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'Bom jornalismo é um bom negócio': 5 perguntas para a jornalista venezuelana Tamoa Calzadilla

Para Tamoa Calzadilla, o jornalismo sempre vem em primeiro lugar. Seja lutando contra a censura e a favor da liberdade de imprensa na Venezuela, seu país natal, ou como uma das principais promotoras do fact-checking em espanhol nos EUA.

Calzadilla participou da Unidade de Investigação da Cadena Capriles, um dos grupos de imprensa mais importantes da Venezuela, por mais de 15 anos. Lá trabalhou como repórter, coordenadora e diretora até 2014, quando anunciou sua saída devido à venda da empresa e à mudança de sua linha editorial.

"O jornalismo em primeiro lugar" foi a frase que Calzadilla escreveu no Twitter após sua renúncia, demonstrando sua convicção de que o jornalismo só pode ser feito com transparência.

Após sua saída da Cadena Capriles, participou da onda de criação de novos espaços digitais independentes na Venezuela até emigrar para os EUA e ingressar na Unidade de Investigação da Univision. Ali trabalhou em verificação de dados, liderando a primeira unidade de fact-checking criada em espanhol nos EUA, elDetector.

Atualmente lidera a Factchequeado, também dedicada ao combate à desinformação. Por esse trabalho foi nomeada pela revista Forbes como uma das 100 pessoas mais criativas do mundo dos negócios em 2022 por demonstrar "inventividade, adaptação e expertise para enfrentar os desafios de um ambiente cada vez mais competitivo e incerto”.

LatAm Journalism Review (LJR) conversou com Calzadilla sobre este reconhecimento e sua carreira jornalística, assim como sobre o futuro do fact-checking e da luta contra a desinformação.

LJR: Você foi recentemente reconhecida pela Forbes como uma das 100 pessoas mais criativas do mundo dos negócios. No entanto, ainda existe essa ideia romântica de que bom jornalismo e negócios não são compatíveis. O bom jornalismo é um negócio?

Tamoa Calzadilla: A revista Forbes Espanha escreveu que me colocaram entre as 100 pessoas mais criativas do ano no mundo dos negócios porque me consideram uma das principais impulsionadoras do fact-checking em espanhol nos EUA. Antes de liderar Factchequeado, dirigi a primeira unidade de fact-checking criada em espanhol no país, elDetector, da Univision News. Mas a Forbes acrescenta: "Nomeada editora-chefe do Factchequeado (resultado da parceria entre Maldita.es e Chequeado, líderes mundiais na verificação de dados em espanhol). A iniciativa busca usar as lições aprendidas de ambos para criar uma comunidade latina de cidadãos e jornalistas para combater a desinformação em espanhol".

Assim, usando as suas palavras, é um reconhecimento à "ideia romântica" que temos do jornalismo, de que atende diretamente a uma comunidade, que sua essência é ser útil. Eles estão reconhecendo que criamos um meio independente, uma unidade de fact-checking própria, que não faz parte do modelo de negócio dos grandes meios tradicionais.

As cofundadoras de Factchequeado, líderes de Chequeado.com (Argentina) e Maldita.es (Espanha) são jornalistas que saíram de seus meios de comunicação tradicionais para trabalhar nessas organizações e têm tido sucesso. Espero que aconteça a mesma coisa com Factchequeado. Quando você abre e cria uma organização como esta, é claro que você tem que pensar em financiamento, em como fazer, executar e prestar contas de um orçamento, negociar com doadores e cumprir prazos. Você entende a importância de diversificar as fontes de renda, de contratar a equipe que vai fazer as coisas acontecerem e de ter ideias, criatividade e vontade de fazer coisas com os recursos que conseguir.

O bom jornalismo é um bom negócio do ponto de vista da ética e do compromisso com os princípios. Embora alguns modelos de negócio mostrem que estão em declínio (os modelos, não o jornalismo), isso nos adverte que devemos procurar outros, que atendam às pessoas, que nos mantenham à tona e que garantam que o bom jornalismo chegue sempre ao lugar onde as pessoas o necessitam. Nós, jornalistas, deveríamos sempre responder a isso e não ficar esperando que o público venha onde estamos confortavelmente sentados.

LJR: Apesar dos esforços dos meios de comunicação, dos acadêmicos e até mesmo das próprias plataformas de redes sociais, a desinformação está mais difundida do que nunca. O que falta fazer?

TC: Ainda há muito a ser feito. Acho que o mais desafiador é educar o público sobre como consumir informação de qualidade, como detectar desinformação e o que fazer a respeito. Isso é muito difícil em meio à polarização e com a ameaça de certos grupos de poder que promovem narrativas contra a ciência e as instituições, inclusive a imprensa e os jornalistas. Há um trabalho colaborativo a ser feito para ser mais forte contra isso. É por isso que o Factchequeado não é apenas um meio de comunicação que publica verificação de dados e explicações, mas é uma aliança que busca crescer e trabalhar em conjunto com outros meios, grandes e pequenos, para combater a desinformação em espanhol (nossos aliados compartilham nosso conteúdo gratuitamente). Também oferecemos treinamento em verificação de dados para aqueles que o solicitam. Isso é algo que ainda falta fazer: formar verificadores de dados em espanhol que possam atender às comunidades de língua espanhola.

LJR: Por muitos anos você se dedicou ao jornalismo investigativo, agora você está focada neste novo gênero jornalístico de fact-checking. Se você pudesse escolher, qual dos dois gêneros escolheria?

TC: Gosto muito dos dois, ambos têm me dado muita satisfação e com ambos tenho essa sensação de “há muito o que fazer”. Adoro o trabalho colaborativo, tanto o que fiz com jornalismo investigativo – com o Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ, na sigla em inglês) coordenando centenas de jornalistas ao redor do mundo (Panama Papers, Paradise Papers, Solitary Voices, Finance Files...) –, quanto o que faço agora coordenando parcerias com jornalistas do sul de Miami até Wichita, Kentucky, Carolina do Norte e de costa a costa, da Califórnia a Nova York, passando por grandes cidades e cidades fronteiriças para combater a desinformação. Então eu diria que escolho o trabalho colaborativo e que é isso que eu promovo no Factchequeado.

LJR: Em algum momento você foi uma figura-chave no jornalismo independente venezuelano lutando contra a censura e a favor da liberdade de imprensa. Depois de sete anos fora da Venezuela, como você vê e o que pensa do jornalismo que se faz hoje no país? Que mudanças você observou?

TC: Depois de sete anos, olho pelo retrovisor e me sinto muito bem por ter participado daquela luta, por ter escrito aquela carta de demissão denunciando a censura e o que estava por trás da compra de meios de comunicação para favorecer o chavismo; por ter participado daquela onda maravilhosa de criação de espaços digitais para oferecer o melhor jornalismo.

Vejo meus colegas de então liderando esses espaços, formando novas gerações e se destacando e me sinto muito, muito orgulhosa. Prêmios Gabo, Ortega y Gasset, Rei da Espanha, Global, Ipys, María Moors Cabot, SIP foram concedidos nos últimos anos ao jornalismo independente venezuelano em meio à censura imposta pelo regime ditatorial e à hegemonia comunicacional que tentam impor usando os meios de comunicação do Estado.

Também os vejo fazendo parcerias para amplificar suas vozes e fazendo múltiplos esforços para chegar a lugares remotos da Venezuela, com o risco que sabemos que correm em um sistema que não oferece garantias nem direitos e em que há muita precariedade... isso me dá uma profunda satisfação. Não tenho palavras para expressar o que sinto.

LJR: O jornalismo ainda vem em primeiro lugar?

TC: Sempre! "Jornalismo em primeiro lugar", expressão com a qual me demiti do Últimas Notícias, vem da minha amiga Nathalie Alvaray, então vice-presidente da empresa e mestra na arte de divulgar o jornalismo e defender o editorial no meio dos negócios. Quando tinha que tomar uma decisão difícil, ela usava essa expressão. Por isso, é muito boa para fechar a sua primeira pergunta.

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