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Violência contra jornalistas mexicanos se concentra agora nos estados do sul do país

  • Por Guest
  • 27 julho, 2015

Por Mariana Muñoz

Na última década, o México se tornou um dos países mais perigosos do mundo para os jornalistas, especialmente pela guerra contra o narcotráfico travada pelo governo nos estados do norte, perto da fronteira com os Estados Unidos.

Organizações de defesa da liberdade de imprensa, contudo, notaram uma mudança na geografia dos ataques contra os jornalistas, que se tornaram mais comuns nos estados do sul. Outra mudança apontada é que os suspeitos de cometer os ataques já não são os membros dos cartéis de drogas, mas funcionários públicos e policiais.

Todos os seis assassinatos de jornalistas em 2015 ocorreram no sul do México. Em apenas uma semana neste mês de julho, três jornalistas foram assassinados em Oaxaca, Veracruz e Guanajuato, três estados do sul do país.

Estatísticas do site "Periodistas en Riesgo", que rastreia e documenta ataques contra jornalistas no México, parecem confirmar esta tendência.

Javier Garza Ramos, um bolsista do programa ICFJ Knight International Journalism Fellowship que supervisiona "Periodistas en Riesgo", recentemente escreveu um artigo para El País onde explora a migração da violência do norte ao sul.

Garza explica que a mudança ocorreu porque, em geral, a violência no norte diminuiu (com exceção de Tamaulipas) e desviou a atenção aos incidentes cada vez mais frequentes nos estados do centro e sul.

Em uma entrevista com o Centro Knight para o Jornalismo nas Américas, Garza afirmou que há uma falsa ideia sobre quem está ocasionando o maior dano.

Segundo Garza, grande parte da atenção se concentrou nos ataques contra jornalistas por parte de membros dos cartéis de drogas, pela maneira dramática como eles atacam. Com isso, são vistos como os principais agressores dos jornalistas.

Contudo, Garza afirma que isso não corresponde à realidade.

“Eles são os responsáveis pelas agressões mais violentas, isso sim. Mas em termos quantitativos, não são os que mais agridem”. ​

Para Garza, são os funcionários públicos e os agentes de polícia os responsáveis pela maioria das agressões contra jornalistas. A maneira e a intensidade dos ataques variam, podem ir desde ameaças e intimidações até sequestros, espancamentos e homicídios.

A liberdade de expressão no México tem sido golpeada nos últimos anos. Os jornalistas no país enfrentam ameaças de funcionários públicos e membros do crime organizado que podem significar lesões e, em alguns casos, morte.

“Nos últimos anos, o crime organizado começou a ceder nestas zonas [norte]. Em Tijuana, por exemplo, em Ciudad Juárez, se comparar a violência com os níveis de 2010 e 2011, houve uma redução brutal. A única exceção é Tamaulipas”, disse. ​

Um caso recente registrado pela La Crónica parece demonstrar esta tendência de que são os funcionários públicos que ameaçam ou atacam mais os jornalistas.

Daniel Blancas, repórter de La Crónicafoi enviado ao município de Almoloya de Juárez no estado do México para investigar a fuga da prisão do maior líder do narcotráfico no México, Joaquín Guzmán Loera, também conhecido como ‘El Chapo’. Seu trabalho foi entrevistar Calixto Estrada Castillo, o último proprietário da casa que serviu como o ponto final do túnel por onde fugiu Guzmán Loera.

Depois de ser interrogado e o proibirem de entrar no local, Blancas disse que recebeu uma ameaça: “de jornalistas como você, os cemitérios estão cheios!”.

Segundo Huellas do México, a ameaça foi feita por Jorge Peña, comandante da Procuradoria Geral de Justiça em Zinacantepec.

Perigo para os jornalistas em Veracruz

De acordo com o primeiro relatório semestral de 2015 da organização Artigo 19, intitulado ‘Mais violência, mais silêncio’, nos primeiros seis meses de 2015 foram registradas 227 agressões contra a imprensa. O número é substancialmente superior à média registrada pelo governo do presidente Felipe Calderón (2006-2012), que era de182 por ano, acrescentou o relatório.

O documento também relata os seis assassinatos de jornalistas ocorridos no país desde janeiro de 2015, todos no sul do México.

Três dos seis assassinatos ocorreram em Veracruz, localizada na parte sudeste do país, na costa do Golfo do México.

Apesar do estado de Guerrero ter o maior número de ataques contra os jornalistas (38), Veracruz segue sendo uma das regiões mais perigosas para exercer o jornalismo graças à quantidade de assassinatos que ocorreram ali, de acordo com o Animal Político.

Em um artigo da BBC Mundo, o estado é tido como um “inferno para os jornalistas”.

Dezoito jornalistas foram assassinados ali desde 2000 e 12 destes assassinatos ocorreram sob a administração do atual governador Javier Duarte, observou a Artigo 19.

Um documentário intitulado ‘Morte em Veracruz’, produzido pelo canal digital AJ+, explora a maneira como a vida dos jornalistas de Veracruz mudou nos últimos anos, quando começaram a realizar seu trabalho sob ameaça.

Em 2011, a polícia municipal de Veracruz foi desmantelada por supostos casos de corrupção e suas funções são realizadas pelo exército.

Grupos de autodefesa, como resposta à ineficácia da polícia, também foram formados no estado.

Félix Márquez, um fotojornalista de Veracruz, documentou os grupos.

“A autoridade não quer reconhecer que estes grupos existem”, disse Márquez no documentário. “Não sei por que não gostam de falar do tema de grupos paramilitares. Contudo, nosso trabalho é registrá-lo, é evidenciá-lo”.

Márquez disse que foi ameaçado pelas suas fotos sobre os grupos.

“Surgiu uma declaração do Secretário de Segurança Pública dizendo que eu deveria estar preso”, disse o fotojornalista.

‘Morte em Veracruz’ também explora o caso de José Moisés Sánchez Cerezo, um jornalista assassinado em Veracruz no dia 2 de janeiro.

Sánchez fundou o jornal La Unión, no município de Medellín de Bravo em Veracruz, para informar a comunidade sobre os temas que não eram reportados por outros meios de comunicação.

Suas frequentes reportagens sobre corrupção levaram funcionários a intimidarem Sánchez, e em uma ocasião disseram que o prefeito “pensava em lhe dar um susto”, registrou o documentário.

Sánchez foi sequestrado em sua casa em 2 de janeiro; seu corpo sem vida foi encontrado em Veracruz nas primeiras horas de 24 de janeiro. Muitos acreditam que o prefeito, Omar Cruz, ordenou seu sequestro e assassinato.

Jorge Sánchez, filho de Moisés, segue buscando justiça pela morte de seu pai.

Após o assassinato, foram designados policiais para vigiar a casa dos Sánchez e uma cerca foi colocada – um método de proteção para a família. “Acho que outras pessoas deveriam estar presas, e não nós", disse Jorge Sánchez sobre a cerca. “Mas assim funciona aqui. Os criminosos andam livres e nós temos que estar presos”.

À violência se soma o problema da impunidade no país onde os crimes contra jornalistas raramente são castigados. O país ocupa o sétimo lugar no Índice Global de Impunidade 2014 do Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ). Além disso, críticos destacam graves problemas no mecanismo de proteção federal para os jornalistas que estão em risco.

Nota do editor: Essa história foi publicada originalmente no blog de jornalismo nas Américas do Centro Knight, o predecessor do LatAm Journalism Review.

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