Após 20 anos cobrindo a área de segurança pública, a jornalista Cecília Oliveira afirma que o problema não é a informação, mas sim a vontade política.
Cecília Olliveira, jornalista, foi recentemente chamada para uma oitiva na Comissão Parlamentar de Inquérito do Crime Organizado, no Senado Brasileiro. O objetivo era ouvir a repórter sobre estratégias para conter o avanço das facções e das milícias no Brasil.
Durante a entrevista aos senadores, Olliveira explicou seus posicionamentos sobre a integração entre as polícias, o combate aos braços econômico e político do crime, além da obrigatoriedade do uso de câmeras corporais em ações policiais.
Há mais de 20 anos Olliveira cobre segurança pública no Brasil, escrevendo reportagens de impacto, escrevendo livros — e ajudando a pesquisar outros — dando entrevistas no Brasil e no exterior e, ajudando a pautar o tema no país onde a segurança é uma das maiores preocupações do cidadão.
Mineira radicada no Rio de Janeiro, a repórter também é co-fundadora do The Intercept Brasil e fundadora do Instituto Fogo Cruzado, que mantém um banco de dados abertos sobre a violência armada da América Latina.
Como parte da série 5 perguntas, LatAm Journalism Review (LJR) conversou com Olliveira sobre sua cobertura extensa de segurança pública, as limitações e idiossincrasias desta especialidade, projetos paralelos como o Fogo Cruzado e as costuras entre crime e poder que permeiam o Brasil. A entrevista foi editada para maior concisão e clareza.
Estar em Brasília para um debate como este reforça algo que eu venho mostrando tanto no meu trabalho jornalístico quanto no livro “Como nasce um miliciano”, não existe separação real entre crime organizado e política no Brasil — o que existe é uma relação estrutural entre eles. No livro, eu parto justamente dessa ideia de que a linha entre Estado e crime vai se dissolvendo ao longo do tempo, até o ponto em que eles passam a operar de forma entrelaçada, em um novo modo de funcionamento. Por isso frisei que a milícia não é um “poder paralelo”. Ela é o próprio Estado operando em benefício de grupos criminosos, muitas vezes com participação direta de agentes públicos e de pessoas eleitas.
E isso se traduz em uma falta de ação que afeta todo o país de forma muito trágica e dolorosa. A CPI revelou — mais uma vez — que não é falta de informação sobre o crime, mas a dificuldade (ou falta de interesse) de transformar esse conhecimento em política pública que nos trouxe até aqui.
Em minha fala de abertura na sessão, frisei que o Brasil investiga há décadas o crime organizado, produz diagnósticos, levanta dados — mas não age sobre eles. Pontuei, inclusive, que hoje estamos lidando com as consequências destas omissões.
O fim deprimente da CPI —que acabou em meio a jogadas políticas muito baixas, com troca de membros e rejeição do texto final — deixa claro que não há interesse em resolver o problema, mas apenas o usar como plataforma política para angariar votos e barganhar poder.
A centralização do jornalismo no Sudeste não é só geográfica, é também epistemológica. A forma como o Brasil entende crime e segurança pública ainda é muito moldada por experiências do Rio e de São Paulo, que acabam sendo tratadas como padrão nacional. O problema é que isso invisibiliza dinâmicas completamente diferentes. O Norte e o Nordeste, por exemplo, têm rotas internacionais, disputas territoriais e econômicas ilegais que operam em outra escala e lógica. Quando essas regiões não têm cobertura estruturada, o país inteiro perde capacidade de compreender o fenômeno.
Descentralizar passa, primeiro, por redistribuição de recursos, financiamento, bolsas, editais, redações regionais fortalecidas. Mas passa também por reconhecer que o conhecimento já existe fora dos grandes centros. Não se trata de “levar jornalismo”, mas de parar de ignorar quem já está produzindo.
O Fogo Cruzado, quando se expande para monitorar outras cidades, mostra isso: quando você cria infraestrutura de dados, você não só melhora a cobertura — você muda quem pode produzir essa cobertura. Dados abertos são uma ferramenta de descentralização. E, por fim, há uma questão editorial. Enquanto o jornalismo continuar reagindo a crises e não estruturando cobertura contínua, ele vai continuar concentrado. E aqui entramos na seara de um outro debate, sobre sucateamento de redações e da profissão - que tem grande impacto no tipo de cobertura que temos, especialmente fora do sudeste, muitas vezes considerados “muito caros” e/ou de “pouca relevância".
O Fogo Cruzado nasce de um incômodo profundamente jornalístico: a percepção de que a gente estava narrando violência sem conseguir dimensioná-la.
No jornalismo tradicional, você muitas vezes trabalha com casos — e casos têm uma potência narrativa enorme, mas eles também podem distorcer a percepção se não forem contextualizados. O Fogo Cruzado me deu escala. Me obrigou a olhar padrão, recorrência, território, temporalidade.
Isso muda completamente a forma de apurar e de escrever. Você deixa de perguntar só “o que aconteceu?” e passa a perguntar “por que isso continua acontecendo?” e “quem se beneficia dessa continuidade?” Ao mesmo tempo, o jornalismo foi essencial para o Fogo Cruzado não virar só uma plataforma de dados. Dados não se traduzem sozinhos. Eles precisam ser interpretados, tensionados, colocados em disputa.
O que eu faço é justamente essa ponte: transformar dado em narrativa pública. E, ao mesmo tempo, usar a narrativa para pressionar por uso desses dados em políticas públicas. É uma relação de retroalimentação que se traduz na maior base de dados sobre violência armada da América Latina, aberta para jornalistas, pesquisadores, gestores e para quem tem interesse entender melhor porque as coisas são como são.
O primeiro passo é romper com a ideia de que segurança pública é um tema técnico restrito às forças policiais. Isso não é verdade — segurança pública é, antes de tudo, uma agenda de direitos. Quando uma escola fecha por causa de operação, isso é educação. Quando uma pessoa não consegue circular pela cidade porque as ruas estão fechadas por causa de tiroteio, isso é mobilidade. Quando uma família vive sob ameaça constante, isso é saúde mental. O crime não é só um evento — é uma condição que reorganiza a vida das pessoas. O problema é que o jornalismo ainda opera muito preso à lógica da ocorrência: o que aconteceu, quem morreu, quem foi preso. Isso reduz o fenômeno e, muitas vezes, reproduz a narrativa oficial. O “por que” fica para trás, escondido no simplismo que a urgência dos nossos dias demanda.
Mudar isso passa por três coisas: ampliar fontes, mudar linguagem e aprofundar contexto. Ampliar fontes significa ouvir quem vive o impacto da violência — e não só quem a combate. Mudar a linguagem significa parar de tratar determinadas populações como suspeitas permanentes e revitimizar pessoas. E aprofundar o contexto significa mostrar que o crime está ligado a políticas públicas, economia, desigualdade, racismo. E isso não é simples. Exige debate sobre as prioridades do jornalismo, de sua função social e de como está atrelado ao modelo de negócios e interesses individuais de proprietários de veículos, que não raro, são pessoas com cargos eletivos ou de famílias com tradição histórica na política.
Foi um processo — e, na verdade, uma necessidade. Eu estava há pouco tempo na profissão quando o Twitter se consolidou no Brasil. Para mim, que estava de mudança para o Rio, foi essencial para fazer novas fontes. Ali também era o lugar primordial para que suas matérias alcançassem maior visibilidade, chegasse a um público muito maior. Antes de se tornar um lugar com tanto discurso extremista, o Twitter foi uma plataforma muito importante de debates e trocas de ideias.
Durante muito tempo, o jornalismo investigativo falou principalmente para públicos já convencidos ou especializados. Só que, quando você trabalha com segurança pública, você percebe que existe uma disputa muito forte de narrativa no espaço público — e que, muitas vezes, as explicações mais simplistas ganham porque são mais fáceis de circular.
As redes sociais surgem como um espaço de intervenção nisso. Não no sentido de simplificar o conteúdo, mas de torná-lo acessível sem perder complexidade.
Os vídeos, por exemplo, são uma tentativa de traduzir temas que são densos — como política de segurança — em uma linguagem direta, quase didática. É um exercício constante de síntese, mas isso não veio pronto. Foi aprendizado de linguagem, de formato, de ritmo. E também um entendimento de que presença pública tem custo — exposição, ataques, tentativa de deslegitimação.
Hoje, eu vejo as redes como extensão do meu trabalho jornalístico. Não substituem a investigação, não substituem a reportagem, mas ampliam o alcance e, principalmente, permitem disputar interpretação e contribuir com o debate.