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Jornalista colombiano Carlos Huertas planeja promover o jornalismo transnacional como bolsista Nieman em Harvard (Entrevista)

O jornalista colombiano Carlos Eduardo Huertas é editor de investigações da revista política Semana e fundador do Consejo de Redacción, organização que promove o jornalismo investigativo. Em sua trajetória jornalística, ele se especializou em temas como corrupção, direitos humanos e meio ambiente, e fez parte das equipes da Semana vencedoras dos prêmios Rei da Espanha 2008 e Melhor Investigação Jornalística de Corrupção na América Latina e no Caribe, do Instituto de Imprensa e Sociedade (IPYS) e da organização Transparência Internacional, por investigar os vínculos entre paramilitares e políticos colombianos.

Huertas foi escolhido para ser bolsista Nieman por um ano na Universidade de Harvard, período que planeja dedicar ao estudo da criação de um centro de jornalismo transnacional na América Latina.

Enquanto se aproxima o prazo para que outros jornalistas façam suas aplicações para as bolsas Nieman (da Universidade de Harvard) e outras bolsas, o Centro Knight para o Jornalismo nas Américas conversou com Huertas sobre sua ideia de jornalismo transnacional.

Centro Knight: Como surgiu a ideia do jornalismo transnacional?

Carlos Huertas: Com o meu trabalho, surgiram duas reflexões: há temas que aparentemente são locais, mas conforme as investigações se aprofundam, surgem conexões transnacionais. E a questão é que se alguém desde o início tivesse abordado a questão com um olhar não só local, mas com informações nacionais e internacionais, certamente estas investigações teriam tido um grande avanço, uma utilização mais eficiente do tempo, e resultariam em uma investigação mais completa.

CK: Você participou de algum projeto jornalístico deste tipo?

CH: A este respeito, “serendipity” (descobertas fortuitas) desempenha um papel. A participação em redes de jornalistas na região levou a acontecimentos acidentais que melhoraram o produto final. Há alguns anos, o Consejo de Redacción de Periodistas da Colômbia propôs a investigação de um tema comum em vários países com jornalistas de 11 países. O produto final foi uma reportagem sobre o comércio de emissões de carbono produzida por Giannina Segnini, editora de jornalismo investigativo do jornal costa-riquenho La Nación. Foi um projeto piloto para o jornalismo investigativo.

CK: Enquanto alguns defendem o jornalismo hiper-local, você está propondo jornalismo transnacional. Como os dois estilos podem coexistir?

CH: Muitos dos temas estruturais em nossos países vão além do local. Jaime Bello, da Fundação Novo Jornalismo Ibero-Americano (FNPI), usou de maneira acertada o termo "translocal." De acordo com vários estudos, as comunidades estão mais interessadas em temas locais, mas estes assuntos vão além das fronteiras. O desafio é juntar as duas coisas. Para isso é necessário definir a agenda jornalística.

CK: Que metodologia você utiliza para conduzir investigações que transcendem as fronteiras?

CH: A primeira coisa é fazer com que cada um dos jogadores locais tenham um papel ativo. O primeiro erro seria implementar uma agenda externa, tem que ser sobre temas comuns. Procure por temas que são importantes para dois ou mais países. A segunda é envolver atores locais, porque eles que conhecem as regras do jogo em cada contexto. A terceira é trabalhar em uma relação horizontal, de equipe, e não verticalmente, com uma pessoa encarregada do projeto.

CK: E como resultado surgem vários trabalhos jornalísticos?

CH: Claro, não é o mesmo texto. A produção de temas transnacionais deve ser flexível para se adaptar a cada contexto local. Existem diferentes temas, como o comércio de armas ou o Mercosul, que não estariam completos sem um ângulo transnacional. Com um componente transnacional eles podem gerar uma reflexão mais geral sobre as mudanças na sociedade.

CK: Além de um idioma comum, que outras vantagens a América Latina tem para praticar esse tipo de jornalismo transnacional?

CH: Temos várias vantagens. A língua, sem dúvida, com exceção do Brasil. Temos também cultura e tradições semelhantes, menos barreiras culturais. Além disso, muitos países agora partilham instituições e necessidades similares . Isso faz com que o trabalho vá além da simples investigação e resulte em um retrato melhor do que está acontecendo na região.

CK: A entrevista que você fez com Julian Assange, fundador de Wikileaks, serviu de inspiração para este projeto de jornalismo transnacional?

CH: A experiência de trabalho com Wikileaks foi mais interessante para entender como uma boa idéia pode se mover para a frente envolvendo os interesses das diversas partes. Houve um momento em que praticamente todas as redações dos principais veículos do mundo estavam trabalhando com o Wikileaks com um objetivo comum. Isso mostra que é possível. Foi um momento de aprendizagem. No entanto, os veículos não estavam trabalhando juntos. O brilhante do Wikileaks foi injetar informações na grande mídia sem gastar um centavo. A relação foi construída na base da confiança e da cooperação.

CK: Qual foi o resultado de seu trabalho com a Conferência Global de Jornalismo Investigativo?

CH: Há duas coisas interessantes sobre a conferência. Primeiro, a importância de encontrar novos modelos de negócios e, segundo, a importância do networking para desenvolver e explorar projetos e ideias. Em um evento como este, é possível, no espaço de uma semana, encontrar tantas pessoas quanto se poderia em um ano . A próxima conferência mundial será no Brasil, organizada pela Abraji e terá como foco os principais temas que afetam a América Latina.

CK: Você acredita que este tipo de jornalismo transnacional sirva para proteger jornalistas de ameaças do crime organizado e de governos corruptos na América Latina?

CH: Sim. É uma forma de promover a informação sem as limitações que a democracia encontra em algumas regiões. Na Colômbia foi fundamental. Quando muitas regiões estavam com problemas para informar sobre o que acontecia localmente, a mídia na capital, Bogotá, informou sem essas limitações. Ao relatar histórias locais, tivemos uma imagem mais detalhada do que estava acontecendo no país. A coisa mais importante foi que a informação chegou a toda a sociedade.

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