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A IA agiliza o trabalho, mas jornalistas alertam que é preciso verificação rigorosa e regras claras

Summary

Desde erros em dados até vieses e riscos na credibilidade, líderes de redações latino-americanas dizem que a IA deve ser utilizada com cuidado, com políticas claras e com supervisão humana constante.

A inteligência artificial (IA) é capaz de agilizar o trabalho nas redações, mas também pode amplificar erros, vieses e colocar em risco a credibilidade se não for usada com critérios claros. Essa foi uma das principais conclusões da mesa redonda “Da redação: como a IA está mudando o jornalismo”, realizada online no dia 26 de março de 2026 e organizada pelo Centro Knight para o Jornalismo nas Américas.

O encontro contou com a participação de Federica Ham, jornalista multimídia do jornal uruguaio Búsqueda; José Jasán Nieves, diretor do veículo digital cubano elTOQUE; e Gisella Salmon, chefe de engajamento do jornal peruano El Comercio. A moderação ficou por conta de Claudia Báez, inovadora digital em IA e consultora associada no laboratório de mídia britânico Fathm.

Os painelistas concordaram que “o desafio não é adotar a tecnologia, mas sim integrá-la sem sacrificar a verificação, a ética e a confiança do público”.

A partir de experiências concretas do uso da IA em produtos jornalísticos — como especiais eleitorais, sistemas para monitorar moedas e aplicativos de visualização de dados —, os convidados apontaram que a automação não substitui o trabalho jornalístico, mas o redefine. Nesse processo, destacaram a necessidade de reforçar a checagem, estabelecer diretrizes internas e utilizar a IA para resolver problemas específicos, e não apenas como resposta a tendências do mercado.

Mais velocidade, mais verificação

Entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026, uma equipe do El Comercio liderada por Salmon publicou dois especiais interativos de dados focados em apresentar, comparar e fiscalizar candidatos a cargos públicos no Peru e suas propostas, com base em documentos públicos.

Durante o desenvolvimento desses produtos, que envolveram o uso de fluxos de trabalho automatizados e agentes de IA, a equipe percebeu que essas ferramentas chegavam a confundir números ou letras na hora de extrair dados, e preenchiam lacunas de informação com dados arbitrários, relatou Salmon.

A equipe aprendeu que, embora a IA permita analisar grandes volumes de dados, a automação não é infalível. Todo o tempo ganho com ela deve ser investido em um trabalho minucioso de checagem.

“A IA não é mágica, não é perfeita, ela erra, alucina e tem vieses”, disse Salmon. “Cada resultado gerado por um processo automatizado ou que passou por IA precisa ser revisado em detalhes.”

Mas os perigos de aplicar a IA sem supervisão nas redações vão além de erros nos dados. Báez explicou que existem três grandes riscos no uso não supervisionado da IA:

Os riscos editoriais referem-se a alucinações e erros de informação que essas ferramentas às vezes produzem; Riscos legais envolvem alimentar os modelos de IA com informações confidenciais, sigilosas ou protegidas por direitos autorais; Riscos de comunidade incluem a reprodução de vieses e estereótipos derivados do treinamento dessas ferramentas, que geralmente usam elementos e critérios do Norte Global.

Daí a importância de os veículos de comunicação terem regras bem definidas sobre o uso da IA, ressaltou Báez. Ela citou uma pesquisa da Thomson Reuters Foundation aplicada a 200 jornalistas do Sul Global em 2024: o levantamento revelou que 81% dos jornalistas já utilizam a IA, mas apenas 13% contam com políticas estabelecidas para o seu uso nas redações.

“Quando o jornalista não tem regras claras, não tem um guia e usa [a IA] sem direção, sem um marco [...], ocorrem os problemas de credibilidade, nos quais o veículo é apontado por sua falta de rigor”, disse Báez.

O sucesso da adoção da IA não se mede pela velocidade da automação, mas pela capacidade dos jornalistas de manter a confiança da sua audiência.

“Se usarem a IA de forma irresponsável, vão corroer em segundos o que construíram em anos: a credibilidade.”

Salmon contou que o *El Comercio* possui um guia de políticas de IA, que inclui os usos recomendados dessa tecnologia, os produtos que podem ser gerados com ela e os limites de sua aplicação.

Embora seja um manual focado na área de Novas Narrativas (onde nascem os projetos especiais envolvendo IA), ele está sendo expandido para o resto da redação, disse Salmon. Em breve, o jornal planeja tornar essas políticas públicas em seu site para os leitores.

Nieves destacou que o elTOQUE desenvolveu sua política de uso de IA de forma coletiva, com toda a equipe, enquanto Ham indicou que no Búsqueda ainda não há diretrizes definidas devido à rápida adoção da tecnologia.

“Até poucos meses atrás, nem sequer acreditávamos na possibilidade de implementar a IA”, confessou Ham. “Mas estamos trabalhando nisso porque [...] percebemos que seria fundamental; não poderíamos desenvolver mais projetos sem antes ter essa conversa.”

Por modinha, não; para resolver problemas, sim

Báez encorajou os participantes a perderem o medo e experimentarem com a IA para expandir e potencializar o jornalismo. Contudo, os painelistas foram unânimes: a incorporação da IA não deve acontecer pelo hype de uma tendência, mas sim como resposta a necessidades reais.

“Não comecem só porque a ferramenta é bonita ou porque a IA está na moda; tenham um objetivo, partam de um problema rumo a uma solução, passo a passo”, aconselhou Salmon. “Sempre partimos mais de um problema, buscando a solução por meio da padronização de objetivos claros, ver quais dados temos e buscar um ângulo que diferencie.”

Segundo Salmon, no El Comercio*, o uso da IA atua como uma capacidade transversal para facilitar tarefas complexas e ajudar uma história a ser mais bem compreendida pelo usuário.

O elTOQUE colocou esse princípio em prática quando, em 2021, desenvolveu um sistema para monitorar o mercado informal de moedas em Cuba, diante da falta de informações oficiais acessíveis. O sistema consegue extrair anúncios de compra e venda de moeda estrangeira em fóruns e redes sociais e, em seguida, por meio de um algoritmo de Processamento de Linguagem Natural (PLN), calcula uma taxa média representativa.

“O que nós poupamos para as pessoas com este sistema é essencialmente o tempo: em vez de entrarem em 10 grupos do Telegram para ver no WhatsApp como está mais ou menos o preço, o sistema já calcula isso para elas”, explicou Nieves.

A ferramenta atraiu 5 milhões de usuários em 2025, num país com uma população total de 10 milhões de habitantes.

“Estamos trabalhando para tornar os processos mais eficientes, reaproveitar conteúdos e usar o talento dos poucos jornalistas que temos naquilo que realmente pode ser único, deixando para a IA — com supervisão — as tarefas repetitivas e pouco criativas”, pontuou Nieves.

Transparência indispensável

O projeto de monitoramento de moedas fez com que o elTOQUE fosse acusado de crimes de tráfico de moedas e evasão fiscal pelo governo cubano, que classificou a ferramenta como “um programa de guerra econômica organizado, financiado e executado diretamente pelo governo dos Estados Unidos”.

Para o veículo, era vital deixar claro que não havia intervenção ou manipulação da equipe no cálculo das taxas. Nieves ressaltou que, diante de ataques como esses, a transparência é a melhor estratégia ao usar a IA e proteger a credibilidade.

“Expusemos nossa metodologia e nossas fontes de dados”, disse Nieves. “Você não vai conseguir convencer todo mundo, mas sendo constante e transparente, vai conseguir fazer com que a maioria entenda e até incorpore os seus argumentos, tornando-se sua defensora.”

Ham observou que a transparência também envolve avisar explicitamente o público quando a IA é utilizada na produção de um conteúdo.A jornalista fez parte da equipe que desenvolveu o *Búsqueda Dataviz*, um aplicativo de IA capaz de criar visualizações de dados personalizáveis.

Segundo ela, os jornalistas que utilizam a ferramenta sempre adicionam a legenda "visualização criada por IA sob supervisão jornalística" nos gráficos gerados.

“Essa frase [...] abrange duas visões: a de contar ao usuário o que estamos fazendo e a de responsabilizar o jornalista pela supervisão do que será publicado”, explicou Ham.

Ela também enfatizou a importância de democratizar o conhecimento técnico na redação. Antes do *Búsqueda Dataviz*, Ham era a única responsável por criar infográficos para o jornal, o que gerava gargalos de produtividade.

Ham e três membros da redação desenvolveram a ferramenta durante o Google AI Prototyping Sprint em 2025 - uma iniciativa criada pelo Google News Initiative e o Fathm - em outubro de 2025. A intenção da equipe era compartilhar os conhecimentos sobre o seu funcionamento com a redação e, assim, agilizar os fluxos de trabalho.

“Nós queríamos nos concentrar na melhoria do desempenho de alguns processos e na automatização de outros, e nos concentramos especificamente no trabalho com dados e visualizações”, disse Ham. “Queríamos democratizar o acesso a ferramentas de visualização de dados”.

A jornalista disse que o volume de visualizações e de análises de dados no site de Busca aumentou significativamente.

 O que a IA não pode fazer?

Para Nieves, o “pensamento crítico” é a dimensão do trabalho jornalístico que jamais poderá ser substituída.

Embora a tecnologia processe volumes gigantescos de dados, ela não é capaz de interpretar dinâmicas complexas nem explicar o que acontece por trás delas.

Como exemplo, ele citou que, com os dados da IA, sua equipe tem reportado por que o dólar atinge certos patamares, as dinâmicas dos mercados informais e como os golpes operam ali.

“E tudo isso o jornalismo permite contar a partir de ter desenhado uma ferramenta automática que extrai essa informação, a processa e a devolve como um bem público”, disse. “É como você aplica o questionamento crítico que está inerente ao jornalista e ao seu ofício justamente para explicar, dar contexto às audiências”.

Báez acrescentou que as tarefas do repórter, como o trabalho de campo, a aproximação humana e a obtenção de documentos, assim como a voz editorial de cada veículo, são outras capacidades que não podem ser executadas por um algoritmo.

“O que é o insubstituível que o jornalismo oferece em um ecossistema tão desafiador como o que vivemos hoje? É rigor e faro jornalístico”, disse Báez. “A IA não tem ideia de por que uma história importa e outra não. Isso é decidido pelos humanos. A ética e o critério editorial, ou seja, o que publico, o que omito, como protejo fontes… essas são decisões humanas, decisões éticas”.

A discussão completa e o seminário web estão disponíveis gratuitamente no canal do YouTube do Centro Knight.

Traduzido com IA e revisado por Leonardo Coelho

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