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De Porto Alegre à Amazônia, repórter brasileiro constrói trajetória no jornalismo em quadrinhos

  • Por Ramon Vitral
  • 17 março, 2026

Há pouco mais de um ano, o jornalista Pablito Aguiar embarcou em um avião para uma viagem de 2,8 mil km que atravessaria o Brasil, da cidade de Porto Alegre, no sul, até Altamira, na bacia amazônica.

Hand holding a comic book strip

Pablito Aguiar works on a comics journalism story in the Amazon. (Photo: Courtesy Pablito Aguiar)

Ele seguia para visitar a equipe da plataforma de notícias Sumaúma, focada na cobertura de questões climáticas e ambientais.

Não havia promessa de emprego; apenas a garantia de que seria "bem recebido".

Ele já havia trabalhado para o meio em 2024, cobrindo as enchentes históricas que mataram pelo menos 184 pessoas e devastaram seu estado natal,  Rio Grande do Sul.

“Um dia, o Pablito me mandou uma mensagem dizendo que estava vindo para Altamira com uma passagem só de ida”, contou Eliane Brum, cofundadora da Sumaúma, à LatAm Journalism Review (LJR). “Ele entrou pela porta da nossa redação e se tornou imprescindível. É um criador da Sumaúma junto conosco. Seu talento é tão imenso quanto sua delicadeza.”

Os métodos e materiais de reportagem de Aguiar são pouco convencionais. Embora seu trabalho seja baseado em entrevistas e ele use bloco de notas, canetas, gravador e celular como seus colegas, o que diferencia as reportagens do jornalista de 37 anos é que ele se expressa com a linguagem das histórias quadrinhos. Foi assim quando começou a trabalhar em um jornal local do interior do Rio Grande do Sul e continua sendo assim em seus trabalhos como repórter da Sumaúma

Augusto Paim, jornalista e pesquisador de Porto Alegre, disse à LJR que, embora existam inúmeros exemplos de reportagens em quadrinhos produzidos em redações profissionais ao redor do mundo, o trabalho de Aguiar é único.

“O caso do Pablito [com Sumaúma] é excepcional porque faz surgir um espaço fixo para o quadrinho jornalístico em um veículo já consagrado”, afirmou Paim, autor de “Pequeno manual da reportagem em quadrinhos” e doutor em jornalismo em quadrinhos pela Bauhaus University, na Alemanha.

A reportagem mais recente de Aguiar relata os 15 dias que passou com uma expedição de arqueólogos e moradores ribeirinhos na Reserva Extrativista Riozinho do Anfrísio.

Em 68 quadros com desenhos coloridos acompanhados de balões de fala, Aguiar narra como essa equipe, do projeto Amazônia Revelada, identifica e registra sítios arqueológicos com até 15 mil anos de idade.

“Vou registrando tudo com fotos, vídeos, som, áudio. Eu não desenho [durante a apuração]”, disse Aguiar à LJR. “Vou criando uma ideia um pouco abstrata de qual vai ser a narrativa. É como um quebra-cabeça: vou montando a história. O desenho é a parte mais difícil. Demoram uns dois dias para cada página e é muito doloroso. Depois que o desenho está feito, vou colorir.”

Nesse meio tempo, o roteiro passa pelos editores e checadores da Sumaúma.

Isso tudo leva tempo. A reportagem sobre os sítios arqueológicos na Floresta Amazônica foi desenvolvida ao longo de três meses até ser publicada em 2 de fevereiro de 2026.

A comic strip by journalist Pablito Aguiar“As histórias em quadrinhos têm outro tempo, e estou entendendo isso dentro de uma redação”, contou Aguiar. “Não tenho a mesma agilidade de quem escreve um texto, por exemplo. Então preciso entender que não vou ver meu produto pronto tão rápido quanto outros colegas. Tenho que entender qual é o tempo do quadrinho para tentar explicar isso com mais clareza para eles. Enquanto a gente não entende direito, tem a confiança e o respeito. Está dando certo. Eu gosto muito da repercussão.”

Brum ressaltou que nunca havia trabalhado com reportagens em quadrinhos, mas que o trabalho de Aguiar segue a mesma rotina editorial das demais produções da equipe: ele propõe pautas ou recebe propostas, vai a campo, conversa com editores, apresenta um roteiro e depois desenha.

“Essa experiência tem tudo a ver com a proposta da Sumaúma, que se propõe a ser um espaço de experimentações de linguagem”, disse Brum. “Acho que a reportagem em quadrinhos também tem grande potencial para furar bolhas e alcançar outros públicos, algo que precisamos muito fazer no Brasil”.

Crescendo como jornalista

Aguiar é formado em Comunicação Visual e sempre trabalhou em jornais. Em Porto Alegre, passou pela redação do site O Sul, na época ainda com uma versão impressa. Em sua cidade natal, Alvorada, atuou no jornal A Semana, inicialmente como diagramador e chargista, até que propôs ao editor uma série de perfis em quadrinhos sobre moradores da cidade.

Desde então, seu interesse por jornalismo só cresceu.

“[Aguiar] se interessa pelas ‘pequenas’ histórias, aquelas que geralmente não interessam ao jornalismo convencional, mas que despertam atenção em linhagens alternativas do jornalismo, como o jornalismo literário. Pablito faz pequenas histórias virarem grandes histórias, ou melhor: revela a grandiosidade de histórias consideradas pequenas no jornalismo convencional”, disse Paim.

Entre suas principais inspirações estão os livros e reportagens de Brum. Ela se mudou de São Paulo para Altamira em 2017 e fundou Sumaúma em 2022, com Jon Watts, editor global de Meio Ambiente do jornal britânico The Guardian, com a proposta de cobrir a Floresta Amazônica e “recentralizar o mundo”.

Man and woman walk through destroyed houses and trees
Aguiar costuma transformar suas reportagens em quadrinhos em livros.

Ele publicou seu projeto mais longo até hoje como jornalista freelancer. Trata-se de uma série de entrevistas com 14 moradores de Porto Alegre, compartilhadas nas redes sociais entre 2017 e 2023. O livro “Conversas em Porto Alegre” foi lançado no fim de 2023, alguns meses antes das enchentes históricas. Ele lembra com carinho do período de produção solitária, mas acredita que ingressar na redação do Sumaúma tornou suas reportagens ainda melhores.

“É um processo que só enriquece o trabalho. Tipo: ‘muda esse título’, ‘escreve isso aqui’, ‘escreve aquilo’. Para mim, é um grande privilégio. Estou aprendendo muito, crescendo como jornalista. Nunca tinha participado de uma reunião de pauta; a primeira de que participei foi aqui. Achei a coisa mais legal do mundo. As pessoas trocando boas histórias, sabe? É muito empolgante. Eu vim para isso.”

Viviane Zandonadi, coordenadora de fluxo editorial da Sumaúma e uma das editoras da plataforma, também celebrou os alcances pouco usuais dos trabalhos de Aguiar.

“Pablito encontrou um jeito inteligente e sutil de contar histórias que são ao mesmo tempo simples e profundas” disse Zandonadi À LJR. “Em especial nas redes sociais, mas não só, suas publicações rompem bolhas de audiência, atraindo leitores do mundo.”

Atualmente, Aguiar está trabalhando em uma reportagem sobre os três dias em que acompanhou uma romaria em homenagem a pessoas que morreram protegendo a Floresta Amazônica, como a freira norte-americana Dorothy Stang, assassinada em 2005 na cidade de Anapu, no Pará. Ele também planeja, para os próximos anos, lançar um livro reunindo todas as reportagens produzidas para a Sumaúma, focadas em seu período vivendo em Altamira.

“Mas vai demorar”, ele disse.

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