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Nova associação quer criar cultura de produto em redações jornalísticas ao redor do mundo

Qual deve ser a primeira ação de uma associação criada para reunir profissionais de produto das redações do mundo? Para quem atua nesta área, a resposta é clara: ouvir dos clientes que, neste caso, são potenciais associados quais as suas necessidades e buscar atendê-las da melhor forma possível.

É isso que está fazendo a recém-criada News Product Alliance (NPA), que tem o objetivo de promover e acelerar a cultura de produto nas redações do mundo: uma pesquisa com interessados que se inscrevem através do site da associação, lançado no final de setembro.

“Você reúne um monte de profissionais de produto e nenhuma decisão vai ser tomada sem antes se ter dados do usuário,” disse à LatAm Journalism Review Marco Túlio Pires, que lidera no Brasil o Google News Lab e faz parte do comitê gestor interino da NPA. “A primeira coisa que você faz é escutar o seu usuário, numa espécie de turnê auditiva para desenhar os próximos passos.”

News Product Alliance quer reunir profissionais de produto que atuem nas redações do mundo para trocar experiências, estabelecer parcerias e acelerar a adoção da mentalidade de produto por jornalistas

A abordagem orientada a produtos se notabilizou nas empresas de tecnologia, como o Google, e hoje é empregada em diversos setores da economia. “A gerência de produto é uma função central na indústria de tecnologia, onde ela desempenha um papel essencial na mediação da experiência do usuário e das necessidades de negócios, mas sua adoção em  redações tem sido mais limitada,” diz o comunicado de apresentação da NPA. 

Marco Túlio Pires, Google News Initiative: "Entre as empresas jornalísticas que estão sendo mais bem sucedidas na transição digital, a maior parte tem uma estratégia de produtos sólida".

Marco Túlio Pires, Google News Initiative: "Entre as empresas jornalísticas que estão sendo mais bem sucedidas na transição digital, a maior parte tem uma estratégia de produtos sólida".

“Tem uma questão que é a separação da Igreja e do Estado [editorial e comercial, no jargão das redações], um princípio estrutural que serviu bem ao jornalismo por muito tempo, mas se você analisar empresas que estão sendo bem sucedidas na transição digital, a maior parte tem uma estratégia de produtos sólida,” disse Pires. “Não significa que o jornalista precisa se tornar vendedor, mas determinadas posições precisam ser híbridas para conectar as partes dentro de uma organização”.

É o que Luciana Cardoso faz no Estadão, um dos três principais jornais diários de abrangência nacional do Brasil, como diretora de estratégias digitais. Segundo ela, um dos pontos de partida é identificar quem é o profissional com funções de gerência de produto na organização ele provavelmente já existe, mas com outro nome.

“Eu entrei no Estadão em 2011 na área de projetos e só em 2017 começamos a usar a terminologia ‘produto’ para descrever o nosso trabalho”, disse Cardoso à LJR. Ela também faz parte do comitê gestor interino. “Ainda tem muita gente [em organizações de imprensa] que trabalha como produto e não sabe. Essa é uma dificuldade que eu tenho de encontrar pares para trocar ideias e avançar na disciplina.”

Com a NPA, o objetivo é criar uma comunidade global de profissionais de produto jornalístico para troca de experiências e aprendizado que resulte em maior sustentabilidade financeira para a indústria jornalística. Uma das conclusões iniciais da pesquisa, que ainda está coletando dados, é que há busca por mais conhecimentos nesta área.

Luciana Cardoso, Estadão: "“Ainda tem muita gente [em organizações de imprensa] que trabalha como produto e não sabe".

Luciana Cardoso, Estadão: "“Ainda tem muita gente [em organizações de imprensa] que trabalha como produto e não sabe".

“A gente já sentia que [esta demanda] seria forte. E comprovamos,” disse Cardoso. Ela explicou como a abordagem de produto está sendo usada na construção da própria associação: “A gente tem de saber o que importa para aquele usuário final [o associado] e  tirar as nossas crenças e olhar os dados. Senão a gente nasce com o produto definido da nossa experiência.”

Segundo Pires, mais do que discutir o papel e a atuação dos profissionais de gerência de produtos nas redações, a NPA busca uma mudança de mentalidade e visão, com foco na audiência: “Toda redação precisa focar no leitor, não aprendemos na escola de jornalismo como identificar as necessidades do usuário e transformamos soluções em produtos úteis que ele esteja disposto a pagar”.

Uma das primeiras iniciativas da NPA, através do Google News Initiative, News Catalyst e J+, da Faculdade de Pós-Graduação em Jornalismo Craig Newmark, da Universidade da Cidade de Nova York (CUNY, na sigla em inglês), é um treinamento imersivo em gerência de produto para redações de pequeno porte localizadas nas Américas do Sul, Central e do Norte. As inscrições estão abertas até 11 de novembro.

Comitê gestor interino da News Product Alliance

Comitê gestor interino da News Product Alliance

Em julho, dois membros do comitê gestor interino da NPA participaram do painel “Gerenciamento de produtos: como as organizações de notícias podem se tornar mais orientadas ao público, a dados e focadas em produtos” durante o Simpósio Internacional de Jornalismo Online (ISOJ, na sigla em inglês): Aron Pilhofer, ocupante da cadeira James B. Steele de Inovação em Jornalismo da Temple University e diretor do News Catalyst, e Cindy Royal, professora e diretora do Media Innovation Lab, Texas State University. Os participantes concordaram que uma redação voltada para produtos pode abrir novas fontes de receita para o jornalismo.

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