Redações grandes e pequenas estão adotando a IA para traduzir, criar roteiros e checar fatos em tempo real. Em uma mesa-redonda do Knight Center, cinco jornalistas de destaque analisaram seus riscos visíveis e ocultos.
“A IA chegou com os dois pés na porta.” Essa foi parte das observações iniciais da moderadora Laís Martins em uma mesa-redonda organizada pelo Knight Center para o Jornalismo nas Américas sobre o uso de inteligência artificial em redações no Brasil.
“Nossa indústria mal havia se recuperado da crise das redes sociais, de entender como lidar com esses novos espaços digitais, quando foi atingida por esse novo grande desafio”, disse Martins, repórter do The Intercept Brasil e bolsista da AI Accountability Network no Pulitzer Center.
Ela esteve acompanhada por Daniela Braga, editora de inteligência artificial na Folha de S.Paulo; Tatiana Dias, jornalista investigativa; Jade Drummond, diretora executiva no Núcleo Jornalismo; e Marcela Duarte, diretora de inovação no Aos Fatos.
O webinar contou com a participação de mais de 200 pessoas, incluindo muitos estudantes universitários de todo o Brasil.
Dias, bolsista da organização sem fins lucrativos Tech Policy Press, sediada no Texas, e repórter experiente na cobertura de tecnologia no Brasil, disse que tem sido tanto entusiasta quanto crítica em sua cobertura de inteligência artificial.
Em abril, ela fará parte de um grupo que lançará o Ctrl + Z, uma organização que defenderá os direitos digitais por meio de investigação e litigância. Ela ressaltou que, em uma sala de aula universitária típica, praticamente todos os alunos usam o ChatGPT regularmente e que, de acordo com o Digital News Report 2025 do Reuters Institute, 9% dos brasileiros já usam chatbots de IA para obter notícias.
“Não estamos mais debatendo se vamos usá-la ou se deveríamos usá-la”, disse ela. “Esse barco já zarpou”.
Para Dias, entender os riscos da tecnologia é fundamental porque a indústria promove uma urgência em aderir aos seus produtos, mas ela afirmou que a maior parte disso é movida pelos interesses das próprias empresas.
“Não precisamos ter uma postura ludista de destruir essas novas tecnologias”, disse ela. “Mas devemos usá-las em um processo crítico e reflexivo, sem introduzir informações sensíveis nesses sistemas”. Ela apresentou uma série de matrizes de tomada de decisão inspiradas em estruturas criadas pelo Pulitzer Center e Repórteres Sem Fronteiras sobre os usos éticos da IA na redação.

“Temos este eixo horizontal: alta precisão e baixa precisão. Portanto, neste diagrama, evitamos as coisas que exigem alta precisão e são voltadas para o público — risco muito alto,” disse Tatiana Dias, repórter experiente na cobertura de tecnologia no Brasil.
“Temos que considerar se este conteúdo é destinado a um público, se será um produto final”, disse ela. “É um texto que as pessoas lerão, um carrossel do Instagram que as pessoas verão, algo a que as pessoas terão acesso ou estou usando para pesquisa interna, para analisar um documento de 900 páginas? Por que estou usando esta IA? Isso determinará o nível de risco do uso da ferramenta”.
Dias afirmou que uma ferramenta que pode criar imagens apresentadas ao público ou que cria uma transcrição para uso interno são tipicamente de risco médio, o que significa que podem ser usadas, mas com cautela.
“Tive inúmeros casos em que usei IA para resumir uma entrevista e a IA simplesmente inventou uma citação. Ela reescreve o que a pessoa disse de uma forma diferente e muda completamente o sentido”, disse ela.
Ela acrescentou que a ferramenta pode ser muito útil para analisar grandes volumes de dados, como para transcrever várias horas de gravações de vídeo do YouTube e encontrar a localização de uma citação, embora possa ter baixa precisão.
“Eu recomendo”, disse ela. “É para uso interno”.
Dias encerrou sua apresentação alertando que a indústria de IA quer transformar o processo de pensamento em mercadoria.
“Precisamos defender nossa criatividade, nossa humanidade e nossa capacidade de improvisar — coisas que as máquinas não conseguem fazer”, disse ela. “Acho que, se perdermos a nossa essência nisso, terminaremos com uma mentalidade polarizada que transforma nossas ideias em um modelo de negócio”.
Jade Drummond, diretora executiva do site de notícias de tecnologia Núcleo Jornalismo, prosseguiu apresentando uma abordagem baseada em veículos para o uso de IA. A equipe do Núcleo foca em reportagens profundas e na construção de aplicativos e ferramentas para monitorar e rastrear dados públicos.
O uso de IA na redação no processo editorial é ditado por sua política interna. “O ponto principal desta política é que vemos a inteligência artificial como uma ferramenta que não substituirá os humanos. Ela deve ser usada como uma ferramenta que pode aprimorar nosso trabalho, seja melhorando nossas investigações ou os produtos digitais que desenvolvemos”.
Drummond citou a necessidade de o estilo e a voz do repórter serem vistos em suas histórias. Mas o veículo não se furta de oferecer ferramentas baseadas em IA, como o Nuclito, que ajuda os usuários a pesquisar o conteúdo do Núcleo, e o Legislatech, que ajuda a rastrear documentos públicos e legislação.
Divulgar e ser transparente sobre o uso de IA é fundamental. A maioria do público considera importante divulgar que você usou IA para imagens, áudio, vídeo, edição de fotos, redação do texto ou qualquer outra coisa, disse ela.
De um veículo pequeno para um grande, a próxima painelista foi Daniela Braga, editora de IA na Folha de S.Paulo, um dos maiores jornais da América Latina. Ela apresentou um portfólio crescente que o veículo está desenvolvendo para uso de seus mais de 300 jornalistas. Isso inclui um tradutor e um serviço de transcrição, um gerador de manchetes e um roteirista de vídeos curtos, o que é especialmente urgente com a crescente importância do vídeo.
“Os jornalistas podem gravar a si mesmos com a ajuda da IA, o que reduzirá o tempo necessário para produzir um roteiro baseado em algo que eles já criaram”, explicou ela. “E para os nossos leitores, lançamos um projeto piloto para criar receitas usando IA. Foi o primeiro produto que lançamos. Mais tarde, fizemos uma parceria com um hospital para criar um chatbot de informações sobre câncer de mama e próstata usando o próprio banco de dados do hospital”.
O Manual da Folha, amplamente utilizado e semelhante ao AP Stylebook, foi usado para criar um aplicativo de edição que ajuda os repórteres a padronizar e revisar o texto. “O manual é um guia bem conhecido do jornalismo brasileiro e tem sido a nossa bíblia que sempre seguimos. Então, pegamos a última edição do manual e a usamos para treinar nossa IA para corrigir textos de acordo com o que está escrito no manual”, disse Braga. “Então, a Folha usa algarismos romanos ou não? Não, não usa. Assim, a IA fará essa correção, mas nunca o fará automaticamente. Sempre requer a ação do usuário.”
A checagem de fatos e a IA também foram discutidas na mesa-redonda. Marcela Duarte, diretora de inovação no site de checagem Aos Fatos, disse que não podem se dar ao luxo de não usar IA. “Vimos ganhos de produtividade, para que possamos analisar grandes bancos de dados que não conseguiríamos fazer manualmente, ou que eu não conseguiria fazer sozinha ou com uma equipe pequena — tarefas que levariam muito tempo, talvez um esforço hercúleo de um ano”, disse ela.
Em meio a uma eleição que se aproxima — e polarizada — o Aos Fatos está testando uma ferramenta de IA chamada BuscaFatos que ajudará os repórteres a checar fatos em tempo real. “Temos o Escriba, que fornece transcrições para nossa redação e para algumas organizações. O Escriba transcreve a transmissão ao vivo ou o debate em tempo real, e este novo aplicativo comparará as frases faladas com o banco de dados do Aos Fatos, mostrando imediatamente ao repórter que o acessa se uma determinada frase já foi checada pelo Aos Fatos e indicando se é falsa ou verdadeira”, explicou Duarte.
Para ela, essas ferramentas são importantes porque a desinformação se espalha muito mais rápido e mais longe, e a checagem de fatos vem depois tentando resolver esse problema. “A velocidade, neste caso, é essencial. Portanto, quanto mais rápido pudermos desmentir certas informações ditas em um debate, melhor”.
Assista a esta discussão e a todo o webinar gratuitamente na página do YouTube do Knight Center.