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Rede de jornalistas venezuelanas cria espaço de encontro para promover jornalismo com perspectiva de gênero

Nos dias 3, 4 e 5 de março aconteceu o “Género en foco”, primeiro encontro da Rede de Jornalistas Venezuelanas, um grupo diverso de mais de 150 mulheres jornalistas, dentro e fora da Venezuela, unidas pelo interesse em injetar uma perspectiva de gênero na narrativa jornalística.

O Género en foco foi realizado de forma híbrida, com a participação de um grupo de jornalistas na cidade de Caracas e a transmissão online ao vivo de alguns dos painéis. Além disso, o evento foi realizado em parceria com Redes Ayuda Free Press Unlimited, com o apoio da Embaixada do Reino Unido e da Embaixada dos Países Baixos em Caracas.

Os temas giraram em torno do jornalismo feminista e do enfoque de gênero, mas também abordaram temas como lutas indígenas, crise climática, saúde mental, emergências humanitárias, tráfico de pessoas e direitos sexuais e reprodutivos.

Desde junho de 2020, a Rede de Jornalistas Venezuelanas funciona como uma incubadora de capacidades, ideias, projetos e alianças poderosas. "Estamos interessadas em criar espaços colaborativos onde possamos trocar conhecimentos e participar da construção comunitária de forma harmoniosa e em sororidade", publicaram as integrantes da Rede no código de conduta do evento.

Jornalismo feminista sem receita

Uma conversa que se repetiu durante todo o encontro foi a importância da flexibilidade quando se trata de jornalismo feminista, já que não há manual ou diretrizes claras sobre o assunto.

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Participantes do evento Género en foco. Foto: Red de Periodistas Venezolanas.

O evento começou com um painel intitulado "Jornalista feminista, por quê?" com a participação de Catalina Ruiz-Navarro, cofundadora e diretora da Revista Volcánicas na Colômbia, e Laura Aguirre, cofundadora e diretora da Alharaca em El Salvador. Ambas concordaram que o jornalismo feminista está em constante estado de tentativa e erro.

"É muito importante, como jornalistas feministas, ser flexíveis. Se você é uma feminista consciente, você tem que estar aberta à discussão e à mudança constante porque este é um movimento que está em uma conversa permanente. Nunca existirá um manual estático que dure para sempre", disse Ruiz-Navarro.

A jornalista e cientista política venezuelana Estefania Reyes também falou sobre esse assunto durante sua apresentação 'O jornalismo será feminista ou não será'. Reyes disse que é difícil falar sobre jornalismo feminista porque ainda não temos uma bússola clara, nem existe uma receita para o que é jornalismo feminista.

"O que é feminista hoje, em 20 anos, pode não ser suficientemente feminista por não estar mais respondendo às exigências sociais daquela época", disse Reyes. "O jornalismo feminista implica esforços pessoais. Implica ser muito crítica, para não repetir discursos machistas e misóginos. Implica também uma transformação na forma como nos relacionamos conosco e com outras pessoas, reconhecendo que em nossas posições de poder e privilégio temos contribuído para sustentar desigualdades".

As mulheres faturam

Inspirando-se na canção recentemente lançada por Shakira e Bizarrap, o encontro discutiu a importância das mulheres jornalistas também ganharem dinheiro.

Three women speaking to a group of people

“Você tem que ser clara sobre seu propósito, o que te move, para que você possa monetizá-lo”, disse Carmen Riera.

"O jornalismo sempre teve estas perguntas: como rentabilizar [conteúdo] sem perder minha linha editorial. Essa é uma luta constante entre quem precisa vender e quem está resguardando sua linha editorial", disse a jornalista e cofundadora de El Bus TV, Laura Helena Castillo.

No painel, Castillo foi acompanhada pela jornalista venezuelana e consultora de transformação de meios Carmen Riera, com quem ela enfatizou e convidou as participantes a pensar sobre seu propósito. "Você tem que ser clara sobre seu propósito, o que te move, para que você possa monetizá-lo", disse Riera.

Ao mesmo tempo, elas recomendaram buscar alianças e colaborações, além de ser disciplinada e organizada ao receber dinheiro de bolsas e subvenções, pois isso lhe permitirá abrir portas para novos projetos.

Em relação ao dinheiro, as participantes também receberam conselhos sobre como apresentar um argumento e vender suas histórias para os meios. Isto foi apresentado por Eulimar Núñez, gerente editorial da Telemundo Noticias.

"Qualquer história pode ter um enfoque de gênero. Entretanto, eu gosto mais de olhar para isso como a possibilidade de contar histórias por uma lente através da qual vemos e escrevemos sobre qualquer tema", disse Núñez.

Bolsa de produção jornalística

Desde sua criação, a Rede identificou a formação como uma das maiores necessidades de suas integrantes. "Acreditamos que o treinamento pode fazer a diferença em nosso desenvolvimento profissional. E essas oficinas foram o resultado dessa preocupação", disse a jornalista venezuelana Maye Primera, que vive nos Estados Unidos, durante o encerramento do evento.

Além do treinamento, a Rede também procura apoiar e acompanhar novas gerações de jornalistas em suas investigações. É por isso que, como parte do evento, foram concedidas quatro bolsas de 300 libras esterlinas (360 dólares americanos) cada uma para apoiar jornalistas a reportar suas histórias.

As ganhadoras estarão trabalhando em temas como o impacto da seca na região venezuelana de La Guajira, explorando a sexualidade de adolescentes venezuelanas e as consequências familiares dos feminicídios, entre outros. As ganhadoras também receberão mentoria de integrantes da Rede.

Primera aproveitou a oportunidade para deixar uma tarefa para cada uma das participantes durante o encerramento do evento. Ela lhes pediu que encontrassem uma colega e se oferecessem para ajudá-las, "mesmo que seja apenas para ensiná-las a fazer um gráfico em Excel", disse Primera. "Ao estarmos juntas, estamos celebrando novas referências no jornalismo e isso me enche de alegria. Um jornalismo que reconhece virtude além da virilidade."

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