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Jornalistas latino-americanos compartilham dicas para investigar saúde, crime, meio ambiente e muito mais em conferência anual

“Eu diria que é uma época de ouro da reportagem investigativa na América Latina como nunca vi em muitos anos”, disse recentemente a jornalista colombiana María Teresa Ronderos em uma palestra global com repórteres investigativos.

Jornalistas investigativos da região estão enfrentando o crime organizado, o narcoterrorismo, os abusos cometidos por empresas multinacionais, a crescente desigualdade, a corrupção política e institucional e as mudanças climáticas.

“Na minha parte do mundo, acho que a imprensa watchdog [que fiscaliza o poder] está muito ocupada”, disse Ronderos.

Durante a Global Investigative Journalism Conference (GIJC), que aconteceu totalmente online de 1 a 5 de novembro, repórteres de todo o mundo compartilharam técnicas, desafios e inovações na investigação. Repórteres investigativos latino-americanos tiveram destaque durante as palestras e workshops.

E como afirmou Carlos Eduardo Huertas, diretor da CONNECTAS, a região é como um pote de ouro para temas de investigação: desmatamento da Amazônia, migrações regionais, o escândalo da Odebrecht, só para citar alguns.

A LatAm Journalism Review (LJR) assistiu as mesas com palestrantes latino-americanos para entender o que está acontecendo com o jornalismo investigativo na região.

A imprensa watchdog

Ronderos, que esteve na mesa de abertura, “Autocratas, Oligarcas e Cleptocratas – A Luta Global por uma Imprensa Watchdog”, é cofundadora do Centro Latinoamericano de Investigación Periodística (CLIP).

María Teresa Ronderos

María Teresa Ronderos (Screenshot)

Em pouco mais de dois anos, o centro trabalhou com 70 equipes diferentes de repórteres investigativos no continente e produziu cerca de 15 investigações.

“Esses grupos watchdog são equipes pequenas, às vezes com muito pouco orçamento e às vezes grandes equipes em grandes veículos que ainda resistem e ainda sobrevivem para fazer jornalismo investigativo”, disse ela.Eles investigaram temas como a influência política dos líderes fundamentalistas cristãos, a extração de madeira na Amazônia ou até mesmo o assassinato da sua própria colega.

“As colaborações mostram que apesar dos grandes desafios, apesar do número crescente de autocratas e cleptocratas na América Latina, repórteres investigativos estão juntando forças, eles continuam vigiando os abusos do governo e não desistem”, disse ela.

Ronderos citou o exemplo da equipe de Armando.info, que investigou o empresário colombiano Alex Saab, aliado do presidente venezuelano Nicolas Maduro.

Os repórteres de Armando.info tiveram que sair do país em 2018 após um processo por difamação de Saab. O empresário foi extraditado de Cabo Verde para os EUA em outubro de 2021, mas a maioria das acusações de lavagem de dinheiro contra ele foram indeferidas por um juiz dos EUA por causa dos acordos feitos para sua extradição.

Os jornalistas estão enfrentando uma miríade de desafios agora com polarização, desinformação e descredibilização da democracia, disse Ronderos. Para enfrentar isso, ela disse que os jornalistas deveriam abraçar a verdade radical, colaborar e usar o poder do coletivo.

Investigando saúde e medicina

A jornalista peruana Fabiola Torres, fundadora do site de jornalismo de saúde Salud con Lupa, falou sobre entender e reportar sobre pesquisas de medicina, além de expor a interferência da indústria e o conflito de interesses antes e durante a COVID-19.

Scientifically Proven investigation

Screenshot from the investigation "Scientifically Proven," by Salud con Lupa.

“Os estudos científicos com metodologia pobre e resultados imprecisos estão exacerbando a crise de desinformação da COVID-19”, Torres afirmou. Ela também apontou para os profissionais de marketing lucrando com a pseudociência, especialmente no que diz respeito a tratamentos não comprovados.

Ela compartilhou as perguntas que sua equipe faz ao relatar sobre novas pesquisas médicas: Como este estudo se encaixa no contexto geral? Como ele se compara a outros estudos sobre o mesmo assunto? É realmente novo? Quem o patrocinou? Qual é a relevância clínica? E mais.

Para evitar desinformação ao escrever sobre saúde, ela disse que os repórteres deveriam consultar especialistas externos sobre os pontos fracos do estudo e o que os autores podem ter esquecido ou omitido.

Em relação às próprias investigações de Salud con Lupa sobre a pandemia, Torres apresentou “Scientifically Proven”, um recurso trilíngue sobre os tratamentos mais prevalentes para a COVID-19. O projeto, que é atualizado semanalmente, analisa evidências, estudos e possíveis efeitos colaterais dos tratamentos.

Expondo o crime organizado

A jornalista investigativa mexicana Marcela Turati passou duas décadas investigando os desaparecidos em seu país. Ela apresentou suas descobertas sobre a cobertura do crime organizado, que costuma estar por trás desses desaparecimentos, no GIJC.

Marcela Turati

Marcela Turati (Screenshot)

“Em primeiro lugar, temos que saber que grupos do crime organizado precisam controlar territórios, rotas e tudo o que está dentro dessas regiões. Eles precisam controlar a economia, as pessoas e todas as coisas e todos os recursos naturais que estão lá dentro”, disse Turati, cofundadora do Quinto Elemento Lab. “Para eles, isso faz parte do negócio.”

Pessoas que atrapalham o negócio podem ser ameaçadas, mortas ou desaparecer.

Com base em suas investigações, ela compartilhou algumas dicas para outros repórteres: mapear o território, dinâmicas e stakeholders; planejar as suas entrevistas, incluindo a ordem e quando você entrará em contato com as pessoas; esteja ciente dos riscos que você enfrenta e desenvolva protocolos de segurança; reaja rapidamente quando alguém desaparecer, o que inclui rastrear a pessoa digitalmente com a ajuda de parentes; pense nos riscos potenciais para as vítimas; não revele informações que possam prejudicar a investigação policial; e verificar, verificar verificar.

Encontrando novas maneiras de contar histórias

A jornalista Milagros Salazar explicou como o veículo que ela dirige, Convoca, usou quadrinhos como um método inovador de contar histórias para mostrar como os peruanos são afetados pela atividade extrativista e pelas áreas industriais do país.

Expediente Tóxico investigation by Convoca

Expediente Tóxico investigation by Convoca (Screenshot)

“Pensamos que uma história em quadrinhos interativa era um formato amigável que poderia ajudar os cidadãos a entender uma realidade complexa”, disse ela.

Quatorze pessoas trabalharam nos três quadrinhos que compõem “Expediente Tóxico”. Entre eles estavam jornalistas, editores, analistas de dados, toxicologistas, programadores e cartunistas.

Para a investigação, eles consultaram epidemiologistas e analisaram testes de laboratório, conversaram com a população afetada, viajaram para as áreas afetadas e construíram bancos de dados.

Ao usar quadrinhos para o jornalismo investigativo, ela recomenda manter a qualidade da informação, nomear alguém com uma visão abrangente do projeto, empregar equipes multidisciplinares, ter canais de comunicação eficazes e medir o impacto do seu projeto.

Descobrindo a desigualdade na Amazônia

A jornalista Elaíze Farias, cofundadora da Amazônia Real, falou sobre o trabalho investigativo e independente da agência de notícias, baseada em Manaus, no estado do Amazonas, no Brasil. Ela contou que a Amazônia Real foi criada em 2013 com o objetivo de dar visibilidade para as populações excluídas e marginalizadas na região. 

Elaíze Farias

Elaíze Farias (Screenshot)

"A nossa proposta era romper com o mecanismo midiático de reprodução do racismo, de colonização, de etnocentrismo e eurocentrismo", explicou. 

 

"Our proposal was to break with the media mechanism of reproduction of racism, colonization, ethnocentrism and Eurocentrism,” she explained.

Ela aproveitou o tema da mesa, Investigando a Desigualdade, para falar sobre a desigualdade regional do país, que, segundo ela, "é como se fosse dividido entre o que é Norte e o que é Sul".

"Nem sempre o que acontece na região Norte, que é onde fica a Amazônia, é retratado de forma verossímil ou real no que se chama de grande imprensa. Um jornal que fica em São Paulo é considerado nacional, mas uma mídia que está no Nordeste ou na região Norte é local ou regional, sempre tem essas diferenças,” disse.

Farias também comentou sobre o conceito de desigualdade, que muitas vezes é visto de uma perspectiva capitalista ou consumista, enquanto a realidade da Amazônia é outra. Ela destaca que há sim desigualdade de acesso a serviços, como Internet ou atendimento médico. Mas pessoas de fora que visitam a região, principalmente jornalistas, tendem a medir a pobreza pela quantidade de objetos e posses, enquanto culturas locais nem sempre se baseiam "na valorização do capital e na acumulação de riqueza, no sentido de bens materiais".

Farias reforça a importância de se pesquisar sobre a região antes de uma cobertura e esquecer "essa Amazônia imaginária" que é retratada em livros e filmes, cheia de estereótipos. A jornalista explica que a região é muito mais profunda e difícil de compreender, mesmo para quem nasceu e vive lá.

"A Amazônia é uma região de dimensões continentais, é heterogênea, com uma população de mais de 20 milhões de pessoas, de origem étnica e grupos sociais diversos, onde há muitas barreiras de comunicação e acesso geográfico", disse.

Rastreando fundos de aposentadoria

Collaborative investigation "A dónde va mi Pensión?"

Investigação "A dónde va mi Pensión?" (Screenshot)

Durante uma apresentação rápida, a repórter econômica independente Luisa García Tellez, do Peru, compartilhou a investigação que dirigiu com Lilia Saúl, do México.

O projeto “Para onde vai a minha aposentadoria?”,  baseado em dados, foi publicado em 2021 em inglês e espanhol. Mais de 40 pessoas trabalharam no projeto em que leitores de nove países da América Latina podem acompanhar quais empresas e governos se beneficiaram com seus fundos de aposentadoria.

O projeto envolveu uma série de pedidos via lei de acesso à informação em cada país. Além disso, García Tellez explicou que envolveu “trabalho anfíbio”, com especialistas como companheiros de equipe, e não como fontes. E a outra lição principal que ela aprendeu foi a colaboração: garantir que os parceiros saibam sobre as informações recebidas e como usar as ferramentas internas desenvolvidas para a investigação, e estabelecer critérios de fact-checking e processos editoriais de publicação antecipadamente.

Cobrindo o clima

O jornalista argentino Fermin Koop, editor da revista Dialogo Chino para a América Latina, fez uma apresentação ao vivo direto da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, a COP 26.

Fermin Koop (Screenshot)

Fermin Koop (Screenshot)

O Dialogo Chino rastreia investimentos da China em toda a América Latina. Isso envolve examinar subsídios para combustíveis fósseis, energia hidrelétrica e agricultura, como explicou Koop.

“Queremos dar voz às pessoas no terreno que são afetadas por esses projetos, ao mesmo tempo que analisamos os dados e fazemos pesquisas adequadas sobre esses projetos”, disse ele.

Koop disse que, com base nos primeiros dias da conferência global do clima, há espaço para otimismo, mas as expectativas e as demandas são altas.

“Acho que vimos um bom número de anúncios até agora na semana cobrindo carvão, combustíveis fósseis, desmatamento, o que quiser”, disse Koop. “Então, temos que realmente acompanhar isso e ver se os governos os cumprem, e esse será o desafio após a COP.”

Ferramentas para criar visualizações

Lisseth Boon, coordenadora da unidade de investigação do site venezuelano Runrun.es e Alianza Rebelde Investiga (ARI), apresentou três de suas ferramentas favoritas para a criação de visualizações como parte de uma rodada relâmpago no GIJC.

Para construir redes, estruturas e identificar ligações entre pessoas, organizações e empresas, ela recomenda CmapTools.

Para a criação de mapas mentais e fluxogramas, como os que os jornalistas usaram para a investigação colaborativa FinCEN Files, ela recomenda o LucidChart.

E, finalmente, para mapear pessoas e interações complexas, ela usa Kumu.

Ganhar dinheiro para sustentar seu trabalho

Um dos maiores desafios para os meios de comunicação investigativos é como ser financeiramente sustentável.

Claudia Urquieta (Screenshot)

Claudia Urquieta (Screenshot)

Claudia Urquieta, editora de comunidade do site chileno CIPER, argumentou que o programa de membros é um modelo chave para o jornalismo investigativo.

Em abril de 2019, o principal financiador da CIPER saiu, e o veículo tinha apenas três jornalistas. Ele teve que se reinventar.

“Apostamos em um sistema de membros que tornaria as contribuições de nossos leitores o pilar mais importante do financiamento”, disse Urquieta.

Hoje, CIPER tem quase 5.000 membros e 70% do seu trabalho jornalístico é financiado pela Comunidade +CIPER, além de sete jornalistas e uma equipe de sustentabilidade.

Então, como CIPER consegue os seus membros? Urquieta enfatizou a publicação de informações relevantes para os cidadãos, desenhando uma estratégia de viralização para as mídias sociais, buscando alianças para distribuição de conteúdo para outros veículos de comunicação, sendo transparente sobre como você administra o meio de comunicação e sempre buscando ampliar seus horizontes.

Um ponto que ela enfatizou repetidamente foi o relacionamento próximo que a CIPER mantém com seus membros.

“Mantemos um relacionamento fluido e próximo por email e telefone”, disse ela. “Fazemos com que se sintam parte da família.”

Você pode encontrar as dicas e apresentações das sessões do GIJC aqui.

Esta matéria foi escrita originalmente em inglês e traduzida por Marina Estarque

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