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Com inteligência artificial, geojornalismo e jornalismo de dados, jornalistas evitam alguns dos perigos de cobrir a Amazônia

A Floresta Amazônica pode ser perigosa para quem quer mergulhar em suas entranhas, inclusive jornalistas. Os recentes assassinatos do correspondente do Guardian Dom Phillips e do indigenista brasileiro Bruno Pereira expuseram os riscos envolvidos na cobertura jornalística da Amazônia.

No entanto, existem meios, iniciativas e jornalistas que têm feito uso de metodologias, estratégias e ferramentas tecnológicas inovadoras para evitar os perigos ao cobrir esta vasta região dividida entre nove países.

Usando inteligência artificial, imagens de satélite, georreferenciamento e jornalismo de dados, jornalistas de Brasil, Colômbia e Venezuela desenvolveram importantes reportagens que abordam de forma abrangente alguns dos conflitos ambientais e sociais que ameaçam a Amazônia.

Portada del reportaje Corredor Furtivo en Armando.info

A série de reportagens “Corredor Furtivo”, de Joseph Poliszuk, foi publicada entre janeiro e fevereiro de 2022 em Armando.info e El País. (Foto: Captura de tela)

 

 

Um algoritmo que detecta minas e pistas ilegais

No estado venezuelano do Amazonas, considerado a reserva florestal do país, todos os tipos de mineração estão proibidos desde 1989. No entanto, nos últimos anos houve um aumento da atividade de mineração ilegal nessa área, com consequências que incluem a chegada do crime organizado e a transformação do tecido social da região.

Por ser um território extenso – só o estado do Amazonas tem uma superfície semelhante a de todo o Uruguai – e com múltiplas complexidades, Joseph Poliszuk, cofundador do site de jornalismo investigativo Armando.info, sabia que o fenômeno tinha que ser coberto de forma abrangente. No entanto, os múltiplos riscos que a Amazônia representa tornavam quase impossível iniciar uma investigação no terreno.

“Seria possível fazer o esforço de ir a um ou dois lugares, mas a ideia era transcender a denúncia e a crônica e ir além”, disse Poliszuk à LatAm Journalism Review (LJR). “Queríamos falar sobre um fenômeno e cobri-lo desde um lugar só era muito difícil. Por isso surgiu a ideia de inteligência artificial. Entendemos que era a única metodologia que nos permitiria transcender a denúncia e a crônica.”

Em colaboração com o El País e sob os auspícios da Rainforest Investigations Network do Pulitzer Center, Poliszuk e sua equipe usaram inteligência artificial, imagens de satélite e reportagem em campo para localizar dezenas de pistas de pouso ilegais, a maioria localizada perto de três mil minas e zonas de desmatamento.

Com a ajuda do Google Earth, a equipe de Poliszuk localizou manualmente em um mapa algumas pistas clandestinas cuja existência eles puderam confirmar graças a um trabalho de reportagem que remonta a 2016. No entanto, somente quando eles se aproximaram da organização norte-americana Earthrise Media, que dedica-se ao desenvolvimento de inteligência artificial, aprendizado de máquina e iniciativas de design para combater as mudanças climáticas, que levaram a investigação a outro patamar.

A Earthrise Media desenvolveu um algoritmo de análise de visão computacional de fotos de satélite que foi programado para detectar imagens semelhantes a capturas aéreas de minas e pistas que Armando.info incluiu em seu mapa manual.

“Com base nessas amostras, programamos um robô que nos permitiria buscar imagens semelhantes. Programamos este robô com base nos dados e imagens do satélite Sentinel 2 da Agência Espacial Europeia, que está no ar desde 2015", explicou Poliszuk.

Para detectar falsos positivos nos resultados retornados pelo algoritmo, o jornalista fez um exaustivo trabalho de revisão de imagens do Google Earth e das organizações que fornecem imagens de satélite e conteúdo geoespacial Planet DigitalGlobe, que puderam acessar graças ao apoio do Pulitzer Center.

“Não é que não tenhamos estado na área. Fomos a campo, mas agora tínhamos um mapa e não estávamos com os olhos vendados. É muito mais fácil ver as informações dessa maneira”, disse Poliszuk. “Não é como se isso fosse apenas um trabalho de tecnologia. A tecnologia nos permitiu ir a campo sem vendas nos olhos.”

Os dados obtidos foram reunidos na série de reportagens "Corredor Furtivo", publicadas entre janeiro e fevereiro deste ano tanto no Armando.info, da Venezuela, quanto no El País, da Espanha. As reportagens se destacam pela visualização de dados em mapas e cartografias, nas quais a participação do jornal espanhol foi fundamental, segundo Poliszuk.

Ao longo das seis matérias, os dados geolocalizados são contrastados com outras camadas de informação, como grupos irregulares (guerrilhas colombianas, máfias do ouro e grupos criminosos brasileiros) presentes na Amazônia venezuelana, bem como com a relação desses grupos com as comunidades indígenas na área.

"Corredor Furtivo" demonstrou como a tecnologia pode ajudar a contornar os perigos de fazer reportagens na Amazônia, embora para Poliszuk, o impacto mais transcendental do projeto foi que as Forças Armadas Nacionais Bolivarianas, que nunca haviam admitido a presença de pistas clandestinas apesar de múltiplas denúncias de habitantes da área, finalmente em maio deste ano dinamitaram algumas dessas estruturas.

“Essas denúncias estavam nos órgãos estatais há anos e não davam crédito às denúncias dos indígenas”, disse Poliszuk. “De cima foi fácil ver o que eles denunciam há anos.”

Usando uma metodologia semelhante à utilizada por Armando.info, o jornalista freelancer brasileiro Hyury Potter, especializado em corrupção e meio ambiente, também se uniu à EarthRise Media para usar o mesmo algoritmo para detectar pistas ilegais na Amazônia brasileira.

Também como parte da Rainforest Research Network, Potter também conseguiu cruzar os resultados do algoritmo com dados sobre desmatamento, requisitos de mineração e registros legais de pistas de pouso do Brasil obtidos via transparência.

Como resultado, Potter publicou o projeto “Pistas do Desmatamento: A Expansão da Mineração Ilegal na Amazônia”, uma série de reportagens publicadas no site The Intercept entre setembro de 2021 e fevereiro de 2022, sobre os impactos ambientais relacionados à existência de pistas clandestinas.

“Qualquer coisa que pareça uma pista no meio de vegetação, entre 200 e 600 metros de comprimento, o algoritmo detecta e adiciona aos dados”, explicou Potter à LJR. “Nosso trabalho nos últimos sete meses foi verificar os dados [visualmente]. Separamos quais dessas pistas são legais, registradas no Brasil, segundo dados da Agência Brasileira de Aviação, depois carregamos os dados e excluímos todas as pistas que já estavam registradas.”

Ao final da série, Potter descobriu que existem cerca de 1.300 pistas ilegais no território amazônico do Brasil.

"Há mais pistas ilegais na Amazônia brasileira do que pistas registradas pelo governo, esse é um número muito chocante", disse ele.

A Amazônia em suas justas dimensões com o geojornalismo

Os dados obtidos com inteligência artificial e fontes tradicionais nas reportagens de Poliszuk e Potter sobre pistas ilegais foram localizados e contrastados em mapas. Esse georreferenciamento, segundo os jornalistas, ajudou significativamente a localizar os fenômenos da Amazônia em sua justa dimensão, por se tratar de um território tão vasto.

"Juntar ciência geográfica com jornalismo tem essa vantagem: permite olhar para escalas de tempo e espaço sobre temas amplos, em vez de apenas narrar um evento a partir de uma perspectiva de campo", disse à LJR Gustavo Faleiros, jornalista especializado em geojornalismo e coordenador da Rainforest Investigations Network. “Não é questão de tirar o mérito da perspectiva de campo, mas realmente é uma questão de geografia. É uma questão de perspectiva: você olha de uma perspectiva do solo ou pode olhar de uma perspectiva mais ampla."

Após o uso do algoritmo nas investigações de Armando.info e The Intercept, o Pulitzer Center e a Earthrise Media formaram uma aliança e criaram o Amazon Mining Watch, um aplicativo web lançado em abril deste ano, que busca monitorar o estado da atividade de mineração em toda a floresta amazônica.

Graphic from The Intercept Brasil's report on illegal mining in the Amazon

Hyury Potter, autor da série "Pistas do Desmatamento", passou cerca de sete anos estudando dados georreferenciados e mapas para entender como investigar a Amazônia. (Foto: Captura de tela)

Em sua versão beta, a plataforma, disponível em inglês, espanhol e português, localiza as regiões de mineração detectadas pelo algoritmo em um mapa interativo, embora se espere que no futuro possa ser alimentada com dados de outras investigações jornalísticas e de ONGs, e que possam ser adicionadas informações sobre outros fenômenos ambientais na região.

Seu objetivo é que jornalistas, ativistas e pesquisadores possam utilizar informações georreferenciadas para contextualizar e validar suas investigações. A plataforma é de código aberto e sua metodologia está disponível através do GitHub.

“Para manter a cobertura [na Amazônia] por muito tempo vamos precisar de aplicativos como este, e não só para mineração, pode ser usado também para monitorar as mudanças climáticas, porque serão questões que vão continuar por décadas”, disse Faleiros. “Acredito que as informações de satélite ou geográficas sempre serão muito centrais nas investigações ambientais.”

Antes de “Pistas do Desmatamento”, Potter passou quase sete anos estudando dados e mapas georreferenciados para entender como investigar a Amazônia. Seu primeiro projeto de investigação jornalística com dados georreferenciados foi o “Amazonía Minada”, publicado no InfoAmazonia, que consiste em um mapa que atualiza em tempo real os requisitos para realizar atividades de mineração no Brasil que possam afetar comunidades indígenas.

A plataforma reúne os requisitos da Agência Nacional de Mineração do Brasil. Toda vez que um novo pedido é protocolado em terras indígenas ou áreas protegidas, um bot do Twitter publica o nome do solicitante, a área ameaçada, o tipo de mineral e a situação atual do processo. Além disso, o mapa é atualizado diariamente com os dados agregados às bases de dados da Agência, que são georreferenciados.

"É um projeto muito simples, mas muito grande", explicou Potter. “Fizemos mais de 10 reportagens com esses dados, porque encontramos grandes mineradoras internacionais e políticos ligados a essas requisições, então há muito a dizer sobre isso”.

InfoAmazonia tem vasta experiência na produção de ferramentas e investigações jornalísticas baseadas em geojornalismo, que, nas palavras de Gustavo Faleiros, consiste em criar um diálogo entre camadas de dados e camadas de histórias, onde esses dados fornecem algum tipo de contexto às histórias.

Faleiros, cofundador da InfoAmazonia, compartilhou sua experiência nessa área com bolsistas da Rainforest Investigation Network do Pulitzer Center, treinando-os para realizar investigações com dados georreferenciados, análises geoespaciais, além do uso de imagens de satélite e mapas interativos.

“O trabalho de campo obviamente é essencial, mas unir esse trabalho de campo com uma visão mais ampla de um território pode tornar essas investigações bastante poderosas”, disse Faleiros. “Com este tipo de three-pack que inclui trabalho de campo rigoroso, trabalho de dados – que é em grande parte análise geoespacial – e colaboração transfronteiriça e transnacional, esta iniciativa [da Rede] foi criada, que segue o trabalho com base nestes três pilares”.

Jornalismo de dados e informação pública a serviço da floresta

Além da mineração, outra atividade primária que causa desmatamento significativo na floresta amazônica é a pecuária.

O jornalista colombiano César Molinares abordou a questão da pecuária como causa do desmatamento por meio do jornalismo de dados. Seu projeto "Catching the Big Fish Destroying Colombia’s Amazon" buscou investigar como as cadeias produtivas das grandes indústrias se beneficiam do desmatamento indiscriminado que é realizado para realizar a pecuária extensiva.

As reportagens que compõem a série, publicadas no meio digital 360-grados.com, são baseadas em dados obtidos por meio de solicitações de acesso a informações públicas. Esses dados foram analisados ​​e apresentados por meio de visualizações que contrastam a movimentação do gado com os pontos mais afetados pelo desmatamento.

“Quando se fala em desmatamento, sempre se fala em abstrato [...]. Usamos dados para nos aproximarmos de onde os fenômenos de desmatamento estão ocorrendo”, disse Molinares à LJR. “O que fizemos com esses dados foi georreferenciá-los e cruzá-los com outros bancos de dados de desmatamento, degradação do solo e fotografias de satélite, e foi assim que começamos a localizar o gado”.

O primeiro artigo da série, “El ganado acorrala a la Amazonía”, revela por meio de um mapa interativo a relação entre os registros de vacinação do gado e as regiões da Colômbia com mais desmatamento.

Embora pecuaristas em áreas protegidas da Amazônia não declarem a existência de seus rebanhos, para poder exportar produtos derivados, suas vacas devem ser vacinadas. Com esses registros públicos georreferenciados de gado vacinado, Molinares e sua equipe puderam comprovar a existência de rebanhos ilegais em parques protegidos.

“Com este projeto, César [Molinares] foi um dos primeiros jornalistas na Colômbia a colocar as mãos em dados de saúde animal. Assim, ele pôde verificar que mesmo sendo ilegais, os rebanhos de gado estavam recebendo vacinas nos parques nacionais”, disse Faleiros.

As visualizações dos dados foram realizadas pelo Centro Latino-Americano de Investigação Jornalística (CLIP) com o apoio técnico da Fundação para a Conservação e Desenvolvimento Sustentável, que tem experiência em georreferenciamento e identificação de núcleos de desmatamento. O projeto também foi apoiado pela Rainforest Investigation Network do Pulitzer Center.

Reportaje de visualización de datos de 360-grados.co sobre la ganadería ilegal en la Amazonía

Graças à análise de dados e à visualização em mapas, César Molinares pôde fazer uma reportagem em campo mais dirigida e concentrada em pontos específicos da floresta. (Foto: Captura de tela)

Graças à análise dos dados e à visualização em mapas, Molinares conseguiu fazer uma investigação em campo mais direcionada e focada em pontos específicos da floresta, onde conversou com os habitantes para saber se eles estavam cientes do que estava acontecendo. Dessa forma, constataram que havia uma relação entre os dados sobre a pecuária ilegal e episódios de violência em alguns territórios.

“Creio que na Colômbia não havia investigações que vinculassem os dados a fenômenos sociais ou de violência nos territórios”, disse o jornalista. “Quando você georreferencia, você começa a identificar conflitos socio-ambientais, sociais ou conflitos em geral por questões de terra.”

Molinares acrescentou que o contraste de dados permitiu identificar atores e casos derivados de atividades pecuárias ilegais na Amazônia, como assassinatos de líderes ambientais e guardas florestais que começaram a documentar casos de desmatamento. Esses casos estão dando lugar a novas reportagens que estão em andamento.

O jornalismo de dados ajuda a realizar investigações de forma mais intuitiva e focada, segundo Molinares. Por isso, tem se dedicado a desenvolver uma estratégia de acesso à informação para aproveitar as brechas legais e evitar obstáculos que se colocam nas dependências para não entregar a informação.

“O argumento que estabelecemos, e já vencemos várias batalhas jurídicas, é que como [a Amazônia] é uma questão de interesse público em que deve haver transparência e acesso à informação, os dados não devem ser reservados”, afirmou. “Então enfrentamos várias batalhas jurídicas nas quais conseguimos estabelecer um precedente para que os entes estatais entregassem as informações.”

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