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Pesquisa do Centro Knight revela interesse por jornalismo investigativo na América Latina, mas pouca capacitação

  • Por Guest
  • 20 dezembro, 2013

Por Magdalena Saldaña*

Apesar do interesse que os jornalistas latino-americanos mostram pela prática do jornalismo investigativo, existe uma importante falta de capacitação profissional nas escolas de jornalismo e de recursos para exercê-lo nas redações da região, segundo revelou uma recente pesquisa produzida pelo Centro Knight para o Jornalismo nas Américas.

A pesquisa foi enviada a  9.900 jornalistas, professores de jornalismo e estudantes de 20 países da América Latina que recebem o boletim de notícias do Centro Knight ou participaram em nossos cursos e atividades. O objetivo foi estudar tanto o estado do jornalismo investigativo na América Latina como as técnicas de reportagem investigativa ensinadas nas escolas de jornalismo e comunicação da região.

72% dos quase 1.600 jornalistas que responderam a pesquisa participa de projetos investigativos de maneira contínua ou esporádica; contudo, só 27% trabalha em meios com equipes dedicadas exclusivamente à investigação jornalística. Quanto a suas percepções sobre a prática deste ramo do jornalismo, 73% dos entrevistados pensam que em seu país se exerce o jornalismo investigativo, mas só 43% acreditam que os meios de comunicação se preocupam em fazer este tipo de jornalismo.

Consultados acerca do ensino do jornalismo investigativo em seus respectivos países, os entrevistados deram uma nota média de 3,8 à qualidade do ensino em uma escala de 1 a 7, embora esta avaliação seja ligeiramente mais alta entre os professores da área (4,3). A falta de profissionalização e a carência de recursos nos veículos foram mencionadas como os maiores problemas enfrentados hoje pelo jornalismo investigativo.

A prática investigativa nos meios de comunicação

Para 95% dos participantes, fazer jornalismo de investigação outorga prestígio aos meios; entretanto, parece que a mídia não está disposta a profissionalizar a área. A grande maioria das organizações não conta com unidades especialmente dedicadas ao jornalismo de investigação, e só 15% dos jornalistas destacaram que o manual de redação de seu veículo inclui políticas relativas ao jornalismo investigativo (sem mencionar que 50% indicaram que seu meio não conta com um manual de redação formal).

Estes números revelam que os jornalistas, embora realizem jornalismo de investigação, o fazem em condições precárias. A formação profissional na área é mínima, e baseada principalmente no que os jornalistas aprenderam por sozinhos e/ou observando seus colegas. Só 27% fizeram um curso de especialização em jornalismo de investigação, e menos de um terço aprendeu técnicas investigativas na graduação.

O caso dos meios com equipes especializados parece ser diferente. Mais da metade dos que trabalham nestas equipes observou que seu veículo ganhou ao menos um prêmio pelos projetos investigativos realizados, e as equipes costumam ser multidisciplinares, integrando outros profissionais que colaboram com os jornalistas durante suas investigações. Em geral, trata-se de equipes de dois a quatro pessoas que trabalham em mais de um projeto simultaneamente.

Entre os recursos mais utilizados ao trabalhar em projetos de investigação, os jornalistas mencionaram documentos entregues por fontes e/ou informantes, sites, e documentos públicos obtidos por mecanismos legais. Além das técnicas habituais de reportagem, os jornalistas mencionaram o acesso e download de dados entre as técnicas mais utilizadas para a prática do jornalismo de investigação, e as menos utilizadas são as técnicas matemáticas de análise de dados.

Jornalismo investigativo nas aulas

64% dos entrevistados pensam que o jornalismo de investigação deveria ser considerado um gênero distinto de outros gêneros jornalísticos, embora este porcentual seja menor entre os docentes da área (58%).

Praticamente todos os docentes indicaram que suas respectivas instituições ensinam jornalismo investigativo a seus estudantes, seja como um curso obrigatório (42%), opcional (8%) ou como parte dos conteúdos de outras disciplinas (43%). A maioria das escolas convida jornalistas reconhecidos no campo da investigação para dar conferências ou aulas especiais para os estudantes; contudo, só 9% dos docentes disseram que suas instituições oferecem alguma especialização em jornalismo investigativo.

Os estudantes, por sua vez, destacaram como “muito importante” aprender a fazer jornalismo de investigação, e 66% indicou que sua instituição oferece conteúdos de jornalismo investigativo em distintas aulas.

Conflitos éticos

A pesquisa também consultou os participantes sobre suas opiniões a respeito de uma série de práticas que podem ser consideradas antiéticas no exercício do jornalismo investigativo. Comparando o resultado entre jornalistas, professores e estudantes, as maiores diferenças se registraram quanto ao uso de microfones ou câmaras ocultas, fingir ser outra pessoa e revelar a identidade de uma fonte.

Apesar de, em média, todos os entrevistados pensarem que essas práticas não são justificáveis​​, os alunos foram os mais propensos a justificar algumas delas. Por exemplo, 16% dos alunos acham que o uso de câmeras ou microfones ocultos é sempre uma prática justificável, em comparação com 9% dos jornalistas e 4% dos professores que responderam a mesma pergunta. Quanto a se passar por outra pessoa, 10% dos estudantes concordam, contra 6% dos jornalistas, e apenas 2,9% dos professores. Por fim, apenas 1,6% dos jornalistas, e 1,8% dos professores justificam revelar a identidade de uma fonte, em comparação com 4,4% dos estudantes.

A emergência das redes sociais

As chamadas redes sociais entraram com força na América Latina, e o jornalismo investigativo não passa sem ser afetado por isto. De acordo com os jornalistas, as redes sociais são espaços úteis para fazer jornalismo investigativo e especialmente para descobrir os temas que as pessoas comentam. A maioria tem autonomia para decidir investigar ou publicar informação encontrada nas redes sociais sem perguntar antes a seu editor, e só 28% afirmou que seu meio conta com políticas de uso das redes sociais. Isto revela que, embora o uso destas redes seja alto entre os profissionais da imprensa, não é oficialmente regulado no interior das organizações.

Este projeto de pesquisa foi realizado por uma equipe de pesquisadores do Centro Knight para o Jornalismo nas Américas composto por Rosental Alves (principal pesquisador, Universidade do Texas em Austin), Amy Schmitz Weiss (Universidade do Estado da Califórnia em San Diego), Vanessa Higgins Joyce (Universidade do Estado do Texas em San Marcos) e Magdalena Saldaña Villa (Universidade do Texas em Austin).


Ficha Técnica

População:
Jornalistas, professores e estudantes de jornalismo da América Latina vinculados ao Centro Knight (assinantes da newsletter; participantes de cursos e outras atividades).

Coleta de dados:
Pesquisa online em espanhol e portugués enviada por e-mail entre 26 de setembro e 10 de outubro de 2013.

Participantes:
Jornalistas (1.146); professores (277); estudantes (163). Total: 1.586.

Participantes segundo países de origem:

Brasil 383 Costa Rica 54 Honduras

15

México 365 Equador 50 Rep. Dominicana

15

Argentina 173 Guatemala 40 Uruguai

15

Colômbia 162 Bolívia 32 Panamá

12

Peru 133 El Salvador 21 Cuba

5

Venezuela 125 Nicarágua 21 Porto Rico

2

Chile 115 Paraguai 17    

* Magdalena Saldaña é estudante de doutorado na Universidade do Texas em Austin.

Nota do editor: Essa história foi publicada originalmente no blog Jornalismo nas Américas do Centro Knight, o predecessor do LatAm Journalism Review.

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