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Jornalistas da Nicarágua enfrentam a falta de informação e o silêncio do governo de Daniel Ortega

Por Carola Guerrero De León

O primeiro dia de abril foi como um outro qualquer para os jornalistas nicaragüenses. Um dia de silêncio, de censura. É que ao começar o mês, o presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, completou 3 mil dias sem oferecer coletivas de imprensa abertas, de acordo com o Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ, na sigla em inglês).

Há mais de oito anos que a mídia independente da Nicarágua teve sua última coletiva com Ortega. De acordo com o jornal La Prensa, este último contato ocorreu em 10 de janeiro de 2007, dia em que o mandatário tomou posse da presidência.

O peculiar deste caso é que as queixas pela falta de transparência e de comunicação feitas pelos jornalistas costumam se voltar contra a primeira dama, Rosario Murillo, e não contra o presidente.

Murillo, de 63 anos, é a porta-voz oficial do governo. Várias fontes a colocam como a ‘arquiteta’ da atual estratégia de negar acesso à imprensa independente e responder apenas ocasionais “perguntas suaves feitas pelos meios favoráveis ao governo”, segundo o CPJ.

Ortega não é o único seguindo as estratégias ‘comunicativas’ de sua esposa. Segundo relata Lucydalia Baca, editora de La Prensa, os ministros do governo evitam jornalistas críticos seguindo as ordens de Murillo.

Adversários de Ortega caracterizam Murillo como uma personagem onipresente na Nicarágua.

De acordo com o La República, Ortega ocasionalmente aparece em público. Em contraste, a televisão nacional conta com a presença da primeira dama todos os dias da semana, onde ela fala sobre “o governo de seu esposo em uma onda retórica que mescla socialismo, espiritualidade New Age e catolicismo”, acrescentou o diário.

Em seu livro Por que nos odeiam tanto?, o autor Omar Rincón fala do estado de liberdade de expressão na Nicarágua. “As instituições não respondem as denúncias do jornalismo investigativo. E quando respondem, o fazem com campanhas difamatórias ou instigando a violência contra os jornalistas” […] “O acesso à informação pública é cada vez mais precário”.

Atualmente, a principal notícia é a construção do canal transoceânico da Nicarágua. Um projeto polêmico valorado em 50 bilhões de dólares, e que conta com denúncias por supostas violações aos direitos humanos. No dia 16 de março, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) realizou uma audiência sobre este tema onde foram expostas estas queixas.

A estas denúncias se somam outras de jornalistas que querem investigar o tema e enfrentam uma verdadeira luta para obter respostas governamentais, de acordo com o CPJ.

“A principal fonte de informação sobre a HKND (companhia Chinesa contratada para construir o canal) é seu site, porque nem a companhia, nem o governo nos dá informação”, disse um editor de um jornal de Managua, que pediu anonimato ao CPJ por questões de segurança.

Vários jornalistas disseram que Ortega está tratando o tema do Canal como trata a maioria das questões governamentais: em segredo.

Nota do editor: Essa história foi publicada originalmente no blog Jornalismo nas Américas do Centro Knight, o predecessor do LatAm Journalism Review.

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