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Jornalistas e especialistas em dados na América Latina debatem a falta de recursos e ferramentas em espanhol

Não é fácil obter recursos e ferramentas atualizadas na web sobre jornalismo de dados em espanhol. Basta olhar para os resultados do Google em inglês sobre o assunto, que são quase o triplo dos que aparecem em língua espanhola.

Livros, workshops, ferramentas e até podcasts e newsletters sobre jornalismo de dados tendem a ser criados primeiro em inglês e, mais tarde, com sorte, traduzidos para o espanhol. Esses resultados se reduzem ainda mais quando a pesquisa é limitada à América Latina.

“Não há informações suficientes sobre jornalismo de dados em espanhol e o que há está desatualizado. Muito do que se encontra são manuais e textos escritos antes de 2015, quando o jornalismo de dados teve seu maior boom”, disse Sandra Crucianelli, jornalista de dados do Infobae e referência no assunto, à LatAm Journalism Review (LJR). Desde 2004, Crucianelli treinou milhares de jornalistas e editores em jornalismo de dados como instrutora do Centro Knight.

Course instructor Sandra Crucianelli (Courtesy)

Sandra Crucianelli

O jornalismo de dados começou e se desenvolveu em países de língua inglesa, começando com o trabalho de Phillip Meyer, com jornalismo de precisão, e continuando com o jornalismo assistido por computadores, desenvolvido pela organização Investigative Reporters and Editors (IRE). Na Espanha e na América Latina, foi sendo introduzido aos poucos, graças, em grande parte, ao trabalho de organizações de jornalistas.

“Acho que o jornalismo de dados não está suficientemente desenvolvido na América Latina. Se você olhar quantos meios de comunicação na região têm uma unidade de dados, são muito poucos. No caso da Argentina, existem apenas duas unidades de dados. É um número baixo se comparado ao total de veículos de comunicação do país”, disse Crucianelli.

O desenvolvimento e investimento em jornalismo de dados ainda insuficientes na América Latina andam de mãos dadas com o pouco conteúdo publicado para explicar os bastidores das investigações jornalísticas e o reduzido surgimento de coletivos dispostos a formar novas gerações.

A jornalista de dados costarriquenha e professora de análise e visualização de dados da Universidade de Guadalajara, Hassel Fallas, disse à LJR que faz os treinamentos em jornalismo de dados em inglês porque há mais disponibilidade de cursos e novos materiais nesse idioma.

“O que muitas vezes tenho que fazer é traduzir. Uma vez eu dei um workshop básico em R (linguagem de programação) e o que eu fazia constantemente era traduzir os significados. Os falantes de espanhol que falam inglês são uma ponte entre os dois mundos”, explicou Fallas. “Ainda temos muito que produzir e explorar sobre a riqueza das experiências latino-americanas fazendo jornalismo de dados”, acrescentou.

Na verdade, a falta de recursos em espanhol não impediu os meios latino-americanos de produzir alguns dos melhores trabalhos de jornalismo de dados do mundo. O Convoca do Peru, por exemplo, foi reconhecido no prêmio mundial deste ano do Sigma Awards.

A premiada unidade de dados do jornal argentino La Nación se tornou uma referência em jornalismo de dados na região e no mundo. Quando questionada sobre a falta de recursos em espanhol, Flor Coelho, cofundadora do La Nación Data, mencionou estes livros e manuais, além de eventos anteriores como o Datafest ou workshops da Escuela de Datos.

“Mas é verdade que sempre ficamos para trás em relação aos recursos em inglês”, disse Coelho à LJR.

Mesmo assim, a limitação de recursos em espanhol não tem sido um problema para a equipe do La Nación, que é bilíngue e consegue acessar o conteúdo em inglês, afirmou.

A jornalista de dados colombiana e criadora da Contratopedia, Tatiana Velasquez, concorda que muitas das informações que obtém em espanhol para continuar se capacitando podem ser insuficientes ou são apenas traduções de um material originalmente publicado em inglês. No entanto, ela acredita que cada vez mais recursos estão sendo feitos em espanhol.

“Acho que quem não fala inglês encontra material em espanhol. Também há muito mais pessoas agora compartilhando o que fazem e como fazem nas redes”, disse Velasquez.

​​Escassez de newsletters e podcasts

Em junho de 2021, a equipe do Datasketch na Colômbia lançou uma newsletter dedicada exclusivamente ao jornalismo de dados em espanhol. Os jornalistas entrevistados para esta matéria garantem que ela é a única que conhecem.

Juan Pablo Marín Díaz, fundador do Datasketch

Juan Pablo Marín Díaz.

“Estamos constantemente investigando a visualização de dados e investigações de outros países que servem de referência para o nosso trabalho. Percebemos que basicamente não estávamos aproveitando o fato de já termos todas essas informações organizadas e estruturadas. Por isso decidimos divulgá-la de forma mais massiva e foi daí que surgiu a ideia da newsletter”, disse Juan Pablo Marín Díaz, fundador do Datasketch e editor da newsletter, em entrevista à LJR.

“Periodismo de Datos de Datasketch” compila e resume em espanhol as tendências do jornalismo de dados em todo o mundo, informações sobre eventos e ferramentas úteis para jornalistas. A newsletter gratuita tem mais de 5.000 assinantes e é enviada em espanhol e inglês.
A newsletter gratuita tem mais de 5.000 assinantes e é enviada em espanhol e inglês.

Muito do conteúdo original das recomendações feitas no boletim informativo sobre livros, ferramentas ou podcasts estão em inglês. No entanto, Marín Díaz acredita que, embora faltem mais informações em espanhol, agora já há mais do que havia dois anos atrás.

“De um tempo para cá, há muito mais conteúdo saindo sobre jornalismo de dados em nossa língua, especialmente de meios pequenos e independentes”, disse ele.

Embora não sejam 100% voltadas para o jornalismo de dados, existem outras newsletters na América Latina que tratam do assunto. O melhor exemplo é o da Tacos de Datos, uma comunidade para aprender sobre visualização e ciência de dados em espanhol.

Essa newsletter está mais focada em dar conselhos, oferecer recursos e sugerir melhores práticas para projetos de tecnologia. Mas também fala sobre jornalismo de dados.

Sergio Sánchez Savala, engenheiro e criador de Tacos de Datos

Sergio Sánchez Savala.

“Todo o conhecimento, toda a documentação dos pacotes de programação e os milhões de tutoriais são em inglês. Então, eu queria criar um espaço para compartilhar esse conhecimento em espanhol. O mais avançado, o mais novo, sem ter que esperar dois ou três anos para traduzirmos um tutorial para o espanhol, porque isso se movimenta muito rápido. Essa foi a ideia inicial e esse tem sido o lema da Tacos de Datos”, disse à LJR Sergio Sánchez Savala, engenheiro e criador de Tacos de Datos.

“Os conteúdos em espanhol muitas vezes se perdem no mar de informações em inglês. Também estamos acostumados, no mundo da tecnologia e dos dados, a buscar automaticamente termos em inglês. Enquanto um blog em espanhol pode receber 7 visitas por mês, o mesmo blog em inglês receberá 100 visitas. Essa é a realidade”, disse Sánchez Zavala.

Se capacitar e usar ferramentas em outro idioma

As ferramentas ou aplicativos mais populares em jornalismo de dados geralmente estão disponíveis apenas na versão em inglês: Flourish, Open Refine, Datawrapper, CartoDB e Tabula, para citar alguns.

Esse último, Tabula, foi desenvolvido pelo argentino Manuel Aristaran e, por isso, os jornalistas entrevistados a consideram uma ferramenta latino-americana. No entanto, ela está apenas em inglês, embora possa ser traduzida automaticamente no navegador usado para abri-la. A Tabula é uma ferramenta que permite extrair dados de PDFs.

A falta de recursos em espanhol também dificulta o trabalho de capacitação.

“Já tive casos em que as pessoas saíram da oficina ao ver que a ferramenta estava em inglês”, disse Hassel Fallas. “Certa vez, enquanto ensinava jornalismo de dados, um aluno reclamou porque parte do material que enviei era do meu blog La Data Cuenta. Isso me deu muita ternura e eu achei graça porque justamente esses artigos eu tive que fazer durante o processo porque não havia literatura em espanhol sobre os casos particulares que eu precisava reforçar nas aulas”, acrescentou Fallas.

Outro ponto importante é que, para obter o máximo de algumas dessas ferramentas, é necessário pagar valores em dólares que são inatingíveis para a maioria dos meios independentes da América Latina. Isso representa mais um obstáculo para fazer jornalismo de dados.

“Esta é uma disciplina que, ao mesmo tempo, se baseia em muitos ramos diferentes do conhecimento (matemática, análise, visualização de dados ...). Muitas ferramentas que antes eram gratuitas agora são pagas e isso tem representado uma limitação para o desenvolvimento do jornalismo de dados na América Latina. Existem cada vez menos ferramentas gratuitas”, disse Crucianelli.

Também é difícil criar listas de distribuição de email em espanhol que se concentrem em brainstorming de jornalismo de dados.

“Eu sigo as listas do Knight Lab, La Red de Periodistas de Datos en Europa, Nicar-IRE, etc; mas estão todas em inglês”, disse Velásquez.

Os jornalistas e especialistas em dados entrevistados concordam que criar mais conteúdo original em espanhol sobre o assunto leva tempo, recursos e dinheiro.

“Saber como lidar com dados sempre foi fundamental para o jornalismo desde o seu início”, concluiu Fallas. “Mas precisamos de organização e dinheiro. Quem sabe conseguimos criar um think tank que nos permita analisar criticamente o que está sendo feito e por que está sendo feito no jornalismo de dados. Devemos buscar maneiras ‘latino-americanas’ de passar para o próximo nível."

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