{"id":44433,"date":"2016-07-20T08:52:45","date_gmt":"2016-07-20T13:52:45","guid":{"rendered":"https:\/\/latamjournalismreview.org\/?p=44433"},"modified":"2021-12-07T08:55:08","modified_gmt":"2021-12-07T13:55:08","slug":"reportagem-especial-novo-jornalismo-cubano-nasce-na-internet-fora-da-midia-oficial-e-de-oposicao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latamjournalismreview.org\/pt-br\/articles\/reportagem-especial-novo-jornalismo-cubano-nasce-na-internet-fora-da-midia-oficial-e-de-oposicao\/","title":{"rendered":"Reportagem Especial: Novo jornalismo cubano nasce na Internet, fora da m\u00eddia oficial e de oposi\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Daniel Wizenberg *<\/em><\/p>\n<p>O jornalismo digital chegou a Cuba, \u00e0 maneira cubana.\u200b<\/p>\n<p>Rodolfo Romero tem 27 anos. Ele recebeu dinheiro do governo cubano para financiar um site de not\u00edcias. Iria se chamar\u00a0<em>Cuba acusa<\/em>, mas n\u00e3o gostava do tom beligerante do nome, ent\u00e3o decidiu colocar\u00a0<em>Cuba denuncia<\/em>, mas descobriu que assim j\u00e1 \u00e9 chamado um site de dissidentes cubanos exilados. Romero \u00e9, portanto, editor do site\u00a0<a href=\"http:\/\/www.pensarencuba.cu\/\">Pensar em Cuba<\/a>. Nele s\u00e3o denunciadas e acusadas as v\u00e1rias pol\u00edticas dos Estados Unidos em rela\u00e7\u00e3o a Cuba nos \u00faltimos 50 anos. Romero atualiza o site com sua equipe, vinculada ao Minist\u00e9rio da Cultura.<\/p>\n<p>Como trabalha para uma meio de comunica\u00e7\u00e3o oficial, a equipe de Romero tem sete computadores com internet ADSL dispon\u00edveis, o que \u00e9 incomum em um pa\u00eds onde a conectividade \u00e9 dif\u00edcil. Com um aparelho de \u00faltima gera\u00e7\u00e3o, que custa vinte sal\u00e1rios m\u00ednimos, \u00e9 poss\u00edvel se conectar atrav\u00e9s de diferentes pontos de Wi-Fi p\u00fablico dispon\u00edveis em sessenta e cinco pra\u00e7as de todo o pa\u00eds e na porta dos hot\u00e9is internacionais, mas para isso \u00e9 necess\u00e1rio comprar um cart\u00e3o da empresa estatal Nauta que agora se consegue obter por CUC (pouco mais de US $ 2 d\u00f3lares) e permite apenas uma hora de conex\u00e3o trepidante.<\/p>\n<p>Em setembro de 2015, John Kerry, secret\u00e1rio de Estado dos EUA,\u00a0<a href=\"http:\/\/iipdigital.usembassy.gov\/st\/spanish\/texttrans\/2015\/08\/20150814316781.html#axzz4EyWaofWo\">disse que o pa\u00eds est\u00e1 disposto a investir em telecomunica\u00e7\u00f5es<\/a>. O presidente Barack Obama reiterou o an\u00fancio durante visita \u00e0 ilha seis meses depois, em mar\u00e7o de 2016.<\/p>\n<p>Os norteamericanos detectaram algo cada vez mais evidente: h\u00e1 uma demanda de mudan\u00e7a nos meios de comunica\u00e7\u00e3o, tanto em infra-estrutura quanto em conte\u00fado.<\/p>\n<p>Apenas cinco por cento dos lares t\u00eam conex\u00e3o e estima-se que s\u00f3 27 por cento da popula\u00e7\u00e3o possua\u00a0acesso \u00e0 internet. A informa\u00e7\u00e3o circula atrav\u00e9s da transfer\u00eancia de material de m\u00e3o em m\u00e3o. DVDs, pen drives e links atrav\u00e9s de chat internos (WhatsApp est\u00e1 proibido) circulam na velocidade da luz.<\/p>\n<p>\"Em Cuba existe uma realidade\u00a0<em>sui generis<\/em>, onde a desconex\u00e3o da rede virtual n\u00e3o \u00e9 sin\u00f4nimo de isolamento cultural e informativo\", dizem no\u00a0<strong>El Estornudo<\/strong>, um novo meio que se posiciona como independente,\u00a0<a href=\"https:\/\/cachivachemedia.com\/desconectados-en-cuba-s%C3%AD-pero-cu%C3%A1nto-dfc85519d6bf#.kd3sf24rd\">mas citando seus colegas do Cachivache<\/a>.<\/p>\n<p><span class=\"message_body\">\"Em qualquer caf\u00e9 ou carro de aluguel ressoam a todo momento os sucessos musicais das paradas da Billboard, ou apenas cinco dias depois de divulgada na Netflix, a quarta temporada de House of Cards \u2013 em alta defini\u00e7\u00e3o \u2013 j\u00e1 viajava de mem\u00f3ria em mem\u00f3ria por Havana\u201d, ampliavam do Cachivache.<\/span><\/p>\n<p>Esta penetra\u00e7\u00e3o capilar de conte\u00fados, apesar das dificuldades, teve consequ\u00eancias sobre a cultura das novas gera\u00e7\u00f5es que, ao contr\u00e1rio da gera\u00e7\u00e3o de seus pais, puderam informar-se e com efeito consumir muito al\u00e9m do que a Revolu\u00e7\u00e3o determinou.<\/p>\n<p><strong>Geografia jornal\u00edstica\u200b<\/strong><\/p>\n<p>O mapa da m\u00eddia cubana \u00e9 composto por tr\u00eas tipos de m\u00eddia: os meios estatais centen\u00e1rios controlados pelo Partido Comunista; os n\u00e3o estatais \u2013 meios alternativos na Internet que se divididem entre os opositores ao sistema (que querem o fim do socialismo), e os n\u00e3o opositores (que criticam a lideran\u00e7a, mas s\u00e3o relativamente a favor do socialismo); e, finalmente, os estrangeiros \u2013 o \"mainstream\" internacional, de um lado, e a m\u00eddia financiada por cubanos no exterior, do outro.<\/p>\n<p>A m\u00eddia estatal est\u00e1 sob supervis\u00e3o do Departamento do Partido Comunista de Orienta\u00e7\u00e3o Revolucion\u00e1ria, que desenvolve e coordena as estrat\u00e9gias de propaganda. A liberdade de express\u00e3o e de imprensa deve ser exercida em conformidade com os objetivos da sociedade socialista e nenhuma das liberdades concedidas aos cidad\u00e3os pode ser exercida contrariamente \u00e0s disposi\u00e7\u00f5es da Constitui\u00e7\u00e3o e das leis, \u201cnem contra a exist\u00eancia e os objetivos do Estado socialista, nem contra a decis\u00e3o do povo cubano de construir o socialismo e o comunismo.\u201d \u00c9 o que diz o artigo 53 da Constitui\u00e7\u00e3o, que afirma tamb\u00e9m: \u201cO jornal impresso, o r\u00e1dio, a televis\u00e3o, o cinema e os demais meios de comunica\u00e7\u00e3o massiva s\u00e3o propriedade estatal ou social e n\u00e3o podem ser objeto, em nenhum caso, de propriedade privada.\u201d<\/p>\n<p>O jornal\u00a0<a href=\"http:\/\/www.granma.cu\/\">Granma<\/a>, os sites\u00a0<a href=\"http:\/\/www.cubadebate.cu\/\">Cuba Debate<\/a>\u00a0e\u00a0<a href=\"http:\/\/www.juventudrebelde.cu\/\">Juventude Rebelde<\/a>, a emissora Televis\u00e3o Cubana e as esta\u00e7\u00f5es\u00a0<a href=\"http:\/\/www.radiorebelde.cu\/\">R\u00e1dio Rebelde<\/a>,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.radioreloj.icrt.cu\/es\/inicio\/\">R\u00e1dio Rel\u00f3gio<\/a>\u00a0(que anuncia a hora a cada minuto, enquanto l\u00ea not\u00edcias) e\u00a0<a href=\"http:\/\/www.radiotaino.cu\/\">R\u00e1dio Ta\u00edno<\/a>\u00a0s\u00e3o os meios de comunica\u00e7\u00e3o de massa.<\/p>\n<p>Os n\u00e3o estatais opositores t\u00eam como expoentes a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.14ymedio.com\/\">14ymedio<\/a>\u00a0e a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.damasdeblanco.com\/\">Damas de Branco<\/a>, enquanto que entre os \u201cn\u00e3o opositores\u201d se destacam\u00a0<a href=\"http:\/\/www.periodismodebarrio.org\/\">Periodismo de Barrio<\/a>,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.revistaelestornudo.com\/\">El Estornudo<\/a>\u00a0e\u00a0<a href=\"https:\/\/cachivachemedia.com\/\">Cachivache<\/a>. Entre os opositores existe um caso particular: o site\u00a0<a href=\"http:\/\/www.martinoticias.com\/\">Mart\u00ed Not\u00edcias<\/a>\u00a0\u00e9 financiado diretamente pelo governo dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 m\u00eddia estrangeira, por um lado est\u00e3o os correspondente da\u00a0<a href=\"http:\/\/lta.reuters.com\/\">Reuters<\/a>,\u00a0<a href=\"https:\/\/actualidad.rt.com\/\">Russia Today<\/a>,\u00a0<a href=\"http:\/\/ap.org\/\">The Associated Press<\/a>\u00a0(AP),\u00a0<a href=\"http:\/\/www.efe.com\/efe\/america\/2\">Agencia EFE<\/a>,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.afp.com\/es\">Agence France-Presse<\/a>\u00a0(AFP) e dezenas de outros meios de comunica\u00e7\u00e3o internacional.<\/p>\n<p>Em 2007, o Centro de Imprensa Internacional (CPI), \u00f3rg\u00e3o encarregado das rela\u00e7\u00f5es com a imprensa estrangeira, expulsou os correspondentes do jornal mexicano\u00a0<em>El Universal<\/em>, C\u00e9sar Gonz\u00e1lez-Calero; do\u00a0<em>Chicago Tribune<\/em>, Gary Marx; e da\u00a0<em>BBC<\/em>, Stephen Gibbs, por seus trabalhos \u201cnegativos para a Revolu\u00e7\u00e3o.\u201d Tais medidas eram tomadas regularmente at\u00e9 2014, ano em que tal pr\u00e1tica perdeu for\u00e7a.<\/p>\n<p>Do outro lado da imprensa estrangeira, est\u00e3o os meios de comunica\u00e7\u00e3o financiados por emigrantes cubanos como\u00a0<a href=\"http:\/\/oncubamagazine.com\/\">OnCuba<\/a>, que \u00e9 o mais importante, seguido por\u00a0<a href=\"https:\/\/www.cubanet.org\/\">CubaNet<\/a>.\u200b<\/p>\n<p><strong>Crise monopolista\u200b<\/strong><\/p>\n<p>\"Aqui nos disseram por muito tempo que se ced\u00eassemos nos comeriam os ianques, mas n\u00e3o, temos que ser capazes de dizer o que quisermos sem que isso signifique que nos comam os ianques, e vejo que nos comem os ianques igualmente e colocam a culpa nos rep\u00f3rteres,\u201d comenta um jornalista que trabalha em um dos quatro canais de TV oficiais, onde o sal\u00e1rio m\u00ednimo \u00e9 de US $ 20 d\u00f3lares.<\/p>\n<p>Quer defender a revolu\u00e7\u00e3o, mas \u201cn\u00e3o assim\u201d, e se refere aos dirigentes como \u201cos dinossauros\u201d. Colabora em off com outros jornalistas de novas m\u00eddias que surgiram recentemente na Internet, repassa para elas a informa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o pode publicar.<\/p>\n<p>Laura B\u00e9cquer, 28, est\u00e1 h\u00e1 seis trabalhando para o Granma, \"<a href=\"http:\/\/www.univision.com\/organizaciones\/medios-de-comunicacion\/nueva-revolucion-en-cuba-jovenes-periodistas-cuentan-el-deshielo\">defende os esfor\u00e7os do jornal para manter-se na era digital.\u201d<\/a>\u00a0\"Ela assegurou que os meios de comunica\u00e7\u00e3o estatais est\u00e3o tentando seduzir o p\u00fablico com hist\u00f3rias que n\u00e3o ignoram as falhas do sistema: como uma hist\u00f3ria recente sobre o encarecimento de alguns produtos b\u00e1sicos, como o tomate e a mandioca\", disse Univision. Doze milh\u00f5es de pessoas vivem na ilha, a maioria os consome diariamente.<\/p>\n<p>\"Granma \u00e9 como o lobo, todo mundo tem medo, mas, no final, h\u00e1 muita gente jovem que tenta fazer jornalismo de dentro com as limita\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas que temos,\u201d disse ela. Seu escrit\u00f3rio, como o de Rodolfo Romero, \u00e9 um dos locais da ilha onde melhor funciona a Internet.<\/p>\n<p>A concorr\u00eancia entre a imprensa oficial e os meios alternativos \u00e9 sentida no ar, \u00e9 uma disputa sobre os conte\u00fados e os nuances informativos. Hoje, n\u00e3o \u00e9 audi\u00eancia, n\u00e3o \u00e9 mercado que est\u00e1 em jogo, mas sim o discurso. O mapa da m\u00eddia cubana est\u00e1 se reconfigurando no calor da crise do \u201co que dizer\u201d e \u201csobre o que falar.\u201d<\/p>\n<p>O descongelamento da Revolu\u00e7\u00e3o reaqueceu a discuss\u00e3o sobre enquadramento. Ele est\u00e1 derretendo o controle estatal da informa\u00e7\u00e3o e desativando a polariza\u00e7\u00e3o.\u200b<\/p>\n<p>Antes, m\u00eddias alternativas eram estritamente opositoras, eram \u201cos meios de comunica\u00e7\u00e3o de Miami,\u201d um contradiscurso f\u00e1cil de desarticular para o Estado. Granma dizia \u201c\u00e9 mentira dos vermes\u201d, e acabava o assunto. Mas a maioria dos novos meios alternativos n\u00e3o prov\u00e9m de Miami. S\u00e3o promovidos por jovens jornalistas que pretendem democratizar a Revolu\u00e7\u00e3o. Eles s\u00e3o aqueles que por for\u00e7a de entusiasmo deu origem \u00e0 categoria de \u201cn\u00e3o oposi\u00e7\u00e3o\u201d.\u200b<\/p>\n<p>Pediram a um jornalista argentino que escrevesse um artigo para Cuba Debate sobre as elei\u00e7\u00f5es presidenciais no seu pa\u00eds, de outubro de 2015, no contexto pol\u00edtico latino-americano. Logo ap\u00f3s o envio da not\u00edcia, chegou para ele pequena corre\u00e7\u00e3o: \u201cA nota est\u00e1 muito boa (NdaR: o artigo criticava o rec\u00e9m eleito presidente, o centro-direitista Mauricio Macri), mas Maduro \u00e9 amigo ... n\u00f3s tiramos aquela partezinha em que voc\u00ea diz que seu poder pol\u00edtico est\u00e1 se tornando mais complicado a cada dia, e pronto\u201d, respondeu a editora.<\/p>\n<p>H\u00e1, por um lado, proibi\u00e7\u00f5es (de abordagens, fontes, cita\u00e7\u00f5es) e por outro uma gin\u00e1stica: os editores treinaram o m\u00fasculo da corre\u00e7\u00e3o no terreno da auto-censura, seguindo a pol\u00edtica do \u201cmelhor n\u00e3o falar sobre certas coisas.\u201d Nenhuma m\u00eddia oficial tem permitido, por raz\u00f5es que ningu\u00e9m explicou, escrever artigos sobre a Coreia do Norte. Foi instalada uma cultura jornal\u00edstica baseada em evitar irritar as lideran\u00e7as.<\/p>\n<p>Mas a nova gera\u00e7\u00e3o parece esgotada disso: \u201cagora mais do que nunca temos de ser mais criativos e corajosos, que se abram muitas cabe\u00e7as e, especialmente, aquelas que permaneceram nos anos sessenta,\u201d diz um fot\u00f3grafo que ainda trabalha em um site digital oficial. Mas ele n\u00e3o quer dar seu nome, por medo de sofrer algo como o que aconteceu com um jornalista que como ele trabalhava em um dos meios digitais estatais. Devido a alguns coment\u00e1rios e posts em seu Facebook criticando um discurso de Ra\u00fal Castro, ele sofreu o corte repentino de sua conex\u00e3o com a Internet e a exig\u00eancia do dobro do trabalho do que antes.<\/p>\n<p>Os editores e diretores do meios de comunica\u00e7\u00e3o da Revolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o t\u00eam autoridade para decidir sobre qualquer coisa levemente relevante. N\u00e3o tra\u00e7am a pol\u00edtica editorial, n\u00e3o transmitem nada que n\u00e3o tenha sido aprovado pelo Partido Comunista.<\/p>\n<p>Durante o Dia Internacional dos Direitos Humanos de 2015,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.amnesty.org\/en\/latest\/campaigns\/2016\/03\/six-facts-about-censorship-in-cuba\/\">n\u00e3o foi permitido aos jornalistas do 14ymedio \u2013 fundado por Yoani S\u00e1nchez \u2013 informar sobre um protesto<\/a>\u00a0coordenado pelo Damas de Branco e pelo Todos Marchamos, grupo que periodicamente se organiza para mobilizar-se contra o regime de Castro, de acordo com a Anistia Internacional (AI). Damas de Branco \u00e9 um movimento cidad\u00e3o cubano que re\u00fane esposas e outros familiares de presos cubanos, geralmente considerados como presos pol\u00edticos, embora para a Revolu\u00e7\u00e3o sejam presos comuns.<\/p>\n<p>De acordo com a AI, um jornalista trabalhando secretamente em Havana com o Damas de Branco disse que agentes do Servi\u00e7o de Seguran\u00e7a do Estado bloquearam a porta do edif\u00edcio onde os jornalistas estavam trabalhando e disseram-lhes: \u201cHoje n\u00e3o v\u00e3o sair.\u201d Em 2014, o artista de graffiti Danilo Maldonado Machado, conhecido como \u201cO Sexto\u201d, tentou fazer uma performance em que planejava lan\u00e7ar dois su\u00ednos vivos cujos lombos levavam escrito as palavras Ra\u00fal e Fidel Castro. Antes de execut\u00e1-la, ele foi acusado de desacato, e passou grande parte de 2015 na pris\u00e3o, embora nunca tenha sido formalmente acusado ou levado perante um juiz, de acordo com a AI.<\/p>\n<p>As novas m\u00eddias de n\u00e3o-oposi\u00e7\u00e3o nada disseram a respeito. Os meios de oposi\u00e7\u00e3o indicam que nesta postura encontram-se resqu\u00edcios da censura tradicional, \u201cuma omiss\u00e3o da ideia de que quando a possibilidade de cr\u00edtica \u00e9 aberta, se abre a qualquer cr\u00edtica, \u00e9 um fetiche de abertura e n\u00e3o uma realidade efetiva\u201d, segundo um jornalista pr\u00f3ximo a Yoani S\u00e1nchez, editora de 14ymedio.<\/p>\n<p>H\u00e1 um impulso democratizante, mas que parece estar ancorado na amplia\u00e7\u00e3o do \u201cn\u00f3s\u201d e permanece incompleto, na medida em que continua a excluir \u201celes\u201d. Apesar disso, a quebra do monop\u00f3lio estatal de informa\u00e7\u00e3o se torna aparente. Mesmo no por\u00e3o da clandestinidade, ou difundindo de Miami, sempre houve meios opositores \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o. Mas meios favor\u00e1veis a ela sendo cr\u00edticos do Partido Comunista, dizendo que tal coisa est\u00e1 bem e outra mal, n\u00e3o t\u00eam precedentes em Cuba, onde o jornalismo tinha se acostumado a totalizar.<\/p>\n<p><strong>Meios do degelo<\/strong><\/p>\n<p>Os novos meios cubanos \u201cn\u00e3o opositores\u201d possuem v\u00e1rios pontos em comum. Al\u00e9m de evitar se posicionar nos extremos, eles narram as hist\u00f3rias que a imprensa oficial n\u00e3o conta, fazem reportagens de den\u00fancia, mas tamb\u00e9m perfis e cr\u00f4nicas da vida cotidiana na ilha. Buscam um lugar entre Miami e a Pra\u00e7a da Revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando em dezembro de 2014 Obama e Castro formalizaram o in\u00edcio do degelo, nenhum dos novos meios \"n\u00e3o opositores\" existia. Todos nasceram em 2015.<\/p>\n<p>Um dos exemplos mais emblem\u00e1ticos \u00e9 o Jornalismo de Bairro, cujos integrantes s\u00e3o listados nos registros oficiais como \"desempregados\". Um s\u00edmbolo de que o governo revolucion\u00e1rio se flexibilizou ao longo do tempo, j\u00e1 que algumas d\u00e9cadas atr\u00e1s teriam sido declarados ilegais, a rejei\u00e7\u00e3o se transformou em indiferen\u00e7a, o que, pelo menos, os permite existir.<\/p>\n<p>Sua fundadora, Elaine D\u00edas Rodriguez, de 27 anos, faz parte da rede Global Voices, que articula blogueiros cidad\u00e3os em todo o mundo. Foi uma das primeiras cubanas a receber uma bolsa para estudar na Universidade de Harvard como Nieman Fellow. Depois de juntar dinheiro e contatos, regressou a Cuba, onde come\u00e7ou a desenvolver o Jornalismo de Bairro.<\/p>\n<p>Ele \u00e9 financiado por meio de contribui\u00e7\u00f5es de ag\u00eancias internacionais, como a Funda\u00e7\u00e3o Sueca de Direitos Humanos e a Funda\u00e7\u00e3o Nieman, entre outras. Periodicamente s\u00e3o publicados \u201crelat\u00f3rios de transpar\u00eancia\u201d onde s\u00e3o detalhadas todas as despesas. V\u00e1rias contribui\u00e7\u00f5es s\u00e3o pagas e a pequena equipe trabalha diariamente no site em tempo integral. Eles falam da polui\u00e7\u00e3o no Delta Quib\u00fa, mas tamb\u00e9m de como os pescadores passam horas em alto-mar, ou como um judoca se prepara para os Jogos Ol\u00edmpicos.<\/p>\n<p>El Estornudo\u00a0[O Espirro]\u00a0\u00e9 outro dos s\u00edmbolos que ressaltam. Ap\u00f3s ver Kerry inaugurar a embaixada dos Estados Unidos depois de cinco d\u00e9cadas sentiram que, se as coisas estavam mudando, talvez, havia espa\u00e7o para deixar de reprimir o impulso, como acontece com espirros quando voc\u00ea est\u00e1 em um ambiente formal. E eles espirraram, espirraram e pretendem seguir espirrando.<\/p>\n<p>Ali ningu\u00e9m recebe um centavo, embora nos bastidores do jornalismo cubano corre o rumor de que s\u00e3o financiados pelo renomado rep\u00f3rter do\u00a0<em>New Yorker<\/em>, John Lee Anderson, que se desfez em elogios para o portal em mais de uma ocasi\u00e3o. Um par de funda\u00e7\u00f5es t\u00eam se aproximado deles (uma espanhola e uma dinamarqu\u00easa) com interesse de ajud\u00e1-los, mas ainda nada foi concretizado e pensam que agora j\u00e1 n\u00e3o se vai mais concretizar \u201ccom estas duas pessoas\u201d, como eles dizem.<\/p>\n<p>Os cubanos que vivem no exterior t\u00eam ajudado com o design da p\u00e1gina, o dom\u00ednio e \u201ca maioria das quest\u00f5es t\u00e9cnicas.\u201d Isto \u00e9, eles dizem, a \u00fanica coopera\u00e7\u00e3o que receberam. Assim como \u00e0s vezes voc\u00ea tem que olhar para o sol para que saia um espirro. Todos os colaboradores t\u00eam de \u201caguentar\u201d escrever para meios oficiais para ganhar a vida e para manter o El Estornudo, que definem como \u201csua casa\u201d, no sentido de que quando se sentam para escrever ali, relaxam e dizem o que querem.<\/p>\n<p>Abraham Jimenez, o diretor, divide seu tempo livre entre o meio que comanda e o consumo de esportes. Esperava h\u00e1 tempos pelo ver\u00e3o de 2016: \u201cO Euro, as Olimp\u00edadas, a Copa Am\u00e9rica, as finais da NBA, o que mais podemos pedir?\u201d Ele pergunta no Twitter.<\/p>\n<p>Tanto no Jornalismo de Bairro quanto no El Estornudo h\u00e1 uma preocupa\u00e7\u00e3o em representar os interesses das gera\u00e7\u00f5es que emergem, mas buscando escrever bem, contar boas hist\u00f3rias, construir cr\u00f4nicas, explorar o g\u00eanero de reportagem, inscrever-se (e inscrever o jornalismo cubano) no \u201cjornalismo s\u00e9rio\u201d e na tradi\u00e7\u00e3o do \u201cNovo Jornalismo\u201d.<\/p>\n<p>Cachivache, por sua vez, procura introduzir no contexto jornal\u00edstico da ilha algo que consideram que n\u00e3o existe e \u00e9 a cultura dos \u201cmillenials\u201d (os nascidos entre 1980 e 2000) na vers\u00e3o cubana, ou como eles dizem: \u201cos nativos digitais mas por USB.\u201d Definem-se como filhos de \u201cuma educa\u00e7\u00e3o que prioriza o seguro sobre o original.\u201d\u200b<\/p>\n<p>Eles se orgulham de ser filhos das \"Lan Party\", festas onde se re\u00fanem todos os jovens que jogam em redes virtuais (dentro das fronteiras da ilha). Eles acreditam que h\u00e1 uma esp\u00e9cie de nebulosa para a lideran\u00e7a do Partido Comunista, que \u00e9 \"esse complicado tri\u00e2ngulo amoroso formado pela cultura, tecnologia e sociedade.\" S\u00e3o chamados Cachivache por causa da \"realidade cubana de hoje\" e buscam mostrar n\u00e3o o que acontece fora da ilha, mas \"como se reflete em Cuba o que est\u00e1 acontecendo no mundo.\"<\/p>\n<p>O esp\u00edrito buscado \u00e9 o de uma publica\u00e7\u00e3o que se mete onde n\u00e3o deve, n\u00e3o pelo conte\u00fado, mas pelo g\u00eanero dos temas, j\u00e1 que tenta discutir quest\u00f5es que para os editores de meios de comunica\u00e7\u00e3o estatais podem parecer distantes da realidade cubana, tais como as s\u00e9ries de televis\u00e3o, as pistas de skate, os youtubers e os videogames. David, o diretor, se define como \"viciado em trabalho\". Javier, um dos editores, \u00e9 um amante de videogames. Ania, a designer, se define de forma contundente: \"sou jovem em Cuba\". A equipe \u00e9 formada por apenas cinco pessoas entre editores, especialista em redes sociais e designer. Cerca de 90 por cento dos trabalhos s\u00e3o de colaboradores.<\/p>\n<p>Rumores pelos corredores os acusam de ser paraestatais, de receber dinheiro de Rene Gonz\u00e1lez, um dos \"cinco her\u00f3is\" (os famosos espi\u00f5es cubanos que foram prisioneiros nos Estados Unidos at\u00e9 dezembro de 2014) perto da c\u00fapula do Partido Comunista. Cachivache \u00e9 apontado por colegas dos novos meios de comunica\u00e7\u00e3o de ser frequentemente \"retuitado\" por Cuba Debate e Juventude Rebelde. Geralmente, n\u00e3o h\u00e1 cr\u00edticas ao partido, mas tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 as defesas fervorosas que ocorrem nos meios de comunica\u00e7\u00e3o estatais.<\/p>\n<p>David, o diretor, esclarece que s\u00e3o patrocinados pelo Resumo Latinoamericano, um meio da Argentina dirigido por Carlos Azn\u00e1rez, um ex-militante do grupo guerrilheiro da d\u00e9cada de 1970 \"Montoneros\". Ele disse que, embora tenha independ\u00eancia na gest\u00e3o da reda\u00e7\u00e3o e da equipe de trabalho, geralmente segue as diretrizes editoriais de seu patrocinador. \"Po isso n\u00e3o nos auto-definimos como meio independente, somos um meio h\u00edbrido raro\".<\/p>\n<p>Sobre uma outra das novas m\u00eddias, OnCuba, tamb\u00e9m sobrevoa o espectro de um \"padrinho\". OnCuba \u00e9 oficialmente uma m\u00eddia estrangeira, mas na pr\u00e1tica \u00e9 feita em Havana. Quem financia o portal \u00e9 Hugo Cancio, que migrou para os EUA em 1980, quando tinha 15 anos de idade. Desde ent\u00e3o, tem emergido como um embaixador n\u00e3o oficial de oportunidades de neg\u00f3cios em Cuba, trabalhando em colabora\u00e7\u00e3o com os governos dos dois pa\u00edses. Ele \u00e9 dono de uma empresa chamada Fuego Enterprises, em Miami, a partir da qual financia o portal de not\u00edcias.<\/p>\n<p>O estilo segue a t\u00f4nica das demais novas m\u00eddias. Jornalismo de den\u00fancia, cr\u00f4nicas da vida cotidiana e novidades culturais. Reportagens com hist\u00f3rias que v\u00e3o desde a pris\u00e3o at\u00e9 o dia-a-dia dos agricultores de Pinar del R\u00edo, passando pela vida cotidiana do cantor Pablo Milan\u00e9s. Ao contr\u00e1rio de outras m\u00eddias, como\u00a0<a href=\"https:\/\/www.cubanet.org\/\">CubaNet<\/a>\u00a0(que foi fundada de Miami pelo jornalista exilado Hugo Landa em 1994), OnCuba est\u00e1 em territ\u00f3rio cubano, com jornalistas cubanos provenientes da m\u00eddia estatal que est\u00e3o insatisfeitos.<\/p>\n<p>A nova m\u00eddia \u00e9 o resultado de uma gera\u00e7\u00e3o que discute com o status quo e se esfor\u00e7a para fazer bom jornalismo. O que vai acontecer com eles se a ilha for totalmente liberada e come\u00e7arem a receber publicidade? Os novos meios de comunica\u00e7\u00e3o conseguem sobrevivir, em m\u00e9dia, com US $ 20 d\u00f3lares por m\u00eas, discutindo com o Estado, mas sem conviver ainda com o mercado.<\/p>\n<p>Eles s\u00e3o mais filhos do seu tempo do que de seus pais. Um latente desafio de transcend\u00eancia os cerca.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>* Daniel Wizenberg (@daniwizen) \u00e9 um jornalista e cientista pol\u00edtico (Universidade de Buenos Aires). Ele escreveu di\u00e1rios de viagem e hist\u00f3rias da vida cotidiana em algumas \u00e1reas de conflitos atuais (S\u00edria, Haiti, Som\u00e1lia, Coreia do Norte, Nagorno Karabaj, Myanmar e Vietn\u00e3), no Le Monde Diplomatique (Fran\u00e7a-Edi\u00e7\u00e3o Cone Sul), Anfibia e P\u00e1gina 12 (Argentina), El Mundo (Espanha), Russia Today (R\u00fassia) e Las2Orillas (Col\u00f4mbia), entre outros. Tamb\u00e9m trabalhou na televis\u00e3o (TV P\u00fablica argentina) e no r\u00e1dio (AM 750 - Argentina).\u200b<\/em><\/p>\n<p><em>Nota do editor: Essa hist\u00f3ria foi publicada originalmente no blog de jornalismo nas Am\u00e9ricas do Centro Knight, o predecessor do LatAm Journalism Review.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rodolfo Romero tem 27 anos. Ele recebeu dinheiro do governo cubano para financiar um site de not\u00edcias. Iria se chamar\u00a0Cuba acusa, mas n\u00e3o gostava do tom beligerante do nome, ent\u00e3o decidiu colocar\u00a0Cuba denuncia, mas descobriu que assim j\u00e1 \u00e9 chamado um site de dissidentes cubanos exilados. Romero \u00e9, portanto, editor do site\u00a0Pensar em Cuba. Nele s\u00e3o denunciadas e acusadas as v\u00e1rias pol\u00edticas dos Estados Unidos em rela\u00e7\u00e3o a Cuba nos \u00faltimos 50 anos. Romero atualiza o site com sua equipe, vinculada ao Minist\u00e9rio da Cultura.<\/p>\n","protected":false},"author":17,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"inline_featured_image":false,"footnotes":""},"categories":[1228],"tags":[1555,1397,1593],"coauthors":[],"class_list":["post-44433","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-acesso-a-informacao-pt-br","tag-acesso-a-informacao-pt-br","tag-cuba-pt-br-2","tag-jornalismo-online-pt-br"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO Premium plugin v22.6 (Yoast SEO v27.4) - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-premium-wordpress\/ -->\n<title>Reportagem Especial: Novo jornalismo cubano nasce na Internet, fora da m\u00eddia oficial e de oposi\u00e7\u00e3o - LatAm Journalism Review by the Knight Center<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Reportagem Especial: Novo jornalismo cubano nasce na Internet, fora da m\u00eddia oficial e de oposi\u00e7\u00e3o Acesso a Informa\u00e7\u00e3o. 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