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Sentença no caso Miroslava Breach é um ‘passinho adiante neste país de impunidade’, disse colega da mexicana

A jornalista mexicana Miroslava Breach foi assassinada por causa de suas investigações jornalísticas, conforme decidido pelo juiz federal Nelson Pedraza, que publicou em 21 de agosto, uma sentença de 50 anos de prisão para um dos co-autores materiais do assassinato, Juan Carlos Moreno Ochoa.

Miroslava Breach. (Foto: Facebook)

Miroslava Breach. (Foto: Facebook)

Esta decisão judicial é emblemática, afirmam a organização internacional Repórteres Sem Fronteiras e a organização mexicana Propuesta Cívica, que lidera a representação jurídica da família Breach, por se tratar do primeiro julgamento do assassinato de uma jornalista tramitado em instâncias federais que obtive uma sentença no México.  

“A sentença contra Juan Carlos Moreno Ochoa, conhecido como 'El Larry', e que é conhecido na região como o chefe dos pistoleiros do grupo Salazar, representou um passo firme neste país onde há 99,97% de impunidade em homicídios contra jornalistas”, disse a jornalista mexicana, amiga e colega Patricia Mayorga de Breach ao LatAm Journalism Review. "Mas estamos falando de apenas uma pessoa na estrutura criminosa que estava evidentemente por trás do assassinato de Miroslava, e que a estrutura ainda está intacta, e ainda há um longo caminho a percorrer", acrescentou.

Após quase três anos do início do julgamento pelo homicídio de Breach, Moreno Ochoa foi considerado culpado em 18 de março e condenado em agosto de 2020. Há outro mandado de prisão neste processo judicial, contra Jaciel Vega Villa, identificado como outro perpetrador e que ele é um fugitivo da justiça. 

Breach foi morta em sua cidade natal, Chihuahua, após receber 8 ferimentos fatais por arma de fogo na manhã de 23 de março de 2017. Ela estava esperando dentro de sua caminhonete o seu filho mais novo para o levar para a escola.

Dada a impotência das autoridades e a falta de consciência coletiva da sociedade mexicana sobre a importância do jornalismo investigativo no país, Mayorga destacou que o apoio e a solidariedade do sindicato dos jornalistas mexicanos e de organizações internacionais têm sido muito importantes no os primeiros avanços e resoluções do julgamento pelo assassinato de Breach.

“Acho que esse acompanhamento externo nos ajuda a parar um pouco para ter uma estratégia e seguir em frente com mais clareza ... Isso não é mais se sentir só na reportagem, no seu trabalho aqui do seu canto da província, que é o que vivemos porque não só Miroslava ou eu, mas milhares de jornalistas no país, e isso dá muita força", disse Mayorga.

O Projeto Miroslava e o Coletivo 23 de Março 

Como resultado do assassinato de Breach, e as irregularidades e atrasos na investigação judicial de sua morte, surgiu o Projeto Miroslava, uma iniciativa mexicana de jornalistas investigativos anônimos que formaram o Coletivo 23 de Março, e que conta com o apoio de organizações internacionais como Forbidden Stories, Bellingcat e o Centro Latino-Americano de Investigação Jornalística (CLiP).

Colectivo 23 de Marzo de México. (Captura de pantalla)

Colectivo 23 de Marzo, Mexico. (Reprodução)

"As pistas para o assassinato de Miroslava Breach que não foram investigadas", "Cinco mortes suspeitas ligadas ao assassinato de Miroslava Breach", "O jornalista que não queria ser cúmplice do silêncio" são as três reportagens investigativas publicadas até o momento pelo Projeto Miroslava, sobre as pontas soltas e deficiências da investigação do caso pelo Procurador-Geral do Estado de Chihuahua e pelo Procurador-Geral da República.

Essas reportagens, publicadas simultaneamente em 4 de setembro de 2019 por mais de 20 veículos de comunicação no México, exerceram grande pressão sobre as autoridades, disse à LJR a jornalista colombiana María Teresa Ronderos, co-fundadora e diretora do CliP. “Além disso, serviu aos organismos internacionais que realizaram uma missão pela liberdade de expressão, semanas após nossa publicação, como um insumo para exigir do governo mexicano maiores resultados na investigação de crimes contra jornalistas”, disse Ronderos.

Originalmente, o Ministério Público designou Moreno Ochoa como o autor intelectual, mas, disse Ronderos, a investigação coletiva mostrou que essa tese tinha muitas pontas soltas. “No julgamento, o Ministério Público já o classificou como coautor do material. E o julgamento confirmou o que a investigação [do Projeto Miroslava] havia dito, que havia políticos envolvidos", disse ele.

A jornalista mexicana Marcela Turati, colega de Breach e também nascida em Chihuahua, disse à LJR que até que vejam aqueles que participaram e planejaram a morte de Breach processados ​​e condenados na prisão, os jornalistas mexicanos não se sentirão calmos ou orgulhosos desta setença.

Turati, fundadora da rede Periodistas de Pie e do portal de formação e investigação jornalística Quinto Elemento Lab, destacou que, no caso de Miroslava, os sinais sobre as ameaças que recebeu que deixou nas suas colunas e o que disse aos seus colegas, amigos e parentes são muito poderosos.

“Há evidências suficientes de que o que o incomodou foram suas investigações sobre a macropolítica na Serra Tarahumara, local onde o crime organizado governa há vários anos. Ela notificou o Mecanismo [de Proteção], funcionários, disseram a seus familiares, ela disse o suficiente que eles a estavam ameaçando", disse ele.

Segundo Ronderos, o que falta no julgamento em andamento são as condenações aos autores intelectuais. Também é necessário esclarecer, disse ele, os movimentos suspeitos de possíveis encobrimentos e obstruções à investigação judicial constatada pelas investigações do Projeto Miroslava.

“O Projeto Miroslava continua a amarrar as pontas soltas das revelações do julgamento e suas próprias descobertas. A aliança transnacional de jornalistas mexicanos e estrangeiros também continua”, enfatizou Ronderos.

A última reportagem na Sierra Tarahumara, no norte do México 

Mayorga, correspondente da revista Proceso, trabalhou em estreita colaboração com Breach em reportagens sobre política e tráfico de drogas na Sierra Tarahumara, em Chihuahua. Ela disse que, a princípio, ambos não perceberam os sinais e advertências sutis que chegavam até eles, de pessoas da região, sobre o perigo que corriam ao investigar essas questões. Ela teve que deixar Chihuahua após o assassinato de Breach e publicar suas reportagens anonimamente.

“As primeiras ameaças foram detonadas após a denúncia de associação de candidatos e pré-candidatos do PRI com o narcotráfico. As ameaças eram de intimidação à família Miros, em Chínipas, e ao mesmo tempo havia todo um ambiente de porta-vozes, políticos, empresários [que diziam] para de investigar isso, se colocavam em risco. Tudo isso à distância você vê como um sistema que te intimida ou, bem, te avisa, porque são eles que têm o poder, são eles do sistema que tanto afetou o México”, disse Mayorga.

Mayorga acredita que o sistema de corrupção política e suas ligações com o crime organizado na região ainda está em vigor, não foi desmantelado por nenhum tipo de justiça. “Não me sinto confiante ou seguro em fazer o mesmo jornalismo de antes, e tenho obtido mais algumas notas sociais, registros, etc., mas não mais investigado tão profundamente”, lamentou.

O gosto amargo da justiça pela metade e Javier Valdez 

Fazer jornalismo no México tem um risco implícito, disse o jornalista mexicano Alejandro Sicairos à LJR. No entanto, seria encorajador poder fazer jornalismo investigativo se os ataques à liberdade de expressão fossem devidamente esclarecidos pelo governo.

Sicairos, co-fundador do semanário de jornalismo investigativo Ríodoce e amigo próximo de Javier Valdez, o renomado jornalista que foi assassinado pelo crime organizado dois meses depois da Breach, disse que, no caso de Miroslava, sente que a justiça continua a ser cumprida de forma incompleta. .

Javier Valdez. (Foto: Facebook)

Javier Valdez. (Fhoto: Facebook)

“E nesse desespero ou nessa atitude de engavetar esse tipo de matéria, o que acontece é que prendem um dos implicados ou um dos suspeitos, e carregam todo o peso da culpa e não são sobre os personagens que mais tiveram a ver com esse tipo de homicídio. Resta aquele gosto amargo na boca das instituições que não dedicam todo o seu entusiasmo aos crimes que têm a ver com a liberdade de expressão no México”, afirmou.

No julgamento do assassinato de Valdez, morto nas mãos do crime organizado em 15 de maio de 2017, em Culiacán, Sinaloa, há uma sentença proferida por um juiz federal no final de fevereiro de 2020 contra um dos principais autores do homicídio. No entanto, o outro acusado durante o processo continua sem sentença devido a adiamentos do processo, segundo o jornal Noroeste.

Sicairos não vê vontade política do atual governo, nem das autoridades federais e estaduais, para acabar com a impunidade dos crimes contra jornalistas e contra a liberdade de expressão.

De acordo com o Índice de Impunidade Global de 2019 do Comitê para a Proteção de Jornalistas (CPJ), o México ficou em sétimo lugar no ranking dos 13 países com maior impunidade para crimes contra jornalistas no mundo. De 2000 a maio de 2020, 159 jornalistas e profissionais da mídia foram mortos, segundo a Comissão Nacional de Direitos Humanos do México (CNDH). 

“No México, não há quem pare o gatilho, quem pare a mão de criminosos de todos os tipos. Existe aquela sensação [de gosto amargo]”, disse Sicairos. “E o caso de Javier Valdez é um sinal, principalmente aqui em Sinaloa, de que não temos as garantias constitucionais necessárias para praticar o jornalismo. Ainda não”, concluiu.

Esta história foi escrita originalmente em espanhol e traduzida por Júlio Lubianco.

 

 

 

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