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Ajor chega a 100 associadas com foco na sustentabilidade do jornalismo digital brasileiro

Pouco mais de um ano após ser fundada por um grupo de 30 organizações jornalísticas brasileiras, a Associação de Jornalismo Digital (Ajor) ultrapassou recentemente a marca de 100 associadas, um feito para a entidade dedicada a fortelecer o jornalismo digital no Brasil. O crescimento da associação evidencia a diversidade do setor no país, que a Ajor pretende ajudar a ser reconhecido também por sua importância econômica.

“Essa marca é muito importante para nós”, disse Natalia Viana, presidente da Ajor, à LatAm Journalism Review (LJR). A Ajor tem hoje, segundo ela, 101 organizações associadas, superando outras entidades do tipo no país como a Associação Nacional de Jornais (ANJ), que tem 99 associados, e a Associação Nacional de Editores de Revistas (Aner), que tem 38.

“A Ajor já é uma das maiores associações de veículos do Brasil em número de associadas, e vamos seguir crescendo, porque o mercado está em evolução”, disse Viana, salientando que o crescimento da associação também é representativo da diversidade do jornalismo online no Brasil.

As organizações reunidas na Ajor se dedicam tanto à cobertura generalista, como o Portal Terra, quanto especializada, como o site A Economia B; há também produtoras de podcast, como a Trovão Mídia, e o canal do YouTube MyNews. “A Ajor está conseguindo reunir essas organizações tão diferentes, mas com um objetivo comum, que é crescer e solidificar o jornalismo de qualidade diverso por todo o país”, afirmou a presidente da entidade.

O processo de associação à Ajor é “bastante criterioso e cuidadoso”, afirmou Viana. As postulantes devem aderir ao Código de Conduta da entidade, que inclui critérios relacionados à organização institucional do meio e também diretrizes de boas práticas editoriais e organizacionais.

“Essas questões são avaliadas individualmente para cada uma das pleiteantes e discutidas com bastante critério e cuidado nas reuniões do Conselho Executivo e Deliberativo, formado nesse momento por 10 organizações que foram eleitas pelo conjunto das associadas”, explicou ela. O intuito é “garantir que as associadas da Ajor estejam realizando e promovendo bom jornalismo e com a perspectiva de se solidificarem no mercado enquanto negócios viáveis”.

A principal missão da Ajor, segundo Viana, é fortalecer as associadas “institucionalmente e em termos de plano de negócios”. Em pouco mais de um ano, a entidade se estabeleceu como “uma das vozes de defesa do jornalismo e dos jornalistas” no atual contexto de ataque ao jornalismo no Brasil, mas também se tornou “uma organização muito atuante no fortalecimento institucional de novas iniciativas de jornalismo com a perspectiva de torná-las sustentáveis e de tornar o setor do jornalismo digital um dos setores reconhecidos na sociedade não só pela sua importância para a democracia, que é fundamental, mas também pela sua importância econômica”, disse ela.

De acordo com Viana, as 101 organizações associadas à Ajor “já empregam milhares de jornalistas”. “Esse setor de startups de jornalismo já se tornou um espaço ou uma oportunidade viável para estudantes de jornalismo e para jornalistas que querem empreender. Então a Ajor está se tornando também uma referência no jornalismo empreendedor no Brasil e vai seguir nesse caminho, se fortalecendo cada vez mais”, disse ela.

Espaço seguro e parcerias

A Ajor foi lançada oficialmente no dia 7 de junho de 2021, depois de meses de articulação entre as organizações jornalísticas que realizam o Festival 3i – Jornalismo Inovador, Inspirador e Independente e outras organizações convidadas. A associação teve o apoio do Centro Knight para o Jornalismo nas Américas em sua criação e estruturação, baseado na experiência do Centro Knight no auxílio à formação de organizações como a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e o Foro de Periodismo Argentino (Fopea), entre outras.

Desde antes de seu lançamento oficial, a Ajor realiza quinzenalmente as Conversas em Off, encontros online para trocas entre os membros em um espaço seguro. Nestas conversas são debatidos temas estratégicos às organizações de maneira sigilosa, com troca de experiências e ajuda mútua entre as associadas. Este espaço permite que as organizações aprendam umas com as outras e o fomento de boas práticas editoriais e institucionais.

Maia Gonçalves Fortes, secretária executiva da Ajor, disse à LJR que as organizações que participam das Conversas em Off se comprometem a respeitar este espaço confidencial e a não levar o que é compartilhado ali para fora daquele ambiente. As organizações são convidadas a falar sobre temas propostos pelas próprias associadas.

“Já fizemos encontros sobre como foi adaptar seu site à LGPD [Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais, que entrou em vigor no Brasil em 2018], como fazer uma boa newsletter, como preparar um orçamento de projeto, o que é estratégia de produtos, e como ‘celetizar’ sua equipe [contratar funcionários com carteira de trabalho assinada]”, disse Fortes.

Ela também comentou que a Ajor tem realizado parcerias com empresas e outras organizações que têm contribuído no fortalecimento institucional e do plano de negócios de suas associadas. Entre elas estão o programa Acelerando a Transformação Digital, parceria da Ajor com o Centro Internacional para Jornalistas (ICFJ, na sigla em inglês) e apoio da Meta (anteriormente conhecida como Facebook), por meio do Meta Journalism Project, e a segunda edição do GNI Startups Lab, realizado pela Google News Initiative e desenvolvido em parceria com a Ajor.

Segundo Fortes, as sessões de treinamento do Acelerando a Transformação Digital, realizadas no primeiro semestre de 2022, foram elaboradas a partir de pesquisa de interesses realizada com as associadas à Ajor, que expressaram o desejo de aprender mais sobre gestão e modelo de negócios. A segunda fase do programa consistiu em mentoria e grants para o desenvolvimento de projetos, e todas as 15 organizações selecionadas eram associadas à Ajor, disse a secretária executiva da associação.

Já na segunda edição do GNI Startups Lab, que começou em agosto e vai até dezembro, 12 dos 16 meios selecionados são associados à Ajor, disse Fortes. Eles receberão US$ 20 mil em financiamento e participarão de “workshops e treinamento, com acompanhamento individual, sobre temas fundamentais para a viabilidade financeira de um meio jornalístico, estratégia de negócio, identidade de produto, vendas, marketing, construção de comunidade e captação de recursos”, segundo o comunicado sobre o programa no Blog do Google Brasil.

Jornal Plural é uma das associadas à Ajor que foi selecionada para os dois programas. O site, fundado em janeiro de 2019, faz jornalismo local na cidade de Curitiba, capital do estado do Paraná, na região Sul do Brasil. A equipe de 12 pessoas – três delas sócias co-fundadoras – produz e distribui conteúdo via site, redes sociais, podcasts, newsletter e YouTube.

Rogério Galindo, um dos co-fundadores do Plural, contou à LJR que a participação no Acelerando a Transformação Digital foi “sensacional”. Depois de participar das sessões de treinamento, o meio foi selecionado em dois editais do programa, que financiaram a realização de dois projetos do Plural. O primeiro, Periferias Plurais, ofereceu oficinas gratuitas de jornalismo a jovens da periferia de Curitiba, a partir das quais foram selecionados seis jovens que hoje são “correspondentes de periferia” do site, contribuindo com dois conteúdos por mês sobre seus bairros de origem e recebendo uma bolsa de R$ 500.

“Eles estudam, trabalham, então na verdade esta não pode ser a atividade principal deles”, disse Galindo. “Então com dois conteúdos por mês de cada um, 12 no total a cada mês, temos uma cobertura legal de periferias que só foi possível graças ao projeto, ao financiamento, tanto para a gente poder montar as oficinas como para oferecer as bolsas para eles. (...) Para o Plural, é [um projeto] essencial para a gente ter um material que é inédito e importante para a cidade, e para eles também é uma oportunidade interessante”, afirmou.

O segundo projeto do Plural selecionado no programa está relacionado à checagem de informação durante o período eleitoral no Brasil, com a criação de um curso via WhatsApp sobre como identificar “fake news” nas eleições. “Também é um projeto que consideramos muito importante para nós e para a sociedade, e estamos muito felizes por o financiamento do projeto ter permitido isso, e também pela intermediação da Ajor, que foi fundamental”, disse Galindo.

O GNI Startups Lab, em curso no momento, também tem tido impacto na organização e no trabalho do Plural, disse ele. “Além do subsídio financeiro, que é super importante para nós, tem essa parte da mentoria, de nos ajudar a entender os processos do Google, os processos de SEO, e como organizar uma startup, que no fundo é o que nós somos. Estamos na quinta semana do programa e já aprendemos bastante coisa, e estamos inclusive reformulando algumas coisas no jornal em função disso”, contou.

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