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Jornalistas que trabalham na Venezuela sofrem com prisões, ataques e bloqueios de sites na internet à medida que crise piora

À medida que a crise sociopolítica na Venezuela se aprofunda e o presidente Nicolás Maduro luta para permanecer no poder, os jornalistas do país são alvos de ataques, prisões, roubo de material de trabalho e bloqueio de sites e canais de televisão.

Uma das mais recentes violações ocorreu na noite de segunda-feira, 25 de fevereiro, quando o canal hispânico dos Estados Unidos Univisión Noticias informou que uma equipe jornalística de seis pessoas, liderada por seu principal apresentador, Jorge Ramos, havia sido retida no Palácio de Miraflores, residência presidencial, onde os profissionais estavam para uma entrevista com o presidente Maduro.

Como foi narrado pelo próprio Ramos em entrevista após ser liberado, ele e sua equipe foram retidos por cerca de duas horas e meia em Miraflores depois que Maduro se levantou da entrevista após quase 17 minutos de conversa. De acordo com Ramos, Maduro estava irritado com suas perguntas sobre "a falta de democracia na Venezuela, sobre tortura, presos políticos, sobre a crise humanitária que o país vivia".

Palacio de Miraflores (Guillermo Ramos Flamerich [CC BY-SA 4.0 (https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0)])Palacio de Miraflores (Guillermo Ramos Flamerich [CC BY-SA 4.0 (https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0)])

"Ele se levantou da entrevista depois que eu mostrei a ele os vídeos de alguns jovens comendo de um caminhão de lixo", disse Ramos à sua colega Patricia Janiot, da Univisión. Segundo ele, uma vez que Maduro se levantou, o ministro da Comunicação e Informação, Jorge Rodríguez, entrou no local onde estavam e disse que a entrevista não estava autorizada e confiscou todo o equipamento técnico.

"Não temos nada. Eles ficaram com as câmeras, com todo o nosso equipamento, tiraram nossos cartões", disse Ramos. "A entrevista está com eles. Eles levaram todos os celulares  eu estou falando de outro celular que não é meu – nós não temos o equipamento, não temos a entrevista".

Ramos também disse que eles foram mantidos separados e foram interrogados. Ele acrescentou que ele e María Martínez, vice-presidente da Univisión Noticias, foram trancados em uma "sala de segurança" com as luzes apagadas e tiraram celulares, mochilas e "coisas pessoais".

"Eles estão roubando nosso trabalho", disse Ramos, acrescentando que "isso será divulgado com vídeo ou sem vídeo".

Os seis jornalistas foram deportados no dia seguinte, informou a Univisión. “Estamos sendo expulsos do país”, disse Ramos à W Radio da Colômbia do aeroporto de Maiquetía, que serve à cidade de Caracas. O jornalista disse que naquele momento eles estavam sendo vigiados por autoridades das embaixadas do México e dos Estados Unidos na Venezuela, bem como por funcionários de Maduro. Ele também disse que a equipe da Univisión havia sido convidada a fazer a entrevista na Venezuela.

Neste 26 de fevereiro, foi divulgada a retenção de outro jornalista por parte das forças de segurança de Maduro, segundo informou o Infobae. Daniel Garrido, da rede norte-americana Telemundo, ficou isolado e incomunicável por mais de sete horas depois de tirar fotos de membros do Serviço Bolivariano de Inteligência Nacional (Sebin) que chegaram ao hotel onde a equipe jornalística da Univisión Noticias estava hospedada, acrescentou o site.

Luis Fernández, vice-presidente da Telemundo, relatou quando conseguiu se comunicar com o jornalista. "Daniel Garrido acabou de nos escrever. Está livre. Os telefones foram retirados", disse Fernandez, de acordo com o Infobae.

Graves ataques contra a imprensa têm sido relatados desde o fim de semana passado, quando se pretendia entrar na Venezuela a ajuda humanitária enviada por vários países. Em 23 de fevereiro, ou 23F, como a data se tornou popular, pretendia-se entrar na Venezuela através das fronteiras com a Colômbia e o Brasil, informou a BBC Mundo.

No entanto, o evento se tornou violento. Os confrontos deixaram pelo menos quatro mortos e 285 feridos, informou o El Nuevo Herald. Até mesmo um dos caminhões com ajuda humanitária foi incendiado em uma das pontes fronteiriças com a Colômbia, informou a BBC Mundo.

Segundo a ONG venezuelana Espacio Público, houve pelo menos 20 violações da liberdade de expressão, incluindo agressões, bloqueios de internet, saídas do ar de canais e restrições ao trabalho de jornalismo.

De acordo com os registros, civis armados roubaram câmeras, telefones celulares e outros elementos de trabalho em duas ocorrências diferentes dos profissionais do meio digital Venezolanos Por La Información (VPI) e do canal Venevisión.

O jornalista Lenin Danieri foi atingido por balas em Ureña, enquanto o fotojornalista Pascual Filardo, da Prensa de Lara, foi ferido por uma bomba de gás lacrimogêneo lançada pela Guarda Nacional Bolivariana (GNB), segundo o Espacio Público.

Por sua vez, o Instituto Imprensa e Sociedade (IPYS, na sigla em espanhol) da Venezuela documentou 21 violações durante o dia, incluindo 12 casos de ataques, assaltos e intimidações. Juntamente com o Espacio Público, registraram os bloqueios a alguns sites da internet, como o YouTube, o Facebook e o jornal colombiano El Tiempo.

Ambas as organizações informaram que o canal 24H do Chile foi removido da rede de programação Directv depois de transmitir parte do que estava acontecendo nas fronteiras, acrescentou o Espacio Público. Segundo o IPYS, a Comissão Nacional de Telecomunicações (Conatel) "pressionou" as emissoras no estado de Apure, fronteira com a Colômbia, e as proibiu de cobrir "conflitos de rua". No dia anterior, a Conatel já havia bloqueado os canais NatGeo e Antena 3, segundo o IPYS Venezuela.

"Os bloqueios a meios digitais que oferecem transmissões ao vivo de notícias ocorrem em um contexto em que a televisão nacional não oferece cobertura dos fatos em tempo real", disse o Espacio Público.

A Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), na voz de sua presidente, María Elvira Domínguez, exigiu que "as garantias para o trabalho dos jornalistas" sejam respeitadas, depois de conhecer e receber "as denúncias dos diferentes riscos a que foram expostos jornalistas nacionais e estrangeiros, bem como em relação à censura do regime e seus instrumentos de repressão para impedir que os venezuelanos sejam informados".

De acordo com a SIP, o Sindicato Nacional dos Trabalhadores da Imprensa (SNTP) informou que pelo menos 50 jornalistas venezuelanos ficaram presos na Colômbia depois que Maduro fechou a fronteira com o país.

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