Em 5 de março de 2025, integrantes do coletivo Guerreros Buscadores de Jalisco, dedicado à busca independente de pessoas desaparecidas no México, entraram no Rancho Izaguirre, um terreno abandonado no município de Teuchitlán, no estado de Jalisco, após receberem várias ligações anônimas que alertavam sobre a possível existência de restos humanos no local.
Durante a visita, transmitiram ao vivo nas redes sociais o que encontravam: dezenas de peças de roupa, malas, cobertores e objetos pessoais. Dias depois, autoridades mexicanas confirmaram que o local havia sido um centro de treinamento forçado de um cartel do narcotráfico.
Ángel Abundis, sociólogo e programador da Tejer.Red, um coletivo de ativistas e desenvolvedores que apoia a busca por pessoas desaparecidas com ferramentas de código aberto, viu essas transmissões e pensou em como aproveitar esse material. Ele baixou os vídeos e desenvolveu uma ferramenta com a qual familiares pudessem identificar, nas imagens, peças de roupa de seus entes queridos desaparecidos. No entanto, a baixa qualidade dos vídeos dificultava a tarefa.

O programador e ativista Ángel Abundis criou um catálogo online para ajudar famílias de pessoas desaparecidas a encontrar roupas em um acampamento do narcotráfico. (Foto: Captura de tela)
Quando as autoridades isolaram o local, a Promotoria de Jalisco publicou uma base de dados com descrições e fotografias de quase 500 peças de roupa recuperadas. Embora a informação estivesse aberta ao público, o sistema não facilitava a busca: era necessário abrir cada link individualmente. Abundis então desenvolveu um segundo aplicativo que baixava e organizava as imagens em um catálogo que permitia filtrá-las por tipo de peça, cor, tamanho e marca.
“O mais importante, antes de tudo, eram as imagens das roupas, para que os familiares pudessem identificá-las e, a partir daí, filtrá-las para facilitar essa busca”, disse Abundis à LatAm Journalism Review (LJR). “Isso, dando continuidade aos esforços do coletivo Guerreros Buscadores, que tinham a ver com compartilhar o que encontraram nesse local.”
Com esse catálogo nasceu “Las prendas hablan” (“As roupas falam”, em português), um projeto jornalístico colaborativo no qual jornalistas, programadores e coletivos de busca uniram esforços para tentar reconstruir histórias de desaparecimento no México a partir das peças de roupa encontradas no rancho. Por meio de ferramentas tecnológicas e métodos de crowdsourcing, a iniciativa buscou identificar possíveis vítimas, documentar padrões de recrutamento forçado e pressionar as autoridades a esclarecer o que aconteceu no local.
“O objetivo é a construção da memória”, disse à LJR Darwin Franco, coordenador de informação do meio nativo digital de jornalismo investigativo ZonaDocs. “Entender como essas pessoas desapareceram, cujas roupas foram identificadas, onde desapareceram e como seus pertences foram parar no Rancho Izaguirre.”
Franco também estava cobrindo as descobertas no rancho quando Abundis o procurou para mostrar sua ferramenta e propor a união de esforços. A primeira coisa que fizeram foi publicar o catálogo na ZonaDocs.
“Nós queremos que as roupas falem no sentido de que seja possível contar uma história que permita conhecer a verdade e que permita às famílias em busca de respostas saber o que aconteceu”, acrescentou Franco.
Franco convidou o meio nativo digital Animal Político e o site de investigação especializado nas dinâmicas de desaparecimentos A dónde van los desaparecidos a se somarem ao projeto nascente, com o objetivo de levar o tema além do impacto midiático e social que vinha gerando.
O passo seguinte foi recorrer ao crowdsourcing, metodologia pela qual se envolve a sociedade para obter informações para um trabalho jornalístico. A equipe elaborou um formulário para que cidadãos pudessem informar se reconheciam algum objeto do catálogo. As pessoas deveriam indicar quais peças acreditavam reconhecer, a quem poderiam pertencer, se já haviam tido contato com autoridades sobre um desaparecimento e se estariam dispostas a compartilhar sua história.
A equipe distribuiu o formulário entre coletivos e famílias de pessoas desaparecidas, disse Franco. Depois, a partir de agosto de 2025, os jornalistas divulgaram as ferramentas em outros espaços, como marchas, fóruns sobre desaparecimento e eventos de mães de desaparecidos em vários estados do país.
“Fizemos uma divulgação massiva para que as famílias pudessem conhecer o projeto e, caso tivessem interesse ou a suspeita de terem reconhecido alguma peça no catálogo, pudessem preencher o formulário”, disse à LJR a jornalista independente Neldy San Martín, integrante da equipe de “Las prendas hablan”. “A partir dessas respostas que obtivemos, acompanhamos as histórias e entrevistamos as famílias.”

Patricia Sotelo é uma das mães que procuram seus filhos desaparecidos e cuja história é contada nas reportagens. (Foto: Sharenii Guzmán)
Até 25 de fevereiro deste ano, o catálogo de “Las prendas hablan” havia registrado quase 8 mil visitas e cerca de 60 mil buscas por peças. O número de itens no catálogo foi aumentando até chegar a quase 1.300 peças, de acordo com o site do projeto.
A ideia de investigar essas histórias, disse Franco, era verificar se o governo realmente estava acompanhando o achado das roupas e se permitiria que, por meio desses objetos, as famílias pudessem descobrir o paradeiro de seus parentes desaparecidos.
No entanto, o que encontraram foi muito diferente. Do projeto resultaram sete reportagens com histórias de jovens que supostamente foram vítimas de recrutamento forçado por parte do crime organizado, por meio de falsas ofertas de trabalho, disse San Martín. E, em nenhum dos casos, as famílias contaram com a cooperação das autoridades, acrescentou.
“Las prendas hablan” revelou um diagnóstico mais amplo sobre o papel das autoridades nesses casos: a prestação de contas falhou e houve um abandono sistemático das instituições em relação às famílias, disse San Martín.
“Essas famílias, em todos os casos, disseram ‘reconheço uma ou várias peças’. No entanto, as autoridades lhes colocavam obstáculos”, disse San Martín. “Começamos a identificar um monte de falhas e omissões por parte das autoridades e também muita indiferença. As autoridades não estavam dando atenção às demandas das famílias.”
Uma das reportagens narra como Carmen Lucía Carrillo, mãe do jovem desaparecido Daniel Alberto Velasco, identificou no catálogo uma calça preta e um boxer da mesma cor que acredita pertencerem a seu filho, além de uma carteira que reconheceu em transmissões do coletivo de famílias de desaparecidos no Facebook. Carrillo contou aos jornalistas que funcionários da Promotoria de Jalisco pediram uma foto de seu filho usando essas peças para permitir que ela tivesse acesso a elas. A mãe respondeu que não possuía a foto.
Outra reportagem conta o caso de Rubí García, que encontrou no catálogo uma mala e um par de tênis que aparentemente pertencem à sua irmã Merari García, desaparecida em maio de 2024. Diferentemente do caso anterior, sua família tinha fotos da jovem com essas peças, mas, ainda assim, não lhes foi permitido ver os objetos.
Para a equipe, o projeto também trouxe uma lição sobre o papel do jornalismo diante desse vazio institucional.
“Do ponto de vista jornalístico, acredito que sua principal contribuição, além de expor todas essas omissões sistemáticas, foi mostrar um padrão que já sofremos há vários anos neste país: o de que as autoridades não dão acompanhamento nem respostas às famílias de pessoas desaparecidas”, disse San Martín.
O México enfrenta uma crise contínua de desaparecimentos de pessoas, agravada nas últimas décadas em um contexto de violência ligada ao crime organizado, de acordo com a Anistia Internacional. O Registro Nacional de Pessoas Desaparecidas e Não Localizadas do país contabiliza oficialmente mais de 100 mil pessoas desaparecidas. Organizações têm documentado falhas estruturais nas investigações, na identificação forense e no atendimento às vítimas, o que contribui para altos níveis de impunidade e incerteza para milhares de pessoas no país.
San Martín acrescentou que, um ano após as descobertas no Rancho Izaguirre, as autoridades ainda não deram às famílias que identificaram peças nenhum tipo de confirmação ou descarte de que os restos ósseos encontrados correspondem a seus parentes desaparecidos.
No ano passado, a presidente Claudia Sheinbaum instou a FGR a assumir a investigação, que, segundo ela, apresentava “muitos problemas”. Um ano depois, em 5 de março de 2026, a FGR informou que a análise genética dos restos ósseos não havia produzido um “resultado conclusivo que permitisse sua identificação”.
Coletivos como os Guerreros Buscadores de Jalisco afirmaram que, no Rancho Izaguirre, também encontraram outros indícios, como restos carbonizados e supostos fornos improvisados, o que indicaria que o local funcionava possivelmente como um campo de extermínio de um cartel. No entanto, a FGR rejeitou essa versão por falta de evidências conclusivas.
“As famílias que identificaram peças não querem que lhes digam que sua filha ou filho esteve lá, querem que lhes digam que não esteve”, disse San Martín. “Mas nada disso aconteceu, ou seja, a incerteza continua após um ano. [...] O tema foi esquecido e tentaram simplesmente encerrar o caso.”
En el rancho Izaguirre se localizaron más de 1,800 prendas.
Ante la falta de claridad oficial se creó un catálogo público que ha sido visitado 59,361 veces.Las familias buscadoras han reconocido algunas prendas, conoce más en #LasPrendasHablan, un proyecto de @pajaropolitico,… pic.twitter.com/iFLSDGoxdE
— Animal Político (@Pajaropolitico) March 5, 2026
No ano que se passou, no México, alguns acontecimentos, direta ou indiretamente, complicaram o trabalho jornalístico de “Las prendas hablan”.
A opacidade encontrada pelos repórteres nas autoridades se complicou com o desmantelamento do Instituto Nacional de Acesso à Informação (INAI), o órgão autônomo responsável por garantir o direito de acesso a dados públicos no México.
A equipe enviou dezenas de pedidos de informação, mas as autoridades os rejeitaram sob o argumento de que os dados faziam parte de uma investigação judicial em andamento, disse San Martín. O grupo considera que as informações solicitadas, que incluíam o número total de peças encontradas e dados sobre a cadeia de custódia durante o traslado para a sede da FGR na Cidade do México, são informações que as autoridades eram obrigadas por lei a tornar transparentes, afirmou San Martín.
A jornalista acrescentou que os escritórios governamentais os remetiam de uma autoridade para outra, e todas acabavam se eximindo de fornecer a informação. Além disso, os órgãos também negaram pedidos de entrevistas com funcionários.
“Com o INAI não existindo mais, fica complicado insistir ou exigir que te forneçam uma informação, porque, no fim, [agora] é a própria Secretaria Anticorrupção do governo que decide se entrega ou não uma informação”, disse San Martín. “Antes era muito mais fácil, porque tínhamos um INAI que dizia: ‘Promotoria, entregue a informação. É um direito’.”
Desde a descoberta do rancho, a violência aumentou em vários estados mexicanos, incluindo Jalisco. A morte, em fevereiro de 2026, do líder do Cártel Jalisco Nueva Generación (CJNG), o grupo criminoso predominante nessa região, provocou uma onda de violência que obrigou os coletivos de busca a suspender suas atividades. San Martín afirmou que, embora o fato tenha ocorrido na etapa final do projeto “Las prendas hablan”, as fontes e a equipe chegaram a sentir medo devido ao contexto geral de violência.
Além disso, a jornalista disse que, embora muitas pessoas tenham consultado o catálogo de peças, pouquíssimas se dispuseram a compartilhar suas histórias. A equipe também atribui isso ao medo.
Diante dos obstáculos e do vazio de informação oficial, o trabalho dos jornalistas com as famílias e coletivos de busca foi crucial, concordaram Franco e San Martín.
“Como as autoridades não deram uma explicação pública e detalhada do que aconteceu, o que sabemos, na maior parte, vem dos coletivos, que nos têm fornecido informações porque participaram das audiências [sobre o caso]”, disse San Martín. “Quando há tanto horror em um país, as redes, o trabalho colaborativo e o acompanhamento aos coletivos e às famílias acabam sendo o que realmente nos salva.”