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De data centers ao trabalho digital, jornalista brasileira acompanha o impacto da IA no Sul Global

Cinco perguntas para Laís MartinsQuando se fala de inteligência artificial (IA), muito se propagandeia sobre novos modelos de linguagem, sua rapidez de processamento, seus usos e desusos. Contudo, pouco se fala sobre os custos desse ecossistema: exploração de recursos, opacidade institucional, trabalho com pouco , infra estruturas massivas e impactos generalizados no ecossistema e nas comunidades que recebem tais empreendimentos.

No Brasil, nos últimos cinco anos, cresceu uma cobertura de tecnologia que vai além do próprio setor e que se alinhava com investigações a respeito de violações de direitos humanos, meio-ambiente, política, gênero etc. Uma das repórteres que mais têm desenvolvido pautas nesse sentido é Laís Martins, 29. Formada pela PUC-SP e mestre em Comunicação Política pela Universidade de Amsterdam,  seu trabalho foca justamente nessas interseções, com olhar focado para países em desenvolvimento como o Brasil.

Martins trabalha há dez anos como jornalista e já teve passagens por iG, Reuters, Núcleo, Rest of World e The Intercept Brasil, além de colaborações em veículos como o The New York Times e o Guardian.

Para Martins, é cada vez mais evidente que a tecnologia desenvolvida no Vale do Silício não existiria sem o Sul Global, já que ela é construída graças aos recursos naturais e ao trabalho de pessoas nesses lugares.

“Isso vale para moderação de conteúdo das plataformas, mas também para inteligência artificial”, ela disse ao LatAm Journalism Review (LJR). Considere, por exemplo, o treinamento de dados dos grandes modelos de linguagem e suas ferramentas decorrentes, como ChatGPT. A mão de obra barata e precarizada que treina esses sistemas não está na Califórnia, mas sim, majoritariamente no Sul Global”.

Esses impactos pouco conhecidos são ponto fulcral da sua cobertura, por exemplo, sobre data centers e sua expansão no Brasil. Tão pouco se sabe sobre a entrada desses megaempreendimentos que Martins compartilhou a LJR que ficou chocada ao perceber que muitas comunidades vizinhas a data centers só ficaram sabendo dos projetos a partir de reportagens sobre o assunto.

Outro lugar que pouco se discute sobre os impactos da IA é nas redações. Por conta de sua trajetória na área, a repórter vai mediar uma mesa-redonda dedicada ao assunto. Durante Direto da Redação: como a IA está transformando o jornalismo”, jornalistas e inovadores digitais da América Latina vão discutir como a IA tem afetado seu trabalho e de que forma suas redações estão adotando essas tecnologias.

O “Direto da Redação” é uma nova série virtual gratuita do Centro Knight para o jornalismo nas Américas que abordará inovação e oportunidades no jornalismo da América Latina. A discussão será mediada por Martins, fellow da AI Accountability Network no Pulitzer Center e repórter do Intercept Brasil, com a participação dos seguintes painelistas: Dani Braga, editora de inteligência artificial, Folha de S.Paulo, Tatiana Dias, jornalista investigativa, Jade Drummond, diretora executiva do Núcleo Jornalismo e Marcela Duarte, diretora de inovação do Aos Fatos

Como parte de sua série “5 Perguntas”, a LJR conversou com Martins sobre a cobertura de tecnologia no Sul Global, os desafios envolvidos, como relacionar esses temas com questões de direitos humanos e ambientais, o impacto físico de infraestruturas opacas e a diversidade na cobertura de tecnologia. A entrevista foi editada para maior concisão e clareza.

1 - Geralmente as pessoas não associam Big Techs ao Sul Global. Como que o jornalismo pode expor que esse é um sistema que, apesar de ser originário de “países ricos”, ocupa espaços - literais e virtuais -  no “resto do mundo”? Nesse contexto, que tipo de cobertura você têm se esforçado em perseguir?

Você tem razão: essa associação não ocorre, mas ela precisa acontecer. Cada vez mais tem ficado evidente que a tecnologia desenvolvida no Vale do Silício não existiria sem o Sul Global, já que ela é construída graças aos recursos naturais e ao trabalho de pessoas nesses lugares.

Isso vale para moderação de conteúdo das plataformas, mas também para inteligência artificial. Considere, por exemplo, o treinamento de dados dos grandes modelos de linguagem e suas ferramentas decorrentes, como ChatGPT. A mão de obra barata e precarizada que treina esses sistemas não está na Califórnia, mas sim, majoritariamente no Sul Global.

A cobertura que eu tenho me esforçado em perseguir é uma cobertura que ajude o leitor e a nossa audiência a conectar esses fatos que parecem distantes e a partir disso que eles possam agir. Tudo que é feito, desenvolvido no Vale do Silício reverbera aqui, não só como consumidores finais dos produtos, mas como origem de boa parte dele.

Na nossa cobertura, também tentamos trazer sempre à tona como o Brasil é um mercado-chave para as big techs e, por isso, nós brasileiros temos um poder tremendo enquanto usuários. Poder de demandar plataformas melhores, mais protetivas, mas também de sonhar um outro futuro tecnológico que não passe por empresas do Vale do Silício.

2 - Você têm uma série bastante longa no The Intercept Brasil sobre Datacenters. Considero-a essencial por ter sido pioneira em trazer à luz as infraestruturas físicas que sustentam algo que apenas tocamos em nossos celulares. Nessa trajetória, qual têm sido a maior dificuldade na apuração e quais têm sido os resultados mais interessantes na cobertura?

A maior dificuldade tem sido, sem dúvida, a falta de transparência sobre o desenvolvimento dessas infraestruturas. Esse não é um desafio exclusivamente do contexto brasileiro, faz parte do modus operandi de como essas infraestruturas estão sendo instaladas ao redor do mundo.

E é importante dizer que essa falta de transparência não é só por parte das empresas, como também de governos - prefeituras, estados e governo federal, que têm dificultado a divulgação de informações relevantes para a população sob alegação de segredos comerciais, por exemplo.

Já em termos de resultado, o mais interessante tem sido ver grupos se mobilizando a partir das informações que o jornalismo têm conseguido trazer à tona. É, na minha opinião, chocante e preocupante que comunidades vizinhas a data centers só fiquem sabendo do empreendimento a partir da publicação de uma reportagem, por exemplo.

Mas é isso que está acontecendo em vários lugares do Brasil e isso ressalta a importância do jornalismo investigativo. É importante dizer que a mobilização de comunidades contra data centers, como é o caso dos Anacé e das organizações de sociedade civil que estão se mobilizando contra o data center do TikTok no Ceará, não acontece da noite para o dia. É uma construção, já que data centers dessa escala são novidade no Brasil, então há uma necessidade de aprender sobre seus impactos. Tem sido muito interessante acompanhar esse processo.

3 - Apesar de existir alguns veículos que “cobrem tecnologia”, são poucos os que fazem uma cobertura substantiva de tech. No seu caso, obviamente a cobertura de tech se alinhava de forma inequívoca com direitos humanos e política por exemplo. O quão complexo é, em um espaço editorial limitado, pautar essas interseções? 

Eu honestamente não vejo como algo complexo. É uma linha de corte: se não é uma matéria de tecnologia que tenha uma clara intersecção com direitos humanos e política, não é uma matéria para nós.

E, a bem da verdade, acho que todas as matérias de tecnologia têm essa intersecção, mas vários veículos não se interessam por esse ângulo.

Vou te dar um exemplo: vejo muitas matérias sobre tecnologias de reconhecimento facial que olham apenas para o lado “positivo” dessa tecnologia, seu potencial em supostamente tornar um local mais seguro. Essas matérias não citam, por exemplo, o risco de erro ou o fato de que são tecnologias que carregam vieses. Esse é o lado ‘direitos humanos’ que é inerente a essa discussão.

Acredito que o jornalismo que consegue pautar essa intersecção se destaca e tem mais potencial de impacto, além de alcance, já que pode interessar a um público maior do que uma audiência que se interessa estritamente por tecnologia, por exemplo.

4 - A cobertura de tecnologia no Brasil é feita por poucos veículos de nicho e um punhado de repórteres. Dentro da sua trajetória, você observa que obstáculos que impedem que essa seja uma cobertura mais visada, especialmente por repórteres mulheres, pessoas trans, minorias etc?

Essa é uma ótima discussão. Eu cada vez mais enxergo e tenho defendido que a cobertura de tecnologia não seja feita apenas por repórteres de tecnologia.

Veja a pauta ‘data centers’, por exemplo. É uma história tão transversal que há múltiplas e diferentes entradas. Se você é um repórter que cobriu energia a vida toda, você consegue entrar na cobertura. Se você cobre negócios, você também consegue. Se sua cobertura é focada em meio ambiente, também.

Uma cobertura de qualidade de tecnologia demanda essas diferentes expertises, mas demanda também pessoas diferentes a partir de locais diferentes. Ter uma cobertura feita por pessoas de grupos que são afetados pelo desenvolvimento assimétrico dessas tecnologias é crucial: é isso que vai elevar a qualidade da cobertura e também seu potencial de impacto.

Acho que há um obstáculo estrutural: poucos veículos olham para tecnologia a partir dessas intersecções e portanto “aceitam” que repórteres de fora do nicho toquem essas pautas. Mas também há uma espécie de bloqueio dos próprios repórteres de acharem que essa cobertura não é para eles, quando na verdade é perfeitamente possível que essas pessoas tenham muito a acrescentar.

5 - Você têm fellows com diversos veículos, instituições etc. Acho importante que essas 5 perguntas você alinhave um pouco de como você se organiza e para ficar atualizada para oportunidades ímpares.

Tem muitas oportunidades ótimas por aí. Eu recomendo ficar de olho no LinkedIn, no Instagram e na página próprias dessas instituições.

Mas um ótimo jeito de conhecer oportunidades é acompanhar o trabalho de jornalistas que tenham participado desses programas e oportunidades. Em geral, as pessoas são super abertas a trocar dicas e recomendações, então é um bom jeito de afinar interesses.

Mas minha dica principal é: se inscrevam e se arrisquem! Nem sempre a gente consegue, são muitas inscrições que não dão resultado, mas isso nos dá prática na escrita de projetos e aplicações. É um exercício importante. E uma hora dá certo.

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