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Ameaças, propinas e outros desafios da cobertura eleitoral na Guatemala (Entrevista com Héctor Cordero)

O correspondente Héctor Cordero da TV Guatevisión, no Estado de Quiché, na Guatemala, respondeu a perguntas do Centro Knight sobre as dificuldades de ser um jornalista e sobre a importância cumprir regras éticas durante o período eleitoral. Por exemplo, membros da equipe de comunicação do Partido Patriota, no último mês, atacaram jornalistas do canal 2 em uma coletiva de imprensa. Cordero, que também é membro da GuateDigital, uma rede de jornalistas do interior do país, sofreu ameaças de morte ao investigar casos de nepotismo envolvendo um congressista local.

Centro Knight: Quais são os desafios enfrentados pelos jornalistas no período eleitoral?

Héctor Cordero: Um desafio sério é a pressão dos partidos políticos para transmitir apenas boas notícias de seus filiados. Todos querem que o jornalista seja adepto exclusivamente de um partido e, caso não seja, é quando começam as inconveniências e marginalizações na cobertura etc. Para mim, o que mais temo é ficar no meio de uma briga entre partidos. A campanha política em Quiché está se tornando violenta e conforme se aproximam as eleições, maiores são os conflitos.

Centro Knight: Como você difere esta eleição das outras (mais difícil, perigosa etc)?

Héctor Cordero: Mais perigosa. Estão em jogo muitos interesses pessoais e volto a repetir que a cobertura de uma eleição costuma ser mais difícil.

Centro Knight: Pode nos dar alguns exemplos do que passam os jornalistas numa cobertura como essa? O que está havendo hoje na Guatemala?

Héctor Cordero: Expulsões de assembléias quando nossa presença não é conveniente para os políticos que organizam a lista de participantes da corrida eleitoral. Por exemplo, há 15 dias atrás fomos expulsos da sede do partido UNE por dois guarda-costas de um deputado que afirmava ser aquela uma reunião privada, enfrentamentos com seguranças de candidatos às câmaras locais e prefeitos, porque oficialmente a campanha não começou, mas todos os partidos já fazem atividades eleitorais em Quiché. O dinheiro em circulação é enorme. Recentemente, ao final de uma coletiva de imprensa, vários candidatos, em especial deputados, começaram a repartir o dinheiro. Eles disseram que para cobrir gastos com os jornalistas. Muitos aceitam e não compreendem que adquirem um compromisso de encobrir eventuais erros dos políticos. Graças a Deus eu conto com o apoio incondicional do Noticiero Guatevisión e isso significa que eles não me oferecem dinheiro porque sabem que eu publicarei essas informações. É importante saber que a responsabilidade de receber dinheiro em troca de favores recai sobre os próprios meio de comunicação, inclusive os maiores, já que os salários dos repórteres são baixos o que faz com que muitos aceitem propinas. Isto não é uma desculpa, mas políticos aproveitam-se disso. Em um evento distante, eles oferecem transporte, gasolina, refeições, mais um dinheiro extra. A campanha está apenas começando, mas é importantes notar que nemtodo jornalistas tem essa atitude de aceitar dinheiro.

Centro Knight: Como jornalista, como você lida com tudo que está se passando? O que os jornalistas devem fazer?

Héctor Cordero: A orientação que temos do Noticiero Guatevisión é darmos o mesmo espaço a todos os partidos políticos. Em relação à minha segurança, mudei meus hábitos de trabalho: circulo por caminhos diferentes até o trabalho, não fico até tarde da noite e não recebo dinheiro para evitar comprometimentos com ninguém, pensando na segurança de minha família.

Centro Knight: O que isso significa para o jornalismo e para o estado de democracia na Guatemala?

Héctor Cordero: A democracia em meu país e, especialmente, na região onde trabalho é preocupante. A democracia não é bem representada e existe um desencanto da população no que diz respeito Às eleições. A disputa de cargos para congressistas e prefeitos converteram-se em negócio. Em Quiché, um lugar no topo da cédula de votação para deputado – caso o partido seja bem representado – tem um custo de R$ 2 milhões de quetzales (cerca de 250 mil dólares). Isso significa que as vagas são destinadas a ricos empresários ou ex-deputados que enriqueceram com dinheiro público. As conseqüências disso são desastrosas porque os eleitos têm êxito em negócios particulares, mas não sabem nada sobre um Congresso Republicano. Existem casos de pessosas que apenas sabem ler e escrever e por fim virar mercadores de leis, cobrando para aprová-las e esquecendo-se das promessas feitas durante a campanha. No fim das contas, acredito que isso chegará a um colapso caso mudanças profundas não sejam feitas nas leis eleitorais e nos partidos políticos, porque pessoas que são realmente líderes comunitários ficam de fora da política porque os custos são altos para elas. Muito se fala sobre o financiamento de traficantes de drogas nas campanhas eleitorais, porém, como não é claro de onde vem esses financiamentos, nunca saberemos a origem do dinheiro. Só que, geralmente, os jornalistas não tratam deste assunto que é sensível e de grande risco para ele e sua família.

Nota do editor: Essa história foi publicada originalmente no blog de jornalismo nas Américas do Centro Knight, o predecessor do LatAm Journalism Review.

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