Terry Tang, editora-executiva do Los Angeles Times, revelou os desafios enfrentados pelo tradicional jornal californiano em meio a um cenário de cortes, reestruturação e questionamentos sobre a influência do proprietário na linha editorial durante a palestra principal “Uma conversa com Terry Tang”, em 28 de março, como parte do 26º Simpósio Internacional de Jornalismo Online (ISOJ), na Universidade do Texas, em Austin.
A sessão, mediada por Evan Smith, cofundador do Texas Tribune e conselheiro sênior da Emerson Collective, começou com uma pergunta direta sobre os recentes cortes no La Times. Na quinta-feira, a newsletter Status, do jornalista Oliver Darcy, reportou que dezenas de funcionários do setor administrativo do jornal haviam sido demitidos no dia anterior em mais uma onda de demissões. Tang confirmou a demissão em massa, admitindo o momento difícil:
"É um momento muito difícil. Não tem como dourar a pílula. Como você sabe, nosso dono Patrick Soon-Shiong continua a apoiar e financiar o jornal com um déficit enorme. E isso significou o mundo para mim como jornalista. E acho que significa muito para as comunidades em Los Angeles que ele continua a financiar. É uma escolha, certo? E chegamos a um ponto em que o aspecto financeiro desse negócio, especialmente para grandes jornais metropolitanos, é extremamente desafiador”, disse Tang.
Tang destacou que, apesar das dificuldades, o LA Times continua sendo a maior redação a oeste do rio Potomac, cobrindo uma região com oito milhões de pessoas - "do tamanho de Nova Jersey" - e produzindo conteúdo sobre diversos aspectos da vida californiana.
“Continuamos a cobrir todas as partes da Califórnia. A sua qualidade da água e então, é claro, os incêndios. Todos na redação estavam envolvidos com isso porque somos parte dessa comunidade. Todos que moram em Los Angeles foram afetados por isso e ninguém mais do que nossos jornalistas”, disse Tang. “Manter esse tipo de cobertura é caro e há também a nossa mudança secular [do jornalismo], que vem acontecendo há muito tempo, muitas fases diferentes de mudança. A mudança financeira nesta indústria afetou todas as redações e continua a afetar o LA Times.
Smith mencionou ainda o clima de ansiedade e incerteza dentro da redação, e a preocupação crescente de que o jornal está sendo esvaziado para questionar Tang se ela poderia garantir que a redação estaria protegida de cortes futuros:
“Não, é claro que eu não posso dizer isso. Quero dizer, nenhuma empresa pode dizer que não haverá mudanças no futuro. Isso seria simplesmente falso”, disse Tang. “Não há como não ficar ansioso sobre o trabalho que fazemos. A única maneira de fazer isso, a única maneira de acalmar sua mente e sentir que vale a pena seguir essa profissão é voltar para a missão [do jornalismo].”
Tang reforçou que não existe nenhuma organização de notícias profissional que não esteja passando por momentos difíceis atualmente. Segundo ela, o jornalismo é a única indústria em que tudo o que é criado é único e feito do zero a cada dia, enquanto nenhuma outra indústria trabalha dessa forma.
“Não há atalhos. Se você quer ter uma ótima matéria do que está acontecendo na prefeitura, alguém tem que ter essas fontes. Alguém tem que escrever. Alguém tem que confirmar. Alguém tem que desenhar. A Apple não faz isso, sabe. Todos aqueles iPhone 16s que saem, você tem um protótipo”, disse Tang. “Fazemos isso todos os dias, várias vezes ao dia, é completamente feito à mão. Que indústria faz isso todos os dias? Com todos confinados e limitados por recursos, continuamos a trabalhar assim. Todos os dias as notícias são novas, são frescas, são urgentes. E você tem que fazer isso com menos recursos.”
Quando questionada sobre a influência do proprietário Patrick Soon-Shiong na independência jornalística da redação, especialmente após sua participação no podcast de Tucker Carlson onde criticou editoriais sobre Donald Trump, Tang foi enfática:
“Ele não se intromete. Absolutamente não. Não falamos sobre isso e esse é o meu trabalho. Agora, se ele tivesse meu trabalho como editor, então ele poderia fazer o que quisesse”, afirmou Tang. “E eu não faço todas essas escolhas porque tenho alguns dos melhores editores com quem já trabalhei. Eles fazem essas escolhas, nós discutimos algumas dessas escolhas. Caso contrário, seria um show de uma pessoa só. E não é disso que se trata o jornalismo. Grandes empreendimentos jornalísticos são coletivos. Isso significa que todos estão trabalhando para a mesma missão, mas não estamos fazendo o trabalho uns dos outros.”
Ainda em relação a Soon-Shiong, Smith quis saber mais detalhes do relacionamento de Tang com o dono do jornal. Ele perguntou como funciona a comunicação entre eles, se Soon-Shiong especificamente procurou a editora para criticar a cobertura ou se teve algum problema com o jornalismo feito pela equipe, o que Tang negou que já tenha acontecido. Evans também citou uma carta publicada no mês passado pelo sindicato de jornalistas do LA Times, na qual constam reclamações de que Soon-Shiong estava deturpando o jornalismo do veículo, compartilhando informações incorretas e dizendo coisas falsas sobre o trabalho da redação.
“É um relacionamento positivo. Se você tivesse um relacionamento negativo com seu chefe, você não ficaria. Nós conversamos. Não falamos sobre cobertura, porque seria meio intrusivo de algumas maneiras”, disse Tang. “Eu só olho para o que estamos produzindo e eu desafiaria qualquer um a olhar para cada peça de jornalismo que produzimos e ver se foi influenciado. Se alguém quiser me dar um feedback, pode dizer na minha cara, me dizer exatamente o que você acha que está errado. Patrick Soon-Shiong tem o direito de tuitar o que quiser. Ele tem o direito de falar com quem quiser falar e eu acho que está tudo bem.”
Em relação à necessidade de se fazer escolhas para definir o que será englobado pela cobertura do LA Times no atual contexto de redução de recursos do jornalismo, Tang disse que eles “escrevem sobre aquilo que sentem que o leitor realmente precisa saber".
Perguntada se vê o veículo como um jornal nacional, com cobertura local excepcional, ou como um jornal local que idealmente tem uma cobertura nacional excepcional, Tang disse achar que o LA Times é um jornal regional grande. O objetivo é garantir o alcance da publicação na Califórnia:
“Quando olhamos para a cobertura da administração Trump, o foco é muito voltado para o que essas decisões fazem às pessoas que vivem na Califórnia. Não estamos cobrindo o que está acontecendo em Iowa ou na Flórida, por exemplo, não que isso não seja totalmente relevante. Não temos escritórios nessas regiões, mas isso não é desinteressante e não é sem importância porque, no final, somos todos uma nação”, disse Tang. “O que está acontecendo em um Tribunal Federal do Texas vai saltar direto para o que vai acontecer na Califórnia, em Los Angeles. Então, cobrimos quando reverbera para o que está acontecendo em Los Angeles. Se tivéssemos o luxo de ter escritórios nacionais em todas as regiões deste país, provavelmente faríamos mais.”
Sobre a questão da confiança no jornalismo, que atingiu níveis historicamente baixos segundo pesquisas recentes, Tang apontou que durante crises como os incêndios na Califórnia, a importância do jornalismo local se tornou evidente:
“Não há cura para pessoas que são inundadas com desinformação. Acho que é muito difícil para as pessoas perceberem a diferença [entre um influenciador do TikTok e um jornalista no TikTok]”, disse Tang. “Durante os incêndios, ninguém pensou que não poderia confiar no jornalismo produzido pelo LA Times. E por que isso? Porque era uma emergência. Eles podiam ver que era uma cobertura 360 graus. Cada aspecto disso atinge você no local onde você está. Suas preocupações são respondidas, e é aí que entra a confiança. Então, para jornais locais, como acho que essas pesquisas também mostram, quanto mais local a história, maior a confiança.”
Ao final da conversa, a editora foi questionada sobre quais matérias publicadas durante sua gestão se destacaram, além da cobertura dos incêndios. Tang mencionou uma matéria que investigou a presença de pesticidas tóxicos em produtos de cannabis legalizados na Califórnia. A equipe investigativa do jornal coletou amostras e as enviou para um laboratório de análises para determinar se havia pesticidas nos óleos e nos vapes.
“Acontece que há muita coisa tóxica lá e nada disso é realmente regulamentado. A Califórnia tem três agências supostamente regulando a saúde e a segurança da cannabis. Nenhuma delas fez isso. E a menos que tivéssemos feito esse teste de laboratório, ninguém saberia”, disse Tang. “Foi bom porque tínhamos um mecanismo de busca para procurar o seu vape de cannabis favorito e ver como testou em termos de pesticidas tóxicos.”