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Podcast Projeto Querino celebra protagonismo negro na história do Brasil e ultrapassa 800 mil downloads

Mais de 40 profissionais, a maioria jornalistas negros, trabalharam ao longo de dois anos e oito meses na produção do Projeto Querino, série de podcasts e reportagens em texto que oferecem um olhar afrocentrado da História para explicar o Brasil de hoje. Os oito episódios estão no ar e já foram baixados 810 mil vezes até 28 de outubro de 2022. O podcast alcançou o primeiro lugar nos rankings diários de podcasts mais ouvidos do Brasil tanto do Spotify quanto da Apple.

“O Querino não tem nenhum furo jornalístico. Nenhuma informação está sendo revelada pela primeira vez. Pesquisadores vêm publicando há muito tempo, alguns mais recentes. O grande impacto é de novidade [para um público mais amplo]. Estamos aprendendo coisas. Coisas que eu, Tiago, mesmo trabalhando com esse olhar desde 2018, não sabia,” disse à LatAm Journalism Review (LJR) o jornalista Tiago Rogero, o criador do projeto.

Esta é a terceira empreitada de Rogero, 34 anos, no mundo dos podcasts de não-ficção com foco na cultura e em personagens afro-brasileiros. Em 2019 produziu Negra Voz, para o jornal O Globo, com o qual venceu o Prêmio Vladimir Herzog de Jornalismo e Direitos Humanos em 2020. Depois, produziu 30 episódios do Vidas Negras para o Spotify.

Uma das inspirações para o Projeto Querino é o Projeto 1619, do New York Times, que, de maneira similar, coloca as consequências da escravidão nos Estados Unidos no centro da narrativa nacional. O Projeto 1619 faz referência ao ano em que o primeiro navio negreiro aportou nos Estados Unidos trazendo africanos escravizados. O fato ocorreu um ano antes da celebrada chegada do navio Mayflower, com colonos europeu, que tem espaço privilegiado na historiografia americana.

“Toda criança americana aprende sobre o Mayflower, mas nenhuma criança americana aprendeu sobre o White Lion [navio que trouxe os primeiros africanos escravizados ao país]”, disse a jornalista Nikole Hannah-Jones, editora responsável pelo Projeto 1619, à NPR. “Negros são amplamente tratados como asteriscos na história americana.”

De forma similar, o Projeto Querino apresenta personagens históricos negros poucos conhecidos através dos bancos escolares. O nome Querino é uma homenagem a um deles, o intelectual Manuel Querino, um homem negro nascido livre em 1851 na Bahia, num Brasil ainda escravocrata -- o país só aboliu a escravidão totalmente em 1888, o foi o último país das Américas a fazê-lo.

Projeto Querino mostra como a história com um olhar afrocentrado explica o Brasil de hoje. Na foto, Rogero entrevista Vania Guerra, descendente de africanos escravizados e líder de uma comunidade quilombola no litoral do Rio de Janeiro. Foto: cortesia Angelica Paula/Projeto Querino

Projeto Querino mostra como a história com um olhar afrocentrado explica o Brasil de hoje. Na foto, Rogero entrevista Vania Guerra, descendente de africanos escravizados e líder de uma comunidade quilombola no litoral do Rio de Janeiro. Foto: cortesia Angelica Paula/Projeto Querino

 

 

Querino se destacou como jornalista, professor, artista e político. Ele publicou em 1918 o livro “O colono preto como fator da civilização brasileira,” pioneiro nas ciências sociais ao colocar os afro-brasileiros em papel de protagonistas na construção da nação. Antes de iniciar a pesquisa para o Projeto Querino, o próprio Rogero não sabia quem era o intelectual brasileiro Manuel Querino.

“Ele é uma exceção da exceção da exceção por ter sido uma criança negra que teve a chance de estudar. Por causa disso, ele virou professor de desenho geométrico, virou artista, pesquisador, jornalista, líder sindical. Ele tem uma produção intelectual incrível que posiciona o afro-brasileiro como um protagonista do processo de construção nacional, e não só como um mero acessório, que é o que a versão oficial da história naquela época já fazia,” disse Rogero.

Manuel Querino é apresentado ao público apenas no episódio quatro do podcast, O Colono Preto, em que Rogero mergulha nas raízes da disparidade educacional no Brasil de hoje, mostrando como o acesso à educação pública foi negado consistentemente mesmo aos negros livres que viviam no Brasil. Ao mesmo tempo, ele conecta o fato com o atraso com que o país implementou políticas afirmativas, apenas no início dos anos 2000, e como elas ainda hoje são motivo de divisão na sociedade.

Além de Querino, o projeto apresenta ao público figuras como Maria Felipe de Oliveira, mulher negra com papel decisivo nas batalhas da guerra de independência na Bahia; e o padre José Maurício Nunes Garcia, músico e compositor que dirigiu a missa que celebrou a elevação do status do Brasil de colônia a Reino Unido a Portugal.

O que mais surpreendeu Rogero no trabalho de pesquisa, no entanto, foi a constatação de que o Brasil poderia ter se livrado da escravidão muito antes de 1888. Em 1831, por pressão da Inglaterra, o Brasil proibiu o tráfico de pessoas escravizadas. A lei, considerada revolucionária para a época, garantia cidadania e liberdade a pessoas em condição de escravidão traziadas ao Brasil a partir daquela data. Só que nunca foi cumprida.

“Houve um grande acordo nacional para desrespeitar essa lei até pelo menos 1850, quando uma nova lei proíbe novamente o tráfico de pessoas. As pessoas que entraram desde 1831, umas 800 mil, deveriam ser libertadas pois seu status era ilegal. Mas um novo grande acordo das elites as manteve escravizadas. Quando a gente chega em 1888, a abolição beneficia na sua maioria os descendentes daqueles que chegaram a partir de 1831, e que, pela legislação, deveriam ter sido libertados muitos anos antes,” disse Rogero. “Se tivesse sido cumprida a lei, o Brasil, por exemplo, não seria tão desigual, como poderia ser uma potencial mundial de fato”.

A historiadora Ynaê Lopes dos Santos, da Universidade Federal Fluminense, atuou como consultora do Projeto Querino. Ela acredita que os números expressivos de audiência alcançados demonstram uma necessidade fundamental de revisitar de maneira crítica a história do Brasil. 

“Uma das grandes vitórias do Projeto Querino é tornar esta perspectiva crítica muito acessível, assim como as histórias que foram sistematicamente silenciadas da população negra, mostrando que a história é um campo em disputa,” disse Lopes dos Santos à LJR. “Nesse sentido, o Projeto Querino me parece uma ferramenta fundamental pra compreender o Brasil atual. Um Brasil que é, sem sombra de dúvida, uma consequência de um conjunto de opções e escolhas políticas que foram feitas por essa elite brasileira.”

Tiago Rogero, criador do Projeto Querino: ‘O Querino não dá conta de tudo, mas é a nossa contribuição, mas que se conheça uma versão mais completa e complexa da história”. Crédito: cortesia Tiago Rogero/Projeto Querino.

Tiago Rogero, criador do Projeto Querino: ‘O Querino não dá conta de tudo, mas é a nossa contribuição, mas que se conheça uma versão mais completa e complexa da história”. Crédito: cortesia Tiago Rogero/Projeto Querino.

Multiplataforma

Ao contrário do Projeto 1619, pensado originalmente para o formato revista e depois transformado em podcast, o Projeto Querino teve sua gênese em podcast e só depois gerou conteúdo em texto e imagem, com reportagens e fotografias publicadas na revista piauí, notabilizada pelo jornalismo de profundidade. Na revista, a escolha do formato podcast como prioritário para ampliar o acesso ao conteúdo.

“Podcast é gratuito. A pessoa com qualquer celular consegue ouvir, ouve o Querino. Além disso, a mídia falada conversa diretamente com a nossa ancestralidade e a oralidade dos povos afrodescendentes, o que é muito bonito,” disse Rogero. “Quando a gente faz o podcast, pode ser o assunto jornalístico mais duro possível, mas a gente tem de fazer ser como uma contação de história”.

O Projeto Querino teve financiamento do Instituto Ibirapitanga, através de uma doação de R$ 626.808,51 (equivalente a USD 125.361,70). O valor cobriu o trabalho de mais de dois anos da equipe de 40 pessoas durante a pesquisa e produção do podcast, e também a divulgação.

Assim como o 1619, o Projeto Querino também vai virar livro e há conversas com produtoras de vídeo para uma adaptação no formato audiovisual. Rogero também está trabalhando para adaptar o conteúdo para fins educacionais, pois tem recebido relatos de professores de história que já estão usando o podcast em suas salas de aula.

“O Querino vai continuar nos próximos anos e o nosso foco grande é como fazer esse conteúdo chegar às escolas, sobretudo às escolas públicas. Muitos professores já estão usando o podcast em sala de aula, apesar de a linguagem não ser a ideal. É uma preocupação grande minha em como fazer este conteúdo chegar aos jovens em idade escolar,” disse Rogero. “O Querino não dá conta de tudo, mas é a nossa contribuição, mas que se conheça uma versão mais completa e complexa da história”.

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