Um programa de certificação e uma plataforma publicada no Substack estão ajudando jornalistas no Paraguai a se capacitar, colaborar e publicar investigações, apesar das condições nas redações que limitam o jornalismo de dados.
Após 36 anos no jornal Última Hora — um dos veículos de imprensa mais tradicionais do Paraguai —, a jornalista Susana Oviedo chegou a um ponto de virada. Sua carreira percorreu várias etapas da profissão, do jornalismo diário à análise política; porém, às vésperas da aposentadoria, ela percebeu que a indústria jornalística evoluía rapidamente além dos limites de sua própria redação.
“Eu me senti sobrecarregada por essas mudanças vertiginosas na forma de adquirir, processar e divulgar informação — mudanças que eu via acontecer lá fora, mas que não via o nosso jornal acompanhar”, disse Oviedo à LatAm Journalism Review (LJR).
Assim, quando soube da chamada para o primeiro Programa de Certificação em Jornalismo de Dados e Investigativo no Paraguai, em 2025, sentiu que era a oportunidade para dar um salto.

Jornalista Susana Oviedo (E), formada no Programa de Certificação em Jornalismo de Dados e Investigativo; e Lía Barrios (D), fundadora e coordenadora do programa, durante um evento de formatura. (Foto: Universidad Columbia del Paraguay)
Como Oviedo, outros jornalistas paraguaios compartilhavam dessa frustração — o desejo de aprender e praticar um jornalismo apoiado em novas tecnologias, mas sem dispor do tempo, das ferramentas e do financiamento necessários em seus respectivos veículos.
“Existe um nível de decepção — e muitas vezes pura frustração — com um sistema que por vezes nos impede de fazer jornalismo investigativo no Paraguai do jeito que gostaríamos”, disse à LJR a jornalista Lía Barrios, criadora e gestora do programa de certificação. “Entendemos que há um sistema para a cobertura do dia a dia, mas, como repórteres investigativos, queremos fazer algo diferente disso — sem, é claro, desmerecer o trabalho de ninguém.”
Barrios, pioneira do jornalismo de dados no Paraguai, afirmou que criou o programa como resposta à frustração que ela mesma viveu antes de se tornar autodidata em programação, estatística e ciência de dados.
A edição inaugural, que capacitou 15 profissionais, foi realizada de forma virtual, em parceria com a Universidad Columbia del Paraguay, de agosto a dezembro de 2025.
Mas, para Barrios, o programa busca ir além de ensinar ferramentas e técnicas: quer preencher lacunas no ecossistema midiático paraguaio oferecendo formação especializada, fomentando uma comunidade de apoio profissional e abrindo espaços para produzir e publicar investigações que as redações tradicionais muitas vezes não conseguem sustentar.
“Foi interessante ver os alunos chegando ao curso e perguntando: ‘Lía, como você faz seu trabalho investigativo? Com quem você trabalha? Quem paga você? Quem ajuda você? Como eu faço igual?’”, contou Barrios. “A maioria tinha mais experiência [em jornalismo] do que eu, mas precisava de conexão, espaço, oportunidade.”
Os formandos aprenderam técnicas básicas de manejo de dados — da coleta à visualização —, incluindo web scraping, limpeza e análise de bases de dados e o uso de programação básica.
Após concluir o programa, Oviedo participa de uma investigação de dados colaborativa e transfronteiriça com o Organized Crime and Corruption Reporting Project (OCCRP) — rede global especializada em corrupção e fluxos de dinheiro.
Para ela, a aposentadoria não representa o fim do jornalismo, mas sim a entrada no tipo de cobertura que antes não conseguia fazer.
“Tenho muito interesse em fazer isso”, disse. “É como uma dívida comigo mesma. Pelo menos explorar até onde puder.”
A oferta de capacitação em jornalismo de dados no Paraguai era escassa — em um país onde os cursos de jornalismo e comunicação não oferecem essa especialização, observou Barrios.
Ela própria precisou buscar oportunidades no exterior quando, aos 19 anos, se interessou pelo jornalismo guiado por dados que organizações como OCCRP e CONNECTAS já faziam. Seu primeiro contato foi justamente por meio desta última — especificamente no “Investigatón” realizado em parceria com o International Center for Journalists (ICFJ) em 2019.
Depois, cursou várias formações on-line em jornalismo de dados pelo Knight Center for Journalism in the Americas e também aprendeu programação por conta própria.
Ana Lezcano, jornalista digital do jornal ABC Color e professora de jornalismo, disse à LJR que, embora os grandes veículos tradicionais do Paraguai pratiquem jornalismo de dados, isso não ocorre de forma sistemática. A maioria dos profissionais é autodidata, acrescentou, pois as empresas não têm recursos nem infraestrutura para desenvolver essa prática.

A reportagem especial "El Buscador del Pueblo", publicada pelo ABC Color em 2013, foi um dos primeiros projetos de jornalismo de dados a causar impacto no Paraguai. (Foto: ABC Color)
Nesse contexto, Barrios afirmou ter fundado o programa justamente para criar um espaço onde jornalistas paraguaios pudessem receber formação acadêmica formal em jornalismo de dados.
A grade inclui introdução à programação em linguagens como Python e ao uso de plataformas como Pandas e Google Colab, além de visualização de dados com ferramentas como Flourish e Datawrapper.
Embora o programa seja estruturado, Barrios disse que buscou incentivar os alunos a seguirem aprendendo programação de forma autônoma e contínua — algo, segundo ela, muito característico da comunidade de programadores em geral.
“Programadores no mundo todo estão sempre estudando sozinhos”, afirmou. “Hoje, jornalistas podem ir on-line — onde existe uma vasta comunidade em fóruns, plataformas e afins — e inevitavelmente encontrar alguém tentando fazer algo parecido.”
Barrios espera que o programa reproduza esse mesmo senso de colaboração, marca do jornalismo de dados, e abra oportunidades para que graduados se conectem com colegas de outros países e ampliem seus horizontes.
O programa resultou em 12 projetos de reportagem sobre temas como corrupção, meio ambiente e violência doméstica. Contudo, ao final do curso, surgiu um desafio: como manter o ritmo em redações que não oferecem condições de aplicar o que foi aprendido, disse Barrios.
“Como você chega a um veículo para começar a programar, criar seu próprio material e mostrar o resultado ao editor, se ele não é um jornalista de dados? Como ele vai editar seu trabalho?”, questionou.
A solução foi criar a Paraguay Data, plataforma de jornalismo de dados sem fins lucrativos hospedada no Substack, onde as reportagens do curso foram publicadas. O objetivo é tornar-se um espaço em que graduados atuais e futuros recebam orientação editorial durante o desenvolvimento de seus projetos.
A Paraguay Data foi cofundada por Barrios e pelos jornalistas Analía López e Juan José Oteiza — estes dois últimos, formados na primeira edição do curso.
A ideia, explicou Barrios, é permitir que profissionais atuando em redações tradicionais realizem investigações de dados paralelamente ao trabalho diário — com orientação da Paraguay Data — e publiquem tanto na plataforma quanto em seus respectivos veículos.
Dessa forma, fomenta-se a colaboração — algo que, segundo ela, não é tão comum nos meios paraguaios.
Barrios afirmou que investigações oriundas do programa estão sendo publicadas em alguns dos principais veículos tradicionais do país, além de meios alternativos.
Quando Juan José Oteiza decidiu revisar a folha de pagamento dos servidores de Lambaré — cidade onde mora — como projeto do curso, esbarrou em um obstáculo comum ao acesso à informação pública no Paraguai: o dado estava disponível, mas era inutilizável.
Oteiza explicou que órgãos públicos costumam disponibilizar enormes arquivos com informação não estruturada, difícil de analisar. Por isso, considera essencial que os jornalistas adquiram habilidades técnicas para transformar esses dados em algo utilizável — e esse material, por sua vez, em histórias relevantes.
“[As autoridades divulgam a informação] de forma bastante críptica — num PDF de 1.800 linhas do qual não se tira conclusão alguma”, contou à LJR. “Usando as ferramentas do curso, criei uma planilha Excel limpa, organizada e fácil de navegar, que qualquer cidadão pode acessar.”

A edição inaugural do programa de certificação treinou 15 profissionais. (Foto: Universidad Columbia del Paraguay)
O trabalho — que levou quase três meses — resultou numa investigação que revelou inconsistências na estrutura de pessoal e nos salários do município. As descobertas repercutiram em veículos impressos e televisivos e geraram debate público, disse Oteiza.
Susana Oviedo acrescentou que, após concluir o programa, percebeu que muitos jornalistas desconhecem o potencial que a aplicação adequada de técnicas de jornalismo de dados — aliada ao acesso à informação pública — tem para a prestação de contas.
“Lamento não ter tido antes as ferramentas que hoje estão disponíveis — a maioria gratuita — e que, em grande parte dos casos, não sabemos usar ou aproveitar para lidar com o volume de dados que chega diariamente às redações”, afirmou.
Barrios espera que os jornalistas participantes do programa — cuja segunda edição será anunciada em breve e estará aberta a outros países — se tornem editores de dados em suas redações e treinem seus colegas, consolidando o jornalismo de dados no Paraguai ao nível da região.
“Fico pensando no que aconteceria se houvesse um jornalista de dados em cada redação — ou pelo menos um em cada departamento do Paraguai”, disse Barrios. “Eu sonho com isso. Acredito que vamos conseguir em mais alguns anos.”
Esse artigo foi traduzido com ajuda de IA e revisado por Leonardo Coelho