{"id":83312,"date":"2024-01-03T13:25:01","date_gmt":"2024-01-03T19:25:01","guid":{"rendered":"https:\/\/latamjournalismreview.org\/?p=83312"},"modified":"2024-01-03T13:25:59","modified_gmt":"2024-01-03T19:25:59","slug":"imprensa-mexicana-tem-o-desafio-de-aprender-a-cobrir-melhor-o-desaparecimento-de-pessoas-diz-a-jornalista-marcela-turati","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latamjournalismreview.org\/pt-br\/articles\/imprensa-mexicana-tem-o-desafio-de-aprender-a-cobrir-melhor-o-desaparecimento-de-pessoas-diz-a-jornalista-marcela-turati\/","title":{"rendered":"Imprensa mexicana tem o desafio de aprender a cobrir melhor o desaparecimento de pessoas, diz a jornalista Marcela Turati"},"content":{"rendered":"<p dir=\"ltr\">O munic\u00edpio de San Fernando, no estado de Tamaulipas, a 150 quil\u00f4metros da fronteira norte do M\u00e9xico, foi palco de dois atos brutais de viol\u00eancia na \u00faltima d\u00e9cada. O primeiro, em agosto de 2010, foi\u00a0<a href=\"https:\/\/www.fundacionjusticia.org\/72-migrantes\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><u>o massacre de 72 migrantes<\/u><\/a>, em sua maioria mexicanos e centro-americanos, que foram retirados dos \u00f4nibus em que tentavam atravessar para os Estados Unidos, amarrados e mortos.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">O segundo foi a descoberta, em 2011, de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.fundacionjusticia.org\/fosas-de-san-fernando\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><u>47 covas clandestinas com quase 200 cad\u00e1veres<\/u><\/a>, levantando suspeitas de que o massacre do ano anterior n\u00e3o havia sido um fato isolado.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Embora o governo mexicano tenha reconhecido os eventos e culpado o cartel Los Zetas,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.es.amnesty.org\/en-que-estamos\/noticias\/noticia\/articulo\/mexico-falta-de-justicia-cinco-anos-despues-de-la-masacre-de-san-fernando\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><u>jornalistas e organiza\u00e7\u00f5es denunciaram<\/u><\/a> que as autoridades n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o investigaram a poss\u00edvel cumplicidade de funcion\u00e1rios p\u00fablicos, mas tamb\u00e9m \"esconderam\" muitos dos corpos com procedimentos forenses deficientes, a entrega incorreta de corpos e a oculta\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es, o que impediu que os familiares identificassem seus entes queridos desaparecidos.<\/p>\n<div id=\"attachment_83247\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-83247\" class=\"wp-image-83249\" src=\"https:\/\/latamjournalismreview.org\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/Marcela-Turati.jpg\" alt=\"Mexican journalist Marcela Turati\" width=\"300\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/latamjournalismreview.org\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/Marcela-Turati.jpg 1365w, https:\/\/latamjournalismreview.org\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/Marcela-Turati-200x300.jpg 200w, https:\/\/latamjournalismreview.org\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/Marcela-Turati-683x1024.jpg 683w, https:\/\/latamjournalismreview.org\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/Marcela-Turati-768x1152.jpg 768w, https:\/\/latamjournalismreview.org\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/Marcela-Turati-1024x1536.jpg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><p id=\"caption-attachment-83247\" class=\"wp-caption-text\">Marcela Turati supostamente foi espionada e enfrentou medo, frustra\u00e7\u00e3o e obsess\u00e3o durante a sua investiga\u00e7\u00e3o sobre a viol\u00eancia em San Fernando, no estado de Tamaulipas. (Foto: Mary Kang\/Knight Center)<\/p><\/div>\n<p dir=\"ltr\">Ambos os eventos representaram um ponto de virada na carreira da jornalista mexicana Marcela Turati, que em 2011 foi enviada pela revista Proceso, onde trabalhava como rep\u00f3rter, para cobrir a descoberta das covas.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Ao chegar a San Fernando, ela se deparou com um horror que a marcou para sempre, mas tamb\u00e9m com uma s\u00e9rie de injusti\u00e7as e irregularidades que a imprensa n\u00e3o estava cobrindo em profundidade e que se tornaram uma esp\u00e9cie de obsess\u00e3o profissional para a jornalista.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Mais de 12 anos depois e ap\u00f3s centenas de horas seguindo pistas, fazendo dezenas de entrevistas e reportagens, e produzindo v\u00e1rios projetos colaborativos, Turati lan\u00e7ou em 2023\u00a0<a href=\"https:\/\/www.penguinlibros.com\/mx\/economia-politica-y-actualidad\/331144-libro-san-fernando-ultima-parada-9786073812054\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><u>\"San Fernando: \u00daltima Parada\"<\/u><\/a>, um livro que apresenta relatos m\u00faltiplos dos eventos de horror aos quais ela dedicou mais de uma d\u00e9cada de sua carreira.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">A jornalista compartilhou com a\u00a0<strong>LatAm Journalism Review (LJR)<\/strong> parte de sua experi\u00eancia e das li\u00e7\u00f5es aprendidas na realiza\u00e7\u00e3o de seu projeto editorial, em um pa\u00eds onde, segundo ela, a imprensa enfrenta o desafio de aprender a cobrir e contar melhor as hist\u00f3rias de desaparecimentos e do crime organizado, quest\u00f5es nas quais o M\u00e9xico tem n\u00fameros recordes.<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><i>A entrevista foi editada para fins de brevidade e clareza.<\/i><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>LJR: O que voc\u00ea acha que a imprensa tem feito de errado na cobertura do desaparecimento de pessoas no M\u00e9xico?<\/strong><\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>Marcela Turati:<\/strong> Eu n\u00e3o culparia a imprensa. Sim, temos\u00a0<a href=\"https:\/\/contralacorrupcion.mx\/cien-mil-desaparecidos-mexico\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><u>111 mil pessoas desaparecidas<\/u><\/a>, temos meios de comunica\u00e7\u00e3o que n\u00e3o se interessam por essa quest\u00e3o porque n\u00e3o lhes rende cliques, porque muitas pessoas n\u00e3o querem saber sobre isso. Portanto, temos um desafio muito grande, que \u00e9 como contar a hist\u00f3ria. Tamb\u00e9m temos uma falta de forma\u00e7\u00e3o para os jornalistas. Muitas vezes ficamos com anedotas e \u00e9 dif\u00edcil encontrar um foco mais social, porque hist\u00f3rias com testemunhos s\u00e3o mais impactantes do que hist\u00f3rias que contam como o sistema funciona.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Sempre pensei que n\u00e3o havia jornalistas em San Fernando, mas obviamente havia e eles foram silenciados por muitos anos. Os jornalistas tamb\u00e9m estavam sob amea\u00e7a, como muitas pessoas. Entrevistar pessoas em uma \u00e1rea silenciada \u00e9 muito complicado. Ter qualquer informa\u00e7\u00e3o \u00e9 muito perigoso.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Portanto, eu n\u00e3o colocaria o \u00f4nus da cobertura insuficiente da quest\u00e3o sobre os jornalistas, porque eles t\u00eam muitos trabalhos. Os que eu vejo que ainda se dedicam aos desaparecimentos s\u00e3o jornalistas comprometidos com esse tema, que se dedicam a isso em seu tempo livre porque precisam que as fam\u00edlias sejam ouvidas.<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>LJR: Por que voc\u00ea decidiu fazer um livro a partir dessa complexa investiga\u00e7\u00e3o que levou 12 anos?<\/strong><\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>MT:<\/strong> Havia coisas [da investiga\u00e7\u00e3o] que eu guardava para mim, que n\u00e3o podia publicar na revista Proceso, coisas que eram muito cru\u00e9is ou muito dif\u00edceis de explicar para o leitor. Em quatro p\u00e1ginas n\u00e3o se pode contar a crueldade com que essas pessoas foram mortas, porque elas n\u00e3o foram mortas com balas, foram torturadas com muita for\u00e7a. Essa foi uma das coisas que preferi n\u00e3o publicar na Proceso, porque me pareceu que uma reportagem apenas deixaria as pessoas horrorizadas, mas ningu\u00e9m entenderia nada.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Tamb\u00e9m fiz muitas entrevistas, mas com pessoas que eu n\u00e3o podia nem nomear e para as quais ainda era perigoso falar, ent\u00e3o comecei a coletar e coletar informa\u00e7\u00f5es. Chegou um momento em que eu disse: \"N\u00e3o posso publicar tudo isso, assim, sem mais nem menos\". Eu tinha um monte de coisas e disse: \"Vou come\u00e7ar a fazer um livro\".<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Pensei: \"Como vou dar a ele uma estrutura narrativa?\" Isso me segurou muito. Mas, em um determinado momento, eu disse: \"isso tem que ser uma hist\u00f3ria m\u00faltipla\". Eu j\u00e1 tinha tanto tempo, tantos depoimentos, que disse: \"isso n\u00e3o pode ser contado por apenas um personagem\". H\u00e1 muitas passagens, s\u00e3o 12 anos, locais diferentes, nem tudo aconteceu em um s\u00f3 lugar. Ent\u00e3o comecei a fazer uma colagem de temas, como camadas de cebolas.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">O livro \u00e9 um coro de vozes, h\u00e1 mon\u00f3logos tamb\u00e9m. Eu apenas fa\u00e7o uma introdu\u00e7\u00e3o e as pessoas leem o que todos em San Fernando vivenciaram. Ou o que acontece com as fam\u00edlias das v\u00edtimas que est\u00e3o procurando por seus parentes e tudo o que vivenciaram em sua busca.<\/p>\n<div id=\"attachment_83255\" style=\"width: 307px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-83255\" class=\"wp-image-83257 \" src=\"https:\/\/latamjournalismreview.org\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/San-Fernando-U\u0301ltima-Parada.jpeg\" alt=\"Cover of the book &quot;San Fernando: \u00daltima Parada&quot;, by Mexican journalist Marcela Turati\" width=\"297\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/latamjournalismreview.org\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/San-Fernando-U\u0301ltima-Parada.jpeg 462w, https:\/\/latamjournalismreview.org\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/San-Fernando-U\u0301ltima-Parada-198x300.jpeg 198w\" sizes=\"auto, (max-width: 297px) 100vw, 297px\" \/><p id=\"caption-attachment-83255\" class=\"wp-caption-text\">\"San Fernando: \u00daltima Parada\" <span style=\"font-weight: 400;\">apresenta relatos m\u00faltiplos<\/span> sobre os massacres de migrantes no estado de Tamaulipas. (Foto: Cortesia da Penguin Random House)<\/p><\/div>\n<p dir=\"ltr\"><strong>LJR: Como voc\u00ea compilou esses testemunhos?<\/strong><\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>MT:<\/strong> Eu trabalhava na revista Proceso, ent\u00e3o acompanhava o assunto se ficava sabendo que os parentes dos migrantes massacrados estavam chegando, ou que alguma organiza\u00e7\u00e3o havia entrado em contato com algumas das fam\u00edlias das pessoas encontradas nas covas. Eu fazia parte da [organiza\u00e7\u00e3o de jornalistas investigativos] Periodistas de a Pie e havia convocado colegas para fundar um coletivo chamado\u00a0<a href=\"https:\/\/adondevanlosdesaparecidos.org\/masde72-1-presentacion\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><u>M\u00e1s de 72<\/u><\/a> para investigar e acompanhar essas not\u00edcias. Fizemos uma investiga\u00e7\u00e3o inicial sobre o massacre dos 72 e come\u00e7amos a ver que o governo estava mentindo, que havia inventado coisas que n\u00e3o se encaixavam, e criamos um site com todos esses fatos.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Depois, fiz uma segunda parte com alguns alunos. Pedi a cada um deles que pegasse uma linha tem\u00e1tica sobre as covas e investigasse. Esse acompanhamento foi t\u00e3o obsessivo que tive de solicitar v\u00e1rias bolsas, uma delas para processar alguns arquivos forenses que uma fonte an\u00f4nima me deu em 2013, dois anos ap\u00f3s [a descoberta das] sepulturas. Tamb\u00e9m recebi informa\u00e7\u00f5es de pessoas que perceberam que v\u00e1rios dos corpos que eu estava seguindo tinham sido cremados. Depois, gra\u00e7as a uma bolsa que recebi com outros dois colegas, pude ir na dire\u00e7\u00e3o oposta \u00e0 Rota dos Migrantes e percorrer vilarejo por vilarejo perguntando por sobreviventes, pessoas que tivessem informa\u00e7\u00f5es ou que soubessem mais sobre o que havia acontecido nessas viagens. L\u00e1 comecei a perceber irregularidades, que\u00a0<a href=\"https:\/\/archivo.eluniversal.com.mx\/nacion-mexico\/2013\/impreso\/ve-cndh-anomalias-en-caso-san-fernando-211904.html#:~:text=(PGR)%20y%20General%20de%20Justicia%20de%20Tamaulipas,72%20migrantes%20asesinados%20en%20San%20Fernando%2C%20Tamaulipas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><u>o trabalho forense havia sido muito mal feito<\/u><\/a>, que a Procuradoria-Geral da Rep\u00fablic (PGR) havia perdido corpos, que havia entregado corpos incorretos, que havia sumido com corpos que tinham sido identificados e nunca tinha notificado suas fam\u00edlias.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">De alguma forma, tamb\u00e9m me associei ao\u00a0<a href=\"https:\/\/nsarchive.gwu.edu\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><u>National Security Archive<\/u><\/a> (Arquivo de Seguran\u00e7a Nacional) em Washington, que\u00a0<a href=\"https:\/\/nsarchive2.gwu.edu\/NSAEBB\/NSAEBB499\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><u>desclassificou alguns cabos e me forneceu as informa\u00e7\u00f5es<\/u><\/a>. Tamb\u00e9m aqui pelo [Instituto Nacional de] Transpar\u00eancia no M\u00e9xico. Foram muitos anos pedindo informa\u00e7\u00f5es e aproveitando quando as fam\u00edlias das v\u00edtimas vinham ao M\u00e9xico, ou quando eu podia ir a Honduras, Guatemala ou El Salvador, ou Guanajuato, Michoac\u00e1n, ou at\u00e9 mesmo entrar em Tamaulipas, para pedir a todos que tinham alguma informa\u00e7\u00e3o que me dissessem algo. E a partir da\u00ed, uma pista me levou a outra pessoa, e a outra, e a outra, at\u00e9 que consegui escrever este livro.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Em M\u00e1s de 72, perguntamos \u00e0s pessoas nas redes sociais se elas tinham mais informa\u00e7\u00f5es. Foi assim que as pessoas de Tamaulipas que n\u00e3o tinham mais medo come\u00e7aram a me escrever para contar, para me convidar a ir l\u00e1. Tamb\u00e9m examinei os documentos, anotando os nomes dos funcion\u00e1rios que os assinaram ou das testemunhas, todos os tipos de pessoas, e as localizei at\u00e9 convenc\u00ea-las a me dar uma entrevista para entender n\u00e3o apenas as v\u00edtimas, mas tamb\u00e9m o governo, o que havia acontecido nesses casos e por que n\u00e3o o preveniram, por que esconderam os corpos.<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>LJR: Voc\u00ea estava entre os jornalistas que foram\u00a0<a href=\"https:\/\/forbiddenstories.org\/journaliste\/marcela-turati\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><u>espionados com o spyware Pegasus<\/u><\/a>* no M\u00e9xico. Como isso afetou sua investiga\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>MT:\u00a0<\/strong>N\u00e3o foi apenas uma espionagem, foram duas. Quando publiquei uma reportagem no Proceso na qual mencionei que havia corpos que haviam sido identificados pela PGR, mas que\u00a0<a href=\"https:\/\/www.sinembargo.mx\/18-02-2016\/1624627\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><u>a PGR n\u00e3o os havia devolvido \u00e0s fam\u00edlias e os havia enterrado, ou que os corpos das pessoas haviam sido cremados e que haviam sido entregues incorretamente<\/u><\/a>, essa reportagem desencadeou\u00a0<a href=\"https:\/\/www.washingtonpost.com\/world\/2021\/11\/23\/mexico-disappeared-organized-crime\/?_pml=1\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><u>uma investiga\u00e7\u00e3o da PGR<\/u><\/a>. Eles solicitaram todas as minhas liga\u00e7\u00f5es de seis meses atr\u00e1s e pediram \u00e0 \u00e1rea de investiga\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Federal todas as geolocaliza\u00e7\u00f5es de quando eu viajei e com quem falei. Analisaram quantas das minhas liga\u00e7\u00f5es foram com v\u00edtimas ou defensores de direitos humanos e tamb\u00e9m me rastrearam. Foram \u00e0s casas onde eu tinha ido. Queriam saber quem passava as informa\u00e7\u00f5es que eu havia publicado. Essa foi a primeira espionagem. E para fazer isso sem ordem de um juiz, inventaram um processo de investiga\u00e7\u00e3o, que [dizia que] eu era suspeita de sequestro e crime organizado nessas covas. Eu estava no processo de investiga\u00e7\u00e3o do mesmo caso que eu estava investigando! E ainda estou.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Em 2016 e 2017, foi o caso Pegasus,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.france24.com\/en\/live-news\/20210719-you-weren-t-paranoid-mexico-at-heart-of-spyware-scandal\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><u>quando meu nome apareceu nas listas [de pessoas supostamente espionadas]<\/u><\/a>. Suponho que isso tenha ocorrido por causa do\u00a0<a href=\"https:\/\/www.eleconomista.com.mx\/politica\/Caso-Ayotzinapa-nueve-anos-sin-respuestas-claras-sobre-la-desaparicion-de-43-estudiantes-20230926-0046.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><u>caso [do desaparecimento de 43 estudantes em] Ayotzinapa<\/u><\/a>.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Percebi coisas muito estranhas, telefonemas estranhos. As pessoas vinham me dar informa\u00e7\u00f5es falsas, ou o que eu sentia que eram informa\u00e7oes inventadas. Vinham me dizer que tinham parentes desaparecidos e eu descobria que n\u00e3o tinham, que era mentira. As pessoas vinham me dizer que eram Zetas, que queriam me levar para mostrar onde tinha uma cova. Tamb\u00e9m roubaram o disco r\u00edgido do meu computador, tive problemas com a internet em casa. Percebemos que o IP da minha casa havia bloqueado sites como os do Ex\u00e9rcito, que n\u00e3o pod\u00edamos ver certos sites.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Foi muito complicado porque eu n\u00e3o sabia realmente o que estava acontecendo. Eu tamb\u00e9m n\u00e3o sabia por qual dos casos [estava sendo espionada]. Esse foi um aprendizado: n\u00e3o ter investiga\u00e7\u00f5es perigosas abertas ao mesmo tempo, porque assim \u00e9 muito dif\u00edcil saber, a partir de tudo o que acontece com voc\u00ea, quem s\u00e3o os atores ou quem pode estar por tr\u00e1s disso. Mas, para mim, ficou claro que foi o Ex\u00e9rcito** no caso de Ayotzinapa e a PGR no caso das covas.<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><i>[Nota da editora:\u00a0<\/i><\/p>\n<p dir=\"ltr\"><i>*O nome de Turati apareceu em uma\u00a0<\/i><a href=\"https:\/\/forbiddenstories.org\/pegasus-journalists-under-surveillance\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><i><u>lista de jornalistas e outras pessoas potencialmente afetadas pelo spyware Pegasus<\/u><\/i><\/a><i>. A lista foi revelada por um cons\u00f3rcio que incluiu a organiza\u00e7\u00e3o de jornalismo investigativo sem fins lucrativos Forbidden Stories. Ap\u00f3s a divulga\u00e7\u00e3o da lista, a NSO Group, fabricante do Pegasus,\u00a0<\/i><a href=\"https:\/\/www.nsogroup.com\/Newses\/following-the-publication-of-the-recent-article-by-forbidden-stories-we-wanted-to-directly-address-the-false-accusations-and-misleading-allegations-presented-there\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><i><u>negou as acusa\u00e7\u00f5es<\/u><\/i><\/a><i>.<\/i><\/p>\n<p dir=\"ltr\"><i>**O presidente mexicano Andr\u00e9s Manuel L\u00f3pez Obrador\u00a0<\/i><a href=\"https:\/\/zetatijuana.com\/2023\/03\/amlo-niega-espionaje-de-ejercito-a-activistas-y-periodistas-es-inteligencia-dice\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><i><u>negou<\/u><\/i><\/a><i> que o Ex\u00e9rcito tenha espionado jornalistas].<\/i><\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>LJR: Voc\u00ea teve medo?<\/strong><\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>MT:\u00a0<\/strong>Sempre foi complicado. Eu n\u00e3o queria nem mesmo transcrever as coisas porque tinha medo de que estivessem me monitorando. \u00c9 por isso que eu tamb\u00e9m carregava muitos discos r\u00edgidos e cadernos porque n\u00e3o ousava transcrev\u00ea-las. Eu achava que, at\u00e9 que chegasse a hora de escrev\u00ea-las, eu poderia transcrev\u00ea-las, mas n\u00e3o antes. Isso tornou tudo ainda mais complicado. Foi emocionalmente muito dif\u00edcil.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Eu me retra\u00eda muito por causa do medo, medo de que algo acontecesse \u00e0s pessoas, medo de revelar alguma identidade, medo de que levassem meus arquivos, medo do governo e meu pr\u00f3prio medo de querer continuar investigando. Al\u00e9m disso, ir a San Fernando era sempre muito assustador, mas mesmo assim eu ia l\u00e1 para coletar depoimentos.<\/p>\n<div id=\"attachment_83258\" style=\"width: 353px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-83258\" class=\"wp-image-83260 \" src=\"https:\/\/latamjournalismreview.org\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/Proceso-San-Fernando.png\" alt=\"Cover of a special issue of Mexico's Proceso magazine on the killings in the city of San Fernando, Tamaulipas.\" width=\"343\" height=\"451\" srcset=\"https:\/\/latamjournalismreview.org\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/Proceso-San-Fernando.png 1212w, https:\/\/latamjournalismreview.org\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/Proceso-San-Fernando-228x300.png 228w, https:\/\/latamjournalismreview.org\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/Proceso-San-Fernando-780x1024.png 780w, https:\/\/latamjournalismreview.org\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/Proceso-San-Fernando-768x1009.png 768w, https:\/\/latamjournalismreview.org\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/Proceso-San-Fernando-1169x1536.png 1169w\" sizes=\"auto, (max-width: 343px) 100vw, 343px\" \/><p id=\"caption-attachment-83258\" class=\"wp-caption-text\">Antes do lan\u00e7amento do seu livro, Turati publicou na revista Proceso numerosas reportagens sobre o assass\u00ednio de imigrantes e a descoberta de covas clandestinas em Tamaulipas. (Foto: Proceso)<\/p><\/div>\n<p dir=\"ltr\"><strong>LJR: Qual foi o impacto emocional que essa investiga\u00e7\u00e3o teve sobre voc\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>MT:<\/strong> Cobrir covas, ver fotos de corpos, conhecer as fam\u00edlias, ver documentos, ver fotos de cad\u00e1veres mutilados, estar o tempo todo nisso foi muito complicado para mim emocionalmente. Houve muitos momentos em que eu n\u00e3o queria saber mais dessa investiga\u00e7\u00e3o, n\u00e3o queria saber se queria public\u00e1-la ou se deixava para l\u00e1. At\u00e9 que me ocorreu enviar a proposta do livro para o\u00a0<a href=\"https:\/\/sic.cultura.gob.mx\/ficha.php?table=convocatoria&amp;table_id=1089\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><u>pr\u00eamio Javier Valdez C\u00e1rdenas<\/u><\/a>. Ent\u00e3o,\u00a0<a href=\"https:\/\/latamjournalismreview.org\/es\/news\/marcela-turati-obtiene-el-premio-de-periodismo-javier-valdez-cardenas-2021\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><u>como ganhei<\/u><\/a>, isso deixou claro para mim que eu tinha que terminar o livro.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Mas decidi que o livro n\u00e3o seria sobre o que aconteceu comigo. Embora eu reflita, sim, sobre o sil\u00eancio, sobre a zona silenciada, sobre a dificuldade de encontrar a verdade em um lugar onde as pe\u00e7as desapareceram, onde as autoridades n\u00e3o querem que voc\u00ea saiba, onde te perseguem, onde destroem provas e constroem provas falsas.<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>LJR: Imagino que n\u00e3o seja f\u00e1cil se despedir de um tema pelo qual, como voc\u00ea disse, tinha uma obsess\u00e3o. O que vem a seguir para voc\u00ea como jornalista?<\/strong><\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>MT:\u00a0<\/strong>Quero continuar entrando em contato com diferentes fam\u00edlias e ver como elas podem usar o livro para a causa da verdade, para pedir justi\u00e7a.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Por outro lado, fiz um ritual de encerramento. Os rituais s\u00e3o importantes para mim, e isso tamb\u00e9m foi o que aprendi nessa cobertura. O que me obcecava, o que me habitava, eram as fotos desses jovens assassinados, de seus corpos. Ent\u00e3o, de certa forma, fiz um ritual, conversando com eles, dizendo-lhes que j\u00e1 havia cumprido meu objetivo, que esse era meu objetivo, e que espero que eles consigam justi\u00e7a. E emocionalmente sinto que, de certa forma, estou encerrando o processo, entregando-os \u00e0s suas fam\u00edlias, apresentando-os.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">\u00c9 hora de continuar falando sobre isso, apresentando [o tema], porque o livro tem muitas chaves para entender o que estamos vivendo hoje no M\u00e9xico. N\u00e3o \u00e9 uma hist\u00f3ria do passado, pois muitas coisas ainda est\u00e3o acontecendo.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">O pr\u00f3ximo passo tamb\u00e9m \u00e9 fazer um tempo de sil\u00eancio, um tempo de descanso para que eu possa \"reiniciar\" e mudar de assunto. Dar um tempo e depois seguir em frente.<\/p>\n<h3 id=\"ea5ac026be49e8cf49e07ec5065a440d3\" dir=\"ltr\">Dicas para investigar desaparecimentos<\/h3>\n<p dir=\"ltr\">Os cursos ministrados por Marcela Turati e sua equipe como parte do projeto\u00a0<a href=\"https:\/\/adondevanlosdesaparecidos.org\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><u>A d\u00f3nde van los desaparecidos<\/u><\/a> t\u00eam como objetivo n\u00e3o apenas capacitar rep\u00f3rteres sobre como cobrir e reportar melhor os desaparecimentos, mas tamb\u00e9m criar uma rede de jornalistas, oferecer acompanhamento e ajud\u00e1-los a reduzir os riscos.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Turati compartilhou cinco dicas principais que os jornalistas podem aplicar ao abordar a quest\u00e3o dos desaparecimentos em uma investiga\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica.<\/p>\n<p><strong>1. Acompanhar as pistas<\/strong><\/p>\n<p dir=\"ltr\">\"A partir do momento em que voc\u00ea entra no primeiro caso, [voc\u00ea deve] conservar as informa\u00e7\u00f5es, olhar tudo. Sempre guarde n\u00fameros de telefone, nomes, para o caso de voc\u00ea poder seguir uma pista. Sempre tente fazer o acompanhamento.\u201d<\/p>\n<p><strong>2. Estabelecer uma estrat\u00e9gia de seguran\u00e7a para a equipe<\/strong><\/p>\n<p dir=\"ltr\">\"\u00c9 preciso sempre tratar de ser monitorado, ter uma equipe com a qual voc\u00ea esteja trabalhando, com a qual voc\u00ea se coordene e se organize para poder estabelecer um plano de seguran\u00e7a.\u201d<\/p>\n<p dir=\"ltr\">\"Se voc\u00ea for divulgar informa\u00e7\u00f5es para ver se algu\u00e9m entra em contato com voc\u00ea, certifique-se de que n\u00e3o seja uma armadilha. Voc\u00ea precisa estar atento \u00e0s medidas de seguran\u00e7a para saber se vai entrar em contato com essas pessoas\".<\/p>\n<p><strong>3. Ficar de olho no tema durante outras coberturas<\/strong><\/p>\n<p dir=\"ltr\">\"Em todas as viagens, fa\u00e7a seu trabalho normal do dia a dia, mas tamb\u00e9m continue avan\u00e7ando no outro tema, mantenha-o sempre em sua mente onde quer que esteja. De repente, encontrei pessoas que, por algum motivo, sabiam [sobre minha investiga\u00e7\u00e3o] e foi porque mencionei o assunto que, nos EUA e em outros pa\u00edses, encontrei muitas fontes novas nas quais n\u00e3o havia pensado.\u201d<\/p>\n<p><strong>4. Abordar o problema em grande escala<\/strong><\/p>\n<p dir=\"ltr\">\"Eu sempre digo: 'Eu n\u00e3o estava t\u00e3o interessada em saber se o l\u00edder da gangue era um personagem ou outro. Estou interessada em entender como todo o sistema funciona'. Me interessava entender sociologicamente como se instala o terror ou como opera a PGR\".<\/p>\n<p dir=\"ltr\">\"Para mim, \u00e9 muito importante trazer \u00e0 tona a mec\u00e2nica da viol\u00eancia, para que ela n\u00e3o fique em anedotas e horror, mas que cada hist\u00f3ria tamb\u00e9m tenha algo revelador sobre como essas l\u00f3gicas de viol\u00eancia operam, sem deixar de ver o que o Estado faz e o que deveria fazer\".<\/p>\n<p><strong>5. Apontar as falhas das autoridades<\/strong><\/p>\n<p dir=\"ltr\">\"H\u00e1 muitas hist\u00f3rias sobre narcotraficantes ou terror, mas temos que analisar a resposta que o Estado deveria dar e verificar e investigar por que ela n\u00e3o foi dada e por que as pessoas ficaram desamparadas. 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He has written for publications such as TODO Austin, Texas Music Magazine and The Austin Chronicle. C\u00e9sar has a Master's degree in Journalism from the University of Texas at Austin and a Bachelors degree in Communication from the National Autonomous University of Mexico. He previously wrote about innovation in journalism for the Gabo Foundation in Colombia and currently reports for the Knight Center's LatAmJournalism Review digital magazine. A native of Mexico City, C\u00e9sar has become a digital nomad combining content creation with his passion for travel. ________ C\u00e9sar L\u00f3pez Linares inici\u00f3 su carrera en el diario mexicano REFORMA como coeditor de entretenimiento y medios. Ha escrito para publicaciones como TODO Austin, Texas Music Magazine y The Austin Chronicle. C\u00e9sar tiene una Maestr\u00eda en Periodismo de la Universidad de Texas en Austin y una Licenciatura en Comunicaci\u00f3n de la Universidad Nacional Aut\u00f3noma de M\u00e9xico. 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