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Checadores latino-americanos se juntam à petição para que YouTube tome medidas efetivas contra desinformação

Screenshot of a verification by agency Colombiacheck

Verificação da Colombiacheck de vídeo do YouTube (Crédito: captura de tela)

Nos últimos dois anos, desde a pandemia da COVID-19, houve uma onda de informações falsas e enganosas na Internet. Redes sociais e sites estão repletos de discursos de ódio, movimentos antivacina, falsos remédios para doenças, acusações infundadas, entre outros. A plataforma de compartilhamento de vídeos YouTube tem sido a favorita dos desinformadores.

É por isso que 80 organizações independentes de checagem de fatos em mais de 40 países publicaram uma carta aberta à CEO do YouTube, Susan Wojcicki, em 12 de janeiro de 2022. "O YouTube é um dos principais canais de desinformação do mundo", diz a carta que induz a plataforma a tomar medidas eficazes contra informações falsas e enganosas, desenvolvendo um roteiro de intervenções que ajudariam a melhorar seu ecossistema de informações, lado a lado com organizações de verificação independentes e não partidárias.

Na América Latina, 11 organizações assinaram a declaração. Entre elas estão Animal Político-El Sabueso, do México; Aos Fatos e Agência Lupa, do Brasil; Bolivia Verifica; Cotejo.info, da Venezuela; Chequeado, da Argentina; Ecuador Chequea; La Silla Vacía e Colombiacheck, da Colômbia; e Fast Check CL, do Chile.

“Nós assinamos essa carta para buscar a abertura de um diálogo com o YouTube sobre a desinformação que circula na plataforma. Nosso objetivo é alertar e discutir os encaminhamentos que sugerimos na carta, de modo a contribuir para um ambiente online mais saudável”, disse Natália Leal, CEO da Agência Lupa, à LatAm Journalism Review (LJR).

Medidas insuficientes

De acordo com o YouTube, a forma como a plataforma lida com a desinformação é baseada em seus princípios dos “quatro Rs”: remover conteúdo que viole suas políticas; reduzir recomendações de conteúdo questionável; respaldar fontes confiáveis ​​ao relatar notícias e informações; e recompensar criadores de conteúdo confiáveis.

Além disso, em março de 2021, a porta-voz do YouTube, Elena Hernández, informou que o site havia removido mais de 30 mil vídeos que faziam alegações enganosas ou falsas sobre as vacinas contra a COVID-19 nos últimos seis meses. Ela, por sua vez, informou que, desde fevereiro de 2020, o YouTube havia removido um total de mais de 800 mil vídeos que continham informações erradas sobre o coronavírus.

O processo de exclusão de conteúdo audiovisual, disse Hernández na época, é feito por meio de um primeiro alerta dos sistemas de inteligência artificial da empresa ou por revisores humanos, e depois recebem um nível adicional de revisão.

No entanto, de acordo com os checadores da carta, o YouTube limitou o debate sobre desinformação "a uma falsa dicotomia entre excluir ou não excluir conteúdo".

“Temos dito à plataforma há anos que informações falsas estão circulando. As medidas tomadas por enquanto são limitadas, ainda mais na América Latina e fora da língua inglesa”, explicou à LJR Pablo M. Fernández, Diretor de Inovação e Comunicação de Chequeado, da Argentina.

As soluções propostas pelos verificadores para reduzir a disseminação de desinformação na plataforma de vídeo foram: primeiro, assumir um compromisso sério com a transparência, apoiando pesquisas independentes sobre a origem, escopo e impacto de diferentes campanhas de desinformação. Em segundo lugar, fornecer contexto ou desmonte de notícias falsas sobrepostos ao conteúdo ou como conteúdo de vídeo adicional. Terceiro, agir contra os desinformantes recorrentes e, por último, expandir os esforços em outros idiomas além do inglês.

“Estamos nos reunindo com o YouTube há anos para fazê-los reagir contra a desinformação que inunda sua plataforma e é financiada por ela. Acontece em todos os lugares, mas é especialmente dramático em países que não falam inglês e no Sul global. Os esforços que o YouTube fez até agora não estão funcionando: sabemos disso porque temos centenas de exemplos de vídeos sobre desinformação sobre COVID-19, vacinas e conspirações em todo o mundo que ainda estão ativas”, disse em um fio no Twitter Clara Jiménez Cruz, cofundadora da Maldita.es e membro europeu do Conselho Consultivo da International Fact Checking Network.

Casos relevantes na América Latina

A carta dá exemplos de desinformação no YouTube em todo o mundo, e a América Latina não fica de fora. No Brasil, a plataforma de vídeo tem sido usada para amplificar o discurso de ódio contra grupos vulneráveis ​​ou influenciar decisões políticas, segundo checadores de fatos.

Em outubro de 2021, circulou um vídeo em que uma mulher denunciava que o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) havia destruído casas no município de Santa Cruz do Capibaribe, em Pernambuco. A narradora sugere que esses imóveis foram destinados a famílias pobres e afirma ainda que essa ação foi realizada a mando do Partido dos Trabalhadores (PT). No entanto, tratava-se de uma informação falsa, conforme relatado pela Agência Lupa.

Verificação da Agência Lupa de vídeo do YouTube no Brasil (Crédito: captura de tela)

Verificação da Agência Lupa de vídeo do YouTube no Brasil (Crédito: captura de tela)

“Os casos de desinformação no Brasil estão intimamente relacionados à polarização política e à pandemia. Vão desde discursos contra as instituições democráticas, passando por informações falsas sobre o processo eleitoral e alegações de fraude nas eleições, e culminam em mentiras sobre a Covid-19 e vacinas, que têm grande impacto na vida real”, disse Natália Leal.

No caso da Colômbia, a equipe do Colombiacheck destaca dois casos particulares. Um deles é o canal do YouTube de Samuel Ángel, advogado, escritor e diretor executivo do Movimento de Católicos Solidariedade, que se tornou conhecido por suas posições contra o feminismo, a igualdade de gênero e o aborto.

Em maio de 2020, ele postou um vídeo sobre 'como a China espalhou o vírus pelo mundo' cheio de conteúdo impreciso. Continua online com mais de 50 mil visualizações, mas inclui apenas uma restrição de idade.

Outro é um vídeo publicado por uma conta com mais de 420 mil seguidores que foi verificado pelo Colombiacheck. O site de checagem de fatos concluiu que o vídeo usa um título enganoso e infundado para relatar uma acusação feita pelo chanceler venezuelano contra o presidente colombiano.

“No nosso caso, decidimos assinar a carta pela importância de 2022 como ano de eleições parlamentares e presidenciais na Colômbia. E porque durante os [últimos] três anos de protestos, conhecidos aqui como Greve Nacional, muitos vídeos de outros países e anos [em que foram filmados] circularam no YouTube, sobrecarregando nossa própria capacidade de checar tudo”, disse à LJR Jeanfreddy Gutiérrez, diretor do Colombiacheck.

No Chile, também foram relatados casos graves de desinformação no YouTube. Fabián Padilla, jornalista e fundador da Fast Check CL, disse que durante as últimas eleições presidenciais no país um grupo político postou vídeos na plataforma para desinformar e, por sua vez, muitas informações falsas sobre a vacinação contra a COVID-19 foram divulgadas através de redes negacionistas.

No Chile, um vídeo do Dr. Rodolfo Neira, conhecido por participar em programas de televisão, ganhou força. Neira mostrou no vídeo como um celular supostamente grudou no braço de uma mulher recentemente vacinada com Sinovac. Dessa forma, ele pretendia assegurar que as vacinas produzissem um efeito magnético.

Em outros países, como a Venezuela, não foram relatados casos proeminentes de notícias falsas no YouTube, mas consideram que esse é um problema que vem se espalhando pelo mundo. “Assinamos porque observamos que esse assunto é relevante em outros contextos e acredito que poderia abrir um precedente para a mídia independente questionar grandes plataformas. Somos solidários e esperamos que esta [carta] abra um diálogo entre o jornalismo e as plataformas”, disse Andrés Cañizales, diretor do Cotejo.info, à LJR.

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