Meios e criadores de conteúdo recorrem ao “algospeak”, a alteração de palavras ou o uso de eufemismos para manter visibilidade e evitar restrições nas redes sociais.
Quando o portal de notícias En Blanco y Negro, da cidade de Chihuahua, no norte do México, decidiu aumentar sua audiência nas redes sociais, deparou-se com o fato de que as principais plataformas digitais frequentemente restringiam a visibilidade de temas como crime e insegurança.
A equipe do veículo, liderada por seu então diretor de notícias Roberto Álvarez, notou que as postagens que incluíam palavras como “executado”, “drogas” ou “narco” recebiam menos tráfego, ou até eram penalizadas por supostas violações das normas de conteúdo.
Foi então que começaram a adotar uma estratégia que influenciadores e criadores de conteúdo utilizam para driblar os algoritmos das redes sociais: inventar ou alterar palavras.

Quando o meio digital En Blanco y Negro utiliza palavras alteradas em suas manchetes, o tráfego aumenta. (Foto: En Blanco y Negro no Facebook)
“‘Executar’ é a palavra que mais usamos no México para dizer que alguém foi assassinado a tiros”, disse Álvarez ao LatAm Journalism Review (LJR). “O que podíamos fazer para não correr riscos? Começamos a usar a palavra ‘desviver’, que não existe, não está no dicionário”.
A equipe também passou a mudar a ortografia das palavras por um equivalente formado por letras, números e símbolos. Assim, “executar” virou “3jecut4r”, “drogas” em “dr0g4s”, e “narco” em “n@rcø”.
“Quando começamos a ver o tráfego em tempo real e percebemos que está muito baixo, mudamos imediatamente as palavras ou as inventamos conforme uma gíria mais daqui de Chihuahua e rapidamente a própria publicação começa a aumentar seu tráfego”, disse Álvarez.
O caso de En Blanco y Negro ilustra uma prática nas redes sociais cada vez mais difundida entre os meios de comunicação: alterar a linguagem para evitar a moderação algorítmica. Conhecida como “algospeak”, essa estratégia busca manter a visibilidade dos conteúdos e evitar sanções, embora também possa gerar rejeição dos leitores e afetar a clareza das mensagens.
O “algospeak”, dos termos “algoritmo” e “speak” (falar em inglês), consiste em modificar, substituir ou disfarçar palavras consideradas sensíveis por meio de eufemismos, alterações ortográficas ou símbolos.
Seu uso nas notícias não é isolado. Uma pesquisa da Universidade Autônoma de Chihuahua (UACH), publicada em setembro de 2025 na revista acadêmica Doxa, documentou como pelo menos três veículos digitais dessa cidade estão adaptando sua linguagem no Facebook para evitar a moderação algorítmica.
A partir do estudo de 312 manchetes, a pesquisa, intitulada “Quando o morto é ‘desvivido’: o ‘algospeak’ jornalístico como resposta à censura digital”, constatou que jornalistas recorrem sistematicamente à alteração ortográfica, aos eufemismos e, em menor medida, a símbolos ou metáforas, para publicar conteúdos informativos principalmente sobre violência, mortes e segurança, sem serem penalizados pelas plataformas.
“Esta é uma apresentação inovadora de uma problemática que o jornalista sempre teve, que é evitar a censura”, disse ao LJR Mario Alberto Valdez, jornalista, professor da UACH e um dos autores da pesquisa. “Agora vemos isso sob uma perspectiva tecnológica”.
A pesquisa constatou que mais de 90% das publicações recorreram à alteração ortográfica de palavras sensíveis, seguida pelo uso de eufemismos lexicais, ou seja, palavras ou expressões para substituir outras consideradas ofensivas. A maioria das manchetes com palavras alteradas concentrou-se em publicações sobre mortes, segurança e narcotráfico, e em menor medida em conteúdos sobre drogas, sexualidade e abusos de direitos humanos.
O fato de que os temas policiais sejam os mais penalizados pelas redes sociais representa um desafio para os meios de comunicação de estados como Chihuahua, onde esse tipo de notícia está entre os mais consumidos pelo público, disse Valdez.
Mas os temas de violência não são os únicos restringidos pelos algoritmos. Perfis que abordam questões de gênero também precisam recorrer ao “algospeak” para que seu conteúdo alcance seu público, segundo outra pesquisa, publicada em março de 2026 pelo veículo mexicano La Cadera de Eva e pela organização Artículo 19.
Sofía Márquez, criadora de conteúdo e fundadora da plataforma sobre feminismo e violência de gênero We R Women On Fire, com sede em Tijuana, disse que em muitas de suas publicações no Instagram precisa alterar os termos.
“Há penalizações que vão desde a remoção completa do conteúdo, retirada do uso de certas ferramentas — em uma ocasião me bloquearam a opção de fazer lives por seis meses — até o risco de apagarem sua conta completamente”, disse Márquez ao LJR.
Em suas publicações, que acompanham casos de violência contra mulheres e movimentos feministas, é possível ver termos como “v1olador”, “s3xual” e “f3minicid4”, tanto em texto quanto em imagens.
“É impressionante como o conteúdo informativo, reflexivo e consciente sempre é censurado, enquanto outros conteúdos que reproduzem violências são difundidos com mais força dentro do algoritmo patriarcal que vemos nas redes sociais”, disse Márquez.
Entre 2023 e 2025, quando a crise migratória no México teve vários picos, as plataformas da Meta costumavam penalizar o conteúdo do En Blanco y Negro relacionado à migração, disse Álvarez.

A plataforma sobre temas feministas e de gênero We R Women On Fire altera certos termos em seu conteúdo para evitar penalizações nas redes sociais. (Foto: We R Women On Fire no Instagram e Canva)
“Se você colocasse a palavra ‘imigrante’ ou ‘indocumentados’ no Facebook, eles poderiam até aplicar um ‘banimento’ de um dia na conta”, disse Álvarez. “A notificação dizia ‘possivelmente você esteja incorrendo em uma violação de nossas políticas de violência ou discriminação’. E nós pensávamos ‘claro que não, estou informando!’
Foi então que a redação encontrou uma alternativa nos eufemismos. Para evitar dizer “imigrantes”, optaram por usar “pessoas em situação de mobilidade”.
Às vezes os eufemismos escolhidos beiravam o sensacionalismo, reconheceu Álvarez. Em uma ocasião, o veículo reportou sobre abusos sexuais contra menores em uma região marginalizada de Chihuahua.
Foi então que decidiram usar o eufemismo: “Predador ‘levou ao prato’ 500 crianças em Punta Oriente”. Embora alguns leitores tenham demonstrado incômodo, disse Álvarez, o veículo optou por isso para que a notícia não fosse invisibilizada.
“Curiosamente, sendo mais sensacionalistas o Facebook nos trouxe tráfego”, disse Álvarez. “Tem que ser assim porque não vamos fazer o favor a nenhuma autoridade de não informar”.
Visibilidade vs. clareza
A Meta indica em seu site que seus sistemas reduzem a exposição de conteúdos que violam suas normas da comunidade, “a fim de minimizar danos potenciais”. Isso inclui conteúdo relacionado a violência gráfica, linguagem que incita o ódio, suicídio, automutilação e fraudes.
A empresa afirma que permite esse conteúdo sensível se for “de interesse jornalístico”, mas antes o submete a uma análise baseada nos direitos humanos.
No entanto, se um veículo ou jornalista discorda de uma decisão da plataforma, não há muito o que fazer, disse Álvarez.
“Para resolverem um problema, você pode enviar um recurso, mas tudo é muito automatizado”, disse. “É quase impossível entrar em contato com alguém”.
Embora o “algospeak” ajude a difundir informações de interesse público, também é verdade que a clareza jornalística pode ser comprometida, de acordo com a pesquisa da UACH.
“Os jovens entendem imediatamente o porquê dessas estratégias porque vivem isso no dia a dia”, disse Valdez. “Mas encontramos perfis de pessoas mais velhas que não entendiam essa forma de lidar com a informação”.
Márquez disse que às vezes os seguidores do We R Women On Fire percebem a alteração de palavras como falta de seriedade ou como uma forma de suavizar o conteúdo.
“Gosto sempre de compartilhar os fatos como são, sem esconder nem maquiar nada, e ao censurar palavras ou imagens, há pessoas do público que questionam por que faço isso”, disse. “Assumem que é por não querer mostrar toda a realidade”.
Quando leitores do En Blanco y Negro expressaram seu descontentamento com a alteração de palavras e o uso de eufemismos, o veículo explicou a razão em um artigo escrito por Álvarez em agosto de 2025 para esclarecer que o “algospeak” era uma estratégia necessária.
A matéria inclui um glossário de 30 termos que o veículo modifica rotineiramente em áreas como crime organizado, mortes e delitos sexuais.
“Em poucas palavras”, conclui, “não é ignorância, é sobrevivência digital”.

En Blanco y Negro compartilhou uma imagem na qual explicava as razões para utilizar o “algospeak”. (Foto: Captura de tela de enblancoynegro.com.mx e Canva)