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Cobrindo doenças e migrações, vencedores do Prêmio Roche marcam ano intenso para jornalismo de saúde na América Latina

O parto durante a migração, a epidemia de Zika e pandemia de COVID-19 foram os temas vencedores da nona edição do Prêmio Roche de Jornalismo em Saúde, que celebra a cobertura de saúde na América Latina.

‘Huir Migrar Parir’, de Distintas Latitudes, La vida de Nos, Mutante e GK, foi o trabalho vencedor na categoria Jornalismo Escrito. ‘COVID-19: 100 dias da pandemia do coronavírus', do jornal peruano El Comercio, venceu na categoria Jornalismo Audiovisual; e a série ‘Epidemia’ do podcast 37 Graus, em aliança com a Folha de S.Paulo, conquistou o primeiro lugar na categoria Cobertura Diária.

A LatAm Journalism Review (LJR) conversou com os líderes de cada uma dessas investigações para saber sobre os processos jornalísticos que seguiram, quais foram suas impressões quando descobriram que tinham ganhado o prêmio e discutir seus planos futuros.

Fugir, Migrar, Parir

O trabalho 'Huir Migrar Parir [Fugir, Migrar, Parir]' conta a história de Marian Gutiérrez, uma jovem venezuelana que deixou Hato Viejo, um pequeno povoado em Yaracuy, Venezuela, percorreu mais de 4 mil quilômetros por terra e cruzou três fronteiras para dar à luz seu filho em Lima, no Peru.

Captura de pantalla del reportaje "Huir Migrar Parir"

Captura de tela de “Huir Migrar Parir”.

A investigação mostra como o sistema médico-hospitalar da Venezuela não garante partos seguros nas suas maternidades. Além disso, a história percorre as principais rotas de migrantes, travessias e cidades fronteiriças que os venezuelanos usam e investiga os direitos sexuais e reprodutivos dos migrantes.

“O elemento mais complexo foi conseguir reunir toda a apuração que havia sido feita e transformá-la em uma história atraente, e foi justamente isso que o júri de premiação reconheceu”, disse à LJR María Laura Chang, coordenadora do trabalho em que participaram 35 jornalistas, editores, fotógrafos, designers e analistas de rede da Venezuela, Colômbia, Equador, Peru, México e Argentina.

O trabalho vencedor contou com o apoio financeiro da Fundação Gabo e da Oxfam para a sua realização.

“É raro que a imprensa tradicional financie investigações relacionadas ao acesso aos direitos sexuais e reprodutivos. Para tornar essas questões visíveis, geralmente é necessário buscar financiamento externo”, explica Chang.

A equipe de investigação está muito honrada com a distinção e animada com novos trabalhos colaborativos que podem vir.

“Esses prêmios são um megafone para as questões que nós, jornalistas feministas, abordamos e que têm a ver com os direitos das mulheres. Para mim, poder tornar essas realidades visíveis vale tudo", acrescenta a coordenadora do ‘Huir Migrar Parir ’.

COVID-19: 100 dias da pandemia do coronavírus

O trabalho ‘COVID-19: 100 dias da pandemia do coronavírus’ é um documentário que mostra o impacto da COVID-19 no Peru desde o primeiro caso relatado pelo governo, em 6 de março de 2020, até os primeiros cem dias.

O documentário expõe e contrasta as decisões do Estado com a realidade.

“O trabalho não é apenas mostrar imagens impactantes, mas também apontar os responsáveis ​​e tornar visível como aqueles que antes foram aplaudidos como heróis (policiais e médicos) se converteram em vítimas de políticas equivocadas do Estado”, afirma os jurados, em ata.

O júri também destaca o trabalho de reportagem de rua e a proximidade com os eventos.

A LJR entrevistou Rudy Jordán Espejo, diretor do documentário, que contou como conseguiram manter o rigor jornalístico apesar do medo de se infectar ou perder seus entes queridos.

“O risco faz parte do jornalismo e acho que nós que exercemos essa profissão sabemos disso. Esse nível de risco, nesse caso, foi uma dificuldade que usamos para estar mais alertas e contar a história como sentíamos. É claro que em uma pandemia esse medo é exponencial, mas felizmente tínhamos o equipamento de proteção necessário, o apoio das nossas famílias e o máximo de cuidado possível”, disse Jordán Espejo.

Rudy Jordán

Rudy Jordán. (Arquivo pessoal)


Por sua vez, Jordán Espejo diz que em 2016 estava em Cuba quando Fidel Castro morreu e lá pôde observar como “os acontecimentos revelam vários aspectos da realidade social que costumam estar ocultos”. O jornalista percebeu que algo semelhante poderia acontecer com a chegada da pandemia ao Peru e decidiu lançar o documentário.

O prêmio, para ele, é um incentivo para continuar produzindo e com a satisfação de que o trabalho foi bem feito, que a ideia foi captada e comunicada.

“Há prêmios invisíveis durante o processo, como o das histórias publicadas no documentário, como a de Jacqueline Párraga, que a ajudou a receber doações e poder continuar cozinhando para os moradores de rua que ficaram sem comida diante do fechamento de tudo na quarentena. Na era da imagem em que vivemos, acredito que o audiovisual feito com honestidade e integridade pode ser um verdadeiro instrumento de mudança ”, disse Jordán Espejo.

Epidemia

A série ‘Epidemia’, em formato de podcast, começou a ser produzida em 2019, como uma investigação sobre a epidemia de Zika no Brasil. Quando a pandemia da COVID-19 chegou, em março de 2020, a série teve uma reviravolta e passou a incluir material relevante sobre esse novo vírus.

“O principal desafio que tínhamos era a imprevisibilidade de tudo. Não sabíamos que íamos lançar uma série sobre uma epidemia justo quando uma nova pandemia começou a varrer o mundo”, disse à LJR Sarah Azoubel, apresentadora e produtora do podcast 37 Graus, onde a série vencedora foi ao ar.

“Lançamos o primeiro episódio uma semana antes do início das restrições da Covid no estado de São Paulo, onde moramos. Então, fomos forçados muito rapidamente a adaptar nossa produção. De repente, não fazia sentido falar sobre o Zika sem falar também sobre a Covid", acrescentou Azoubel.

Integrantes de 37 Graus podcast (Cortesía)

Integrantes do 37 Graus podcast. (Arquivo pessoal)

Outros detalhes técnicos também tiveram que ser modificados. A equipe da série “Epidemia” teve que começar a trabalhar remotamente, conduzindo entrevistas via Zoom e improvisando pequenos estúdios de gravação em casa.

Azoubel e sua colega de trabalho, Bia Guimarães, se sentem felizes e honradas com a premiação.

“Certamente foi um ano difícil e cheio de acontecimentos para contar histórias relacionadas à saúde e à ciência. E sabemos que os outros finalistas tiveram trabalhos realmente excelentes, por isso estamos extremamente honrados que Epidemia tenha sido escolhida como vencedor”, explica a jornalista científica.

Seus planos futuros incluem continuar a publicar histórias no podcast 37 Graus e manter seu slogan "Podcast que conta histórias com um pé na ciência".

“Depois de Epidemia, publicamos nossa quarta temporada 'Tempo'. E agora estamos no meio da estreia da nossa quinta temporada, chamada 'Na Esquina da Realidade'. Nessa nova temporada, exploramos histórias sobre coisas que estão no limite entre o real e o não real. Também estamos trabalhando em uma nova colaboração empolgante para uma série especial no próximo ano. E em breve começaremos a produção para nossa próxima temporada regular ”, disse Azoubel.

Menções especiais

O prêmio concede ainda menção honrosa em Acesso à Saúde, em cada uma das categorias do concurso. De acordo com o prêmio, essa menção vai “ao trabalho jornalístico com a melhor cobertura das lacunas e desafios a superar em relação ao acesso aos serviços, conscientização sobre doenças, diagnóstico tardio, deficiências na infraestrutura sanitária, entre outros, bem como trabalhos que investiguem processos e resultados das diferentes respostas aos desafios do acesso à saúde na América Latina.”

O consolo de um país em crise recai sobre seus estudantes de psicologia’ da meio equatoriano GK foi mencionada na categoria Jornalismo Escrito. ‘Os direitos não são isolados’, de Chicas Poderosas, recebeu uma menção na categoria Jornalismo Audiovisual.  ‘Morrer na Nicarágua em tempos de coronavírus’, da equipe jornalística do Confidencial, e 'Coronavírus na Venezuela’, de Mariana Souquett, publicado no Efecto Cocuyo, receberam menções na categoria Cobertura Diária.

O Prêmio Roche também oferece menções honrosas em Cobertura Jornalística da COVID-19 e de Jornalismo de Soluções. 

En el caso de Periodismo de Soluciones, se seleccionó ‘Indústria da saúde no Ceará’ como ganador, una serie de reportajes realizados por el equipo de O Povo Online (Brasil).  Por su parte, la mención de honor en Cobertura Periodística del COVID-19 se la llevó el trabajo ‘Sequelas da Covid-19’, de VivaBem – UOL (Brasil).

No caso do Jornalismo de Soluções, ganhou a 'Indústria da saúde no Ceará’, uma série de reportagens produzidas pelo O Povo Online (Brasil). Já a menção honrosa na Cobertura Jornalística da COVID-19 ficou com o trabalho ‘Sequelas da Covid-19’, da VivaBem - UOL (Brasil).

Esta matéria foi escrita originalmente em espanhol e traduzida por Marina Estarque

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