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CONNECTAS completa 10 anos e celebra consolidação do jornalismo colaborativo transnacional na América Latina

Em 2011, o jornalista colombiano Carlos Eduardo Huertas falou sobre seus planos de criar um centro de jornalismo transnacional na América Latina ao blog Jornalismo nas Américas do Centro Knight, precursor da LatAm Journalism Review (LJR). Ele colocou seus planos em prática no ano seguinte e hoje, dez anos depois, celebra o sucesso de sua empreitada na CONNECTAS, autointitulada “plataforma para o jornalismo nas Américas”, e do modelo de jornalismo colaborativo transnacional impulsionado pela iniciativa na região.

Huertas desenvolveu seu projeto durante um período como bolsista Nieman na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, depois de mais de uma década dedicada ao jornalismo investigativo na Colômbia. “Há temas que aparentemente são locais, mas conforme as investigações se aprofundam, surgem conexões transnacionais”, disse ele naquela ocasião. “Se alguém desde o início tivesse abordado a questão com um olhar não só local, mas com informações nacionais e internacionais, certamente estas investigações teriam tido um grande avanço, uma utilização mais eficiente do tempo, e resultariam em uma investigação mais completa.”

Em 2022, refletindo sobre a trajetória de CONNECTAS desde aquela entrevista, ele disse à LJR que “um dos diferenciais de CONNECTAS é precisamente que este olhar regional, hemisférico, está em seu DNA desde o primeiro momento”.

Carlos Eduardo Huertas, standing and holding a microphone during a presentation

Carlos Eduardo Huertas, fundador e diretor de CONNECTAS (Patricia Lim/Centro Knight)

“Desde o começo, um de nossos propósitos era fazer o que chamamos de cumplicidades jornalísticas, que surgem da empatia natural que há entre os latino-americanos e que permite que em muito pouco tempo surjam amizades e camaradagens naturais; que isso se transforme do party factor ao working factor”, explicou Huertas, diretor da plataforma. “CONNECTAS tem apoiado a geração de metodologias, processos e estratégias para propiciar que as coisas aconteçam, porque no fim das contas é isso que nos interessa, e nisso acredito que temos tido uma cota importante de contribuição como referência da transformação da colaboração no jornalismo neste período.”

Ao longo dos anos, a iniciativa foi colocando em prática diferentes maneiras de cumprir seu propósito: apoio editorial e financeiro à produção das investigações por meio das Bolsas de Produção Jornalística; criação de uma redação regional virtual, a CONNECTASHub, que reúne mais de 130 jornalistas em 19 países das Américas dispostos a colaborar entre si; o CONNECTASLab, que disponibiliza ferramentas e oportunidades de formação e reflexão sobre o ofício jornalístico; a Escola Virtual CONNECTAS, um curso gratuito que forma jornalistas na metodologia de investigação desenvolvida pela plataforma; e um Programa Intensivo de Formação de Editores, que realizou sua segunda edição neste ano presencialmente em Bogotá.

Ao cobrir a América Latina de maneira descentralizada e manter abertas as portas para qualquer jornalista da região que esteja disposta a contribuir e colaborar segundo a metodologia da plataforma, CONNECTAS tem conseguido cumprir com um de seus objetivos iniciais, que era “romper a endogamia que há no jornalismo latino-americano”, disse Huertas.

“Os países são em geral de natureza centralista e as oportunidades se concentram principalmente nos grandes meios ou nos sobrenomes, nos nomes de referência. Nós acreditamos que nesse ofício o que importa é uma boa história impulsionada por um jornalista apaixonado, valente, independente, com vontade de levar adiante este processo”, explicou ele. “Seguramente haverá necessidade de fortalecer algumas capacidades, de apoiar para que esta história esteja ali e bom, é isso que fazemos desde CONNECTAS. Propiciamos e facilitamos tudo para que estas boas histórias que estão debaixo de muitas pedras na América Latina, nas regiões mais desconhecidas, nos jornalistas que não necessariamente pertencem aos círculos habituais do jornalismo de renome, possam encontrar em uma organização como CONNECTAS um espaço onde possam brilhar e ser parte de algo maior.”

Contribuição coletiva

Segundo Huertas, desde seu princípio CONNECTAS se concentra em “conectar saberes, capacidades, coragens para contar as histórias relevantes, transformadoras, de interesse público que estão acontecendo nas Américas”.

“Uma das marcas que têm caracterizado as investigações de CONNECTAS é a exposição de abusos de poder”, disse ele, acrescentando que, na América Latina, não se tratam apenas “dos poderes tradicionais, democráticos, mas cada vez mais, infelizmente, há muitos poderes emergentes que têm a capacidade de afetar a vida dos cidadãos: poderes armados, poderes corruptos, poderes empresariais.”

Em dez anos, foram cerca de 800 investigações publicadas e pelo menos 62 prêmios em reconhecimento à excelência jornalística das reportagens. Entre os trabalhos premiados estão “Ser niño en el Triángulo Norte y desaparecer”, sobre o desaparecimento de crianças em El Salvador, Honduras e Guatemala; “Pelota sucia: la silenciosa trata de futbolistas en Latinoamérica”, sobre o tráfico de pessoas que já capturou centenas de jovens colombianos, enganados por falsos empresários de futebol; “La casa blanca de Peña Nieto”, sobre a mansão de US$ 7 milhões do ex-presidente mexicano Enrique Peña Nieto, construída por uma empreiteira que venceu licitações para obras estatais sob seu governo; e as coberturas “#NicaraguaNoCalla”, com reportagens sobre o sufocamento da democracia no país centro-americano sob o governo de Daniel Ortega, e “#HuellasDeLaPandemia”, sobre os impactos da pandemia de COVID-19 na América Latina.

A jornalista venezuelana Lisseth Boon participou de alguns projetos realizados por intermédio de CONNECTAS e que envolveram profissionais de diversos países investigando abusos de poder. Um deles, o projeto “Chavismo Inc. Los engranajes del capitalismo bolivariano”, reuniu jornalistas de 11 países na investigação dos fluxos de dinheiro saídos da Venezuela, muitas vezes graças a conexões com pessoas no poder. O trabalho foi o vencedor na categoria “Jornalismo em Profundidade” do prêmio da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) à Excelência Jornalística em 2021.

Boon é coordenadora da unidade investigativa do meio digital Runrun.es e dos projetos investigativos da Aliança Rebelde Investiga (ARI), formada pelos meios venezuelanos Runrun.es, El PitazoTalCual. Sua história com CONNECTAS começou quando ela fez o curso da Escola Virtual e, ao fim da formação, apresentou um projeto para seleção das Bolsas de Produção Jornalística da plataforma. O projeto dela foi selecionado e a partir de então ela passou a fazer parte da comunidade #CONNECTASHub.

“Segui me formando em todas as oportunidades de formação [promovidas pela plataforma], com os cursos que realizaram, e também participei como instrutora de alguns seminários e fóruns e dei cursos para a comunidade de CONNECTAS”, disse Boon à LJR, acrescentando que esta comunidade de jornalistas segue conectada por meio de um chat online e “está em contato permanente”.

Ela disse ser muito grata a CONNECTAS pelas oportunidades de capacitação, de trabalhar com colegas de outros países e de contar com a assessoria editorial da plataforma na produção das investigações. “E também pelo apoio econômico, com as bolsas de produção para estas reportagens. Creio que esse apoio foi fundamental no meu caso e no caso da equipe que coordeno. Sem esse apoio dificilmente poderíamos ter levado adiante estas reportagens”, disse Boon.

A jornalista também destacou a importância da contribuição de cada profissional que participa das investigações colaborativas. “Todo o modelo CONNECTAS é uma colaboração mútua, [que envolve] trabalhar muito em equipe e em colaboração nos projetos transnacionais nos quais não há protagonismo. A liderança é bastante horizontal, porque todos, na hora da verdade, estamos contribuindo cada qual a partir de suas potencialidades e de seus recursos”, afirmou.

Boon considera que o jornalismo investigativo na América Latina mudou muito nos últimos dez anos, e que CONNECTAS teve um papel fundamental nessas mudanças. “No apoio a equipes locais em diferentes países latino-americanos, para levar adiante estas investigações em contextos difíceis, adversos, onde não há acesso à informação, tampouco há muitas oportunidades de capacitação ou de obter recursos para apoiar estas investigações”, exemplificou.

Ela também avalia que hoje, no mundo todo e muito mais do que dez anos atrás, se valoriza o trabalho colaborativo transnacional no jornalismo. “Agora se reconhece que o trabalho em equipe tem muito mais transcendência precisamente por abordar de diferentes perspectivas temas complexos, e também a integração de equipes multidisciplinares, que ajudam a entender ou interpretar de maneira mais completa estes temas complexos”, disse Boon. Isso implica desafios na hora de organizar e coordenar todos estes esforços, apontou ela, “mas também acredito que foram adquiridas maiores capacidades para realizar estas investigações transnacionais e colaborativas onde intervêm muitos repórteres de diferentes culturas, metodologias e latitudes”.

Os próximos 10 anos

CONNECTAS tem celebrado seus dez anos com uma série de atividades, que estão sendo divulgadas nas redes sociais sob a hashtag #CONNECTAS10AÑOS. Além de fortalecer a comunidade #CONNECTASHub e a comunidade jornalística latino-americana por meio de novas oportunidades de capacitação, a plataforma está investindo na difusão dos conteúdos, contou Huertas. Em 2022, CONNECTAS lançou uma newsletter em inglês e um podcast semanal em espanhol que explora as investigações e análises publicadas pela plataforma. Outro objetivo neste ano é oferecer também em português o curso da Escola Virtual, hoje disponível em espanhol, francês em inglês.

Para os próximos dez anos, os planos são os mesmos desde o primeiro momento, disse Huertas. “Trabalhar dia a dia por mais e melhor jornalismo, continuar com a construção deste grande exército hemisférico de formigas que entende de maneira humilde que o trabalho coletivo com outros pode contrastar melhor suas informações, amplificar seu impacto, encontrar métodos criativos e divertidos para fazer jornalismo (...) e que através da colaboração pode encontrar uma melhor maneira para que de maneira oportuna se contem verdades relevantes e de interesse público que ajudem a uma melhor compreensão das Américas”, resumiu ele.

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