos, porque s\u00e3o eles que carregam o pior fardo, porque s\u00e3o os que est\u00e3o mais amea\u00e7ados e porque havia falta de solidariedade nos jornalistas que viv\u00edamos na Cidade do M\u00e9xico, embora eu tamb\u00e9m seja de Chihuahua...<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Bem, e depois - entre mais assassinatos que te faziam ter tens\u00e3o psicol\u00f3gica - os amigos, os companheiros, fizemos miss\u00f5es de investiga\u00e7\u00e3o. Estive em tr\u00eas miss\u00f5es diferentes, para dois jornalistas assassinados e para um jornalista que desapareceu. Tratar de organizar as pessoas ou apoiar, realizar oficinas e apoiar as pessoas em seu processo de reunir seus pr\u00f3prios coletivos nos Estados onde havia mais perigo para que se protejam, e se capacitem uns aos outros e saibam o que fazer em casos de emerg\u00eancia. Tamb\u00e9m articular organiza\u00e7\u00f5es sociais, aos jornalistas l\u00edderes desses grupos, para que, se houver um alerta, saiba o que fazer.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Tivemos tamb\u00e9m o assassinato de Regina Mart\u00ednez, ela era a correspondente de Proceso em Veracruz. Ela era uma jornalista investigativa muito importante que sabia e estava investigando a narcopol\u00edtica. Depois, houve o assassinato de Gregorio Jim\u00e9nez. Eu n\u00e3o o conhecia, mas sua chefe nos pediu ajuda porque ele acabara de ser sequestrado. Eles o detiveram, ou seja, durante um m\u00eas que n\u00e3o se soube dele e foi um m\u00eas de campanhas intensas para pedir sua liberta\u00e7\u00e3o. E quando ele foi assassinado, fizemos esta primeira miss\u00e3o de investiga\u00e7\u00e3o de seu assassinato.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Ent\u00e3o mataram Rub\u00e9n Espinoza, o fot\u00f3grafo. Ele mandava fotos para a revista Proceso desde Veracruz tamb\u00e9m, e foi \u00e0 Cidade do M\u00e9xico pedir ajuda. Ele nos pediu aten\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica, n\u00f3s o ajudamos a encontrar um psic\u00f3logo, e ele foi assassinado em um homic\u00eddio m\u00faltiplo com outras pessoas, incluindo Nadia Vera, ativista de Veracruz, e esse assassinato na Cidade do M\u00e9xico marcou muito muitos de n\u00f3s. Foi muito importante porque nos fez entender que n\u00e3o havia um lugar seguro, que a bolha que pens\u00e1vamos ser a Cidade do M\u00e9xico havia estourado, que os assassinatos podiam ocorrer em casa e que t\u00ednhamos que fazer mais coisas, que aquilo que hav\u00edamos feito at\u00e9 aquele momento n\u00e3o havia sido suficiente. T\u00ednhamos que nos organizar melhor.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Ent\u00e3o, mataram Miroslava Breach, que eu tamb\u00e9m conhecia, em 2017. Ela era a jornalista especialista, a mais importante, a mais reconhecida em Chihuahua... E a outra que nos acertou no cora\u00e7\u00e3o foi a de Javier Valdez, tamb\u00e9m muito amigo, que eu digo que era como nosso irm\u00e3o mais velho. Era esse jornalista que nos ensinou a cobrir, no norte, o narcotr\u00e1fico, o que se podia fazer, o que n\u00e3o se podia fazer. Era nosso guia, era um bom amigo, era... Seu assassinato nos impactou tamb\u00e9m porque vimos que n\u00e3o importa se voc\u00ea tem pr\u00eamios internacionais, por mais conhecido que voc\u00ea seja, todos est\u00e3o em risco e, bem, o assassinato de Javier tamb\u00e9m, n\u00e3o sei, cada assassinato foi dif\u00edcil.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Eles foram plantando perguntas, d\u00favidas, desafios, como continuar, o processo de nos articular, de nos organizar, o que serve, o que n\u00e3o serve... Cada um definiu, marcou de diferentes maneiras. Me trouxeram questionamentos, d\u00favidas, dores, tristezas, tamb\u00e9m me levaram a conhecer pessoas impressionantes, seus colegas resilientes, fortes, corajosos, que continuam a pedir justi\u00e7a. Vi, assim, como surgiram redes a partir de todos esses assassinatos, como da morte saiu vida, como depois que matam 'Choco' se cria a Rede de Jornalistas de Juarez, com queridas amigas. Como, ap\u00f3s o assassinato de Javier, \u00e9 criada toda uma comiss\u00e3o de investiga\u00e7\u00e3o, de seguimento desse caso, de jornalistas que o homenageiam, a mem\u00f3ria. Como, ap\u00f3s o assassinato de Regina e Rub\u00e9n, se cria um coletivo em Veracruz, Voz Alterna, e se cria um novo meio de comunica\u00e7\u00e3o. E como cada assassinato, cada agress\u00e3o ou cada desaparecimento de cada jornalista, em vez de matar, embora consiga que alguns abandonem a profiss\u00e3o, tamb\u00e9m fortalece o compromisso daqueles que permanecem e estes, por sua vez, criam suas redes.<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>CK: Que reportagem ou tema jornal\u00edstico te parece mais relevante hoje?<\/strong><\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>MT: <\/strong>Gostaria de ter mais tempo agora que voltarei ao M\u00e9xico, depois de v\u00e1rias viagens. Ent\u00e3o come\u00e7ar a \"cronicar\" as mudan\u00e7as que est\u00e3o ocorrendo no pa\u00eds com este novo governo. As mudan\u00e7as nos programas sociais, os impactos que este est\u00e1 tendo, isso me parece importante. O outro, tamb\u00e9m j\u00e1 h\u00e1 algum tempo, eu e outras colegas percebemos que temos que investigar a l\u00f3gica do desaparecimento de pessoas, n\u00e3o apenas dizer que est\u00e3o desaparecendo, mas come\u00e7ar a investigar mais. \u00c9 isso que tentamos fazer com o projeto El Mapa de Fosas que fizemos e com v\u00e1rios dos projetos que temos. Ent\u00e3o \u00e9 isso, investigar melhor, com novas t\u00e9cnicas, come\u00e7ar a explicar certos massacres, n\u00e3o sei.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">E outro tema que me parece indispens\u00e1vel, urgente, importante, que lamento n\u00e3o estar cobrindo s\u00e3o as caravanas de migrantes e tudo o que est\u00e1 acontecendo agora com migrantes, fronteiras e em sua rota pelo M\u00e9xico, e esses acampamentos que foram criados no norte e tamb\u00e9m os perigos que est\u00e3o sendo vividos em v\u00e1rias regi\u00f5es, por todo esse caminho. Sim, o pa\u00eds est\u00e1 mudando muito rapidamente e nas rotas migrat\u00f3rias est\u00e1 desaparecendo muita gente, h\u00e1 muitos abusos. E que h\u00e1 um discurso duplo [desde a pol\u00edtica] e eu adoraria estar cobrindo isso.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Ou seja, h\u00e1 muitas coisas que me parecem urgentes para cobrir e, por isso, quase sempre trabalho em equipe, porque em uma equipe colaborativa fazemos isso porque, n\u00e3o sei, tem alcances diferentes. Sigo colaborando com a revista Proceso, mas j\u00e1 fundei h\u00e1 dois anos e meio o Quinto Elemento Lab, que \u00e9 um laborat\u00f3rio de investiga\u00e7\u00e3o e inova\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica, onde acompanhamos reportagens de outros, acompanhamos desde o in\u00edcio at\u00e9 o fim, at\u00e9 que sejam publicadas, e s\u00e3o processos longos porque s\u00e3o investiga\u00e7\u00f5es profundas de temas de impacto, alguns deles arriscados. Foi tamb\u00e9m como mudar a velocidade, de como eu vinha cobrindo. N\u00e3o preciso mais fazer mat\u00e9rias semanais, n\u00e3o preciso mais fazer not\u00edcias do dia, agora s\u00e3o processos mais longos, trabalhar meus projetos, acompanhar os projetos de outras pessoas e escolher quais s\u00e3o os temas mais importantes neste momento. Bem, \u00e9 um desafio. Isso tem sido ao que eu tenho me dedicado neste per\u00edodo.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Minha agenda neste momento, al\u00e9m dos temas que eu gostaria de cobrir, \u00e9 que estou me ocupando um pouco mais no jornalismo, al\u00e9m de tentar organizar, tentar que nos articulemos melhor os jornalistas de v\u00e1rias regi\u00f5es e tamb\u00e9m os jornalistas que cobrimos desaparecimento de pessoas. No momento, minha preocupa\u00e7\u00e3o tem sido blindar Quinto Elemento, torn\u00e1-la uma pot\u00eancia real para poder acompanhar em suas reportagens jornal\u00edsticas os jornalistas que chegam com os temas que trazem e que muitas vezes s\u00e3o perigosos\u2026<\/p>\n<p dir=\"ltr\">E, por outro lado, tamb\u00e9m, porque parte das preocupa\u00e7\u00f5es ou dos temas dos quais estou me ocupando \u00e9 tentar encontrar, de que nos articulemos os jornalistas que cobrimos desaparecimentos, que cubramos melhor, que investiguemos melhor, que pensemos de maneira diferente, que pensemos nas l\u00f3gicas, mas tamb\u00e9m que os jornalistas que acompanham as exuma\u00e7\u00f5es, as fossas, os familiares e as v\u00edtimas da viol\u00eancia tamb\u00e9m tenham melhores condi\u00e7\u00f5es... Porque tantos anos de viol\u00eancia queimam, tantos anos de viol\u00eancia podem diluir a alegria de viver de uma pessoa, causam trauma, causam estresse, nos fazem mudar como pessoas e o que queremos \u00e9 manter o cora\u00e7\u00e3o aberto e limpo, e poder seguir em frente sem nos acostumarmos com essa viol\u00eancia, mas tamb\u00e9m estar preparados para essa viol\u00eancia.<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>CK: O que significa o pr\u00eamio Maria Moors Cabot para voc\u00ea? Como voc\u00ea se sente?<\/strong><\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>MT:<\/strong> O Pr\u00eamio Cabot \u00e9 muito importante para mim e para minha carreira. \u00c9 um pr\u00eamio muito querido para mim. Quando estudava e entrei no Reforma, era o pr\u00eamio do qual eu gostava, era algo m\u00e1gico, n\u00e3o sei como explicar, mas era como um guia. O Cabot era dado a pessoas que eu respeitava muit\u00edssimo, a mestres e mestras que eu amava muito e cujos trabalhos me pareciam impressionantes.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Tamb\u00e9m me ajudou a descobrir pessoas no continente que faziam coisas, era como um farol a seguir. Ent\u00e3o, me sinto muito honrada por terem me escolhido. Que eu sempre penso que me escolher tamb\u00e9m \u00e9 um afago, \u00e9 ver com carinho o que tentamos fazer tantos anos no M\u00e9xico, muitos. Porque meu trabalho sempre foi colaborativo, \u00e9 colaborativo h\u00e1 muitos anos, \u00e9 trabalhar em equipe, \u00e9 trabalhar com muitas pessoas...<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Bem, sinto-me muito honrada... [Este pr\u00eamio] \u00e9 uma responsabilidade, \u00e9 uma maneira de chamar a aten\u00e7\u00e3o para o que est\u00e1 acontecendo conosco no M\u00e9xico, o que est\u00e1 acontecendo e a luta, o esfor\u00e7o, a luta que temos levado os jornalistas mexicanos para nos organizar, para nos cuidar entre n\u00f3s, para nos capacitar, para criar redes, para fazer investiga\u00e7\u00f5es conjuntas e para seguir fazendo jornalismo, ainda que em contextos t\u00e3o diversos. E por esse lado \u00e9 importante. N\u00e3o sei, me sinto muito honrada e n\u00e3o tenho palavras, na verdade, para expressar o que sinto com o Cabot, e estou muito grata por esta entrevista.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Seu assassinato nos impactou tamb\u00e9m porque vimos que n\u00e3o importa se voc\u00ea tem pr\u00eamios internacionais, por mais conhecido que voc\u00ea seja, todos est\u00e3o em risco e, bem, o assassinato de Javier tamb\u00e9m, n\u00e3o sei, cada assassinato foi dif\u00edcil.<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":4233,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"inline_featured_image":false,"footnotes":""},"categories":[1353],"tags":[1394,1559],"coauthors":[],"class_list":["post-4241","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-premios-e-oportunidades-pt-br","tag-mexico-pt-br","tag-premios-pt-br"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO Premium plugin v22.6 (Yoast SEO v27.1.1) - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-premium-wordpress\/ -->\n<title>\u201cSomos uma categoria que teve que se organizar para resistir\u201d: Marcela Turati, jornalista mexicana ganhadora do Pr\u00eamio Cabot - LatAm Journalism Review by the Knight Center<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"\u201cSomos uma categoria que teve que se organizar para resistir\u201d: Marcela Turati, jornalista mexicana ganhadora do Pr\u00eamio Cabot Pr\u00eamios e Oportunidades. 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