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Um porteiro e um repórter de TV são a dupla improvável que está entrando na cena de notícias do Rio de Janeiro

Summary

Em uma das áreas mais turísticas da cidade, uma modesta página no Instagram construiu um grande público ao divulgar avisos comunitários, comunicados de segurança pública e alertas de trânsito

A cena parece comum para um jornalista: um repórter, um operador de câmera, um microfone com uma canopla e dois entrevistados. A pauta é sobre violência urbana, um tema tradicional e uma preocupação dos cidadãos do Rio de Janeiro. 

Tudo remete ao jornalismo televisivo diário, mas na realidade trata-se de uma página de notícias de bairro chamada Zona Sul Urgente, um perfil no Instagram criado inicialmente para reunir informações sobre questões relacionadas a essa área da cidade. 

Desde posts sobre acidentes de trânsito, entrevistas, jornalismo de serviço, alertas locais etc., qualquer coisa que seja adequada para publicação pode ser publicada, mesmo que com uma marca de censura para evitar restrições do Instagram em relação à violência.

Criada por um porteiro em 2022 chamado Leonardo — o câmera — e assumida pelo jornalista e amigo Diego Bino — o homem de azul segurando o microfone —, a página tem quase 380 mil seguidores e 43 milhões de visualizações por mês, dado que foi mostrado ao Latam Journalism Review (LJR)

A página faz dupla com outra chamada Alerta Rio, também com números semelhantes, que foca mais em violência urbana e alertas feitos e/ou compartilhados pela comunidade local. 

“Antes da pandemia eu criei uma página chamada Alerta Zona Sul sozinho. Ela chegou a 60 mil seguidores, comecei a receber muita demanda e as pessoas até começaram a me ver como uma espécie de representante da prefeitura”, disse Leonardo à LJR.

Ele pediu para ser identificado apenas pelo primeiro nome devido a ameaças que recebeu de supostos criminosos em resposta aos seus vídeos.

Gerenciar a página deixou Leo tão estressado que ele vendeu a página para um representante de um político local ligado ao prefeito do Rio em 2022. 

“Eu nem pensei em monetizar a página. Então o único dinheiro que ganhei com ela foi com a venda. Não tinha patrocínio, não tinha nada. O que aconteceu? Fiquei deprimido porque eu realmente gostava de postar notícias. Então, um mês depois, criei ainda mais páginas, incluindo Alerta Rio e Zona Sul Urgente”.

Bino, por outro lado, havia acabado de chegar ao Rio em dezembro de 2022 do seu estado natal, o Ceará, depois de anos trabalhando como jornalista local em uma rádio da cidade que pertencia ao prefeito. 

“Lá na minha cidade eu apresentava um programa chamado ‘O Varjotense’ pela manhã e à tarde eu fazia reportagens para o programa de rádio ‘Tribuna do Povo’, com Hélio Soares, um comunicador conhecido na região noroeste do Ceará. Foi quando comecei a dar voz às pessoas”, contou Bino à LJR, explicando que naquela época criou uma página de Instagram que administrava com o nome do programa que apresentava. 

“Então, quando eu gravava uma reportagem e queria mostrar mais detalhes ao público, eu anunciava na rádio e pedia para as pessoas conferirem os stories do O Varjotense. Eu tinha cerca de 20 mil seguidores lá. Isso é muito para aquela região, já que a cidade tem cerca de 18 mil habitantes segundo o IBGE”.

Bino disse que foi ficando cada vez mais desiludido com a reação que recebia após mostrar erros do grupo no poder na administração da cidade. 

“Quando eu mostrava as coisas ruins que aconteciam do lado da oposição, muita gente aplaudia”, ele disse. “Mas quando comecei a mostrar as coisas ruins do lado da situação, algumas pessoas também se voltaram contra mim, e eu nunca baixei a cabeça para políticos, porque faço tudo isso com boas intenções e um propósito de vida. Foi aí que decidi voltar para o Rio de Janeiro”.

No Rio, cidade que ele já conhecia e onde havia trabalhado por anos antes de voltar para sua terra natal, Bino começou a fazer reportagens locais em seu próprio perfil no Instagram e marcava a Zona Sul Urgente, então pertencente ao ainda desconhecido Leo. Eventualmente eles se conheceram e formaram uma dupla. 

“Eu propus: vamos ser parceiros, eu vou ser o rosto, vou entrevistar as pessoas, vou dar voz aos moradores, vou fazer o que eu já fazia no Ceará, e a partir daí a gente soma forças, porque eu estava sozinho e ele também”, disse Bino, acrescentando que foi convidado para ser administrador do Alerta Rio. 

“Na época, o Alerta Rio tinha 90 mil seguidores, então ele [Leo] ficaria com o Zona Sul Urgente e eu com o Alerta Rio", disse Bino. “E então comecei a colocar meu rosto no Alerta Rio, o que era muito arriscado, né? Porque o Alerta Rio é mais factual”.

Após receber ameaças de facções do tráfico local que sabiam que ele era jornalista, Bino se mudou da favela onde morava e optou por se dissociar publicamente do Alerta Rio, passando a focar mais no Zona Sul Urgente, que gira em torno do jornalismo de serviço público e denúncias enviadas pela comunidade.

O impacto que as páginas têm é tão abrangente que Bino compartilhou que muitos produtores de TV da mídia tradicional seguem as páginas em busca de pautas e também recorrem a ele sempre que precisam da ajuda de um colega.  

“Eu entro em contato com ele muitas vezes, e ele sempre vem em meu auxílio”, disse à LJR Rodrigo Monteiro, repórter local da CNN Brasil, “Sempre que preciso de algum material que sei que pode estar na página dele ou que ele conseguiu de alguma outra fonte, ele se esforça ao máximo para ajudar”.

Para estudiosos e pesquisadores, o que Bino e Leo estão fazendo é um sintoma que a imprensa tradicional está perdendo sua conexão com a população.

“Alguns jornalistas — ou às vezes até não jornalistas — identificaram uma demanda por um certo tipo de informação ou serviço e começaram a oferecê-lo nas redes sociais”, disse Murillo Camarotto, pesquisador do Reuters Institute for the Study of Journalism, à LJR

“Dependendo do conteúdo, eles conseguem ganhar tração e público. Já existem vários outros perfis semelhantes em outras partes do Brasil que de fato estão conseguindo construir uma audiência mais fiel que antes pertencia aos jornais tradicionais”, afirmou.

Apesar do apoio popular no Instagram e nas ruas devido à ajuda pragmática que as páginas oferecem, há ressalvas. Estudiosos veem a prática de publicar alertas comunitários, que são em sua maioria compostos por vídeos de câmeras de segurança mostrando crimes com rostos não censurados, como editorialmente preocupantes, já que são evidências que não foram verificadas nem investigadas pela polícia. 

No Rio, onde punitivismo e vigilantismo são problemas reais, isso pode ser especialmente problemático. 

Jacqueline Deolindo, professora da UFF (Universidade Federal Fluminense), contextualizou à LJR que as empresas de redes sociais têm favorecido o surgimento de iniciativas semelhantes porque a produção de notícias — especialmente quando feita de maneira cuidadosa, ética e aprofundada — é cara.

“Em outros casos, [essas iniciativas estão] totalmente alinhadas à lógica das grandes corporações e dos algoritmos, para garantir alcance e visibilidade, o que é perigoso, pois aumenta o potencial de circulação de desinformação por meio de notícias mal verificadas, enganosas ou imprecisas, ou ao dar espaço para o que pode até se tornar objeto de ação judicial, como a exposição de pessoas, dados ou o apoio a práticas que vão contra o Estado Democrático de Direito, prejudicando não apenas a ética jornalística, mas também os mais altos valores humanos”, ela disse.

Bino disse ao LJR que eles só publicam dentro de certas condições.  

“É essencial esclarecer que vídeos sem censura não são publicados de forma irresponsável. Esse tipo de conteúdo só é divulgado quando os fatos são devidamente verificados e constituem um crime em flagrante”, explicou Bino, acrescentando que, para ele, a exposição nessas situações não é sensacionalista, mas informativa e de utilidade pública, contribuindo para a identificação de suspeitos e para a conscientização da população.  

“Quando publicamos o criminoso que está invadindo uma loja sem censurar o rosto, conseguimos identificar o suspeito e as autoridades agem rapidamente, prendendo o infrator e dando uma resposta à sociedade”, disse Bino.

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