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Dois jovens são considerados culpados por assassinar um repórter na Nicarágua, apesar de objeções da família do jornalista

Os dois jovens afrodescendentes acusados de assassinar o jornalista Ángel Gahona no dia 21 de abril foram considerados culpados por um juiz de Manágua, capital da Nicarágua na noite de 27 de agosto, informou o Confidencial.

Brandon Lovo foi acusado de disparar a arma caseira que supostamente teria matado Gahona e Glen Slate foi processado como "cooperador necessário", mas ambos receberam a pena por homicídio, noticiou o Última Hora. Lovo e Slate também foram considerados culpados pelas acusações de tentativa de homicídio contra um policial, posse ilegal de arma de fogo e exposição e abandono de pessoas, segundo o jornal.

F Ángel Gahona. (Facebook).

Os advogados dos dois jovens alegaram sua inocência alegando "dúvida razoável", porque os procuradores "não tiveram sucesso em nenhum momento" ao provar que Lovo e Slate eram os responsáveis, o Ministério Público pediu uma pena de 23 anos por assassinato, 20 anos por tentativa de assassinato e três anos pelos outros crimes para cada um. A leitura da sentença será nesta quinta-feira, 30 de agosto, segundo o Confidencial.

Gahona foi assassinado em Bluefields, no leste do país, enquanto transmitia ao vivo, pelo Facebook, um dos protestos contra a reforma fracassada do sistema de pensões proposta pelo presidente Daniel Ortega. No momento de sua morte, ele transmitia um enfrentamento entre policiais e manifestantes.

Desde que de Lovo e Slate foram capturados e enviados à prisão no dia 8 de maio, os familiares de Gahona - como sua viúva, irmão e pai - têm rechaçado a decisão e assegurado que os disparos vieram dos policiais, e não dos manifestantes. Seu irmão disse, em entrevista a uma rádio local, que eles (os familiares) estavam "buscando a verdade" e pediu para que não se fizesse uma "caça às bruxas".

Alguns dos colegas de Gahona também rechaçaram a captura dos jovens. Ileana Lacayo Ortiz, jornalista e organizadora dos protestos em Bluefields, assegurou à época que os manifestantes não estavam armados e questionou o traslado dos acusados desde o local onde o crime aconteceu até Manágua, e expressou seu temor sobre a possibilidade de que evidências fossem plantadas contra os dois.

E justamente o traslado de Lovo e Slate é um dos vários questionamentos desde o início deste processo judicial. Familiares de Gahona também chamaram atenção para o que apontam como falhas na investigação e na interrogação de testemunhas oculares do crime.

Em uma reportagem de 22 de maio, o La Prensa ressaltou algumas supostas inconsistências durante o julgamento, cuja audiência inicial ocorreu em 18 de maio. Segundo o jornal, o Ministério Público "ofereceu provas testemunhais e periciais que contradizem os fatos narrados na acusação".

Uma destas contradições é a distância a partir da qual os disparos contra Gahona foram realizados. Segundo o Ministério Público, Lovo disparou a uma distância de 69 metros, enquanto a conclusão da balística aponta que o atirador se encontrava a quase 75 metros da vítima, "o que põe mais em dúvida o alcance" de uma arma artesanal, noticiou o La Prensa.

A isto se soma a declaração do comissário Luis Valle Corea, chefe da delegação policial da Região Autônoma da Costa Caribe Sul, que disse que a distância entre o grupo com o qual Gahona estava e os manifestantes era de quase 100 metros, acrescentou o La Prensa.

Se questiona também que nenhuma testemunha pôde afirmar ter visto os jovens disparando contra Gahona ou que a autópsia não dê conta de qual é a trajetória do projétil, o que ajudaria a determinar a posição do atirador, disse o La Prensa. A posição do atirador é um ponto importante sobre o qual os vídeos registrados no dia e o Ministério Público se contradizem, segundo o Confidencial.

Além disso, a arma apontada como "prova contundente" pelo Ministério Público foi encontrada no mar - sem qualquer marca de digitais - e nenhum resto de pólvora foi encontrado nas mãos dos acusados. "Não há nada que vincule essa arma com os jovens", disse um dos advogados ao Confidencial.

Antes de conhecer a decisão judicial, a viúva de Gahona, a também jornalista Migueliuth Sandoval, qualificou o julgamento como "escárnio". Posteriormente, disse que "não compartilha da decisão judicial", segundo disse seu advogado, informou o Confidencial.

Outro dos aspectos criticados durante o julgamento foi a proibição da entrada de familiares, meios de comunicação independentes e organizações de direitos humanos, segundo o Confidencial.

Este fato foi ratificado pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), que em recente comunicado assegurou que "em certas audiências judiciais, as autoridades nicaraguenses negaram o ingresso de familiares, a imprensa independente e representantes do MESENI (Mecanismo Especial de Seguimento para a Nicarágua) e das Nações Unidas". Uma dessas audiências, segundo a CIDH, foi a do dia 15 de agosto, sobre o caso Gahona.

Neste comunicado, a CIDH assegurou que tomou "nota sobre as ameaças de morte contra a advogada das pessoas acusadas da morte do jornalista Ángel Gahona, as quais se haviam produzido minutos antes de iniciada a audiência".

O advogado de um dos acusados assegurou que, logo que a sentença seja lida pelo juiz, entrará com uma apelação, informou o Confidencial.

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