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Redes sociais, crowdsourcing e jornalismo cidadão ajudaram os meios na cobertura das eleições venezuelanas

Por Silvia Higuera e Teresa Mioli

A cobertura das eleições parlamentares do país no dia 6 de dezembro teve como protagonistas as novas plataformas digitais e as redes sociais que se tornaram os principais veículos pelos quais meios de comunicação, organizações não governamentais e cidadãos receberam e transmitiram informação.

Nos últimos meses, organizações ativistas pela transparência lançaram projetos que buscavam educar o público e oferecer plataformas para receber e verificar denúncias de irregularidades durante todo o processo eleitoral: campanha e dia de eleições.

O projeto colaborativo Monitor Legislativo apresentou um mapa interativo onde os usuários podiam aprender sobre os candidatos destas eleições e denunciar irregularidades.

A organização de defesa da liberdade de expressão Espaço Público pediu aos usuários de redes sociais, principalmente no Twitter, para utilizar a hashtag #YoVotoyDenuncio para reportar irregularidades. Entre os dias 2 e 7 de dezembro, cerca de 700 mensagens usararam esta hashtag, segundo Keyhole.co.

Guachimán Electoral, uma plataforma online lançada em 13 de novembro, recebeu milhares de denúncias de irregularidades de cidadãos e de uma rede de monitores eleitorais. Alberto Fernández, que ajudou a executar o centro de operações do projeto, estima que mais de 85% da informação recebida vieram dos cidadãos.

Houve mais de 11.000 visitas ao mapa da plataforma que apontava onde estavam ocorrendo as irregularidades, e mais de 17.000 visitas ao site principal, disse Fernández ao Centro Knight. A equipe recebeu 5.337 mensagens por sua plataforma, 1.179 e-mails, uns mil SMS e 3.704 tweets com a hashtag #guachiman6D.

Destas denúncias, 854 incidentes foram aprovados e localizados no mapa da plataforma. Uma grande maioria destas, 569, ocorreu em Caracas ou em seus arredores. Em geral, Fernández disse que o maior número de queixas foi  coletado no norte do país, o que ele atribui a uma maior concentração da população, à cobertura de internet e da rede móvel.

Mas não só estes projetos se puseram à prova na cobertura destas eleições. Como consequência da pressão do governo sobre meios tradicionais, que resultou na demissão ou na saída voluntária de muitos jornalistas críticos em anos anteriores, o país viu um crescimento de iniciativas informativas digitais lideradas por estes jornalistas.

Para a maioria destes portais, as passadas eleições foram as primeiras nas quais foram postos à prova como novos meios, em tempo real e como seus próprios chefes, segundo ressaltou Luis Carlos Díaz, jornalista venezuelano e especialista em novos meios, em conversa com o Centro Knight.

“Foi uma prova bastante bonita, houve mais organização, e embora o massivo destes meios esteja mais reduzido, foi um exercício de liberação dos jornalistas”, afirmou Díaz.

Com efeito, vários destes meios utilizaram diferentes estratégias para garantir uma cobertura eleitoral. Uma delas foi a das alianças entre vários meios que permitiu compartilhar informação, fontes, verificação de dados e outros recursos.

“Em termos gerais, fomos muito bem. Compartilhamos recursos materiais e humanos e isso nos permitiu ter mais alcance sobre onde estavam ocorrendo os fatos”, disse Luz Mely Reyes, diretora geral de Efecto Cocuyo – um dos meios emergentes e parte de uma aliança de meios –, ao Centro Knight. “Foi uma estratégia de soma de recursos benéfica e que deixou muito aprendizado”.

De acordo com Reyes, uma das lições deixadas nesta jornada foi a necessidade destas alianças para melhorar o trabalho jornalístico. Umas alianças que devem estar baseadas em acordos que permitam visibilizar diferentes olhares e que respeitem “a personalidade” de cada meio, incluindo a particularidade de sua linguagem.

Contudo, um dos pontos que ficou mais claro do processo de cobertura foi a importância das redes sociais, como afirmam Reyes e Díaz. Foi por elas que a maioria dos cidadãos buscou informação que não encontrava nos meios tradicionais.

“Na maioria das democracias, as redes sociais são um espaço de debate com base na informação dada pelos meios, eles levam a liderança da informação. Mas na Venezuela as pessoas as usam para saber das coisas que acontecem”, assegurou Díaz.

Porém, Díaz não ignora que a internet pode ser excludente considerando que nem todas as pessoas utilizam as redes sociais. Por isso, ressalta como um ponto importante o papel do usuário de redes sociais em fazer a conexão entre a informação recebida e seu entorno que não faz uso das redes.

Ainda assim, as redes sociais permitiram tecer a nova relação dos meios com o chamado jornalismo cidadão, e em geral, com suas audiências. Meios como Efecto Cocuyo criaram um sistema de alertas de possíveis irregularidades no processo eleitoral por Whatsapp.

Esta informação, além de verificada, servia para fazer matérias originais do veículo.

Um exemplo foi a denúncia sobre o aumento de votos nulos pelo nervosismo do eleitor e erros do sistema. Efecto Cocuyo, com base nesta denúncia, criou um “Guia rápida para o eleitor” com o objetivo de que outros eleitores não perdessem seus votos.

“Foram como milhares de olhos, milhares de câmeras, de telefones muito atentos a tudo que tinha que estar acontecendo em distintas zonas do país”, contou Reyes.

Um mecanismo que, segundo Díaz, só funciona para aqueles jornalistas que entraram no mundo digital e que entendem que podem receber ajuda das pessoas ou fazer da comunidade sua “melhor cúmplice”.

Inclusive alguns meios de comunicação tradicionais se alinharam com as iniciativas das redes sociais e do jornalismo cidadão para fortalecer o compromisso de suas audiências e aumentar seu terreno de cobertura das eleições.

O jornal líder El Nacional utilizou Twitter, Periscope, Snapchat, Instagram, Facebook, Whatsapp e a hashtag #TúDecides para cobrir as eleições e receber denúncias de irregularidades, de acordo com o portal Clases de Periodismo. Também utilizou uma rede de jornalistas cidadãos pelo programa ReporteYa que trabalha para confirmar e distribuir informação precisa. Clases de Periodismo disse que publicações de outros países também utilizam esta rede.

“Mas Twitter não fez tudo. Foram as pessoas que puderam resgatar informação e passá-la adiante”, disse Díaz. “A gente entendeu que pode enfrentar a hegemonia e que pode contornar a censura”.

Nota do editor: Essa história foi publicada originalmente no blog Jornalismo nas Américas do Centro Knight, o predecessor do LatAm Journalism Review.

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