{"id":70046,"date":"2022-11-22T13:56:43","date_gmt":"2022-11-22T18:56:43","guid":{"rendered":"https:\/\/latamjournalismreview.org\/?p=70046"},"modified":"2022-11-22T14:08:33","modified_gmt":"2022-11-22T19:08:33","slug":"sob-ataque-jornalismo-avanca-nos-anos-bolsonaro-mas-hesita-diante-de-fascismo-e-democracia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latamjournalismreview.org\/pt-br\/articles\/sob-ataque-jornalismo-avanca-nos-anos-bolsonaro-mas-hesita-diante-de-fascismo-e-democracia\/","title":{"rendered":"Sob ataque, jornalismo avan\u00e7a nos anos Bolsonaro, mas hesita diante de fascismo e democracia"},"content":{"rendered":"<p><i>*Por Moreno Os\u00f3rio, publicado originalmente por\u00a0<\/i><a href=\"https:\/\/faroljornalismo.headline.com.br\/sob-ataque-jornalismo-avanca-nos-anos-bolsonaro-mas-hesita-diante-de-fascismo-e-democracia\"><i>Headline e Farol Jornalismo<\/i><\/a><\/p>\n<p>No dia 1\u00ba de janeiro de 2019, posse do presidente Jair Bolsonaro, jornalistas que cobriam o evento em Bras\u00edlia viveram<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/colunas\/monicabergamo\/2019\/01\/um-dia-de-cao.shtml\">\u00a0um dia de c\u00e3o<\/a>, nas palavras da jornalista da Folha de S.Paulo M\u00f4nica Bergamo. Mal sab\u00edamos que aquele seria o primeiro de muitos. Os (quase) quatro anos seguintes foram exaustivos, perigosos e de muito, mas muito trabalho. Nesse per\u00edodo, o jornalismo brasileiro avan\u00e7ou bastante \u2014 ainda que sob pesados ataques. Mas as circunst\u00e2ncias tamb\u00e9m expuseram dilemas, novos e antigos, com os quais a profiss\u00e3o ainda vai ter de lidar.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 a percep\u00e7\u00e3o de especialistas ouvidos por\u00a0Headline e pelo\u00a0Farol Jornalismo, a respeito do jornalismo nos anos Bolsonaro e nas elei\u00e7\u00f5es de 2022.<\/p>\n<p>Professor do Departamento de Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e um dos l\u00edderes do Observat\u00f3rio da \u00c9tica Jornal\u00edstica (ObjETHOS), Rog\u00e9rio Christofoletti avalia que houve muito aprendizado nos \u00faltimos quatro anos. Mas n\u00e3o precisava ter sido com viol\u00eancia e danos \u00e0 sa\u00fade mental e f\u00edsica dos profissionais. \"A gente n\u00e3o precisava passar por isso\", diz. \"A gente precisava aprender de uma outra maneira. N\u00e3o foi bom. Foi ruim, foi p\u00e9ssimo para o jornalismo, esse governo.\"<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata apenas de uma percep\u00e7\u00e3o de Christofoletti. A Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) acompanha e registra casos de viol\u00eancia contra jornalistas desde 2013, mas nos \u00faltimos anos vem dando mais aten\u00e7\u00e3o ao assunto. No ano passado publicou a primeira edi\u00e7\u00e3o de um<a href=\"https:\/\/abraji.org.br\/publicacoes\/relatorio-monitoramento-de-ataques-a-jornalistas-no-brasil\">\u00a0relat\u00f3rio anual de monitoramento de ataques a jornalistas<\/a>. O documento expressava uma situa\u00e7\u00e3o \"preocupante que precisa de aten\u00e7\u00e3o das autoridades pol\u00edticas, dos meios de comunica\u00e7\u00e3o e da sociedade brasileira\". Em agosto deste ano, a entidade<a href=\"https:\/\/abraji.org.br\/noticias\/violencia-grave-contra-jornalistas-aumentou-69-2-em-2022\">\u00a0informou<\/a> que os casos de viol\u00eancia grave contra jornalistas aumentaram 69,2% em 2022, quando comparado ao ano anterior.<\/p>\n<p>\"O governo Bolsonaro foi desastroso para o exerc\u00edcio do jornalismo. Em outros governos, a gente tinha situa\u00e7\u00f5es de conflito, mas isso \u00e9 parte do jogo. O que a gente percebeu nos \u00faltimos quatro anos \u00e9 um conflito exacerbado, estrat\u00e9gico e proposital na linha de descredibilizar a imprensa. Isso foi diferente dos outros governos\", disse a presidente da Abraji, Katia Brembatti, acrescentando que os jornalistas precisam ser respeitosos com o presidente, mas o presidente tamb\u00e9m precisa ser respeitoso com a imprensa e entender o papel do jornalismo e dos jornalistas em uma sociedade democr\u00e1tica.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi, como sabemos, o caso de Bolsonaro. O resultado, segue Brembatti, foi, para al\u00e9m de um n\u00famero de agress\u00f5es que vem crescendo ano ap\u00f3s ano, problemas de sa\u00fade mental, autocensura e muitas vezes uma sensa\u00e7\u00e3o, por parte dos profissionais, de n\u00e3o se sentir aceito e compreendido pela pr\u00f3pria sociedade. \"O que \u00e9 muito triste\", observa.<\/p>\n<p>Ou seja, foi um per\u00edodo de fragilidade e exaust\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando vazou um barulho de lata abrindo na transmiss\u00e3o da apura\u00e7\u00e3o do segundo turno, o apresentador<a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/politica\/eleicoes\/2022\/noticia\/2022\/10\/30\/latinha-de-cerveja-bonner-brinca-com-memes-e-diz-que-abriu-lata-de-agua.ghtml\">\u00a0William Bonner explicou para os telespectadores<\/a>, de forma descontra\u00edda, que havia bebido \u00e1gua, e n\u00e3o outra coisa. Sua colega Renata Lo Prete confirmou, rindo. Muito comentado na internet, o epis\u00f3dio ilustra um final de jornada \u2014 eleitoral e de governo Bolsonaro \u2014 que se mostrou um al\u00edvio para jornalistas. Nos dias subsequentes, os semblantes de apresentadores e comentaristas de redes de TV pareciam mais tranquilos.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o \u00e9 se essa tranquilidade vai durar. Vivemos, ao longo dos anos Bolsonaro, um ambiente at\u00edpico de press\u00e3o, observa a doutora em Comunica\u00e7\u00e3o e professora da Escola da Ind\u00fastria Criativa da Unisinos e Gerente de Educa\u00e7\u00e3o na Fiquem Sabendo, Ta\u00eds Seibt. \"At\u00edpica at\u00e9 ent\u00e3o, porque a d\u00favida que fica \u00e9 se esse n\u00e3o vai ser o 'novo normal', para usar um termo da pandemia\", diz. Se levarmos em considera\u00e7\u00e3o as agress\u00f5es sofridas por jornalistas nas coberturas dos bloqueios e manifesta\u00e7\u00f5es golpistas pelo pa\u00eds, esse estado de tens\u00e3o permanente parece ter chegado para ficar.<\/p>\n<p>O ambiente hostil ao jornalismo, por outro lado, contribuiu para que observ\u00e1ssemos alguns efeitos colaterais positivos. A uni\u00e3o da categoria, por exemplo. Christofoletti observa que os jornalistas n\u00e3o s\u00e3o, em geral, unidos. S\u00e3o, sim, muito competitivos. \"E em v\u00e1rios momentos os jornalistas se uniram para defender os colegas, para defender ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o\", lembra. A hostilidade serviu para fortalecer os la\u00e7os entre profissionais \u2014 bem como evidenciar os valores aos quais o jornalismo serve, e qual o seu papel na sociedade.<\/p>\n<h3>Mais colabora\u00e7\u00e3o<\/h3>\n<p>A uni\u00e3o apareceu n\u00e3o apenas na defesa de colegas ou da profiss\u00e3o, mas tamb\u00e9m no seu exerc\u00edcio. Dois grandes exemplos de como a colabora\u00e7\u00e3o no jornalismo avan\u00e7ou nos anos Bolsonaro s\u00e3o o projeto Comprova e o cons\u00f3rcio de ve\u00edculos de imprensa criado para cobrir a pandemia diante do apag\u00e3o de dados e da omiss\u00e3o do governo federal.<\/p>\n<p>Ambos cristalizam na pr\u00e1tica o jornalismo como uma institui\u00e7\u00e3o que atua na sociedade e que \u00e9 dependente da democracia ao mesmo tempo que atua para mant\u00ea-la. \"Em 2022, o jornalismo tentou jogar mais como institui\u00e7\u00e3o. Uma institui\u00e7\u00e3o preocupada com a manuten\u00e7\u00e3o da democracia, e dependente dela. Houve uma simbiose forte entre esses dois lados. E em 2018, n\u00e3o (havia)\", analisa Christofoletti.<\/p>\n<p>Para ele, as pr\u00f3prias institui\u00e7\u00f5es n\u00e3o estiveram muito ativas naquele ano. Ele comparou a<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=hGL0HHPX81Q\">\u00a0fala do ministro Alexandre de Moraes<\/a> logo ap\u00f3s o segundo turno deste ano com a de Rosa Weber, que era chefe do TSE em 2018.<\/p>\n<p>Segundo Christofoletti, Rosa Weber foi muito branda. Ele observa que o TSE foi mais forte e combativo em 2022. Assim como o jornalismo. \"A gente chegou a ver manchetes da Folha de S.Paulo e do Estad\u00e3o dizendo 'Bolsonaro mente', 'Bolsonaro falseia'. Isso era imposs\u00edvel de imaginar em 2018\". Para Christofoletti esses exemplos ilustram um avan\u00e7o acelerado.<\/p>\n<p>\"\u00c9 muito complicado voc\u00ea cobrir o poder. E \u00e9 muito complicado voc\u00ea cobrir de uma maneira normal um governo anormal. Um governo que n\u00e3o concorda em seguir liturgias, n\u00e3o cumpre pactos de trabalho, de postura como um agente p\u00fablico\", avalia. Para o pesquisador, o governo Bolsonaro foi coerente nesse sentido: declarou a imprensa como inimiga no primeiro dia de 2019 e s\u00f3 foi simp\u00e1tico a quem estava alinhado com ele.<\/p>\n<p>A doutora em Teorias e Tecnologias da Comunica\u00e7\u00e3o e professora de \u00c9tica e Jornalismo no Departamento de Jornalismo da Universidade de Bras\u00edlia (UnB) Rafiza Var\u00e3o concorda que houve, sim, uma curva de aprendizado do jornalismo nesses quatro anos.<\/p>\n<p>Mas faz algumas ressalvas.<\/p>\n<p>Por exemplo, Var\u00e3o lembra que nas elei\u00e7\u00f5es de 2018 a cobertura jornal\u00edstica estava muito focada em parecer seguir os princ\u00edpios r\u00edgidos que regem, historicamente, a atividade: objetividade, neutralidade, isen\u00e7\u00e3o. Mas, como sublinha o jornalista e professor da Escola de Comunica\u00e7\u00f5es e Artes da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), Eug\u00eanio Bucci, naquele momento, o candidato Jair Bolsonaro j\u00e1 deixava claro que n\u00e3o estava no campo democr\u00e1tico, como a defesa de torturadores, a defesa do golpe de 1964 e de mecanismos de inibi\u00e7\u00e3o ou de censura da imprensa, por exemplo.<\/p>\n<div id=\"attachment_70083\" style=\"width: 1034px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-70083\" class=\"wp-image-70083 size-large\" src=\"https:\/\/latamjournalismreview.org\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/bolsonaroheadline3-1024x683.webp\" alt=\"Bolsonaro leaves his car in front of supporters gathered in fenced area\" width=\"1024\" height=\"683\" srcset=\"https:\/\/latamjournalismreview.org\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/bolsonaroheadline3-1024x683.webp 1024w, https:\/\/latamjournalismreview.org\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/bolsonaroheadline3-300x200.webp 300w, https:\/\/latamjournalismreview.org\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/bolsonaroheadline3-768x512.webp 768w, https:\/\/latamjournalismreview.org\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/bolsonaroheadline3-1536x1024.webp 1536w, https:\/\/latamjournalismreview.org\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/bolsonaroheadline3-350x234.webp 350w, https:\/\/latamjournalismreview.org\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/bolsonaroheadline3.webp 1920w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><p id=\"caption-attachment-70083\" class=\"wp-caption-text\">Jair Bolsonaro e seus apoiadores no cercadinho. Fotos: Daniel Marenco\/HDLN<\/p><\/div>\n<p>Com o passar do tempo foi ficando evidente que Bolsonaro n\u00e3o poderia ser colocado \u2014 primeiro como um candidato, depois como uma figura p\u00fablica \u2014 no campo democr\u00e1tico. E ent\u00e3o o jornalismo percebeu que algumas pr\u00e1ticas e posicionamentos consolidados no exerc\u00edcio profissional teriam de ser revistos. E isso culmina nas elei\u00e7\u00f5es de 2022.<\/p>\n<p>Ainda assim o jornalismo caiu em algumas armadilhas.<\/p>\n<h3>Instrumentaliza\u00e7\u00e3o de jornalistas<\/h3>\n<p>O jornalismo declarat\u00f3rio \u00e9 uma delas, observa Rafiza Var\u00e3o, cujas pesquisas abordam o jornalismo sob o ponto de vista da \u00e9tica. Para quem n\u00e3o \u00e9 da \u00e1rea, jornalismo declarat\u00f3rio \u00e9 uma pr\u00e1tica question\u00e1vel, embora muito comum, de apenas reproduzir falas de suas fontes \u2014 em especial oriundas de fontes oficiais \u2014 de forma acr\u00edtica, sem contexto e sem ponderar se o conte\u00fado \u00e9 verdadeiro e de interesse p\u00fablico.<\/p>\n<p>Var\u00e3o observa que as redes sociais est\u00e3o tomando o lugar das entrevistas na pr\u00e1tica desse tipo de jornalismo. A ascens\u00e3o e o dom\u00ednio das plataformas no nosso cotidiano fizeram com que atores pol\u00edticos \u2014 em especial os da extrema direita \u2014 usassem esses canais como formas de acesso direto aos seus eleitores. O resultado, para a pol\u00edtica, \u00e9 uma campanha eleitoral permanente. E para o jornalismo, o entendimento foi, na avalia\u00e7\u00e3o de Var\u00e3o, \"um lugar de fala privilegiado\", de maneira a repercutir aquelas declara\u00e7\u00f5es em seus pr\u00f3prios produtos. Ela chama a aten\u00e7\u00e3o para o papel da TV nessa constru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\"O jornalismo [televisivo] n\u00e3o s\u00f3\u00a0<i>printa<\/i> a fala [do ator p\u00fablico], aquilo que est\u00e1 escrito, mas tamb\u00e9m l\u00ea [o conte\u00fado da fala] para quem est\u00e1 assistindo \u00e0 televis\u00e3o. Assim ele refor\u00e7a de in\u00fameras maneiras aquele material. E esse material n\u00e3o \u00e9 colocado sem ser de uma forma estrat\u00e9gica\", analisa Var\u00e3o. \"Quem o produz, espera que ele v\u00e1 repercutir tamb\u00e9m nos meios tradicionais e em outras m\u00eddias sociais. Ent\u00e3o, no caso do jornalismo declarat\u00f3rio que vem das m\u00eddias sociais, o jornalismo brasileiro ainda se encontra num impasse.\"<\/p>\n<p>O resultado, segue a pesquisadora, \u00e9 que acaba faltando ao jornalismo capacidade de discernimento, de saber quando est\u00e1 sendo instrumentalizado por esses personagens.<\/p>\n<p>\"Quando a pr\u00f3pria fala se transforma em not\u00edcia, muitas vezes o que acaba acontecendo \u00e9 que n\u00f3s, jornalistas, somos instrumentalizados pela fonte. E o ator pol\u00edtico nas m\u00eddias sociais se coloca nesse patamar de ser permanentemente fonte. Ainda mais quando voc\u00ea est\u00e1 falando de fontes oficiais. Isso gera armadilhas pra gente\", observa.<\/p>\n<h3>Falsas equival\u00eancias<\/h3>\n<p>Na percep\u00e7\u00e3o dos especialistas, a busca cega pelos valores basilares do jornalismo tamb\u00e9m acabou expondo outra fragilidade do exerc\u00edcio profissional ao longo dos \u00faltimos anos: a falsa equival\u00eancia, ou falsa simetria.<\/p>\n<p>Christofoletti sublinha que essa \u00e9 uma quest\u00e3o que o jornalismo ainda n\u00e3o conseguiu resolver. N\u00e3o porque n\u00e3o haja tentativas, mas porque \u00e9 realmente dif\u00edcil. Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>\"Porque a falsa equival\u00eancia afeta um aspecto que \u00e9 crucial dentro da nossa profiss\u00e3o, que \u00e9 buscar equil\u00edbrio, a equidist\u00e2ncia. Eu busco uma dist\u00e2ncia em que eu fique pr\u00f3ximo o suficiente da minha fonte para extrair informa\u00e7\u00f5es, mas eu tenho que manter uma dist\u00e2ncia suficiente para ser cr\u00edtico a ela. \u00c9 muito complicado estabelecer isso\", pontua.<\/p>\n<p>Para Var\u00e3o, o problema da falsa equival\u00eancia se tornou mais agudo com a acelera\u00e7\u00e3o dos processos jornal\u00edsticos. Ela diz que a instantaneidade n\u00e3o abre espa\u00e7o para reflex\u00e3o e tira o espa\u00e7o da explica\u00e7\u00e3o. E n\u00e3o se trata de explicar para o p\u00fablico. Trata-se de uma explica\u00e7\u00e3o anterior, a que o pr\u00f3prio jornalista deve ter para poder cobrir determinado acontecimento.<\/p>\n<p>\"Muitas vezes, o jornalista n\u00e3o consegue explicar as coisas para si mesmo e acaba ficando na superficialidade. A falsa simetria vem muito dessa superficialidade que n\u00e3o explica as coisas para si mesmo. Se a gente pensa pelo vi\u00e9s da \u00e9tica jornal\u00edstica, isso \u00e9 um problema ser\u00edssimo. Porque n\u00f3s somos respons\u00e1veis, inclusive, pela constru\u00e7\u00e3o da democracia\", adverte Var\u00e3o. \"N\u00f3s somos um espa\u00e7o fundamental para que as pessoas entendam quais s\u00e3o os seus direitos, para que a democracia seja representada, para que liberdade de express\u00e3o esteja ali, o direito \u00e0 informa\u00e7\u00e3o seja respeitado tamb\u00e9m. Ent\u00e3o, quando o jornalista n\u00e3o consegue explicar para ele qual \u00e9 a responsabilidade dele, o trabalho inteiro fica comprometido\".<\/p>\n<p>Var\u00e3o v\u00ea uma ascens\u00e3o, nos \u00faltimos anos, de um jornalismo \"que n\u00e3o explica para si mesmo o que est\u00e1 acontecendo\". \"N\u00e3o \u00e9 que ele erre os dados, sobre o acontecimento em si, mas ele erra porque n\u00e3o entende o acontecimento\", explica.<\/p>\n<p>Pense em um bloqueio de tr\u00e2nsito em uma grande cidade em fun\u00e7\u00e3o de um protesto contra a fome, por exemplo. Um eventual rep\u00f3rter que olhe para o acontecimento apenas sob o ponto de vista do direito de ir e vir, embora possa faz\u00ea-lo com precis\u00e3o, pode n\u00e3o estar entendendo o que est\u00e1 acontecendo se ignorar os motivos da manifesta\u00e7\u00e3o. Ao preferir registrar tamanho do congestionamento e coletar depoimentos de motoristas a buscar as raz\u00f5es do bloqueio, o jornalista n\u00e3o \"explicar\u00e1 a si pr\u00f3prio\" o acontecimento.<\/p>\n<p>Para Christofoletti, o<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/opiniao\/2022\/10\/uma-eleicao-crucial.shtml\">\u00a0editorial<\/a> da Folha de S.Paulo do dia 29 de outubro, v\u00e9spera do segundo turno da elei\u00e7\u00e3o, \u00e9 outro exemplo do dilema da falsa equival\u00eancia. Embora observe que se tratava de duas candidaturas muito diferentes, o texto afirmava que a Folha continuaria apartid\u00e1ria. \"Mas n\u00e3o se trata de voc\u00ea ter uma ades\u00e3o partid\u00e1ria. Isso \u00e9 muito hip\u00f3crita da Folha de S.Paulo, pois em outras ocasi\u00f5es a Folha tomou posi\u00e7\u00f5es muito claras\", critica.<\/p>\n<p>Segundo ele, como a Folha tem um corpo de editorialistas, o texto deve ter passado por muitas m\u00e3os, e ao final ficou reticente. Ta\u00eds Seibt diz que o editorial at\u00e9 estabelece as diferen\u00e7as, mas \"n\u00e3o finca p\u00e9\". \"Acho que essa foi uma expectativa frustrada\", afirma.<\/p>\n<h3>Entre o fascismo e a democracia<\/h3>\n<p>Em<a href=\"https:\/\/www.nexojornal.com.br\/entrevista\/2022\/09\/23\/%E2%80%98O-jornalismo-tem-o-dever-de-assumir-o-partido-da-democracia%E2%80%99\">\u00a0entrevista recente ao Nexo<\/a>, Eug\u00eanio Bucci afirmou que certos setores da imprensa ainda acreditam que h\u00e1 um \"ponto equidistante entre o fascismo e a democracia\". \"E isso \u00e9 um equ\u00edvoco, \u00e9 uma ilus\u00e3o de \u00f3tica. Entre o fascismo e a democracia, o jornalismo tem o dever de assumir o partido da democracia\", afirmou.<\/p>\n<p>Por outro lado, Bucci acredita que, ao contr\u00e1rio de 2018, a imprensa teve uma postura mais madura, cr\u00edtica e s\u00f3lida em rela\u00e7\u00e3o a Bolsonaro em 2022. \"O lado do jornalismo n\u00e3o \u00e9 um lado partid\u00e1rio. \u00c9 um lado do paradigma de organiza\u00e7\u00e3o do estado e da sociedade. \u00c9 o lado da Rep\u00fablica e o lado da democracia. Isso n\u00e3o pode ser visto como frase de efeito\", afirma o professor da USP.<\/p>\n<p>Para a professora e pesquisadora da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Fabiana Moraes, os problemas do jornalismo \u2014 especialmente o mainstream, representado pelas tradicionais empresas de m\u00eddia \u2014 v\u00e3o al\u00e9m de quest\u00f5es pontuais, como o jornalismo declarat\u00f3rio ou a falsa equival\u00eancia. Ela avalia que ao hesitar tratar Bolsonaro como uma figura \u00fanica, o jornalismo ajudou a corroer o ambiente democr\u00e1tico brasileiro.<\/p>\n<p>Fabiana Moraes entende que n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil mudar a maneira de realizar a cobertura de um presidente da Rep\u00fablica. Mas a tentativa de cobrir Bolsonaro como os outros acabava por normaliz\u00e1-lo.<\/p>\n<p>\"Ele [Bolsonaro] estava quase pedindo 'N\u00e3o me tratem com normalidade', e acho que um marco para o jornalismo brasileiro \u00e9 quando ele<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=xM4Az_ScZFA\">\u00a0coloca um comediante no cercadinho<\/a>, vestido de presidente, para responder \u00e0s perguntas dos jornalistas por ele, e para jogar bananas nos jornalistas\", lembra. Fabiana Moraes acrescenta que \"a institui\u00e7\u00e3o cercadinho\" precisa ser analisada, porque \"talvez seja o s\u00edmbolo dessa tentativa de normaliza\u00e7\u00e3o\".<\/p>\n<p>Foram as jornalistas mulheres, afirma Moraes, que come\u00e7aram a mudar o tom e colocar Bolsonaro em um lugar mais espec\u00edfico. \"Eu sinto isso quando elas come\u00e7am a dizer, tanto para Bolsonaro quanto para pessoas ligadas a ele, 'eu vou terminar de falar e o senhor retoma'. De certa maneira isso passa pela quest\u00e3o de g\u00eanero, mas tinha tamb\u00e9m a figura de autoridade da jornalista\", analisa. Para a pesquisadora, a postura e as falas das jornalistas mulheres \u2014 em especial as da imprensa tradicional \u2014 representam um ponto de inflex\u00e3o na maneira de como o jornalismo profissional come\u00e7ou a tratar o presidente.<\/p>\n<h3>Complexifica\u00e7\u00e3o do racismo<\/h3>\n<p>Moraes tamb\u00e9m observa outros avan\u00e7os nesse per\u00edodo. O jeito como o jornalismo aborda o racismo e quest\u00f5es de g\u00eanero, por exemplo, deixou de ter um car\u00e1ter de milit\u00e2ncia. \"A imprensa absorveu um pouco melhor esses temas. Eu acho que h\u00e1 mais disposi\u00e7\u00e3o de se entender algumas quest\u00f5es de maneira mais complexificada a partir do jornalismo. N\u00e3o coloc\u00e1-las em caixas espec\u00edficas e entender como elas s\u00e3o tentaculares e provocam efeitos em diferentes espa\u00e7os sociais\", observa a jornalista.<\/p>\n<p>Mas a pesquisadora tamb\u00e9m faz cr\u00edticas, lembrando que foi necess\u00e1rio o epis\u00f3dio de George Floyd, nos Estados Unidos, para mexer com algumas engrenagens de cobertura jornal\u00edstica aqui no Brasil. Ela cita uma fala de Helaine Martins, criadora do projeto \"<a href=\"http:\/\/www.entrevisteumnegro.com.br\/\">Entreviste um Negro<\/a>\",<a href=\"https:\/\/almapreta.com\/sessao\/cotidiano\/morre-helaine-martins-criadora-do-projeto-entreviste-um-negro\">\u00a0falecida em 2021<\/a>. Quando perguntada, em uma aula, Fabiana Moraes contou que perguntou a Helaine como era a procura de jornalistas por esse banco de dados. \"Ela me disse que em cinco anos do Entreviste um Negro, a vez que eles foram mais demandados foi quando George Floyd foi assassinado. Acho que esse epis\u00f3dio \u00e9 bem eloquente para pensar como a gente normaliza os assassinatos de pessoas negras em solo nacional\", afirma a professora da UFPE.<\/p>\n<h3>O papel do fact-checking<\/h3>\n<p>N\u00e3o d\u00e1 para analisar o jornalismo nos \u00faltimos quatro anos sem observar o trabalho das ag\u00eancias de checagem. Embora \u00e0s vezes possamos ter uma postura pessimista em rela\u00e7\u00e3o aos resultados desse tipo de pr\u00e1tica profissional \u2014 afinal, a quantidade de desinforma\u00e7\u00e3o sempre ser\u00e1 muito maior do que a capacidade de checagem do jornalismo \u2014, os especialistas ouvidos pela reportagem concordam: melhor com o fact-checking do que sem ele.<\/p>\n<p>Rog\u00e9rio Christofoletti afirma que o fact-checking avan\u00e7ou muito nos anos Bolsonaro e que especialmente as ag\u00eancias especializadas v\u00eam cumprindo um papel de dar visibilidade, contabilidade e de volume das mentiras do atual presidente. Em um futuro pr\u00f3ximo, diz ele, n\u00e3o vai dar para pensar o jornalismo sem as ag\u00eancias de checagem.<\/p>\n<p>Ta\u00eds Seibt, cuja<a href=\"https:\/\/www.lume.ufrgs.br\/handle\/10183\/193359\">\u00a0tese de doutorado<\/a> analisa a pr\u00e1tica do fact-checking no Brasil, tamb\u00e9m tem a sensa\u00e7\u00e3o de estarmos enxugando gelo. Mas tudo seria pior sem ele.<\/p>\n<p>\"Para quem procura informa\u00e7\u00e3o verificada, \u00e9 importante que existam profissionais olhando e acompanhando as tend\u00eancias de viraliza\u00e7\u00e3o para poder produzir conte\u00fado e dar essa resposta a quem procura. Se a gente n\u00e3o tivesse essa parceria com as plataformas seria pior\", entende \"Tento amenizar um pouco essa impress\u00e3o de que estamos enxugando gelo para dizer que, bom, \u00e9 necess\u00e1rio. N\u00e3o \u00e9 a \u00fanica sa\u00edda, n\u00e3o ser\u00e1\".<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jornalistas brasileiros viveram anos de viol\u00eancia, persegui\u00e7\u00e3o e exaust\u00e3o sob o presidente Jair Bolsonaro, derrotado em sua tentativa de reelei\u00e7\u00e3o. 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