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Uso de inteligência artificial por meios de comunicação na América Latina ainda é escasso, segundo relatório

Faz anos que a Inteligência Artificial (IA) deixou de ser apenas um elemento de ficção científica. A automação de processos e a criação de sistemas que imitam o comportamento humano alcançou o jornalismo e está sendo usada para projetar tarefas de compilação de notícias, criação de conteúdo, distribuição, marketing e assinaturas.

Cover of artificial intelligence report

Embora o potencial da IA ​​seja amplo, e a região esteja ávida por conhecimento sobre o assunto, sua implementação ainda é escassa, conclui um relatório publicado pelo Centro Latinoamericano de Investigación Periodística (CLIP), International Media Support (IMS) e o veículo The Fix sobre o uso de IA na imprensa na América Latina.

O relatório, publicado em setembro de 2021, e que se chama "Uso de Inteligência Artificial nos meios de comunicação na América Latina" surgiu por iniciativa da IMS, fundação com sede na Dinamarca, que buscava analisar o uso de IA e de machine learning na imprensa da região.

“Graças a um contato comum, percebemos que ambas as organizações tinham em comum o interesse pelo uso de tecnologias inovadoras no jornalismo investigativo e decidimos unir forças”, explicou Emiliana García, da área de operações, negócios e finanças de CLIP, à LatAm Journalism Review (LJR).

“O IMS apoiou com o financiamento e a experiência em estudos de mercados emergentes, CLIP coordenou o relatório local e abriu sua rede de contatos para que Juan Melano, especialista em tecnologia e comunicação da Argentina, realizasse as entrevistas e o relatório”, acrescentou García .

Melano conversou com representantes de 32 meios de comunicação latino-americanos e conseguiu identificar a situação da integração do jornalismo com a IA.

"A principal sensação que fiquei, depois das entrevistas, é que ainda há muito a fazer", explicou Melano à LJR.

Necessidade de treinamento e falta de orçamento

O relatório mostra que há uma necessidade clara de treinamento em IA no nível das organizações, que vai além da criação de notas publicitárias na imprensa latino-americana.

“É um paradoxo, mas apesar de ter um alto conhecimento de seu potencial, pouco ou nada foi feito no nível organizacional para implementar sistemas de inteligência artificial na imprensa”, diz o texto.

Resultados de la encuesta sobre cómo las redacción en América Latina usan IA

Relatório “Uso de la Inteligencia Artificial en los medios de comunicación en Latinoamérica”.

Há uma vontade clara de adotar a IA nas redações, segundo a pesquisa realizada. Mas os editores entrevistados para o relatório dizem que não têm orçamento e recursos humanos para fazê-lo.

“Na maioria das redações que pesquisamos, a oportunidade de integrar a inteligência artificial aos processos cotidianos não foi aproveitada. A resposta habitual foi a falta de recursos e a ausência de uma visão corporativa para implementar tecnologias de inteligência artificial como parte fundamental do futuro da organização”, explica o relatório.

Da mesma forma, o texto afirma que o pedido mais comum dos jornalistas era receber treinamento e trocar experiências com outros meios. Assim, eles concluem que a região está ansiosa para entrar no campo da IA, mas carece de informações básicas sobre as oportunidades disponíveis.

Fidelização do usuário

Segundo os criadores do relatório, o tema mais citado nas entrevistas realizadas foi o das assinaturas.

Juan Melano

Juan Melano. (Divulgação)

“Usar algoritmos para dar sentido aos dados parece ser o Santo Graal da monetização do leitor. Diversas organizações de notícias da América Latina estão trabalhando ou desejam se aprofundar no assunto. Principalmente no caso das redes de televisão, que não estão acostumadas com esse tipo de ferramenta”, diz o texto.

Os meios de comunicação estão utilizando machine learning e IA para entender em profundidade os segmentos de hábitos de consumo, fidelização de usuários e integração de campanhas publicitárias.

“Temos um setor que está em crise em seu modelo de negócios. É interessante ver como essas tecnologias podem ajudar a reverter a tendência e melhorar os números ”, disse Melano à LJR.

Conforme explica o relatório, a implementação da IA ​​visa atrair leitores e levá-los a se tornarem assinantes.

“Uma vez que assinam, o foco está na retenção, e todo o processo é reforçado com técnicas de automação, como automação de email para onboarding e retenção de assinantes atuais, análise de consumo de conteúdo ao longo do período de assinatura, customização de widgets na página inicial e em matérias relacionadas para aumentar o valor percebido do conteúdo e outras técnicas de marketing, como retargeting”, diz o relatório.

A maioria dos respondentes no relatório mencionou o Piano, software de monetização de conteúdo digital, como uma solução de assinatura porque também oferece muitas funcionalidades complementares (recomendação de conteúdo, segmentação e paywalls).

Inteligência Artificial no jornalismo investigativo

Equipo de La Nación Data

Equipo de La Nación Data. (Cortesía)

Alguns meios de comunicação na América Latina abordaram o uso de IA e o gerenciamento de grandes bancos de dados para a realização de investigações jornalísticas.

"Fiquei agradavelmente surpreso com a existência de meios de comunicação que estão fazendo coisas muito interessantes", disse Melano.

Um exemplo, que aparece no relatório, é uma investigação do departamento de dados do jornal argentino La Nación para identificar os parques solares existentes na Argentina. Usando um algoritmo de machine learning, eles foram capazes de mapear vinte parques solares totalmente operacionais no país e detectar mais dois privados.

“Para essa pesquisa trabalhamos em equipe com uma empresa de inteligência artificial, a Dymaxion Labs, porque não tínhamos o know-how. Eles nos deram o algoritmo e o hosting para processá-lo”, comenta em entrevista à LJR Florencia Coelho, cofundadora do La Nación Data

Captura de pantalla del reportaje de La Nación sobre canciones de Trap.

Captura de tela da reportagem do La Nación sobre músicas de Trap.

O algoritmo de classificação de imagens demorou trinta horas para detectar os parques solares em operação no país, e foi a primeira vez que a equipe jornalística teve contato com IA. 

Posteriormente, realizaram outros projetos, como o AIJO, em que buscaram entender, identificar e mitigar preconceitos nas redações por meio da IA.

Neste ano, como parte de seu processo de experimentação com novas tecnologias para a produção jornalística, eles analisaram letras de músicas de Trap de artistas argentinos usando processamento de língua natural (PLN). Da mesma forma, o jornal está trabalhando internamente em um detector de equidade de gênero para seus textos e fontes.

“O maior obstáculo é a curva de aprendizado. Perdemos muito tempo tentando aprender como isso funciona. Dá muito trabalho coletar, classificar e depois verificar porque a inteligência artificial não é tão esperta”, diz Coelho. “A ideia é que o que vamos aprendendo, se torna mais fácil de se reaproveitar. Por exemplo, o trabalho que fizemos no Trap pode ser usado para outros projetos. É um investimento de longo prazo”, acrescenta a jornalista.

Futuro

Melano, responsável pela pesquisa do relatório e fundador das empresas de soluções de tecnologia para meios de comunicação, concorda com o que Coelho explicou anteriormente e disse que o importante é começar, porque “quando você incorporar a IA em um exemplo, será mais fácil replicar."

No final do relatório, há 10 recomendações para a aplicação de IA em organizações de notícias. A primeira delas é estabelecer um plano de cinco anos que ajude a definir os objetivos corretos e a implementação adequada de acordo com o tipo de meio que a organização quer se tornar mais tarde.

Outras recomendações incluem nomear um líder de equipe ou de produto, formar uma equipe interdisciplinar, definir prazos realistas e metas curtos, colaborar com outros meios, medir o desempenho, etc.

Quanto ao feedback em relação à publicação do relatório que a equipe do CLIP recebeu, por parte da comunidade de jornalistas e desenvolvedores de produtos, até agora tem sido escasso.

O CLIP espera continuar publicando sobre o assunto e apoiando a imprensa latino-americana em seu salto para a tecnologia.

“A ideia com o relatório era identificar o que realmente está acontecendo e fornecer ferramentas para melhorar a situação”, diz Melano.

Esta matéria foi escrita originalmente em espanhol e traduzida por Marina Estarque

 

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