{"id":54303,"date":"2017-02-28T14:25:10","date_gmt":"2017-02-28T19:25:10","guid":{"rendered":"https:\/\/latamjournalismreview.org\/?p=54303"},"modified":"2022-05-18T14:28:10","modified_gmt":"2022-05-18T19:28:10","slug":"vou-sentir-falta-da-amazonia-diz-simon-romero-do-new-york-times-ao-se-despedir-da-america-latina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latamjournalismreview.org\/pt-br\/articles\/vou-sentir-falta-da-amazonia-diz-simon-romero-do-new-york-times-ao-se-despedir-da-america-latina\/","title":{"rendered":"\"Vou sentir falta da Amaz\u00f4nia\", diz Simon Romero, do New York Times, ao se despedir da Am\u00e9rica Latina"},"content":{"rendered":"<p>As fotos de Simon Romero, em seu perfil no Instagram, s\u00e3o representativas dos lugares e pessoas sobre os quais o jornalista escreveu em mais de uma d\u00e9cada na regi\u00e3o. Imagens de\u00a0<a href=\"http:\/\/www.instagram.com\/p\/BQz3ZOEBMuH\/?hl=en\">piscinas abandonadas<\/a>\u00a0na cidade esquecida de Henry Ford na Amaz\u00f4nia, de um\u00a0<a href=\"http:\/\/www.instagram.com\/p\/-cNNdsGYqt\/?hl=en\">pescador sentado \u00e0 beira do R\u00edo de la Plata<\/a>\u00a0em Buenos Aires, de artistas\u00a0<a href=\"http:\/\/www.instagram.com\/p\/9g8b1HGYh5\/?hl=en\">tunando carro\u00e7as coletoras de lixo<\/a>\u00a0no Rio ou de<a href=\"http:\/\/www.instagram.com\/p\/tY6L3XmYml\/?hl=en\">\u00a0guanacos na Patag\u00f4nia<\/a>.<\/p>\n<p>Como correspondente do New York Times na Am\u00e9rica Latina por 12 anos, Romero se tornou conhecido pelas reportagens que\u00a0pintam um retrato do cen\u00e1rio pol\u00edtico e social da regi\u00e3o,\u00a0enquanto\u00a0fornecem perfis detalhados das pessoas que vivem nela.<\/p>\n<p>Depois de mais de uma d\u00e9cada, o jornalista est\u00e1 deixando o posto de chefe do escrit\u00f3rio brasileiro do jornal, no Rio de Janeiro,\u00a0para voltar ao seu estado natal, o Novo M\u00e9xico. L\u00e1, ele vai cobrir imigra\u00e7\u00e3o para o NYT, em um momento em que o assunto se torna ainda mais relevante com\u00a0<a href=\"http:\/\/www.nytimes.com\/2017\/02\/21\/us\/politics\/dhs-immigration-trump.html?_r=0\">as medidas do presidente Donald Trump.\u00a0<\/a><\/p>\n<p>Antes de ser chefe\u00a0do\u00a0escrit\u00f3rio\u00a0brasileiro, onde ficou nos \u00faltimos seis\u00a0anos, Romero\u00a0tamb\u00e9m\u00a0foi o respons\u00e1vel pela sucursal andina do\u00a0jornal, com base em Caracas,\u00a0na\u00a0Venezuela. Ele come\u00e7ou a trabalhar\u00a0para\u00a0o Times em 1999 como\u00a0jornalista\u00a0freelancer, depois de colaborar com v\u00e1rias outras publica\u00e7\u00f5es dos Estados Unidos e\u00a0da\u00a0Am\u00e9rica\u00a0Latina.<\/p>\n<p>Romero recebeu o pr\u00eamio\u00a0<a href=\"https:\/\/knightcenter.utexas.edu\/pt-br\/blog\/00-16381-entrevista-com-o-correspondente-simon-romero-15-anos-cobrindo-america-latina-para-o-ne\">Maria Moors Cabot na Columbia University em Nova York<\/a>\u00a0(2015) e o pr\u00eamio\u00a0<a href=\"https:\/\/opcofamerica.org\/Awardarchive\/19-robert-spiers-benjamin-award-0\/\">Robert Spiers Benjamin do Overseas Press Club of America<\/a>\u00a0(2014) por sua cobertura na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>Em entrevista ao\u00a0<strong>Centro Knight<\/strong>, o jornalista apresentou uma vis\u00e3o otimista sobre os pa\u00edses nos quais viveu nos \u00faltimos anos. \"O retrato da Am\u00e9rica Latina como um caldeir\u00e3o de problemas n\u00e3o coincide com a regi\u00e3o que eu tive o privil\u00e9gio de cobrir\", afirmou. Romero disse tamb\u00e9m que vai sentir uma \"falta profunda de cobrir a Amaz\u00f4nia\", local que visitou diversas vezes, em viagens \"m\u00e1gicas\". \"\u00c0s vezes eu fico com medo de que a Amaz\u00f4nia que conhe\u00e7o se transforme em algo irreconhec\u00edvel\u00a0\u00e0\u00a0medida\u00a0que\u00a0as conex\u00f5es com a economia global aumentem.\u201d<\/p>\n<p>Romero, que fica no Brasil at\u00e9 junho, ser\u00e1 substitu\u00eddo por outro jornalista \u2013 o NYT est\u00e1 com um processo de sele\u00e7\u00e3o aberto. Al\u00e9m da Amaz\u00f4nia, o correspondente afirma que vai sentir falta de comprar a revista Piau\u00ed nas bancas, de viver no Brasil, de entrevistar \"tantas pessoas fascinantes e aprender algo novo todo dia\".<\/p>\n<p><strong>Centro Knight:<\/strong>\u00a0<strong>Voc\u00ea pode contar um pouco sobre o que far\u00e1 nos EUA?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Simon Romero:<\/strong>\u00a0Eu vou cobrir imigra\u00e7\u00e3o junto com outros rep\u00f3rteres da editoria Nacional e do nosso escrit\u00f3rio em Washington. Eu espero viajar pelos EUA para fazer reportagens sobre esse tema t\u00e3o imensamente importante em um momento em que o governo federal est\u00e1 visando milh\u00f5es de pessoas para deporta\u00e7\u00e3o. Eu vejo essa como uma das hist\u00f3rias mais importantes da nossa era. O momento da mudan\u00e7a \u00e9 importante profissionalmente, dada a necessidade de jornalismo baseado em fatos em um pa\u00eds em que as iniciativas de not\u00edcias falsas est\u00e3o florescendo. N\u00f3s [eu e a minha fam\u00edlia] vamos ficar baseados no Novo M\u00e9xico, o estado onde eu nasci e fui criado, e estamos animados para viajar mais pelo sudoeste americano.<\/p>\n<p><strong>CK: Como \u00e9 fazer jornalismo na Am\u00e9rica Latina? Quais as dificuldades e as facilidades de trabalhar como jornalista aqui?<\/strong><\/p>\n<p><strong>SR:<\/strong>\u00a0Eu considero incr\u00edvel trabalhar como jornalista na Am\u00e9rica Latina. Como uma crian\u00e7a crescendo no norte do estado de Novo M\u00e9xico, nos EUA, eu sempre senti uma liga\u00e7\u00e3o cultural e lingu\u00edstica com a regi\u00e3o. Eu frequentava escolas p\u00fablicas e nunca vou me esquecer da minha aula de hist\u00f3ria no ensino m\u00e9dio em Las Vegas, no Novo M\u00e9xico, onde eu tive um professor que explicou os legados complexos da guerra entre os Estados Unidos e o M\u00e9xico e o Tratado de Guadalupe Hidalgo. Na universidade, em Harvard, eu estudei hist\u00f3ria e literatura da Am\u00e9rica Latina, desfrutando a leitura de livros como \u201cA Guerra do Fim do Mundo\u201d, de Mario Vargas Llosa, e passei um ano na Universidade de S\u00e3o Paulo que abriu meus olhos, aprendendo portugu\u00eas, viajando pelo o Brasil e conhecendo pessoas fascinantes que s\u00e3o amigos pr\u00f3ximos at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>Fui atra\u00eddo de volta para a Am\u00e9rica Latina quando comecei a trabalhar como jornalista e, desde ent\u00e3o, tem sido uma aventura incr\u00edvel. Claro, h\u00e1 os desafios que j\u00e1 conhecemos de cobrir certas hist\u00f3rias. As amea\u00e7as de crimes violentos ou sequestros est\u00e3o muito presentes em lugares como Venezuela e partes da Col\u00f4mbia, Peru ou mesmo no Brasil. Mas trabalhar na Am\u00e9rica Latina tamb\u00e9m pode ser bem diferente de cobrir partes do Oriente M\u00e9dio ou um pa\u00eds como a China, por exemplo. Quando voc\u00ea fala as l\u00ednguas na Am\u00e9rica Latina, voc\u00ea consegue se aproximar das pessoas que entrevista. \u00c9 dif\u00edcil generalizar \u2013 e h\u00e1 exce\u00e7\u00f5es importantes, mas eu acho que a regi\u00e3o \u00e9 consideravelmente aberta em termos de entrevistar pessoas no poder ou as pessoas que as elegem. Quando se trata de capitais mundiais, Bras\u00edlia \u00e9 relativamente tranquila e acess\u00edvel para jornalistas. E n\u00e3o h\u00e1 nada como ir para o interior atr\u00e1s de hist\u00f3rias. Algumas das minhas experi\u00eancias mais recompensadoras foram em lugares sem hot\u00e9is ou outros confortos. Eu me lembro<a href=\"http:\/\/www.nytimes.com\/2008\/02\/23\/world\/americas\/23tinaco.html\">\u00a0de ter sido recebido na casa de uma fam\u00edlia<\/a>\u00a0muito humilde, mas muito generosa, em Tinaco, nas plan\u00edcies no norte da Venezuela, ou dormindo em uma rede na casa de ribeirinhos na Amaz\u00f4nia brasileira, que vivem da<a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/2014\/11\/13\/world\/fishermen-in-brazil-save-a-river-goliath-and-their-livelihoods.html\">\u00a0ca\u00e7a do peixe gigante pirarucu.<\/a>\u00a0Eu aprendi muito com essas hist\u00f3rias.<\/p>\n<p><strong>CK: Em mais de dez anos como correspondente na Am\u00e9rica Latina, qual foi a hist\u00f3ria mais dif\u00edcil de cobrir? Por qu\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p><strong>SR:<\/strong>\u00a0Essa \u00e9 uma pergunta dif\u00edcil. Algumas hist\u00f3rias envolveram desafios como hostilidade de fontes do governo ou amea\u00e7as de figuras poderosas que eu cobri. H\u00e1 os riscos de\u00a0<a href=\"http:\/\/www.nytimes.com\/2011\/01\/16\/world\/americas\/16bolivia.html\">escalar uma geleira nos Andes<\/a>\u00a0ou fazer\u00a0<a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/interactive\/2015\/12\/29\/world\/countries-rush-for-upper-hand-antarctica.html\">trekking durante uma tempestade de neve<\/a>\u00a0para chegar at\u00e9 uma base de pesquisa chinesa na Ant\u00e1rtida ou\u00a0<a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/2014\/12\/11\/world\/drug-trade-transforms-an-amazon-outpost.html\">acompanhando uma patrulha policial do Grupo Fera\u00a0<\/a>(Grupo Especial de Resgate e Assalto), nas favelas de Manaus. Mas uma das experi\u00eancias mais dolorosas para mim foi cobrir o terremoto de 2010 no Haiti. Fui um dos primeiros jornalistas a chegar em Porto Pr\u00edncipe na manh\u00e3 seguinte ao terremoto, e as cenas de morte e destrui\u00e7\u00e3o foram devastadoras.<\/p>\n<p><strong>CK: Como avalia a transpar\u00eancia das autoridades e o acesso \u00e0s informa\u00e7\u00f5es p\u00fablicas no Brasil e em outros pa\u00edses na Am\u00e9rica Latina?<\/strong><\/p>\n<p><strong>SR:<\/strong>\u00a0O Brasil \u00e9 relativamente aberto em termos de acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o p\u00fablica. Claro, nenhum pa\u00eds \u00e9 um para\u00edso quando se trata desse tipo de reportagem, mas a\u00a0<a href=\"https:\/\/knightcenter.utexas.edu\/pt-br\/blog\/00-10138-lei-de-acesso-informacao-brasileira-entra-em-vigor-e-mobiliza-cidadaos-em-busca-de-mai\">Lei de Acesso \u00e0 Informa\u00e7\u00e3o<\/a>, que entrou em vigor em 2012 e que garante acesso a um leque de informa\u00e7\u00f5es governamentais, foi um grande passo. Agora, isso n\u00e3o significa que os funcion\u00e1rios sempre cumpram a lei em cada setor do governo. Por exemplo, eu j\u00e1 passei por muita resist\u00eancia de governos locais quando eu escrevi sobre os chamados\u00a0<a href=\"http:\/\/www.nytimes.com\/2013\/02\/11\/world\/americas\/brazil-seethes-over-public-officials-super-salaries.html\">supersal\u00e1rios<\/a>\u00a0de alguns funcion\u00e1rios p\u00fablicos no Brasil. Mas fazer reportagens sobre esses assuntos no Brasil \u00e9 muito mais f\u00e1cil do que na Venezuela, onde obter informa\u00e7\u00e3o p\u00fablica pode ser um processo extremamente complicado. Outros pa\u00edses na regi\u00e3o, como Chile e Uruguai, fizeram avan\u00e7os em tornar informa\u00e7\u00e3o de governos mais transparente e acess\u00edvel.<\/p>\n<p><strong>CK: Como v\u00ea a liberdade de express\u00e3o e os ataques \u00e0 imprensa em pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina nesse momento?<\/strong><\/p>\n<p><strong>SR:\u00a0<\/strong>Infelizmente, ataques contra jornalistas e contra a liberdade de express\u00e3o permanecem comuns na Am\u00e9rica Latina. No Brasil, longe de grandes cidades como S\u00e3o Paulo e Rio, h\u00e1 casos de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/2015\/08\/08\/world\/americas\/murder-of-brazilian-journalist-furthers-alarming-trend.html\">jornalistas assassinados<\/a>\u00a0como\u00a0<a href=\"https:\/\/knightcenter.utexas.edu\/pt-br\/blog\/00-16233-jornalista-de-radio-no-ceara-e-assassinado-tiros-enquanto-apresentava-programa\">Gleydson Carvalho<\/a>\u00a0e\u00a0<a href=\"https:\/\/knightcenter.utexas.edu\/pt-br\/blog\/00-16104-jornalista-da-bahia-e-encontrado-morto-e-se-torna-o-segundo-em-menos-de-uma-semana-no-\">Djalma Santos da Concei\u00e7\u00e3o<\/a>. A ret\u00f3rica de alguns pol\u00edticos n\u00e3o ajuda a resolver esse problema. Neste m\u00eas, em fevereiro, Romero Juc\u00e1, l\u00edder do governo de Michel Temer no Congresso brasileiro, comparou jornalistas que cobrem corrup\u00e7\u00e3o de pol\u00edticos aos\u00a0<a href=\"http:\/\/www.valor.com.br\/politica\/4875818\/juca-compara-imprensa-perseguicao-aos-judeus-pelos-nazistas\">nazistas e executores da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa<\/a>. Claro, a demoniza\u00e7\u00e3o dos jornalistas n\u00e3o \u00e9 exclusividade da Am\u00e9rica Latina. \u00c9 algo que estamos vendo nos mais altos n\u00edveis do poder nos Estados Unidos tamb\u00e9m.<\/p>\n<p><strong>CK: O que aprendeu nesses anos como correspondente na Am\u00e9rica Latina que vai levar de volta para a sua nova miss\u00e3o nos EUA, de cobrir imigra\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong>SR:\u00a0<\/strong>Uma das coisas mais importantes que eu aprendi no meu trabalho \u00e9 que a Am\u00e9rica Latina tem muito a ensinar ao resto do mundo. Problemas imensos persistem na regi\u00e3o, claro, mas, quando voc\u00ea olha a longo prazo, a Am\u00e9rica Latina como um todo fez progressos impressionantes em muitas frentes nas \u00faltimas d\u00e9cadas. O Peru, por exemplo, floresceu depois das suas experi\u00eancias brutais com o Sendero Luminoso e a economia em desarranjo. A economia da Bol\u00edvia, um dos pa\u00edses mais pobres da regi\u00e3o, passou por um boom na \u00faltima d\u00e9cada. Ou o tolerante, est\u00e1vel e pioneiro Uruguai. O Brasil \u00e9 hoje muito mais pr\u00f3spero do que o pa\u00eds que encontrei quando vivi pela primeira vez em S\u00e3o Paulo em 1990. H\u00e1 tamb\u00e9m o com\u00e9rcio intrarregional, com os pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina criando la\u00e7os econ\u00f4micos mais fortes uns com os outros. A paz tamb\u00e9m eclodiu nos pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, com guerrilhas finalmente se extinguindo uma atr\u00e1s da outra. Essas s\u00e3o conquistas cruciais em um mundo onde tanta coisa parece incerta hoje. N\u00e3o estou dizendo que tudo \u00e9 maravilhoso \u2013 longe disso, e escrevi muitas hist\u00f3rias sobre viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos, injusti\u00e7a econ\u00f4mica e corrup\u00e7\u00e3o \u2013, mas o retrato da Am\u00e9rica Latina como um caldeir\u00e3o de problemas n\u00e3o coincide com a regi\u00e3o que eu tive o privil\u00e9gio de cobrir.<\/p>\n<p><strong>CK: O que vai sentir falta como jornalista na Am\u00e9rica Latina?<\/strong><\/p>\n<p><strong>SR:\u00a0<\/strong>Nossa, por onde eu come\u00e7o? H\u00e1 tanta coisa que amo neste meu trabalho, desde viver no Brasil at\u00e9 entrevistar tantas pessoas fascinantes e aprender algo novo todo dia. Mas uma coisa que eu vou sentir uma falta profunda \u00e9 de cobrir a Amaz\u00f4nia. Consegui ir \u00e0 Amaz\u00f4nia dezenas de vezes e, ainda que cada viagem de trabalho tenha sido m\u00e1gica, sinto que mal arranhei a superf\u00edcie. Eu fui com a minha fam\u00edlia recentemente para Alter do Ch\u00e3o, Santar\u00e9m e Fordl\u00e2ndia, a cidade na selva que \u00e9 o tema de um livro do historiador Greg Grandin, e foi incr\u00edvel.\u00a0\u00c0s vezes eu fico com medo de que a Amaz\u00f4nia que conhe\u00e7o se transforme em\u00a0algo\u00a0irreconhec\u00edvel\u00a0\u00e0\u00a0medida\u00a0que\u00a0as conex\u00f5es com a economia global aumentem.\u00a0Mas procurei transmitir a minha fascina\u00e7\u00e3o e assombro pelas minhas mat\u00e9rias sobre a Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p><strong>CK: Na sua opini\u00e3o, o que as pessoas nos Estados Unidos n\u00e3o entendem sobre a Am\u00e9rica Latina?<\/strong><\/p>\n<p><strong>SR:\u00a0<\/strong>Depende da pessoa com quem voc\u00ea conversa. Algumas pessoas nos Estados Unidos s\u00e3o muito bem informadas sobre a Am\u00e9rica Latina e outras n\u00e3o. Milh\u00f5es de pessoas no pa\u00eds t\u00eam uma conex\u00e3o com a Am\u00e9rica Latina por la\u00e7os familiares e imigra\u00e7\u00e3o. Mas h\u00e1 tamb\u00e9m uma grande quantidade de ignor\u00e2ncia e preconceito em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Am\u00e9rica Latina. Parte desse sentimento tem ra\u00edzes hist\u00f3ricas e outra parte \u00e9 mais recente. As pessoas poderiam manter uma mente mais aberta sobre como a Am\u00e9rica Latina pode ser um local de solu\u00e7\u00f5es e li\u00e7\u00f5es sobre como viver com dignidade, resili\u00eancia e criatividade diante de enormes desafios.<\/p>\n<p><strong>CK: Voc\u00ea acompanha a imprensa brasileira desde os anos 1990. Que avalia\u00e7\u00e3o, cr\u00edticas e elogios, faria \u00e0 nossa cobertura?<\/strong><\/p>\n<p><strong>SR:\u00a0<\/strong>Eu tenho uma admira\u00e7\u00e3o enorme pela imprensa brasileira. Lembro de aprender portugu\u00eas lendo a Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo todas as manh\u00e3s. H\u00e1 uma tradi\u00e7\u00e3o sublime de reportagem no Brasil, que vem desde a cobertura da Guerra de Canudos por Euclides da Cunha. Assim como em outros pa\u00edses, a m\u00eddia tradicional no Brasil est\u00e1 sofrendo com restri\u00e7\u00f5es financeiras e press\u00f5es da polariza\u00e7\u00e3o. Isso \u00e9 duro de testemunhar. Mas \u00e9 \u00f3timo ver o sugimento de novas iniciativas digitais como Ag\u00eancia P\u00fablica, Aos Fatos, The Intercept Brasil ou Poder360, especialmente quando o Brasil enfrenta os seus pr\u00f3prios desafios no campo das not\u00edcias falsas. Uma coisa que eu vou sentir falta \u00e9 comprar a nova edi\u00e7\u00e3o da revista Piau\u00ed todo m\u00eas na banca de jornal perto da minha casa no Rio. A revista \u00e9 um tesouro maravilhoso de reportagens. Ela deveria ser valorizada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/https\/\/www.nytimes.com\/by\/simon-romero\"><em>Veja mais da cobertura de Simon Romero sobre a Am\u00e9rica Latina.<\/em><\/a><\/p>\n<p><em>Nota do editor: Essa hist\u00f3ria foi publicada originalmente no blog de jornalismo nas Am\u00e9ricas do Centro Knight, o predecessor do LatAm Journalism Review.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As fotos de Simon Romero, em seu perfil no Instagram, s\u00e3o representativas dos lugares e pessoas sobre os quais o jornalista escreveu em mais de uma d\u00e9cada na regi\u00e3o. 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