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Jornalistas de países com governos autoritários alertam sobre censura, ações judiciais e outras formas de minar a democracia

Alguns jornalistas vêm do futuro, ou então o caminho para deteriorar uma democracia é o mesmo: perseguição à imprensa, ações judiciais contra meios de comunicação, revogação de licenças, incentivo a notícias falsas e autocensura.

É por isso que quando o Presidente dos EUA, Donald Trump, começou a seguir o mesmo roteiro, Ann Marie Lipinski, diretora da Fundação Nieman de Jornalismo da Universidade de Harvard, não hesitou em buscar aconselhamento de colegas em países com democracias em declínio.

Lipinski, junto com alguns desses jornalistas, protagonizou o painel "Fazendo jornalismo em países com democracias em declínio" no segundo dia do 26º Simpósio Internacional de Jornalismo Online (ISOJ). Os convidados foram Carlos Dada, cofundador e diretor do El Faro de El Salvador; Gülsin Harman, jornalista independente da Turquia; Arfa Khanum, editora-chefe do The Wire na Índia e András Pethő, cofundador, editor e CEO da Direkt36 na Hungria.

"Temos muita sorte de ter estes corajosos jornalistas conosco hoje para nos contar o que está acontecendo em seus países e para dar aos jornalistas americanos uma ideia do que esperar e como responder a isso", disse Lipinski.

Controle e propaganda da mídia na Hungria

Pethő expôs a evolução do controle da mídia sob o governo de Viktor Orbán. Explicou que, desde que chegou ao poder em 2010, e mesmo quando assumiu o cargo pela primeira vez, entre 1998 e 2002, Orbán implementou uma estratégia sistemática para assumir o controle dos meios de comunicação.

Isso incluiu a compra de meios de comunicação independentes por empresários simpatizantes do governo, a criação de uma máquina de propaganda que abrange a imprensa, o digital e a televisão, e a asfixia econômica de meios de comunicação críticos através da retirada da publicidade estatal e da imposição de restrições regulatórias.

"A boa notícia é que ainda é possível sobreviver e continuar fazendo jornalismo independente", disse Pethő. "Mas estamos limitados sobretudo ao espaço digital. É difícil chegarmos às pessoas que ainda dependem da televisão ou da mídia impressa".

Sua equipe conseguiu publicar investigações impactantes que geraram debate público e expuseram a corrupção nos escalões superiores do poder.

Turquia: autocensura como mecanismo de sobrevivência

A experiência da imprensa na Turquia foi abordada em profundidade, mostrando como a censura não vem apenas do governo, mas também da autocensura na mídia e da adaptação dos proprietários das empresas jornalísticas ao poder.

"Direi que o que corrompeu a mídia turca não foi necessariamente e apenas a pressão do governo", disse Harman. "O que realmente mudou a natureza da mídia turca foi quando os proprietários dos meios de comunicação decidiram que havia um novo chefe na cidade e que poderiam se dar bem com ele".

Harman alertou que outra situação que pode acontecer nos Estados Unidos, repetindo a história da Turquia, é que os financiadores dos meios de comunicação podem começar a parar de responder e-mails, e os colegas que você pensava terem os mesmos padrões de integridade começarão a seguir outros caminhos onde lhes é oferecido muito mais dinheiro.

A jornalista turca contou como seu percurso no jornalismo foi marcado pela resistência, mas também por decisões difíceis, como parar de assinar suas matérias para salvaguardar sua segurança.

Durante a última década, na Turquia, centenas de jornalistas foram presos ou forçados ao exílio, e meios de comunicação críticos foram encerrados arbitrariamente. Ainda assim, Harman quis concluir seu discurso com uma citação do filósofo italiano Antonio Gramsci: "Sou pessimista por inteligência, mas otimista por vontade".

Índia: a maior democracia do mundo em risco

Khanum alertou sobre a deterioração da democracia em seu país, evidenciada pela crescente perseguição a jornalistas e comediantes. Ela denunciou as ameaças e intimidações contra o humorista Kunal Kamra e a prisão do jornalista Dilwar Hussain Mazumdar após cobrir um protesto.

A jornalista explicou que, nos 11 anos de governo de Narendra Modi, o país assistiu a uma redução significativa na liberdade de imprensa. Os meios de comunicação estatais têm sido instrumentalizados para reforçar a narrativa oficial, enquanto vozes dissidentes são assediadas com ações judiciais, censura nas redes sociais e violência.

"Vindo aqui e falando na frente de vocês, há alguns riscos, vocês poderiam me acusar de difamar a Índia em uma plataforma internacional", disse ela. "Qualquer coisa que você diga contra o governo hoje em dia é considerado antipatriótico, é considerado anti-Hindu, é considerado anti-Modi”.

Khanum não é muito otimista. Segundo ela, quando os jornalistas enfrentam governos ditatoriais, a tendência não é de melhoria; eles simplesmente aprendem a lidar melhor com esses governos com o tempo.

O jornalismo de El Salvador resiste

Dada fez um panorama da história de El Salvador e explicou como a chegada ao poder do presidente Nayib Bukele, em 2019, enfraqueceu instituições públicas que ele considerava fortes e independentes.

"El Faro nasceu na democracia [em 1998] como um meio de comunicação para cobrir um país que vivia em democracia, que começava a viver em democracia com todas as regras democráticas", disse ele. "Isso não existe mais".

Segundo Dada, os jornalistas tornaram-se inimigos da noite para o dia e começaram as perseguições, acusações de lavagem de dinheiro, monitoramento e vigilância.

Ainda assim, Dada e sua equipe do El Faro continuam empenhados em fazer bom jornalismo e em resistir aos ataques. "Isso é o que sustenta este mundo, a resistência", disse Dada. "Embora o preço a pagar seja mais elevado, há algo de bom em tudo isso".

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