La Nación, jornal que revelou denúncias de assédio sexual contra o ex-presidente Rodrigo Chaves, vinha sofrendo escrutínio constante de sua administração.
Ele prometeu isso durante a campanha e fez todo o possível para tornar realidade.
Quando era candidato, em 2022, o agora ex-presidente da Costa Rica, Rodrigo Chaves, garantiu que provocaria a “destruição das estruturas corruptas” de vários meios independentes, entre eles La Nación, o jornal mais antigo e de maior circulação do país.
Com a posse de Chaves, começou uma série de ataques verbais e atos de intimidação não apenas contra La Nación, mas também contra vários jornalistas e proprietários de veículos de comunicação, ações que chegaram a ser qualificadas em tribunais como violações à liberdade de imprensa.
O golpe mais recente contra La Nación, em 8 de maio, poucos dias antes de Chaves deixar a Presidência, foi a revogação dos vistos dos Estados Unidos de cinco dos sete membros do conselho diretor do jornal. Embora não haja provas, jornalistas e organizações enxergam na medida indícios que podem apontar algum tipo de participação do governo Chaves.
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— La Nación (@nacion) May 3, 2026
A Presidência da Costa Rica não respondeu ao pedido de informação da LatAm Journalism Review (LJR) sobre a revogação dos vistos e a situação da liberdade de imprensa no país.
O Departamento de Estado dos EUA recusou-se a comentar o caso, mas um porta-voz disse à LJR que o órgão tem ampla discricionariedade para cancelar vistos quando considerar que isso atende a interesses norte-americanos.
“Durante a presidência Trump, o Departamento de Estado utilizou plenamente sua capacidade de revogar vistos para apoiar a segurança nacional e pública, fazer cumprir a lei de imigração dos EUA e promover interesses-chave de política externa”, respondeu por e-mail.
Repórteres Sem Fronteiras (RSF) registrou uma queda significativa da Costa Rica em seu Índice Mundial de Liberdade de Imprensa desde que Chaves assumiu o poder: o país passou do 8.º lugar em 2022 para o 38.º em 2026.
No relatório deste ano, a RSF atribuiu essa queda em parte ao tom confrontador do governo contra a imprensa crítica e a restrições de acesso à informação.
A Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) documentou em abril o aumento, no país, de medidas de assédio judicial contra jornalistas e veículos por temas alheios à profissão, mas que afetam seu exercício, como lavagem de dinheiro e desvio de verbas.
“Está se cumprindo a regra dos governos de corte autoritário de estrangular os meios de comunicação minimamente críticos à atuação do governo”, disse à LJR Martha Ramos, presidente da Comissão de Liberdade de Imprensa e Informação da SIP. “Todas essas medidas preocupam. Evidentemente há um retrocesso.”
No domingo 3 de maio, Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, La Nación publicou na manchete uma carta de seu conselho diretor condenando a revogação dos vistos. Os signatários classificaram a medida como inédita na Costa Rica, mas asseguraram que ela não afetaria o trabalho jornalístico do meio, que em outubro completará 80 anos.
No dia seguinte, em editorial, La Nación descreveu o fato como “um grave ataque à liberdade de expressão” e disse ter “razões sólidas” para supor que se tratava de uma retaliação vinda de El Zapote, sede da Casa Presidencial costarriquenha, em resposta ao seu trabalho crítico.
Jornalistas e defensores da liberdade de imprensa compartilham essa hipótese. Fabrice Le Lous, atual diretor do diário, apontou como indício o fato de terem sido meios alinhados ao governo, como Trivisión e Repretel, os que divulgaram a informação em 2 de maio, com nomes completos e datas de expiração dos documentos, antes que os afetados fossem notificados oficialmente.
El presidente de Costa Rica, Rodrigo Chaves Robles, y la presidenta electa Laura Fernández Delgado participan en la cumbre Escudo de las Américas, convocada en Miami por el mandatario estadounidense Donald Trump. pic.twitter.com/BhUfrSUArm
— inforame.com (@infor_ame) March 7, 2026
“Isso é informação consular, é informação privada e pessoal”, disse Le Lous à LJR. “É ligar os pontos. Torna-se óbvio […] porque só foram revogados vistos de pessoas previamente apontadas como inimigos do poder.”
Desde fevereiro de 2025, os EUA revogaram os vistos de mais de 15 funcionários e cidadãos costarriquenhos de alto perfil. A onda de cancelamentos começou pouco depois da visita a Costa Rica de Marco Rubio, secretário de Estado norte-americano, que declarou publicamente que seu país ajudaria a Costa Rica a punir indivíduos que se tornaram cúmplices “de atores mal-intencionados”. Isso ocorreu no contexto de um decreto de Chaves que excluía empresas chinesas de licitações para redes 5G.
Dias depois, foram revogados os vistos de duas deputadas críticas ao decreto. Seguiram-se cancelamentos para figuras críticas do governo, como o ex-presidente e Nobel da Paz Óscar Arias, seu irmão e presidente da Assembleia Legislativa, Rodrigo Arias, e dois magistrados da Corte Suprema.
Em países como México e Brasil, o governo Trump revogou vistos de autoridades apontadas por supostos vínculos criminais. No entanto, não há indícios de que os diretores de La Nación enfrentem qualquer acusação, disse Yanancy Noguera, presidente do Colégio de Jornalistas da Costa Rica (Colper).
“Há sinais de que isso não é algo que possamos atribuir exclusivamente ao governo dos Estados Unidos”, afirmou Noguera à LJR.
A animosidade de Chaves contra La Nación vem de antes da sua presidência. Em agosto de 2021, o jornal publicou uma reportagem sobre investigação do Banco Mundial que apontava que Chaves havia demonstrado um padrão de assédio sexual quando trabalhou na instituição. O ex-presidente nega os fatos.
“Desde então, a verdade é que ele fez de La Nación um inimigo quase pessoal”, disse Le Lous.
Dois meses após Chaves assumir, o Parque Viva, espaço de eventos pertencente ao grupo dono de La Nación, foi fechado pelo governo alegando razões de segurança e acesso viário.
Após recurso de amparo impetrado pelo jornal, a Sala Constitucional revogou a medida e determinou que ela constituiu “violação indireta” à liberdade de expressão, visto que o recinto financia a atividade jornalística de La Nación.
“Isso marcou um ponto importante porque demonstrou que o governo estava disposto a ter uma atitude de confronto em relação ao que continua sendo, embora cada vez menos, o principal meio de comunicação da Costa Rica”, disse à LJR Eduardo Ulibarri, colunista e ex-diretor de La Nación. “E que estava disposto a usar o poder administrativo do Estado para fazê-lo.”
Seguiram-se anos de confronto público que incluíram questionamentos sobre as finanças do jornal e desqualificações em coletivas de imprensa pelo então presidente e outros funcionários.
Chaves entregou a Presidência em 8 de maio a Laura Fernández, de seu mesmo partido. A nova presidente nomeou Chaves ministro da Presidência e da Fazenda, o que, segundo especialistas, sugere continuidade das políticas da gestão anterior, inclusive da relação com a imprensa.
Embora não existam provas de ingerência do governo Chaves na revogação dos vistos dos diretores de La Nación, tampouco há registro público de que o ex-presidente tenha pedido explicações ao governo norte-americano. Para Ulibarri, esse silêncio é mais um indício de possível responsabilidade.
Rodrigo Chaves, actual presidente de la República, será ministro de Presidencia y Hacienda durante el mandato de Laura Fernández.
Foto: Jose Cordero pic.twitter.com/sVH6evaYXb
— La Nación (@nacion) May 5, 2026
“Surge aí uma grande presunção — eu diria, bem fundamentada — de que pode haver um acordo por trás”, disse Ulibarri.
O jornalista acredita que isso pode gerar temor entre proprietários e diretores de outros meios que ainda mantêm uma linha independente.
“Só isso já”, concluiu Ulibarri, “reduz o espaço de liberdade para se expressar publicamente sobre assuntos de interesse público”.