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Acadêmicos internacionais: Mídia precisa atender as mulheres melhor e parar de 'alimentar uma cultura sexista' sobre a presença delas na política

A forma que a mídia retrata mulheres políticas perpetua estereótipos de gênero e 'alimenta uma cultura já sexista', disseram estudiosas de todo o mundo, durante um seminário no Simpósio Internacional de Jornalismo Online (ISOJ). Elas destacaram que a maneira como o jornalismo tradicional cobre a política também afeta o modo como as mulheres consomem notícias e se envolvem nesses assuntos.

"Quando os veículos de comunicação tratam as mulheres políticas como mulheres primeiro e depois como políticas, eles estão alimentando uma cultura já sexista, em que muitos eleitores acreditam que os homens são políticos melhores do que as mulheres", disse Dustin Harp, professora associada e diretora do Programa de Estudos sobre Mulheres e Gênero da Universidade do Texas em Arlington, durante o seminário "Gênero, mídia e política na era digital" em 23 de julho, como parte da primeira conferência totalmente online do ISOJ.

Research breakfast seminar: Gender, media and politics in the digital age

Seminário: Gênero, mídia e política na era digital 

Harp disse que a mídia perpetua esses estereótipos de gênero quando avalia as mulheres políticas usando linguagem preconceituosa ou focando em seu status familiar, seu estado civil, sua aparência, a maneira como se vestem ou o tom da sua voz. Destacar esses atributos, que muitas vezes são associados às mulheres políticas e não aos homens, disse ela, “é deixar de colocar a sua política, seu histórico e a sua plataforma em primeiro plano. São reportagens ruins e é ruim para o mundo".

Harp deu como exemplo uma história recente publicada pela The New York Times Magazine que, ela argumentou, usava o "trio moda, comida e família" para apresentar uma mulher política.

"Esse tipo de reportagem sobre uma mulher, isoladamente, não é um problema, mas dentro de um contexto de como os políticos são retratados, e a persistência e a grande presença desses estereótipos de gênero a tornam um problema", resumiu.

Harp disse que as pessoas têm ideias sobre o que significa ser um político competente, e esses atributos são comumente vistos como masculinos, como força, determinação, assertividade, competitividade e ambição. Enquanto as qualidades femininas são tradicionalmente associadas à esfera privada, lar e família.

Considerando como essa cobertura afeta o modo como as mulheres se envolvem na política, a professora Ingrid Bachmann, da Pontifícia Universidade Católica do Chile, começou a pesquisar por que há menos mulheres políticas, apesar de alguns avanços na representação feminina. Ela decidiu avaliar se há uma menor oferta de candidatas, em comparação com os homens.

"Há algumas pesquisas dizendo que existem disparidades de ambição política entre homens e mulheres, mas, na minha pesquisa, pelo menos no Chile, as mulheres relataram estarem mais dispostas a considerar se candidatar a cargos do que os homens", disse ela.

No entanto, o estudo de Bachmann descobriu que as mulheres em geral tinham menos conhecimento sobre política e careciam dos recursos básicos para se engajar na política como candidatas, eleitores e cidadãs. Ela atribui isso parcialmente ao fato de as mulheres lerem menos notícias do que os homens.

"Isso acontece em países tão diferentes como Alemanha, Taiwan, EUA, Chile. Os homens estão mais interessados e envolvidos em notícias do que as mulheres. As mulheres, na verdade, dizem que evitam as notícias. Isso sugere que o setor de notícias não está servindo bem as mulheres". ela disse.

Por outro lado, a pesquisa de Bachmann mostrou que 84% das mulheres estavam consumindo notícias diariamente por meio de aplicativos de mensagens privadas, como o WhatsApp. Elas não estavam apenas lendo sobre política, mas também discutindo o tema com colegas e amigos nesses aplicativos. As mulheres disseram a ela que preferiam usar o WhatsApp para falar sobre política por sua privacidade, argumentando que no Twitter e no Facebook havia muita desinformação e agressividade. "Acho que devemos prestar atenção ao que as mulheres estão compartilhando no Whatsapp ... porque é um espaço para a mídia digital que não consideramos muito", conclui Bachmann.

Os acadêmicos também falaram sobre como as mulheres políticas estão usando as mídias sociais para mudar a narrativa e usando os estereótipos de gênero como estratégias de campanha. Regina Lawrence, professora e diretora do Agora Journalism Center da Universidade de Oregon, explicou que a teoria padrão para campanhas políticas era que as candidatas deveriam tentar esconder a sua feminilidade e o fato de serem mulheres. Isso seria feito para não lembrar os eleitores dos estereótipos de que as mulheres são boas em cuidar, mas não em liderança.

Lawrence afirma, no entanto, que essa idéia está mudando e que, para algumas candidatas e cargos, lembrar os eleitores de que a candidata é uma mulher e, supostamente, boa em cuidar, pode ser vantajoso. Ela também acredita que a mídia social permite que as mulheres controlem parte da narrativa e se apresentem como líder e cuidadora, compartilhando conquistas profissionais e momentos íntimos de sua vida na internet.

"É possível que todas essas mensagens íntimas e personalizadas online possam ser problemáticas, porque intensificam o duplo vínculo para as candidatas, mas também podem ser vantajosas. Algumas candidatas estão fazendo isso com muita habilidade, misturando e equilibrando conteúdo pessoal e mensagens decisivas de liderança", destacou.

Urszula Pruchniewska, professora assistente de Estudos da Comunicação na Universidade de Kutztown, pesquisa como a representante Alexandria Ocasio-Cortez está usando as mídias sociais para mudar a narrativa sobre as mulheres na política. Pruchniewska argumenta que Ocasio-Cortez está mudando o conceito de como um político deveria se parecer e está ajudando a desmistificar o processo político elitista, compartilhando vídeos de dentro do Congresso.

Ao usar vídeos ao vivo, Pruchniewska afirma, Ocasio-Cortez mostra que uma mulher pode expressar sua opinião e ter coisas interessantes a dizer, mesmo sem muita preparação prévia. 

"Ocasio-Cortez compartilha conteúdo sobre suas atividades diárias pouco importantes em casa, e quase parece como um programa só de meninas com sua amiga divertida e inteligente, o que é um atrativo especial para as mulheres jovens. Isso a ajuda a se apresentar como realmente autêntica, construir relacionamentos com seu público e, ao mesmo tempo, compartilhar suas mensagens políticas", afirmou Pruchniewska.

No final do painel, os estudiosos deram algumas ideias de como a mídia poderia melhorar sua cobertura sobre as mulheres na política. Para os repórteres, Lawrence sugeriu procurar manuais online que ajudem a evitar linguagem sexista e estereótipos comuns ao cobrir mulheres. Ela também recomendou que as redações deveriam ter ferramentas para monitorar a diversidade de suas fontes, incluindo a possibilidade de um repórter fazer uma auditoria de fontes no seu próprio trabalho.

Os participantes do painel enfatizaram a necessidade das redações e líderes serem mais diversos, mas Lawrence lembrou que isso pode não ser suficiente para mudar a cobertura, porque as normas jornalísticas e a cultura da redação podem prevalecer.

"Há boas pesquisas sugerindo que ter mulheres estão cobrindo temas políticos não significa necessariamente que vão cobrir de maneira diferente, porque o poder das normas pode ser tão forte, que o hábito, os padrões, a maneira típica de fazer a cobertura podem persistir. Portanto, precisamos questionar nossos pensamentos e pensar mais sobre como abordamos a política", enfatizou.

Veja o seminário completo no canal do ISOJ no YouTube. Para a lista completa de eventos, visite o site do ISOJ.

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