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Projeto de checagem Coar foca em desertos de notícias do Norte e Nordeste do Brasil

A acessibilidade é chave para a Coar, um projeto de checagem com foco no Nordeste e Norte do Brasil, regiões onde é maior a incidência de cidades sem veículos de jornalismo -- os desertos e os semidesertos de notícias. Com recursos limitados, a Coar aposta em parcerias com rádios, TVs e portais regionais para amplificar checagens e chegar a um público mais amplo.

A Coar surgiu em 2020 e teve como inspiração um caso ocorrido seis anos antes: a morte de Fabiane Maria de Jesus. A mulher foi linchada por vizinhos depois de ser vítima de uma informação falsa compartilhada no Facebook que atribuía a ela o sequestro e assassinato de crianças. Quatro pessoas estão presas pelo crime.

“Quando eu vi este caso, eu me emocionei. Imaginei que poderia ser minha mãe. Queria de alguma forma ajudar as pessoas que não podem se defender,” disse à LatAm Journalism Review a fundadora e diretora da Coar, Marta Alencar. “A minha mãe não sabe ler, então o meu propósito da Coar é que a minha mãe e pessoas como ela, que não conseguem ler, possam também acessar as checagens, ouvindo o áudio.”

Sediado no Piauí, um dos estados mais pobres do Brasil, a Coar conta com uma equipe de sete pessoas, todas voluntárias sem remuneração fixa, e nenhuma se dedica ao projeto em tempo integral. Apesar disso, produzem 12 checagens originais por mês e dois episódios de podcast por mês -- o E-Coar, e abastecem quatro rádios, uma TV e três portais de notícias parceiros com 15 boletins em áudio ou vídeo.

Equipe da COAR comemora seleção para projeto Acelerando a Transformação Digital

Equipe da Coar comemora seleção para projeto Acelerando a Transformação Digital (Crédito: cortesia Coar)

“Essas parcerias representam o empenho da Coar em levar educação midiática para os veículos assim como o intuito de levar checagens sobre informações distorcidas, fora de contexto ou boatos, que os veículos não tiveram tempo de checar, e a Coar preenche esse espaço no Nordeste,” disse Marta Alencar.

Norte e Nordeste são as regiões do Brasil mais afetadas pelos desertos de notícias, com 63% e 62% das cidades sem veículos locais. O principal foco são rumores e golpes que se espalham pelas redes sociais que podem levar a consequências perigosas no mundo real.

“Por mais que chequem declarações [de políticos e autoridades], as agências de checagem pouco verificam boatos sem conotação política que circulam pelas redes, como o que vitimou Fabiane. E eu noto que, principalmente no Nordeste, rola muita boataria. Por isso é importante darmos nossa contribuição e fazer um trabalho de checagem aqui,” explicou Alencar.

O projeto foi um dos 80 selecionados pelo programa “Acelerando a Transformação Digital”, da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), da Meta (Facebook) e do Centro Internacional para Jornalistas (ICFJ). Os participantes receberam mentoria com especialistas durante três meses, de maio a julho deste ano, e contam com apoio financeiro de até US$ 2.500 cada um -- o dinheiro serviu para remunerar parte do trabalho da equipe.

Crianças da ONG Brincando com os Livros têm aulas mensais de checagem com a COAR. Créditos Nara Monte.

Crianças da ONG Brincando com os Livros têm aulas mensais de checagem com a Coar. (Crédito: Nara Monte)

Antes disso, entre novembro de 2021 e fevereiro de 2022, o projeto ficou paralisado por falta de recursos. “A gente tem lutado para manter o projeto com um alcance maior, checar mais, mas toda a equipe trabalha [em outros lugares] e as pessoas têm seus compromissos profissionais remunerados,” disse Alencar.

Eventos e Educação Midiática

Para se manter financeiramente, a Coar aposta na disputa de editais oferecidos por organizações públicas e privadas. Ao mesmo tempo, atua também na realização de eventos e no segmento educacional.

Em 2020, realizou o webinar Desinformação no Nordeste, que abordou a carência de meios oficiais de informação na região, e a maior suscetibilidade da população em acreditar em boatos, rumores e desinformação. Em 2022, um novo evento, o Colóquio Nacional sobre o Clima reuniu especialistas e pesquisadores para discutir a desinformação sobre a Amazônia e a crise climática.

Segundo o pesquisador e jornalista Mathias Felipe, do Observatório de Mídias Digitais e Sociedade da Universidade Federal de São Paulo e do Human(e)AI da Universidade de Amsterdã, projetos como a Coar, focados em checagem a nível local, tem um papel fundamental em combater a desinformação que se espalha em locais onde a cobertura jornalística é escassa ou inexistente. Ele afirma, no entanto, que sem diversificar as fontes de receita, projetos de jornalismo local têm sobrevida curta devido à incapacidade de ir além do voluntariado.

“O que acontece é que esse projeto ganha um financiamento, vai existir durante um ano e acaba não tendo estrutura. É muito informal e muita das pessoas envolvidas são voluntárias, então passa a ser um pouco da paixão jornalística das pessoas e isso é uma dificuldade. Apesar de ser um trabalho voluntário muito bonito assim pela parte das pessoas, é um trabalho que depende da dedicação de tempo, e no longo prazo tende a não durar se não conseguir fontes de receita estáveis,” disse Felipe à LJR.

Marta Alencar, fundadora da COAR: checagem acessível para quem vive em desertos de notícias (Crédito: cortesia COAR)

Marta Alencar, fundadora da Coar: checagem acessível para quem vive em desertos de notícias (Crédito: cortesia Coar)

Na mesma linha, o jornalista e coordenador de cursos da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), Sérgio Lüdtke, disse que organizações como a Coar têm o grande mérito de não só combater a desinformação local, mas por sobretudo por aproximar jornalistas, acadêmicos e audiências e trazê-los para o cotidiano da verificação.

“Marta [Alencar] é uma obstinada jornalista, daquelas profissionais que servem de exemplo para todos nós. Seu desafio é tornar a Coar um projeto maduro e sustentável, o que não é fácil se você não tem uma escala nacional, seja por um recorte temático ou territorial. Mas esse é um desafio também para organizações mais consolidadas nesse ramo. Creio que o diálogo que ela propõe entre a academia e as redações possa ser um caminho promissor,” disse Lüdtke à LJR.

Recentemente, a Coar passou a oferecer aulas mensais de checagem e educação midiáticas através de uma ONG que atua na periferia de Teresina, capital do Piauí. O futuro, no entanto, é incerto. Como outras organizações que atuam no jornalismo local em áreas periféricas, a sustentabilidade financeira é um desafio e contar com o voluntariado é inviável no longo prazo. Segundo Alencar, ela tem mantido conversas com outras organizações similares com o objetivo de buscar financiamento em conjunto.

“Quando eu morrer, quero que na minha lápide esteja escrito que salvei muita gente de fake news,” disse Alencar “Esse é meu propósito de vida é, enquanto eu continuar nesse mundo é fazer o bem, então é isso que para mim importa.”

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