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Palestrantes do ISOJ compartilham pesquisas sobre como manter os jornalistas e o público engajados e evitar o esgotamento

  • Por Hasina Shah
  • 2 abril, 2025

Com a liberdade de expressão e de imprensa sendo desafiadas, é mais importante do que nunca priorizar a saúde mental dos jornalistas.

É o que dizem os palestrantes do painel "Como evitar o desinteresse por notícias e o esgotamento de jornalistas e do público", que aconteceu em 28 de março de 2025, no 26º Simpósio Internacional de Jornalismo Online (ISOJ).

Juntamente com considerações sobre a saúde mental e o esgotamento dos jornalistas, os pesquisadores e professores também discutiram por que o público evita as notícias e o que pode ser feito para trazê-lo de volta.

Um "apelo à ação" para as redações

Em seus 20 anos como jornalista de radiodifusão, a presidente do painel Kate West, professora assistente de instrução na Universidade do Texas em Austin, disse que só foi perguntada sobre sua saúde mental duas vezes.

Quando começou a dar aulas, West disse que percebeu que frequentemente jornalistas jovens se formavam, conseguiam empregos e deixavam a área três a cinco anos depois, porque não estavam preparados para os desafios de saúde mental que enfrentavam nas redações. Isso inspirou West a incorporar lições de bem-estar mental na sala de aula.

"Se pudermos preparar esses futuros jornalistas para os desafios de saúde mental associados à nossa profissão, então eles estarão melhor preparados quando cobrirem um acidente de carro fatal, um incêndio, ou tiroteios em massa... para saber como eles vão se sentir, o que vão pensar e como vão lidar com isso", disse West.

Conversar com jornalistas após coberturas difíceis, garantir que a equipe tenha acesso à terapia e pagar aos repórteres um salário digno são maneiras pelas quais West disse que as redações podem apoiar o bem-estar holístico de seus jornalistas, especialmente quando a próxima geração de repórteres está menos disposta a aceitar os baixos padrões da indústria.

"Esta próxima geração não está disposta a aceitar qualquer coisa, e estou muito orgulhosa deles por isso", disse West. "Se quisermos manter bons jornalistas, (se) quisermos evitar que eles se esgotem no trabalho, estas são algumas coisas que precisamos ser capazes de fazer."

Desinteresse por notícias e plataformas digitais

Benjamin Toff, professor associado da Universidade de Minnesota e diretor do Minnesota Journalism Center, apresentou sua pesquisa sobre como o uso da mídia digital muitas vezes contribui para o desinteresse por notícias entre as gerações mais jovens.

Toff disse que muitos jovens em sua pesquisa disseram que navegar pelas redes sociais era uma forma de escapar do estresse em suas vidas cotidianas.

Isso contrastava com a forma como esses participantes se sentiam ao consumir notícias. Toff disse que muitas pessoas que entrevistou ficaram ansiosas ao ler notícias, o que fez com que muitas delas as evitassem completamente. Além disso, muitos jovens sentiram que estavam obtendo informações relevantes através das redes sociais e não precisavam recorrer às fontes de notícias tradicionais para se sentirem informados.

Mesmo assim, Toff disse que sua pesquisa mostrou que muitos jovens não gostavam da quantidade de tempo que passavam nas redes sociais, o que fez com que alguns usuários se desconectassem completamente e não recebessem nenhuma notícia. Para resolver isso, Toff disse que as estratégias das redações precisam evoluir e aproveitar os aspectos positivos das mídias sociais para levar mais informações às mãos da próxima geração.

"Existem formas de satisfazer essas necessidades do público, mas isso tem que partir do reconhecimento de que o consumo de notícias é uma experiência", disse Toff. "Não é apenas a informação que as pessoas procuram."

O dilema do jornalista

Sandra Vera Zambrano, professora associada da Universidade Iberoamericana no México, explicou por que as pessoas continuam a exercer o jornalismo, mesmo numa época em que o retorno parece baixo. Ela disse que é um tipo específico de pessoa – alguém disposto a fazer sacrifícios – que mantém a profissão viável.

"Esse é precisamente o dilema", disse Zambrano. "Mesmo quando tudo parece desmoronar, vocês, jornalistas, respiram fundo e fazem o show continuar em qualquer lugar do mundo."

Nos 10 anos de pesquisa que Zambrano conduziu com um colega, ela disse que o tema comum que manteve os jornalistas na área foi a crença de que o jornalismo valia a pena, mesmo que isso prejudicasse a saúde mental do jornalista.

"Todos os jornalistas que conhecemos acreditam que o que fazem é valioso", disse Zambrano. "Algumas pessoas chamariam isso de 'chamado' ou 'vocação', e é exatamente isso que nos ajuda a entender que os jornalistas ainda acreditam que fazer jornalismo é importante contra todas as probabilidades."

Zambrano explicou que as competências emocionais adquiridas na área do jornalismo são vastas. Embora muitas pessoas optem por abandonar a profissão devido ao elevado estresse, o apelo à ação que muitos jornalistas sentem com base nas suas próprias experiências pessoais torna a área acessível.

"Os jornalistas têm o objetivo ou a vocação de gerir a decepção", disse Zambrano. "O que é mágico é que cada pessoa faz isso de forma diferente, de acordo com o seu contexto e história. De forma otimista, estes diferentes horizontes sociais permitem que todos encontrem um lugar no jornalismo."

Perspectivas dos jornalistas sobre o desinteresse por notícias

Stephanie Edgerly, professora e reitora associada de pesquisa na Northwestern University, encerrou as apresentações com sua pesquisa sobre as perspectivas dos jornalistas sobre o desinteresse por notícias.

Edgerly disse que os jornalistas atribuem o desinteresse por notícias a três fatores: às próprias pessoas que evitam notícias, às características das notícias (se são demasiado negativas ou demasiado tendenciosas) e à vida atarefada das pessoas globalmente.

Desses três fatores, Edgerly disse que os mais citados eram as características das notícias. Ela disse que a maioria dos jornalistas no estudo entendeu que a própria natureza das notícias muitas vezes mantinha as pessoas afastadas.

"'Porque as notícias são deprimentes demais'", disse Edgerly, citando um jornalista do estudo. "'Sou um profissional da imprensa, então me sinto obrigado a consumir notícias, mas muitas vezes não quero.'"

Quando perguntados se havia alguma esperança em converter os que evitam notícias em pessoas que as consomem regularmente, Edgerly mostrou que 66% dos jornalistas entrevistados disseram que sim.

Contrariando seus pensamentos iniciais, Edgerly disse que essa descoberta não muda dependendo do cargo ou do prestígio do jornalista, mas se baseia em crenças pessoais.

"Isso se baseou em grande parte em quem você é", disse Edgerly, "quais são suas características individuais, não suas características profissionais".


* Hasina Shah é estudante de jornalismo na Universidade do Texas. Ela é especializada em jornalismo de áudio e narrativas longas. Ela é editora-chefe da revista BurntXOrange e produtora executiva de parcerias da The Drag Audio Production House.

Traduzido por Marta Szpacenkopf
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