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Meios digitais mexicanos lançam aliança para defender o jornalismo local e reconstruir a confiança da audiência

Um grupo de veículos digitais no México está unindo forças contra a narrativa estigmatizante e a insegurança vividas pela imprensa no país, além de atuar em favor da sustentabilidade do jornalismo local.

Territorial é o nome da aliança formada por 17 meios independentes localizados em 12 estados do país. Ao longo deste ano, o grupo planeja colocar em prática uma série de iniciativas para conscientizar as audiências sobre a importância do jornalismo local no México, um país cujo atual regime governante tem implementado uma política de desqualificação, ataques e intimidação contra a imprensa.

“Este regime em particular considera os meios de comunicação como seus inimigos. [O ex-presidente] López Obrador, mais do que [a atual presidente Claudia] Sheinbaum, costumava sempre generalizar. Isso acaba minando a percepção das pessoas e criando uma narrativa [estigmatizante]”, disse à LatAm Journalism Review (LJR) a jornalista Mely Arellano, vice-presidente do Conselho da Territorial. “O que queremos fazer é nos reconectar com nossas comunidades e lembrá-las de que o trabalho que realizamos é basicamente em favor delas, para que tenham as informações de que precisam para tomar decisões.”

Arellano é codiretora do site de notícias Lado B (do estado de Puebla), um dos meios que integram a aliança, junto com Istmo Press, El Muro e Página 3 (de Oaxaca); Chiapas Paralelo (de Chiapas); Amapola (de Guerrero); La Marea (de Veracruz); Zona Docs, Letra Fría e Perimetral (de Jalisco); Revista Espejo (de Sinaloa); PopLab (de Guanajuato); Raíchali e La Verdad Juárez (de Chihuahua); Elefante Blanco (de Tamaulipas); Pie de Página (da Cidade do México); e Escenario Tlaxcala (de Tlaxcala).

Territorial é a evolução da aliança de veículos formada em 2018 a partir da organização Periodistas de a Pie, criada em 2007 com o objetivo de elevar a qualidade do jornalismo no país. Embora a aliança de meios da Periodistas de a Pie tenha conseguido impulsionar, de forma conjunta, diferentes projetos, a organização estava focada principalmente no apoio e na capacitação de jornalistas, enquanto os objetivos da Territorial se concentram em meios já consolidados, explicou Rocío Gallegos, diretora de La Verdad de Juárez e presidenta do Conselho da Territorial.

A nova aliança planeja lançar, no fim de janeiro, uma campanha de conscientização sobre a importância do jornalismo local, com o objetivo de reposicionar o nome de cada meio em seus estados e, assim, recuperar o capital social que as audiências representam, afirmou Arellano.

O objetivo da campanha, que terá o título “Estamos Aqui”, é também lembrar às pessoas o que significa ser um meio independente no contexto atual dos estados do México, os desafios que enfrentam e seu papel dentro do ecossistema midiático nacional, disse Gallegos.

“Queremos dizer às nossas audiências que estamos aqui, que, ainda que grandes meios estejam cancelando correspondências [nos estados], fechando espaços para o que acontece em nossos estados, nós estamos aqui e vamos continuar fazendo o nosso trabalho”, disse Gallegos à LJR. “Queremos reafirmar a importância que esse jornalismo tem, o nosso jornalismo local, que inclusive já foi premiado.”

Para isso, acrescentou Gallegos, é necessário ajudar as pessoas a reconhecer quais são os meios em que podem confiar, diante da proliferação de meios de comunicação e páginas em redes sociais de credibilidade duvidosa que abundam no interior do México.

Essas páginas, segundo ela, contribuem para expandir a desinformação entre as comunidades. Por isso, a campanha da Territorial incluirá elementos de alfabetização midiática.

“Uma coisa que nos importa muito dentro desta campanha é explicar às pessoas qual é um meio em que podem confiar. Que observem se existe uma direção, quem assina as matérias”, disse Gallegos. “Diante dessa onda de desinformação, a campanha tentará explicar como funciona o ecossistema, nosso papel, o papel das audiências e a questão da desinformação, e como você pode saber se o meio que está lendo é confiável ou não.”

A campanha também busca conscientizar sobre a importância de financiar o jornalismo local e incentivar as pessoas a contribuírem financeiramente, em reconhecimento ao trabalho que os repórteres das regiões realizam, afirmou Arellano.

Isso, acrescentou, não é apenas para beneficiar os veículos que fazem parte da Territorial, mas o jornalismo local independente em geral.

“Não vamos dizer ‘doe para a Territorial’, mas sim ‘você tem um meio local que conhece, conhece seus jornalistas, é nele que se informa, é para ele que, quando acontece algo, você envia uma mensagem no Facebook para perguntar alguma coisa; então, doe para esse meio em que você confia’”, disse Arellano.

A Territorial lançará um podcast quinzenal, no qual falarão sobre as histórias por trás do trabalho jornalístico dos meios membros, os desafios que os jornalistas enfrentam ao cobrir os estados, os esforços por financiamento e as condições em que os meios independentes trabalham, afirmou Gallegos.

Ao podcast se somarão um programa semanal de análise de temas atuais, “Reporte Territorial”, que será transmitido ao vivo pelo YouTube, assim como um boletim que será enviado todas as sextas-feiras com uma curadoria dos conteúdos dos meios que integram a aliança.

Enfrentar unidos as ameaças ao jornalismo

Embora a Territorial seja constituída como uma sociedade civil e tenha a capacidade de se candidatar a fundos para financiar suas atividades, os meios membros manterão a responsabilidade pelo próprio financiamento, afirmou Arellano.

No entanto, a aliança promoverá a troca de estratégias e iniciativas para melhorar a sustentabilidade de cada organização, acrescentou.

“Ninguém encontrou uma fórmula mágica [de sustentabilidade], nós também não, mas se fizermos em aliança, podemos começar a melhorar até mesmo nossos processos internos, nos ajudar em algumas coisas”, disse Arellano. “Há conhecimentos que podemos compartilhar, há coisas que podemos fazer juntos.”

Assim como fazia a Periodistas de a Pie, a nova aliança também buscará realizar capacitações sobre esse e outros temas para fortalecer os meios membros, além de promover acompanhamento mútuo em diversas iniciativas, afirmou Gallegos.

Além disso, os integrantes da Territorial buscarão trabalhar em conjunto para enfrentar outros problemas que ameaçam o jornalismo no México. Um deles, disse Gallegos, é a violência gerada pelo crime organizado. Vários dos meios membros estão localizados em estados fortemente afetados por esse tipo de violência, como Veracruz, Sinaloa, Chihuahua, Tamaulipas e Chiapas.

O assédio judicial, uma ameaça à imprensa que se agravou no último ano no México, é outro fator que preocupa os meios que integram a Territorial.

A organização Artículo 19 documentou que, na primeira metade de 2025, foram registrados no México 51 casos de processos legais contra jornalistas e meios de comunicação. Além disso, nos últimos meses, foram apresentadas no país projetos de lei, tanto em nível nacional quanto em alguns estados, que, segundo especialistas, poderiam ter como resultado a censura.

Em particular, a aliança afirmou estar atenta às acusações de violência política de gênero que alguns funcionários têm usado para acusar jornalistas e veículos críticos no país.

É o caso dos jornalistas Carlos Martínez Caamal, Abraham Martínez e Hubert Carrera, que no ano passado foram obrigados por um tribunal a se desculpar publicamente com a governadora do estado de Campeche, Layda Sansores, por emitirem comentários considerados violência política de gênero.

Arellano afirmou que alguns meios da aliança enfrentaram esse tipo de denúncia, mas optaram por não torná-las públicas até a conclusão dos processos judiciais.

“Vemos que é uma arma que está sendo usada em todos os estados e em todos os níveis, e esse é um tema que também nos preocupa”, disse Arellano. “O que tentamos fazer nesse caso são outros tipos de estratégias em aliança, obviamente com advogados, que nos permitem criar estratégias jurídicas para entrar com amparos, etc.”

A crescente opacidade do governo é outra das ameaças que a Territorial buscará enfrentar. No primeiro ano da presidência de Sheinbaum, foi desmantelado o organismo autônomo que garantia o acesso à informação pública. Desde então, jornalistas e cidadãos enfrentam dificuldades ao tentar obter dados do governo.

“Evidentemente, ao regime do Morena, a transparência incomoda bastante”, disse Arellano. “E vemos isso até em bancos de dados de todo tipo, de informações econômicas, de exportações ou de crimes, que regularmente o Governo Federal disponibilizava, e que este governo simplesmente deixou de atualizar há dois ou três anos.”

Para enfrentar esses desafios como aliança, a melhor estratégia é trabalhar de forma colaborativa e dar eco, em todos os veículos membros, ao que acontece em cada estado, afirmou Gallegos. Isso inclui a publicação simultânea de certos relatórios e a divulgação de informações com meios de fora da aliança.

“São histórias que têm impacto aqui em nossos territórios e que muitas vezes, devido à grande quantidade de informação, não chegam a ter presença em meios nacionais”, disse Gallegos. “Nós fazemos com que o que acontece em nossa região seja reproduzido pelos 17 meios que estamos em diferentes regiões do país.”

Traduzido por Ramon Vitral
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