Uma unidade da Defensoria Pública do estado central de Goiás está processando 10 veículos de mídia, pedindo a remoção de conteúdo online relacionado a um crime brutal em que a polícia diz que um funcionário local matou a tiros seus dois filhos antes de tirar a própria vida.
A unidade de defesa dos direitos das mulheres da Defensoria Pública do Estado de Goiás afirmou que a cobertura desviou a atenção da violência do autor e voltou-se para a conduta moral da mãe das crianças, que sobreviveu. Muitas reportagens se concentraram em um suposto caso amoroso que o homem a acusou de ter, embora isso jamais tenha sido provado, expondo-a a um “linchamento online”.
O órgão acrescentou que os veículos pouco fizeram para conter o discurso de ódio direcionado à mulher em seus sites e plataformas de redes sociais. Alguns publicaram ataques e vídeos de sua vida privada, enquanto outros divulgaram uma carta escrita pelo homem explicando suas ações.
A mãe precisou sair mais cedo do velório de uma das crianças por razões de segurança e por supostas ameaças.
Em nota fornecida ao LatAm Journalism Review (LJR), a Defensoria disse que a ação judicial busca a retirada das publicações e danos morais coletivos, como questão de interesse público para proteger os interesses de grupos vulneráveis em geral.
A ação cita os seguintes veículos: CNN Brasil, Unigraf Unidas Gráficas e Editora Ltda, Globo Comunicação e Participações, Mais Goiás Comunicação Marketing e Internet Ltda, Metrópoles, Rádio e Televisão Record, Televisão Goya Ltda, Televisão Anhanguera S/A, TV Serra Dourada Ltda e Opção Notícias Ltda.
Alguns dos veículos citados na ação integram a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (ABERT). A entidade preferiu não comentar o caso quando procurada pela LJR.
Críticas à cobertura do crime atribuído a Thales Machado, que era secretário municipal em Itumbiara, no sul de Goiás, também vieram de outros jornalistas. O jornal Diário da Manhã publicou uma reportagem aprofundada sobre o discurso de ódio que se seguiu, destacando comentários que culpavam diretamente a mãe das crianças, Sarah Araújo.
A colunista Fabiana Moraes, escrevendo para o The Intercept Brasil, afirmou que muitos veículos estavam “afiar a faca” contra Araújo.
“Não é o veículo de imprensa que puxa o gatilho. Mas é ele que prepara o terreno simbólico onde certos gatilhos encontram justificativa social. Ao insistir na ‘infidelidade’ como elemento central, a cobertura não se limita a informar: sugere uma compreensão, quase uma explicação”, escreveu ela.
A jornalista veterana Cileide Alves, ex-editora-chefe do O Popular, o maior jornal de Goiás, disse à LJR que o episódio revelou falta de respeito com Araújo e com as mulheres em geral, mas reconheceu que parte das reportagens foi responsável.
“Quem replicava a carta do assassino estava atuando como uma extensão dele contra a honra e a saúde mental da mulher”, disse Alves. “Então eu acho que, enquanto parte da imprensa errou, também houve parte da imprensa que recolocou as coisas no devido lugar. E, a partir daquele momento, também as pessoas nas redes sociais passaram a ver outro ponto de vista.”
O caso atraiu atenção nacional para o que especialistas chamam de “violência vicária”, quando alguém fere crianças para atingir a mãe. O caso de Itumbiara recentemente levou o Senado a aprovar a inclusão desse tipo de violência de gênero no âmbito da Lei Maria da Penha, marco legal sobre violência doméstica e de gênero.
O Brasil tem registrado aumento da violência de gênero. No ano passado, o país registrou alta de 4,12% nos feminicídios, para cerca de quatro por dia, segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública. Casos recentes mobilizaram grandes protestos.
Para a repórter investigativa Cecília Olliveira, o caso de Itumbiara também foi problemático pela forma como foi estruturado e apresentado ao público.
“Enquadramento não é um detalhe técnico do jornalismo. É o mecanismo central de construção de sentido”, disse Olliveira à LJR. “Quando uma matéria sugere, ainda que indiretamente, uma sequência como ‘homem descobre traição e depois mata as crianças’, não está apenas descrevendo fatos em ordem cronológica. Está estabelecendo uma relação causal. Oferece ao leitor uma chave interpretativa que transforma um ato de violência extrema numa reação emocional. E isso desloca o eixo da responsabilidade. Não absolve explicitamente o autor, mas relativiza suas ações ao introduzir um elemento que começa a competir com o crime no centro da narrativa.”
A história da cobertura midiática de feminicídios no Brasil foi tema do livro de 2021 “Histórias de morte matada contadas feito morte morrida”, das jornalistas Niara de Oliveira e Vanessa Rodrigues.
No livro, elas examinam como a imprensa reportou feminicídios no país ao longo de 40 anos e mostram que, em muitos casos, a cobertura da notícia culpa as mulheres por seus próprios assassinatos. O caso de Itumbiara tem natureza semelhante, disseram as autoras à LJR.
Uma característica desse tipo de cobertura é o uso da voz passiva, disseram as autoras. Niara de Oliveira afirmou à LJR que, em casos de feminicídio, a voz passiva “compartilha” a responsabilidade com a vítima, colocando-a como parcialmente culpada pelo crime que terminou com sua vida.
“O uso constante da voz passiva é uma das ferramentas linguísticas mais poderosas para apagar a autoria no jornalismo de crime e de interesse humano”, disse Rodrigues à LJR. “Quando a mídia usa construções como ‘Mulher foi morta’ ou ‘Encontrado corpo de mulher’, promove-se uma mudança semântica: o foco se afasta do autor e recai sobre o evento isolado ou sobre a vítima.”
A jornalista freelancer Lola Ferreira escreveu, em 2020, o manual “Melhores Práticas na Cobertura da Violência contra a Mulher”. O Brasil avançou em parte na cobertura de gênero, mas, apesar da importância, ainda há um longo caminho a percorrer, afirmou ela.
“Quando falamos desse tipo de violência — seja o aumento dos feminicídios ou o assassinato de crianças para atingir essas mulheres, que é uma extensão de um crime de gênero — acho que ainda precisamos focar no fato em si, no crime em si”, disse ela à LJR.
Repórteres e editores frequentemente se concentram no que está na periferia de um ato violento, em vez do ato em si, o que é um erro, afirmou Ferreira.
“Levou muito tempo, historicamente, para o jornalismo entender que não se pode dar um passo a passo de como alguém morreu por suicídio. Ainda estamos no estágio inicial de entender que também não podemos dar um passo a passo de como alguém decidiu matar uma mulher ou punir uma mulher com crimes violentos, como aconteceu neste caso”, disse ela, referindo-se à carta deixada por Machado em seu perfil nas redes sociais, que foi publicada por muitos veículos.
Além disso, Niara de Oliveira, coautora de “Histórias de morte”, disse que a qualidade da cobertura diária de crimes vem caindo nos últimos anos.
“Hoje é fácil encontrar manchetes como ‘Descubra quem é o médico que envenenou a ex-mulher’”, disse ela à LJR. É “uma abordagem no estilo entretenimento que promove o perfil do assassino, como se fosse qualquer outro personagem da mídia — o campeão do Big Brother da vez, o galã da novela das nove ou a nova estrela do esporte.”