texas-moody

Painel do ISOJ explora evolução das definições de jornalistas e jornalismo na era dos influenciadores

  • Por Paisley Porter
  • 2 abril, 2025

Com a popularidade crescente de influenciadores digitais, os debates sobre o que constitui "jornalismo" e o que é ser "jornalista" chegaram às redações.

Embora muitos estejam preocupados com os padrões éticos da apuração de influenciadores, há uma mudança inegável em direção ao público consumir notícias produzidas por indivíduos em vez de organizações de notícias.

Um painel no 26º Simpósio Internacional de Jornalismo Online (ISOJ) abordou o fenômeno e as preocupações que o acompanham na sexta-feira, 28 de março.

Amy Mitchell, diretora executiva do Centro de Notícias, Tecnologia e Inovação (CNTI), abriu o painel apresentando dados de um estudo mostrando que cerca de três quartos dos americanos acreditam que "pessoas comuns" podem produzir jornalismo.

"Descobrimos que mais de 22% dos adultos norte-americanos recebem regularmente notícias através de criadores de conteúdo e influenciadores", disse Mitchell.

Dentro desses 22%, as idades estão distribuídas de forma bastante uniforme entre diferentes faixas etárias e níveis de escolaridade. O estudo também descobriu que os consumidores regulares de conteúdo de influenciadores estão dando maior importância à tecnologia e à velocidade para se manterem informados.

Liz Kelly Nelson, fundadora do boletim informativo Projeto C, apresentou um gráfico detalhando o ecossistema de notícias de 2025. Embora o gráfico apresente oito categorias, incluindo "Mídia estabelecida com fins lucrativos", "Nova 'nova' mídia" e "Nova mídia guiada por missão", Nelson se concentrou mais especificamente em explicar "jornalistas criadores de conteúdo" e "influenciadores de notícias".

Nelson define claramente os influenciadores de notícias como "pessoas que apresentam opiniões sobre as coisas", deixando claro que a principal diferença entre os influenciadores de notícias e os jornalistas criadores de conteúdo é que os influenciadores de notícias não produzem conteúdo original, enquanto os jornalistas produzem.

"Você pode pensar nisso como qualquer pessoa, desde Joe Rogan até minha tia na Flórida, que realmente pensa que sabe alguma coisa", disse Nelson.

Nelson deu exemplos de jornalistas criadores de conteúdo: Emily Atkin da Heated, Taylor Lorenz da UserMag e Casey Newton da Platformer, para citar alguns.

Nelson marca uma diferença fundamental entre os influenciadores e o que ela chama de "jornalistas criadores de conteúdo", afirmando que os jornalistas criadores de conteúdo estão usando muitos componentes semelhantes aos que os influenciadores de notícias estão fazendo em termos de engajamento do público e formas de comunicação, mas de uma forma muito mais responsável.

"Depois desta última apresentação, não sei bem o que sou", brincou Carlos Eduardo Espina, criador de conteúdo e diretor de uma organização sem fins lucrativos, ao subir ao pódio.

Com mais de 12 milhões de seguidores no TikTok, Espina utiliza as redes sociais como meio de ativismo pelos direitos dos imigrantes, adaptando o seu conteúdo ao que considera serem as notícias mais pertinentes para o seu público.

"Não é só dar notícias e informações e a minha opinião sobre as coisas, mas também compartilho muito sobre a minha história pessoal, ajudo as pessoas", disse Espina. "Eles sabem tudo sobre a minha vida, o que é realmente interessante e acho que não costuma acontecer no jornalismo tradicional."

Espina diz que não se considera jornalista, mas tem a responsabilidade de verificar os fatos e garantir que não está espalhando desinformação, tal como qualquer jornalista tradicional faz.

"Vemos muitas pessoas que simplesmente vão às redes sociais e mentem, é bom para o engajamento, é bom para as visualizações", disse Espina. "Então, como você equilibra estar engajado e ser viável ao mesmo tempo que é responsável?"

Espina disse que embora dê as suas opiniões políticas e fale sobre as notícias, há uma componente adicional em que compartilha detalhes pessoais, ajuda as pessoas e está inserido na sua comunidade. Ele reflete sobre seu trabalho em uma organização sem fins lucrativos, mencionando uma campanha de mochilas e material escolar em Houston no valor de US$ 20 mil, a compra de uma van acessível para cadeiras de rodas para um de seus seguidores e até mesmo o pagamento da fiança de um seguidor que havia sido detido pelo Serviço de Imigração e Controle de Aduanas dos Estados Unidos (ICE, na sigla em inglês).

"Você não vê os âncoras da CNN pagando fianças de imigração aos seus seguidores. Não estou dizendo que é isso que eles deveriam fazer, estamos apenas trabalhando em áreas muito diferentes", disse Espina.

Ben Reininga, bolsista da Universidade de Harvard e ex-chefe editorial global do Snapchat, iniciou então a apresentação final do painel antes das perguntas e respostas. Ele começou abordando um problema urgente: organizações de notícias tradicionais que perdem a confiança e o alcance do público.

A confiança nas notícias registrou um "declínio vertiginoso", consequentemente levando as pessoas a evitarem consumir notícias. Reininga citou um relatório de 2024 da Reuters segundo o qual 43% dos americanos evitam as notícias de alguma forma. Mas por quê? Depois de avaliar os estudos da Reuters, Reininga conclui que os consumidores evitam notícias porque os criadores de notícias são vistos como de elite, demasiado complexos, tendenciosos, deprimentes e irrelevantes.

"Estamos vendo uma mudança intencional realmente interessante e enorme", disse Reininga. "Essas plataformas sociais estão crescendo enormemente."

Reininga reflete sobre as estatísticas que leu recentemente e que sugeriam que o americano médio usa as redes sociais duas horas e meia por dia, aumentando para quatro horas por dia entre os adolescentes. Isso torna a mídia social um dos "maiores espaços de atenção" para os americanos, ele disse.

Como ex-chefe editorial global do Snapchat, Reininga dirigiu grupos focais e descobriu que os usuários do Snapchat queriam notícias que fossem envolventes e relevantes para eles, e mais desse tipo de conteúdo. Ao contrário dessas descobertas, o Snapchat ainda tinha a ideia de que "um lugar como o Snapchat não é um lugar para notícias".

O Snapchat trabalhou para encontrar uma solução para essa desconexão. A resposta? "Good Luck America", um noticiário diário de três a cinco minutos apresentado pelo ex-jornalista da CNN Peter Hamby.

"Tive que olhar essas plataformas como uma espécie de comunidades com suas próprias culturas", disse Reininga. "Acho que se você alinhar alguns desses pontos em comum de muitos vídeos de mídia social com os motivos pelos quais as pessoas não confiam nas notícias, você vê um vaivém realmente interessante."

Enquanto os jornalistas são vistos como elite, os criadores de conteúdo são íntimos e informais, disse ele. Enquanto os jornalistas são demasiado complexos, os criadores de conteúdo são simples e coloquiais. Enquanto os jornalistas são vistos como tendenciosos, os criadores de conteúdo são transparentes e envolventes.

"Há um grupo de pessoas por aí que realmente descobriu uma maneira muito interessante de se conectar com o público", disse Reininga. "Eu penso que é realmente interessante explorar e pensar sobre como podemos transformar isso em jornalismo novamente."

Embora Oliver Darcy não tenha feito uma apresentação, ele compartilhou a história de como fez a transição de repórter da CNN para fundador da newsletter Status durante a sessão de perguntas e respostas. Ele lembrou o crescimento da economia de newsletters nos últimos anos.

"Decidi apostar em mim mesmo e arriscar", disse Darcy. "Acho que tinha uma audiência que me seguiria em meu próprio empreendimento independente."

Ele lançou a Status, uma newsletter noturna que cobre o que está realmente acontecendo na mídia. A Status obteve sucesso devido à sua autenticidade junto ao público.

"Não douramos a pílula", disse Darcy. "Um dos problemas, eu diria, com a imprensa tradicional hoje em dia é que eles não chamam as coisas pelo que elas são."

Darcy abordou a pergunta constante: as organizações de notícias deveriam transformar seus jornalistas em criadores de conteúdo? Ele argumentou que todos os jornalistas são criadores e todos criam conteúdo, mas apresentou um contra-argumento.

"Será que esses criadores, os jornalistas criadores, podem ter sucesso na economia dos criadores de conteúdo?"


*Paisley Porter é estudante do terceiro ano de Jornalismo, Comunicação e Liderança na UT Austin. Atualmente é estagiária na KXAN e já fez coberturas para TSTV e ISOJ.

Traduzido por Marta Szpacenkopf
Republique gratuitamente esta matéria em seu site. Consulte nossas regraspara republicação