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Convocatória aberta para fortalecer o jornalismo investigativo na América Latina em meio a desafios

O jornalismo investigativo requer tempo, independência e dinheiro. Às vezes, os jornalistas conseguem abrir espaço em suas agendas para investigar temas de interesse, mas conseguir financiamento pode chegar a ser uma odisseia. Por essa razão, o Consórcio para Apoiar o Jornalismo Independente na Região (CAPIR) abriu uma convocatória para financiar propostas de jornalismo investigativo nacional e transfronteiriço em vários países da América Latina.

A convocatória está aberta até 9 de outubro. Alguns dos requisitos são trabalhar em um meio de comunicação ou ser jornalista independente e que as matérias sejam relacionadas aos seguintes países: México, El Salvador, Guatemala, Honduras, Bolívia, Peru ou Venezuela.

Segundo o CAPIR, durante seis meses os selecionados receberão treinamento e orientação de jornalistas com larga experiência e reconhecimento no jornalismo investigativo da região. E o financiamento, no caso de investigações transfronteiriças, pode chegar a US$ 10.000.

“O CAPIR tem como objetivo contribuir para o fortalecimento do jornalismo investigativo, para o desenvolvimento de estratégias contra a desinformação, para a potencialização dos modelos de negócios sustentáveis ​​para a mídia e para o reforço uma abordagem integral de segurança para jornalistas e veículos de comunicação na América Latina”, disse Dhaniella Falk, Diretora Regional de Programas do Institute for War and Peace Reporting (IWPR) na América Latina e no Caribe, à LatAm Journalism Review (LJR).

“Nesta segunda rodada de financiamento de investigação estamos especialmente interessados ​​em promover a transferência de conhecimento em jornalismo investigativo para a próxima geração de jornalistas da região. Por isso esperamos apoiar equipes formadas tanto por jornalistas experientes quanto por aqueles que ainda estão dando os primeiros passos neste trabalho”, acrescentou.

Colaboração com a mídia

O CAPIR é apoiado pelo IWPR, uma organização internacional sem fins lucrativos que visa capacitar líderes de opinião locais para provocar mudanças em países em conflito, crise e transição. Os seguintes meios e organizações latino-americanas fazem parte do CAPIR: Animal Político (México), Data Crítica (México), Armando Info (Venezuela), Ojo Público (Peru), Chequeado (Argentina), Vinland Solutions (México) e Fundación Karisma (Colômbia).

“Acreditamos que no atual contexto regional é importante trabalhar em colaboração com organizações e meios de comunicação especializados em nossas áreas prioritárias (investigação, combate à desinformação e segurança integral). Também estamos interessados ​​em ter um balanço regional de perspectivas e experiências”, disse Falk.

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Meios e organizações que constituem CAPIR

Não é a primeira vez que o CAPIR faz uma convocatória deste tipo. Em 2021, o consórcio fez sua primeira rodada de financiamento para investigação e 12 equipes nacionais e quatro transnacionais foram selecionadas.

Uma das investigações financiadas em 2021 e publicada em 2022 foi ‘Violencia Secreta: la violencia invisibilizada por siete años en Honduras’ ('Violência Secreta: a violência invisibilizada por sete anos em Honduras'), de Reporteros de Investigación. Essa investigação mostra que a violência doméstica em Honduras tem liderado o número de denúncias nos últimos sete anos consecutivos e como o discurso público desse país ignora a gravidade do problema e se concentra em perseguir e enfatizar outros atos criminosos, evitando integrar políticas de gênero às investigações policiais.

“O financiamento do CAPIR nos ajudou a fortalecer nosso desenvolvimento institucional, aprendemos e reforçamos o conhecimento sobre trabalho na nuvem, trabalho colaborativo, narrativa com elementos transmídia, e também o impacto que nossa investigação teve nas políticas públicas, já que a polícia anunciou o reforço do protocolo nos casos de violência doméstica”, disse Wendy Funes, fundadora da Reporteros de Investigación em Honduras, à LJR.

Outro trabalho publicado neste ano, graças ao apoio do CAPIR, foi Ciudad Inteligente: el millonario proyecto que derivó en unas sillas vacías('Cidade Inteligente: o milionário projeto que resultou em cadeiras vazias') realizado pela Verdad con Tinta, da Bolívia. Uma investigação sobre o impacto de um projeto realizado durante a administração do ex-prefeito da cidade de Tarija, Rodrigo Paz Pereira, que ocupou o cargo de 2017 a 2020.

"Foi uma grande experiência. Eles nos deram treinamento não apenas no aspecto de como fazer jornalismo investigativo, como também nos treinaram em gestão emocional, proteção física, segurança digital... muitas áreas que nós não levávamos em consideração”, disse Jesús Vargas Villena, jornalista de Verdad com Tinta, à LJR. “A orientação que recebemos e principalmente o apoio do editor que nos designaram também nos ajudou muito”, acrescentou.

Fazer jornalismo investigativo na América Latina

A América Latina é um contexto hostil para o jornalismo investigativo. Jornalistas enfrentam regimes autoritários, alta corrupção e crimes para silenciar a imprensa.

As dificuldades que os jornalistas enfrentam são vastas. “O perigo, a censura sutil e hostil, o crescente discurso público violento, os assassinos de aluguel, a violência dos políticos, dos grupos armados e do crime organizado, e os controles ilegítimos como a concentração da propriedade, os monopólios cruzados dos veículos de comunicação e a falta de apoio ao jornalismo independente”, listou Funes.

Em pequenas regiões ou cidades essas dificuldades aumentam porque é muito mais fácil restringir financeiramente os meios de comunicação. Segundo Vargas Villena, meios tradicionais recebem dinheiro direta ou indiretamente dos governos, por meio de publicidade, mas a mídia independente tem o problema de conseguir financiamento para escrever suas matérias.

“É importante ter outra voz, é isso que o jornalismo independente faz hoje em dia. Eles trazem à tona casos que não aparecem na mídia tradicional”, disse Vargas Villena. “Mas nesse tipo de jornalismo as barreiras econômicas são muito grandes. Financiamentos como os do CAPIR nos permitem continuar fazendo nosso trabalho”.

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